
Publicaes pr-Psicanalticas e esboos inditos
















VOLUME I
(1886-1899)















Dr. Sigmund Freud


          PREFCIO GERAL DO EDITOR INGLS

           (1) O OBJETIVO DA STANDARD EDITION

           O material contido nesta edio est indicado por seu ttulo - Obras Psicolgicas Completas de Sigmund Freud; contudo, seria conveniente que eu comeasse
por indicar mais explicitamente seu contedo. Meu objetivo foi incluir nesta edio a totalidade dos escritos psicolgicos publicados de Freud - isto , tanto os
psicanalticos como os pr-psicanalticos. No se incluem aqui os numerosos trabalhos de Freud sobre as cincias fsicas publicados durante os primeiros quinze anos,
mais ou menos, de sua atividade produtiva. Fui bastante liberal quanto ao critrio de seleo adotado, pois encontrei lugar para dois ou trs trabalhos elaborados
por Freud imediatamente aps seu regresso de Paris, em 1886. Estes, que abordam principalmente a histeria, foram escritos sob a influncia de Charcot, quase sem
nenhuma referncia aos processos mentais; mas constituem uma verdadeira ponte entre os trabalhos neurolgicos e psicolgicos de Freud.
           A Standard Edition no inclui a correspondncia de Freud. Esta tem enorme extenso e apenas algumas selees relativamente pequenas foram publicadas at
o momento. Com exceo das 'Cartas Abertas' e de algumas outras, publicadas com o consentimento de Freud durante sua vida, minha exceo principal a essa regra geral
est representada pela correspondncia que Freud manteve com Wilhelm Fliess no correr da parte inicial de sua carreira. Essa correspondncia  de to vital importncia
para a compreenso dos pontos de vista de Freud (e no s dos seus pontos de vista iniciais) que grande parte dela no poderia ser rejeitada. Por conseguinte, o
primeiro volume da edio contm o Projeto de 1895 e a srie de ''Rascunhos'' remedidos por Freud a Fliess entre 1892 e 1897, bem como as partes das cartas que possuem
interesse cientfico explcito.
           A Standard Edition tambm no contm quaisquer relatos ou sumrios, publicados nas revistas da poca, das muitas conferncias e artigos de Freud apresentados,
nos primeiros tempos de sua carreira, em reunies de diversas sociedades mdicas de Viena. Aqui, as nicas excees so os raros casos em que o relato foi feito
ou revisado pelo prprio Freud.
           Por outro lado, a Standard Edition encerra todo o contedo das Gesammelte Werke (a nica edio alem quase completa), alm de uma srie de trabalhos
que ou vieram a lume aps a concluso das Gesammelte Werke, ou foram, por motivos vrios, omitidos por seus organizadores. Tambm pareceu imprescindvel incluir,
no Volume II, a participao de Josef Breuer nos Studien ber Hysterie, que foi deixada de fora em ambas as edies alems coligidas.

           (2) O PLANO DA EDIO

           Para um editor que se defrontou com um total de uns dois milhes de palavras, o primeiro problema foi decidir qual a melhor maneira de apresent-las aos
leitores. Deveria o material ser ordenado segundo um critrio classificatrio ou um critrio cronolgico? A primeira edio alem coligida (os Gesammelte Schriften,
publicados durante a vida de Freud) empreendeu uma diviso de acordo com o assunto; para as Gesammelte Werke, mais recentes, pretendeu-se uma disposio estritamente
cronolgica. Nenhum dos dois critrios foi satisfatrio. Os escritos de Freud no se encaixam comodamente em categorias, e a cronologia estrita significaria interromper
cerradas seqncias de idias. Aqui, portanto, foi adotada uma conciliao. O arranjo , no geral, cronolgico; todavia, no segui a regra em alguns casos - aqueles
em que, por exemplo, Freud escreveu um adendo muitos anos depois do trabalho original (como acontece com o Estudo Autobiogrfico, no Volume XX), ou em que ele mesmo
agrupou um conjunto de artigos de diferentes datas (tal como os artigos sobre tcnica, no Volume XII). Em geral, porm, cada volume contm todos os trabalhos pertencentes
a um determinado perodo de anos. O contedo de cada volume (exceto, naturalmente, quando se trata de um nico trabalho extenso)  agrupado em trs classes: coloquei
em primeiro lugar o trabalho principal (ou trabalhos principais) pertencente ao perodo - que d o ttulo ao volume; seguem-se os escritos mais importantes, de menor
extenso; e por fim so includos os trabalhos realmente breves (e, geralmente, de importncia relativamente menor). Na medida do possvel, a cronologia  determinada
pela data da redao real da obra em questo. Muitas vezes, porm, a nica data certa  a da publicao. Por conseguinte, cada item  encimado pela data de publicao
entre parnteses, seguida da data de composio, entre colchetes, nos casos em que esta pode, com bastante segurana, ser considerada diferente da anterior. Assim, 
 quase certo que os dois ltimos artigos "metapsicolgicos", no Volume XIV, embora publicados em 1917, tenham sido escritos na mesma poca que seus trs predecessores, 
em 1915. Esses dois ltimos, por conseguinte, so includos no mesmo volume que os demais, sendo encimados pelas datas "(1917 [1915])". Cabe ainda dizer que cada 
volume contm sua bibliografia e ndice prprios, embora estejam planejados para o Volume XXIV uma bibliografia e um ndice completos para todo o conjunto da obra.
          
           (3) AS FONTES ALEMS
          
           As tradues da edio inglesa baseiam-se, em geral, nas ltimas edies alems publicadas ainda em vida de Freud. No entanto, uma das minhas principais 
dificuldades foi a natureza insatisfatria dos textos alemes. As publicaes originais, editadas sob a superviso direta de Freud, via de regra so fidedignas; 
entretanto,  medida que o tempo transcorria e a responsabilidade passava a outras mos, os erros comeavam a se infiltrar. Isso aconteceu at mesmo na primeira 
edio coligida, publicada em Viena entre as duas grandes guerras e destruda pelos nazistas em 1938. A segunda edio coligida, impressa na Inglaterra em meio s 
maiores dificuldades, durante a Segunda Guerra Mundial, , em grande parte, uma fotocpia da que a precedeu, mas naturalmente mostra sinais das circunstncias em 
que foi produzida. No entanto, continua sendo a nica edio alem existente dos trabalhos de Freud com alguma pretenso de ser completa.
           De 1908 em diante, Freud preservou seus manuscritos; mas no caso dos trabalhos publicados durante sua vida, no os consultei, exceto em alguns casos de 
dvida. Quanto aos textos publicados postumamente, a situao  diferente; em alguns casos, especialmente no do Projeto (como se pode constatar a partir da Introduo 
do Editor Ingls a esse trabalho), a traduo foi feita diretamente de uma cpia fotosttica do manuscrito.
           Um grave defeito nas edies alems  a ausncia de qualquer tentativa de levar em conta as numerosas modificaes de texto feitas por Freud nas edies 
sucessivas de alguns dos seus livros. Isso se aplica especialmente  Interpretao dos Sonhos e aos Trs Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, pois ambos foram, 
em grau muito acentuado, remodelados em suas edies posteriores. Para um estudioso srio do desenvolvimento das idias de Freud,  do maior interesse ter bem exposta 
a estratificao de seus pontos de vista. Assim sendo, aqui me empenhei em assinalar, pela primeira vez, as datas em que foram realizadas as diferentes modificaes, 
e em expor em notas de rodap as verses anteriores.
          
           (4) OS COMENTRIOS
          
           A partir do que acabou de ser dito, depreende-se que, no conjunto, concebi esta edio tendo em mente o 'estudioso srio'. Inevitavelmente, o resultado 
foi um grande nmero de comentrios, com o qual muitos leitores ficaro irritados. Nesse ponto, sou levado a citar o Dr. Johnson:
           "Para um expositor,  impossvel no escrever muito pouco para alguns e demais para outros. Somente por sua prpria experincia  que ele pode julgar 
aquilo que  necessrio; e, por mais que faa deliberaes, acabar por explicar muitas passagens que o erudito achar impossvel que se compreendam mal e por omitir 
muitas outras explicaes para as quais o inculto desejaria sua ajuda. Estas so censuras meramente relativas, que devem ser toleradas com tranqilidade."
           Os comentrios da Standard Edition so de diferentes tipos. Em primeiro lugar, h as notas puramente textuais, s quais me referi h pouco. Seguem-se 
as elucidaes das numerosssimas aluses histricas e a lugares, bem como das citaes literrias de Freud. Freud constituiu um vvido exemplo de homem igualmente 
 vontade nas 'duas culturas', como tm sido denominadas. No era apenas um hbil neuroanatomista e fisiologista; era tambm largamente versado nos clssicos gregos 
e latinos, bem como na literatura de seu idioma e nas literaturas da Inglaterra, da Frana, da Itlia e da Espanha. A maioria de suas aluses deve ter sido imediatamente 
compreensvel para seus contemporneos em Viena, mas elas esto muito alm do alcance de um leitor atual de lngua inglesa. Contudo, muitas vezes, especialmente 
em A Interpretao dos Sonhos, essas aluses desempenham um papel real no desenvolvimento de sua argumentao; sua explicao no pde ser posta de lado, conquanto 
tivesse exigido pesquisa considervel e s vezes infrutfera.
           Um outro tipo de anotaes  constitudo pelas remisses. Estas devem ser de especial valor para o estudioso. Freud freqentemente abordou o mesmo assunto 
vrias vezes e, talvez, de diferentes maneiras, em datas separadas por longos intervalos. As remisses entre essas ocasies, alcanando toda a extenso da edio, 
devem ajudar a superar a objeo ao tratamento cronolgico geral do material. Por fim, e mais raramente, h notas explicativas de comentrios feitos por Freud. Estas, 
todavia, so em geral apenas exemplos ampliados das remisses; as discusses mais elaboradas do sentido em Freud ficam habitualmente reservadas a uma outra categoria 
de comentrio.
            que, alm dessas explicaes feitas correntemente em notas de rodap, cada trabalho , sem exceo, acompanhado de uma nota introdutria. Esta varia 
em extenso, de acordo com a importncia do trabalho. Em todos os casos, essa nota inicia com uma bibliografia do texto alemo e de todas as suas tradues para 
o ingls. (No  feita qualquer meno a tradues para outros idiomas; tambm no se procurou fornecer uma lista completa das reedies subseqentes  morte de 
Freud em 1939.) Segue-se um relato daquilo que se conhece a respeito da data e das circunstncias da redao e publicao do trabalho. Vem, a seguir, alguma indicao 
do contedo temtico do trabalho e do lugar que ele ocupa na corrente principal do pensamento de Freud. Naturalmente,  aqui que as diferenas sero encontradas. 
No caso de um trabalho breve, de pequeno interesse, haver apenas uma ou duas frases. No caso de um trabalho maior, pode haver um ensaio introdutrio de muitas pginas.
           Todos esses vrios tipos de interveno editorial foram norteados por um nico princpio. Meu objetivo foi, espero que corretamente, deixar que Freud 
fosse seu prprio expositor. Onde h pontos obscuros, busquei explicaes nos escritos do prprio Freud; onde parece haver contradies, contentei-me em colocar 
o fato diante do leitor e possibilitar que este formasse sua prpria opinio. Dei de mim o melhor que pude a fim de evitar ser didtico, e evitei qualquer pretenso 
de autoridade ex-cathedra. Mas, se refreei minhas opinies prprias, especialmente em questo de teoria, constatar-se- que deixei igualmente de mencionar todos 
os comentrios, abordagens e crticas oriundos de qualquer outra fonte. Assim, quase sem exceo, esta edio no contm absolutamente referncias a outros autores, 
por mais eminentes que sejam - exceto, naturalmente, aqueles que so citados pelo prprio Freud. (A enorme proliferao da bibliografia psicanaltica depois de sua 
morte, de qualquer modo, teria imposto essa deciso.) Assim, o estudioso poder abordar os escritos de Freud sem a influncia de opinies alheias.
            no tocante aos comentrios que me sinto sobremaneira consciente das deficincias desta edio, muitas delas irremediveis. Os numerosos erros tipogrficos 
e pequenos lapsos podem ser corrigidos, segundo espero, no Volume XXIV; mas as falhas que me preocupam no podem ser reparadas com tanta facilidade. Na maioria, 
elas surgem da imaturidade do material. Exemplo disso  algo que j mencionei - a ausncia de qualquer edio alem realmente fidedigna. Na realidade, porm, quando 
se iniciava o trabalho desta edio, h mais de quinze anos, toda a rea estava inexplorada e sem demarcao. Nem sequer tinha sido iniciada a publicao da biografia 
de Freud de autoria de Ernest Jones; a maioria das pessoas desconhecia a correspondncia com Fliess e a prpria existncia do Projeto.  verdade que recebi assistncia 
de muitas pessoas de todas as partes, especialmente de Ernest Jones, que me punha a par das suas descobertas  medida que as fazia. No obstante, a Standard Edition 
constitui um trabalho pioneiro, com todos os inevitveis erros e tropeos que isso implica. Eu prprio fui-me tornando mais bem informado quanto s idias de Freud, 
 medida que o tempo passava, e  provvel que os volumes de publicao mais recente dem prova disso.
           Mencionem-se, em particular, duas deficincias. A primeira delas  que, naturalmente, foi impossvel concretizar a situao ideal de manter toda a edio 
composta tipograficamente, mas aberta a correes at estar concludo o ltimo volume. Foi necessrio tomar toda uma srie de decises fundamentais antes de publicar 
o primeiro volume. Essas decises incluram tanto as questes de formato quanto a escolha de termos tcnicos e, uma vez tomadas tais decises, em geral foi necessrio 
respeit-las em toda a edio. Naturalmente, mais tarde lamentou-se o fato de algumas delas terem sido tomadas. Uma outra fonte de deficincias que o crtico benvolo 
poder ter em mente  que a Standard Edition foi, sob muitos aspectos, um trabalho de amadores. Foi um trabalho feito por algumas pessoas que habitualmente se dedicam 
a outras ocupaes, um trabalho feito sem apoio de qualquer organizao acadmica disposta a fornecer pessoal ou instalaes.
          
           (5) AS TRADUES
          
           Ao se pensar numa traduo revista de Freud, o objetivo primeiro s poderia ser o de transmitir seu pensamento com a mxima fidelidade possvel. No entanto, 
um outro problema, talvez mais difcil, no podia ser evitado: o problema do estilo. Certamente no  possvel deixar de levar em conta os mritos literrios de 
Freud. Thomas Mann, por exemplo, referiu-se s qualidades "genuinamente artsticas" de Totem e Tabu - "em sua estrutura e em sua forma literria, uma obra-prima 
relacionada e vinculada com todos os grandes exemplos de obras ensasticas alems". Dificilmente se poderia esperar que esses mritos sobrevivessem  traduo, mas 
era preciso empreender algum esforo nesse sentido. Quando a Standard Edition foi inicialmente planejada, considerou-se que seria vantajoso uma nica pessoa incumbir-se 
de moldar todo o texto; com efeito, uma nica pessoa executou a maior parte do trabalho de traduo, e mesmo quando uma verso anterior foi utilizada como base, 
pode-se constatar que se imps a execuo de grandes alteraes. Infelizmente, isso provocou a rejeio, no interesse da desejada uniformidade, de muitas tradues 
feitas anteriormente e que, em si mesmas, eram excelentes. O modelo imaginrio que sempre tive diante de mim foram os escritos de algum homem de cincia ingls, 
de grande cultura, nascido em meados do sculo dezenove. E em carter explicativo, e no patritico, eu gostaria de enfatizar a palavra "ingls".
           Se me volto agora para a questo primeira da traduo correta da inteno de Freud, devo entrar em conflito com o que acabei de dizer. Pois, em todas 
as passagens em que Freud se torna difcil ou obscuro,  necessrio aproximar-se mais de uma traduo literal, sacrificando a elegncia estilstica. Tambm por idntico 
motivo  necessrio absorver por inteiro, na traduo, uma srie de termos tcnicos, expresses estereotipadas e neologismos que, com a maior boa vontade deste mundo, 
no podem ser considerados "ingleses". H tambm a dificuldade especial - que emerge, por exemplo, em A Interpretao dos Sonhos, A Psicopatologia da Vida Cotidiana 
e no livro sobre os chistes - do aparecimento de material que envolveaspectos verbais intraduzveis. Aqui, no dispusemos da alternativa fcil de eliminar ou substituir 
por algum material equivalente em lngua inglesa. Tivemos que nos socorrer de colchetes e notas de rodap, pois nos prende o compromisso da regra fundamental: Freud, 
Freud, e nada mais do que Freud.
           No que diz respeito ao vocabulrio tcnico, adotei, em geral, os termos sugeridos em A New German-English Psycho-Analytical Vocabulary, de Alix Strachey 
(1943), que, por sua vez, baseou-se nas sugestes de um "Glossary Committee" institudo por Ernest Jones vinte anos antes. Somente em alguns casos divergi dessas 
autoridades. Determinadas palavras que levantam controvrsias so discutidas em uma nota  parte, mais adiante (em [1]).
           Na medida do possvel, procurei ater-me  regra geral de traduzir invariavelmente um termo tcnico alemo pelo mesmo termo ingls. Assim, "Unlust"  sempre 
traduzido por "unpleasure" ("desprazer") e "Schmerz"  sempre traduzido por "pain" ("dor"). Contudo, deve-se observar que essa regra  passvel de conduzir a equvocos. 
Por exemplo, o fato de "psychisch" ser habitualmente traduzido por "psychical" ("psquico") e "seelisch" por "mental" ("mental") pode levar  idia de que essas 
palavras possuam significados diferentes, quando penso que so sinnimas. A regra da traduo uniforme, porm, foi levada mais adiante e estendida a expresses e, 
a rigor, passagens inteiras. Quando, como tantas vezes acontece, Freud apresenta a mesma argumentao ou conta o mesmo episdio em mais de uma ocasio (s vezes 
com grandes intervalos de tempo), procurei acompanh-lo e usar quando ele as usa, palavras idnticas; quando ele as modifica, procurei fazer o mesmo. Alguns pontos 
no destitudos de interesse so assim preservados na traduo.
           Tenho a obrigao de dizer explicitamente, aqui, que todos os acrscimos ao texto, por menores que sejam, e todas as notas de rodap adicionais esto 
indicados por colchetes.
          
           (6) AGRADECIMENTOS
          
           Antes de mais nada,  necessrio expressar reconhecimento ao apoio extremamente generoso prestado ao empreendimento, nos seus primrdios, pelos membros 
da Associao Americana de Psicanlise ( qual me orgulho de pertencer, atualmente, como membro honorrio), por iniciativa, em especial, do Dr. John Murray, de Boston, 
com apoio do Dr. W. C. Menninger, quela poca presidente da Associao. Todas as tentativas feitas anteriormente para levantar o capital necessrio tinham falhado, 
e todo o projeto teria sido abandonado, no fosse a magnfica atitude da Amrica ao subscrever, adiantado, mais ou menos quinhentas colees da edio proposta. 
A soma foi subscrita como um ato de pura e at imoderada confiana, numa poca em que no havia provas concretas de uma coisa chamada Standard Edition e os resignados 
subscritores foram obrigados a esperar quatro ou cinco anos para que os primeiros volumes lhes fossem remetidos.
           Dessa poca em diante, o apoio americano foi constante e chegou at mim oriundo de muitas fontes. Ao longo dos anos, mantive constantes contatos com o 
Dr. K. R. Eissler, que colocou  minha disposio todos os recursos dos Arquivos Sigmund Freud, alm de me proporcionar o mais amistoso incentivo pessoal. Ainda 
por intermdio dele, tive acesso ao valioso material guardado na biblioteca do Instituto de Psiquiatria do Estado de Nova Iorque. Naturalmente, estive em dbito 
constante para com o Dr. Alexander Grinstein e seu Index of Psychoanalytic Writings. Ainda no mbito da ajuda que obtive da Amrica, devo mencionar dois homens de 
regies separadas por uma grande distncia; cada um deles, por longo tempo, deu seu apoio ao sonho de ter um Freud completo em ingls, mas nenhum dos dois viveu 
o bastante para ver esse sonho realizado: Otto Fenichel e Ernst Kris.
           Aproximando-me mais de casa, meu principal apoio veio, naturalmente, do Instituto de Psicanlise e, em particular, do seu Comit de Publicaes, que, 
sob a direo de diferentes nomes, me apoiou resolutamente desde o primeiro momento, a despeito inclusive do que, muitas vezes devem ter-se afigurado exigncias 
financeiras exorbitantes. Parece uma impropriedade mencionar nomes individualmente, mas devo recordar, mais uma vez, minha volumosa e instrutiva correspondncia 
com Ernest Jones. Tenho especiais motivos para ser grato  Dra. Sylvia Payne, que durante longo tempo ocupou a presidncia do Comit de Publicaes.
           Passando  germinao real da Standard Edition,  desnecessrio dizer que meus primeiros agradecimentos cabem  colaboradora e aos auxiliares cujos nomes 
so vistos na pgina de rosto de cada volume: Srta. Anna Freud, minha esposa e o Dr. Alan Tyson. A Srta. Freud, sobretudo, revelou-se incansvel ao dedicar suas 
preciosas horas de lazer  leitura de toda a traduo e ao contribuir com inestimveis crticas. O nome da Srta. Angela Richards (atualmente Sra. Angela Harris) 
tambm aparece na pgina de rosto do presente volume. Nesses ltimos anos, ela foi, de fato, minha auxiliar principal, e se incumbiu de grande parte do aspecto editorial 
de meu trabalho. Tambm devo gratido  Srta. Ralph Partridge, que preparou a maior partedos ndices de cada volume, e s Sras. Ambrose Price e D. H. O'Brien, que, 
em trabalho conjunto, datilografaram todo o material da edio.
           As dificuldades nos preparativos iniciais desta edio foram exacerbadas pelas complicaes decorrentes do fato de Freud haver lidado de modo totalmente 
no-pragmtico com os direitos autorais de suas tradues. Esses problemas, especialmente os referentes aos direitos autorais americanos, s foram solucionados mediante 
a decisiva interveno do Sr. Ernst Freud por um perodo de vrios meses. O lado ingls dessa questo foi manipulado por The Hogarth Press e, em especial, pelo Sr. 
Leonard Woolf. O Sr. Woolf, que vem publicando as tradues inglesas de Freud h uns quarenta anos, participou ativamente da evoluo desta edio. Sinto que minha 
gratido especial, e at um tanto mesclada de culpa, se deve aos editores e impressores, por sua tolerncia em atenderem s minhas exigncias.
           Cabe-me acrescentar que, embora tenha recebido conselho de muitas pessoas que me auxiliaram, e tenha-me beneficiado muito desses conselhos em todos os 
pontos da traduo ou dos comentrios, a deciso final, em ltima anlise, s poderia ser minha; portanto,  apenas sobre mim que repousa toda a responsabilidade 
pelos erros que o tempo, certamente, h de revelar em abundncia.
           Por fim, eu tomaria a liberdade de expressar um reconhecimento mais pessoal: minha dvida de gratido para com a companheira que h tantos anos tem participado 
do meu trabalho como tradutor. J faz hoje quase meio sculo desde que, juntos, passamos dois anos em Viena, em anlise com Freud, e desde que, decorridas apenas 
algumas semanas de anlise, ele, de repente, nos instruiu a fazer uma traduo de um trabalho que escrevera havia pouco tempo - "Ein Kind wird geschlagen" -, traduo 
que agora faz parte, aqui, do Volume XVII. No presente empreendimento, ela me prestou ajuda constante, por sua imparcialidade tanto na aprovao como na crtica, 
e ela pde ajudar-me a atravessar alguns perodos de dificuldade fsica, quando parecia absurdo imaginar que um dia a Standard Edition pudesse ser concluda.
           JAMES STRACHEY
           MARLOW, 1966
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
         
         
         RELATRIO SOBRE MEUS ESTUDOS EM PARIS E BERLIM (1956 [1886])
           
           
           NOTA DO EDITOR INGLS
           
           BERICHT BER MEINE MIT UNIVERSITTS-JUBILUMS REISESTIPENDIUM UNTERNOMMENE STUDIENREISE NACH PARIS UND BERLIN
            
           (a) EDIO ALEM:
           (1886 Data de redao.)
           1960 Em Sigmund Freuds akademische Laufbahn im Lichte der Dokumente, de J. e R. Gicklhorn, 82, Viena.
           
           (b) TRADUO INGLESA:"Report on my Studies in Paris and Berlin"
           1956 Int. J. Psycho-Anal., 37 (1), 2-7, (Trad. de James Strachey.)
           
           A presente traduo inglesa  uma reimpresso ligeiramente corrigida da publicada em 1956.
           O relatrio com que apropriadamente tem incio a Standard Edition das Obras Psicolgicas de Freud  um relato contemporneo que seu protagonista faz de 
um evento histrico: o desvio dos interesses cientficos de Freud da neurologia para a psicologia.
           As circunstncias em que, em 1885, Freud obteve da Universidade de Viena uma bolsa de estudos para viajar esto detalhadamente relatadas por Ernest Jones 
(1953, 82-4). A subveno, no valor de 600 florins (que, naquele tempo, equivaliam a pouco menos de  50 ou US$ 250) e destinada a cobrir um perodo de seis meses, 
foi concedida pelo Colgio de Professores da Faculdade de Medicina: e esperava-se que Freud lhes fizesse um relatrio formal quando de seu regresso a Viena. Ele 
passou cerca de dez dias escrevendo esse relatrio, quase que imediatamente aps seu retorno, havendo-o concludo em 22 de abril de 1886. (Jones, ibid., 252.) Por 
iniciativa de Siegfried Bernfeld, esse relatrio foi descoberto nos Arquivos da Universidade pelo Professor Josef Gicklhorn, o que possibilitou sua publicao - 
primeiramente em ingls - setenta anos depois de ter sido escrito, por gentileza do Dr. K. R. Eissler, Secretrio dos Arquivos Sigmund Freud em Nova Iorque. O original, 
que se encontra nos Arquivos da Universidade de Viena, consiste em doze folhas manuscritas, das quais a primeira contm apenas o ttulo.
            de conhecimento geral a importncia que o prprio Freud sempre atribuiu aos seus estudos com Charcot. Esse relatrio mostra com a maior clareza que 
suas experincias no Salptrire constituram um momento de deciso. Quando chegou a Paris, seu "tema de eleio" era a anatomia do sistema nervoso; ao partir, sua 
mente estava povoada com os problemas da histeria e do hipnotismo. Dera as costas  neurologia e se voltava para a psicopatologia. Seria at mesmo possvel assinalar 
uma data precisa para a mudana - princpio de dezembro de 1885, quando terminou seu trabalho no laboratrio de patologia do Salptrire; contudo, a incmoda organizao 
daquele laboratrio, que o prprio Freud apresenta como explicao, naturalmente no foi outra coisa seno uma causa precipitante da momentosa mudana de direo 
nos interesses de Freud. Outros fatores mais profundos estiveram em ao e, entre eles, sem dvida a grande influncia pessoal que Charcot naturalmente exercia sobre 
ele. Freud expressou de forma mais plena sua conscincia dessa influncia no obiturio que escreveu por ocasio da morte de seu professor, alguns anos mais tarde 
(1893f). Com efeito, muito do que ele diz de Charcot neste relatrio encontrou lugar em seu estudo posterior.
           Um relato mais pessoal da estada de Freud em Paris encontra-se na srie de vvidas cartas que escreveu  sua futura mulher, muitas das quais esto includas 
no volume de sua correspondncia organizado por Ernst Freud (1906a).
           
           
           RELATRIO SOBRE MEUS ESTUDOS EM PARIS E BERLIM
           
           EFETUADOS COM O AUXLIO DE UMA BOLSA
           DE ESTUDOS CONCEDIDA PELO FUNDO DOJUBILEU UNIVERSITRIO 
           (OUTUBRO DE 1885 - FIM DE MARO DE 1886) 
           por 
           DR. SIGMUND FREUD 
           Docente de Neuropatologia da Universidade de Viena
           Ao Emrito Colgio de Professores da Faculdade de Medicina de Viena.
           
           Quando me candidatei ao prmio da Bolsa de Estudos do Fundo do Jubileu Universitrio, referente ao ano de 1885-6, expressei minha inteno de me dirigir 
ao Hospice de la Salptrire, em Paris, e de ali continuar meus estudos de neuropatologia. Diversos fatores contriburam para essa escolha. Em primeiro lugar, havia 
a certeza de encontrar reunido no Salptrire um grande acervo de material clnico que, em Viena, s se pode encontrar disperso por diferentes departamentos, no 
sendo, portanto, de fcil acesso. Alm disso, havia o grande renome de J.-M. Charcot, que h dezessete anos vem trabalhando e lecionando em seu hospital. Por fim, 
fui levado a refletir que nada de essencialmente novo poderia esperar aprender numa universidade alem, depois de haver usufrudo do ensino direto e indireto, em 
Viena, dos professores T. Meynert e H. Nothnagel. A escola francesa de neuropatologia, por outro lado, parecia-me prometer algo diferente e caracterstico de sua 
maneira de trabalhar, alm de haver ingressado em novas reas da neuropatologia que no tinham sido abordadas de forma parecida pelos cientistas da Alemanha e da 
ustria. Em decorrncia da escassez de qualquer contato pessoal estimulante entre mdicos franceses e alemes, as descobertas da escola francesa - algumas (sobre 
hipnotismo) deveras surpreendentes e outras (sobre histeria) de importncia prtica - foram recebidas, em nossos pases, mais com dvidas do que com reconhecimento 
e crdito; e os pesquisadores franceses, sobretudo Charcot, viram-se submetidos  acusao de terem uma reduzida capacidade crtica ou, pelo menos, de se inclinarem 
a estudar material raro e estranho e de dramatizarem seu trabalho com esse material. Por conseguinte, quando o emrito Colgio de Professores me distinguiu com o 
prmio da bolsa de estudos, com alegria agarrei a oportunidade, que assim me era oferecida, de formar um julgamento sobre esses fatos baseado na minha prpria experincia, 
e senti-me feliz, ao mesmo tempo, por estar em situao de pr em prtica a sugesto que me dera meu respeitado mestre, Professor von Brcke.
           Quando me encontrava em visita a Hamburgo, durante as frias, fui recebido com muita amabilidade pelo Dr. Eisenlohr, renomado representante da neuropatologia 
naquela cidade. Ele me possibilitou examinar um considervel nmero de pacientes nervosos no Hospital Geral e no Hospital Heine, e tambm me deu acesso ao Hospital 
Mental de Klein-Friedrichsberg. Mas os estudos de que me ocupo neste Relatrio comearam com minha chegada a Paris, na primeira quinzena de outubro, no incio do 
ano acadmico.
           O Salptrire, que foi o primeiro local que visitei,  um amplo conjunto de edifcios que, por seus prdios de dois andares dispostos em quadrilteros, 
assim como por seus ptios e jardins, lembra muito o Hospital Geral de Viena. Com o passar do tempo, o Salptrire serviu a finalidades muito diferentes, e seu nome 
(assim como a nossa "Gewehrfabrik") provm da primeira dessas finalidades. Os edifcios foram, afinal, convertidos em lar de mulheres idosas ("Hospice pour la vieilesse 
(femmes)", [1813]) e proporcionam asilo a cinco mil pessoas. A natureza das circunstncias fez com que as doenas nervosas crnicas viessem a figurar nesse material 
clnico com especial freqncia; e os antigos "mdicins des hpitaux" da instituio (Briquet,por exemplo) tinham comeado a fazer um estudo cientfico dos pacientes. 
Mas o trabalho no pde prosseguir de modo sistemtico por causa do costume existente entre os "mdicins des hpitaux" franceses de mudarem freqentemente de hospital 
e, ao mesmo tempo, trocarem o ramo especial da medicina que esto estudando, at que sua carreira os conduza ao grande hospital clnico do Htel-Dieu. Mas J.-M. 
Charcot, quando era "interne" no Salptrire, em 1856, percebeu ser necessrio fazer das doenas nervosas crnicas o tema de um estudo constante e exclusivo; resolveu 
retornar ao Salptrire como ''mdicin des hpitaux'' e, depois, jamais abandonar esse hospital. Charcot modestamente declara que seu nico mrito consiste em ter 
executado esse plano. A natureza favorvel do material  sua disposio levou-o a estudar as doenas nervosas crnicas e sua base anatomopatolgica; durante uns 
doze anos, deu aulas de clnica, como professor voluntrio, sem ter qualquer cargo oficial, at que finalmente, em 1881, foi instituda no Salptrire uma ctedra 
de Neuropatologia, confiada a ele.
           Essa nomeao produziu modificaes de grande alcance nas condies em que trabalhavam Charcot e seus discpulos (que, nesse meio tempo, tinham-se tornado 
numerosos). Ao material permanente presente no Salptrire acrescentou-se um complemento essencial, quando foi fundada uma seo clnica, na qual eram internados 
para tratamento pacientes tanto masculinos como femininos selecionados a partir das consultas semanais realizadas num departamento de pacientes de ambulatrio ("consultation 
externe"). Havia ainda,  disposio do professor de neuropatologia, um laboratrio destinado a estudos de anatomia e fisiologia, um museu de patologia, um estdio 
de fotografia e preparao de moldes de gesso, um gabinete de oftalmologia e um instituto de eletricidade e hidropatia. Estavam localizados em diferentes partes 
do grande hospital e possibilitavam ao diretor assegurar-se da permanente cooperao de alguns de seus discpulos, que eram encarregados desses departamentos.
           O homem que chefia toda essa organizao e seus servios auxiliares tem, atualmente, a idade de sessenta anos. Possui a vivacidade, a jovialidade e a 
perfeio formal no falar que costumamos atribuir ao carter da nacionalidade francesa; ao mesmo tempo, mostra a pacincia e o amor pelo trabalho que geralmente 
atribumos aos de nossa nao. A atrao exercida por semelhante personalidade logo me levou a limitar minhas visitas a um nico hospital e a buscar os ensinamentos 
de um nico homem. Abandonei minhas eventuais tentativas de assistir a outras conferncias, depois de haver-me convencido de que tudo o que elas tinham a me oferecer 
eram, na sua maior parte, peas de retrica bem construdas. As nicas excees eram as autpsias e conferncias forenses do Professor Brouardel no Necrotrio, que 
eu raramente perdia.
           No Salptrire, meu trabalho assumiu uma forma diferente daquela que eu, de incio, tinha estabelecido para mim mesmo. Eu havia chegado com a inteno 
de fazer de uma nica pergunta, objeto de uma cuidadosa investigao; e como, em Viena, o assunto eleito por mim eram os problemas anatmicos, tinha escolhido o 
estudo das atrofias e degeneraes secundrias que se seguem s afeces do crebro nas crianas. Um material patolgico extremamente valioso estava  minha disposio; 
achei, todavia, que as condies para me utilizar dele eram muitssimo desfavorveis. O laboratrio de modo algum oferecia condies para receber um pesquisador 
de fora, e esse espao e esses recursos, tal como existiam, haviam-se tornado inacessveis devido  falta de qualquer espcie de organizao. Assim sendo, vi-me 
obrigado a desistir do trabalho com a anatomia e a me contentar com uma descoberta referente s relaes dos ncleos da coluna posterior da "medulla oblongata". 
Depois, porm, tive oportunidade de retomar pesquisas semelhantes com o Dr. von Darkschewitsch (de Moscou), e nossa colaborao possibilitou uma artigo publicado 
nos Neurologisches Centralblatt (1886, 5, 212), que teve por ttulo "ber die Beziehung des Strickkrpers zum Hinterstrang und Hinterstragskern nebst Bemerkungen 
ber zwei Felder der Oblongata".
           
           Contrastando com a inadequao do laboratrio, a clnica do Salptrire proporcionava tal abundncia de material novo e interessante que eram necessrios 
todos os meus esforos para me beneficiar do ensino que essa oportunidade favorvel me oferecia. O horrio da semana era dividido como se segue. Na segunda-feira, 
Charcot dava sua aula terica, que encantava os ouvintes pela perfeio de sua forma, ao mesmo tempo que o tema da aula era conhecido a partir do trabalho da semana 
anterior. O que essas aulas ofereciam no era tanto um ensino elementar de neuropatologia sob a forma de informaes, mas, antes, as mais recentes pesquisas do Professor; 
e elas produziam efeito principalmente em virtude de suas constantes referncias aos pacientes que estavam sendo examinados. Na tera-feira, Charcot realizava a 
"consultation externe", na qual seus assistentes lhe apresentavam para exame os casos tpicos ou difceis, selecionados dentre o grande nmero dos que compareciam 
ao departamento de ambulatrio. s vezes, era desanimador quando o grande homem deixava algum desses casos, para usar sua prpria expresso, afundar "no caos de 
uma nosografia ainda desconhecida"; outros, contudo, lhe davam a oportunidade de us-los como ponto de partida para os mais instrutivos comentrios sobre uma ampla 
variedade de questes de neuropatologia. As quartas-feiras eram, em parte, dedicadas aos exames oftalmolgicos, que o Dr. Parinaud efetuava na presena de Charcot. 
Nos demais dias da semana, Charcot percorria as enfermarias, ou continuava as pesquisas que estivesse empreendendo na ocasio, examinando, para esse fim, pacientes 
em seu consultrio.
           Tive, assim, oportunidade de ver um grande nmero de pacientes, de examin-los e de ouvir a opinio de Charcot a respeito deles. O que me parece ter tido 
maior valor do que essa efetiva aquisio de experincia foi, no entanto, o estmulo que recebi, durante os cincos meses que passei em Paris, do meu constante contato 
cientfico e pessoal com o Professor Charcot.
           No que diz respeito ao contato cientfico, certamente no me foi dada preferncia em relao a qualquer outro estrangeiro. Pois a clnica era acessvel 
a qualquer mdico que se apresentasse, e o trabalho do Professor era executado abertamente, cercado de todos os jovens que atuavam como seus assistentes, assim como 
dos mdicos estrangeiros. Parecia que ele, por assim dizer, trabalhava conosco, pensava em voz alta e esperava que os discpulos lhe apresentassem objees. Todo 
aquele que assim desejasse podia entrar na discusso, e nenhum comentrio passava despercebido ao grande homem. A informalidade que prevalecia no relacionamento 
e a maneira como cada um era tratado, com cortesia e em condies de igualdade - o que constitua surpresa para os visitantes estrangeiros -, facilitavam a situao, 
de modo que at os mais tmidos tinham a mais viva participao nos exames de Charcot. Podia-se verificar a maneira como ele, inicialmente, ficava indeciso em face 
de alguma nova manifestao difcil de interpretar; podia-se seguir os caminhos pelos quais se esforava por chegar a uma compreenso; podia-se estudar o modo como 
avaliava as dificuldades e as vencia; e podia-se observar, com surpresa, que ele nunca se cansava de observar o mesmo fenmeno, at que seus esforos repetidos e 
sem prevenes lhe permitissem chegar a uma viso correta de seu significado. Quando, alm de tudo isso, acode  lembrana a total sinceridade manifestada pelo Professor 
durante essas sesses, compreende-se por que o autor deste relatrio, assim como aconteceria com qualquer outro estrangeiro em situao semelhante, deixou o Salptrire 
com irrestrita admirao por Charcot.
           Charcot costumava dizer que, falando de modo geral, o trabalho da anatomia estava encerrado e que a teoria das doenas orgnicas do sistema nervoso podia 
ser dada como completa: o que precisava ser abordado a seguir eram as neuroses. Sem dvida, essa afirmao pode ser considerada como nada alm da expresso do rumo 
tomado por suas prprias atividades. Por muitos anos, ento, seu trabalho centralizou-se quase por completo nas neuroses, principalmente na histeria, que, desde 
o incio das atividades do departamento de ambulatrio e da clnica, ele teve oportunidade de estudar tanto nos homens como nas mulheres.
           Tentarei resumir em poucas palavras o que Charcot realizou no estudo clnico da histeria. At o presente, dificilmente se pode considerar a palavra histeria 
como um termo com significado bem definido. O estado mrbido a que se aplica tal nome caracteriza-se cientificamente apenas por sinais negativos; tem sido estudado 
escassa e relutantemente; e carrega a ira de alguns preconceitos muito difundidos. Entre estes esto a suposio de que a doena histrica depende de irritao genital, 
o ponto de vista de que nenhuma sintomatologia definida pode ser atribuda  histeria simplesmente porque nela pode ocorrer qualquer combinao de sintomas e, finalmente, 
a exagerada importncia dada  simulao no quadro clnico da histeria. Durante as ltimas dcadas,  quase certo que uma mulher histrica seria tratada como simuladora, 
do mesmo modo que, em sculos anteriores, certamente seria julgada e condenada como feiticeira ou possuda pelo demnio. Sob outro aspecto,  possvel que at se 
tenha dado um passo atrs no conhecimento da histeria. A Idade Mdia estava familiarizada de modo preciso com os "estigmas" da histeria, seus sinais somticos, e 
os interpretava e utilizava  sua prpria maneira. No departamento de ambulatrio, em Berlim, contudo, verifiquei que esses sinais somticos da histeria eram praticamente 
desconhecidos e que, em geral, quando se fazia um diagnstico de "histeria", parecia estar eliminada qualquer motivao para se obter mais algum informe a respeito 
do paciente.
           Em seu estudo da histeria, Charcot partiu dos casos mais completamente desenvolvidos, que ele considerava como tipos perfeitos da doena. Comeou por 
reduzir a conexo entre a neurose e o sistema genital a suas propores corretas, demonstrando a insuspeitada freqncia dos casos de histeria masculina e, especialmente, 
de histeria traumtica. Nesses casos tpicos, ele encontrou a seguir numerosos sinais somticos (tais como a natureza do ataque, a anestesia, os distrbios da viso, 
os pontos histergenos etc.), que lhe possibilitaram estabelecer com segurana o diagnstico da histeria, com base em indicaes positivas. Estudando cientificamente 
o hipnotismo - rea da neuropatologia que teve que ser arrancada, de um lado, do ceticismo e, de outro, do embuste -, Charcot chegou a uma espcie de teoria da sintomatologia 
histrica. Teve a coragem de reconhecer esses sintomas como sendo, na sua maior parte, reais, sem negligenciar as precaues exigidas pela insinceridade do paciente. 
A experincia, que aumentou rapidamente com o excelente material, logo lhe possibilitou levar em conta tambm as variantes do quadro tpico.  poca em que fui obrigado 
a deixar a clnica, ele estava passando do estudo das paralisias e artralgias histricas para o das atrofias histricas, de cuja existncia s conseguiu convencer-se 
durante os ltimos dias de minha visita.
           
           A enorme importncia prtica da histeria masculina (que geralmente no  reconhecida) e, em particular, a histeria que se segue a um trauma foi ilustrada 
por ele como o caso de um paciente que, durante cerca de trs meses, constituiu o ponto central dos estudos de Charcot. Assim, por meio de seu trabalho, a histeria 
foi retirada do caos das neuroses, diferenada de outros estados de aparncia semelhante, e a ela se atribuiu uma sintomatologia que, embora extremamente multiforme, 
tornava impossvel duvidar de que imperassem nela uma lei e uma ordem. Tive uma animada troca de opinies com o Professor Charcot (tanto oralmente como por escrito) 
sobre os pontos de vista oriundos de suas investigaes. Isso me levou a preparar um artigo que est por ser publicado nos Archives de Neurologie e que tem como 
ttulo "Vergleichung der hysterischen mit der organischen Symptomatologie".
           Neste ponto, devo observar que a disposio de considerar as neuroses provenientes de trauma ("railway spine") como histeria encontrou decidida oposio 
por parte de autoridades alems, especialmente do Dr. Thomsen e do Dr. Oppenheim, mdicos assistentes do Charit, de Berlim. Conheci pessoalmente a ambos, mais tarde, 
em Berlim, e esperava ter a oportunidade de verificar se sua oposio era justificada. Infelizmente, porm, os pacientes em questo j no se encontravam mais no 
Charit. Fiquei, todavia, com a impresso de que a questo no est madura para uma deciso, mas que Charcot acertadamente comeara por abordar os casos tpicos 
e mais simples, ao passo que seus adversrios alemes partiram do estudo de exemplos indeterminados e mais complexos. Em Paris, contestou-se a afirmao de que formas 
to graves de histeria como aquelas em que Charcot baseou seu trabalho no ocorriam na Alemanha; chamou-se ateno para os relatos histricos de epidemias semelhantes 
e insistiu-se na identidade da histeria em qualquer poca e lugar.
           
           Tambm no perdi a ocasio de adquirir um conhecimento pessoal dos fenmenos do hipnotismo, que so to surpreendentes e aos quais se d to pouco crdito, 
e, em especial, do "grand hypnotisme" ["grande hipnotismo"] descrito por Charcot. Com surpresa, verifiquei que nessa rea determinadas coisas aconteciam abertamente 
diante dos nossos olhos e que era quase impossvel duvidar delas; assim mesmo, eram to estranhas que no se podia acreditar nelas, a menos que delas se tivesse 
uma experincia pessoal. Contudo, no vi nenhum sinal de que Charcot mostrasse qualquer preferncia especial por material raro e estranho, ou de que tentasse explor-lo 
para fins msticos. Pelo contrrio, considerava o hipnotismo uma rea de fenmenos que ele submetia  descrio cientfica, tal como fizera, muitos anos antes, com 
a esclerose mltipla ou com a atrofia muscular progressiva. No me parecia em absoluto que ele fosse um desses homens que se mostram mais encantados com aquilo que 
 raro do que com aquilo que  comum; e a tendncia geral de sua mente leva-me a supor que ele no consegue descansar enquanto no descreve e classifica corretamente 
algum fenmeno que o interesse, mas dorme tranqilamente sem ter chegado  explicao fisiolgica do fenmeno em questo.
           Neste Relatrio, dediquei espao considervel aos comentrios sobre a histeria e o hipnotismo, porque tive de abordar aquilo que era totalmente novo e 
que foi objeto dos estudos especficos de Charcot. Embora me tenha referido menos s doenas orgnicas do sistema nervoso, no gostaria que se supusesse que vi pouco 
ou nada a respeito delas. Mencionarei apenas alguns dos casos particularmente interessantes em meio  riqueza do notvel material apresentado. Entre estes estavam, 
por exemplo, as formas de atrofia muscular hereditria, recentemente descritas pelo Dr. Marie; embora estas no mais sejam includas entre as doenas do sistema 
nervoso, ainda esto sob os cuidados dos neuropatologistas. Devo mencionar tambm os casos da doena de Mnire, de esclerose mltipla, de tabes, com todas as suas 
complicaes, particularmente acompanhada pela doena das articulaes descrita por Charcot, da epilepsia parcial e de outras formas de doena que compem o acervo 
de material das clnicas e dos ambulatrios de doenas nervosas. Entre as doenas funcionais (exceto a histeria), a coria e as diversas formas de "tiques" (por 
exemplo, a doena de Gilles de la Tourette) estavam recebendo ateno especial durante a poca em que freqentei aquele servio.
           
           Quando tomei conhecimento de que Charcot tencionava publicar uma nova coletnea de suas conferncias, ofereci-me para fazer uma traduo alem; graas 
a essa tarefa, entrei em contato pessoal mais prximo com o Professor Charcot e tambm pude prolongar minha estada em Paris alm do perodo coberto por minha bolsa 
de estudos. Essa traduo est por ser publicada em Viena, em maio do corrente ano, pela editora de Toeplitz e Deuticke.
           Por fim, devo mencionar que o Professor Ranvier, do Collge de France, revelou-se extremamente gentil ao mostrar-me suas excelentes preparaes de clulas 
nervosas e neurglia.
           Minha estada em Berlim, que se estendeu de 1 de maro at o fim do mesmo ms, deu-se durante o perodo de frias. Ainda assim, tive muitas oportunidades 
de examinar crianas que sofriam de doenas nervosas nas clnicas de pacientes externos dos professores Mendel e Eulenburg e do Dr. A. Baginsky, tendo sido muito 
bem recebido em todos os lugares. As repetidas visitas ao Professor Munk e ao laboratrio de agricultura do Professor Zuntz (onde me encontrei com o Dr. Loeb, de 
Estrasburgo) possibilitaram-me formar opinio prpria acerca da controvrsia entre Goltz e Munk quanto  questo da localizao do sentido da viso no crtex cerebral. 
O Dr. B. Baginsky, do laboratrio de Munk, teve a gentileza de demonstrar para mim suas preparaes do trajeto do nervo acstico e de solicitar minha opinio a respeito 
delas.
           
           Considero meu dever apresentar meus mais calorosos agradecimentos ao Colgio de Professores da Faculdade de Medicina de Viena por me haver escolhido para 
o prmio da bolsa de estudos. Com isso, o Colgio (no qual esto includos todos os meus respeitados mestres) concedeu-me a possibilidade de adquirir conhecimentos 
valiosos, dos quais espero fazer uso como Docente de doenas nervosas, assim como na minha atividade mdica.
           VIENA, Pscoa de 1886
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
         
         
         PREFCIO  TRADUO DAS CONFERNCIAS SOBRE AS DOENAS DO SISTEMA NERVOSO, DE CHARCOT (1886)
           
           
           NOTA DO EDITOR INGLS
           
           PREFCIO  TRADUO DE LEONS SUR LES MALADIES DU SYSTME NERVEUX: TOME TROISIME, DE CHARCOT
            
           (a) EDIO ALEM:
           1886 Em J.-M. Charcot, Neue Vorlesungen ber die Krankheiten des Nervensystems insbesondere ber Hysterie [Novas Conferncias sobre as Doenas do Sistema 
Nervoso, Particularmente sobre a Histeria], iii-iv, Leipzig e Viena, Toeplitz e Deuticke.
           
           O prefcio no foi reimpresso em alemo. A presente traduo (a primeira para o ingls) do prefcio  de autoria de James Strachey. A traduo de Freud 
de duas das conferncias (XXIII e XXIV) foi publicada antecipadamente no Wien. med. Wochenschr., 36 (20), 711-15 e (21), 756-9 (15 e 22 de maio de 1886), tendo como 
ttulo "ber einen Fall von hysterischer Coxalgie aus traumatischer Ursache bei einem Manne" ("Sobre um caso de coxalgia num homem em decorrncia de um acidente") 
(Freud, 1886e). A publicao do livro no pode ter sido anterior a julho de 1886 (data do prefcio de Freud); em todo caso, porm, ela se deu antes da publicao 
do original francs (Paris, 1887), como Freud menciona em seu prefcio.
           O modo como Charcot confiou a Freud a incumbncia de fazer a traduo desse livro para o alemo foi relatado por Freud, com mais detalhes em seu Estudo 
Autobiogrfico (1925d), Edio Standard Brasileira, Vol. XX, [1], IMAGO Editora, 1976, e tambm numa carta que, nessa poca, Freud escreveu a sua futura esposa (12 
de dezembro de 1885) editada em Freud, 1960a (Carta 88).
           As poucas notas de rodap escritas por Freud simplesmente registram, como ele mesmo indica no prefcio, a evoluo subseqente de um ou dois casos clnicos 
relatados no texto e, numa delas, uma recente mudana de opinio de Charcot quanto a um detalhe do diagnstico. Trs dessas conferncias (XI, XII e XIII) tratam 
da afasia. Em um breve comentrio, Freud mostra que j estava especialmente interessado no assunto, sobre o qual, cinco anos depois, escreveria sua monografia. Nesta, 
fez uma breve descrio dos pontos de vista de Charcot (1891b, 100-2) e referiu-se ao presente trabalho.
           
           Conta-nos Jones (1953, 230) que Charcot recompensou Freud pela traduo, dando-lhe de presente uma coleo completa de suas obras, encadernada em couro, 
com esta dedicatria: "A Monsieur le Docteur Freud, excellents souvenirs de la Salptrire. Charcot".
           
           PREFCIO  TRADUO DAS CONFERNCIAS SOBRE AS DOENAS DO SISTEMA NERVOSO, DE CHARCOT
           
           Um empreendimento como este, que objetiva apresentar os ensinamentos de um mestre de clnica mdica a crculos mdicos mais amplos, por certo dispensa 
justificativas. Proponho-me, portanto, dizer apenas algumas palavras a respeito da origem desta traduo e sobre a matria das conferncias que ela contm.
           No inverno de 1885, quando cheguei ao Salptrire para uma permanncia de quase meio ano, constatei que o Professor Charcot (ento pelos seus sessenta 
anos, trabalhando com o vigor da mocidade) se havia afastado do estudo das doenas nervosas que se baseiam em alteraes orgnicas e estava-se dedicando exclusivamente 
 pesquisa das neuroses - e, em especial, da histeria. Essa mudana relacionava-se com as modificaes (descritas na primeira conferncia deste livro) que se efetuaram 
nas condies do trabalho e do ensino de Charcot, em 1882.
           Aps superar minha perplexidade inicial diante das descobertas da novas pesquisas de Charcot, e depois que aprendi a avaliar sua grande importncia, pedi 
ao Professor Charcot permisso para fazer uma traduo para o alemo das conferncias que continham essas novas teorias. E aqui devo agradecer-lhe no apenas pela 
presteza com que me concedeu sua permisso, como tambm por sua ajuda ulterior, que tornou possvel que a edio alem, na realidade, seja publicada vrios meses 
antes da edio francesa. Seguindo instrues do autor, acrescentei algumas notas, na maioria acrscimos s histrias dos pacientes de que trata o texto.
           O cerne deste livro est nas magistrais e fundamentais conferncias sobre histeria, que, junto com seu autor, podemos esperar venham a descerrar uma nova 
era na conceituao dessa neurose pouco conhecida e, a rigor, denegrida. Por esse motivo, com o consentimento do Professor Charcot, modifiquei o ttulo do livro, 
que em francs  ''Leons sur les maladies du systme nerveux, Tome troisime", e coloquei em destaque a histeria dentre os temas nele abordados.
           Todo aquele a quem estas conferncias motivarem a um aprofundamento nas pesquisas sobre histeria feitas pela escola francesa poder remeter-se aos tudes 
cliniques sur la grande hystrie, de P. Richer, de que saiu uma segunda edio em 1885 e que, em mais de uma aspecto, constitui uma obra extraordinria.
           VIENA, 18 de julho de 1886
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
         
         
         OBSERVAO DE UM CASO GRAVE DE HEMIANESTESIA EM UM HOMEM HISTRICO (1886)
           
           
           
           INTRODUO
           
           BEOBACHTUNG EINER HOCHGRADIGEN HEMIANASTHESIE BEI EINEM HYSTERISCHEN MANNE
           
           (a) EDIES ALEMS:
           1886 Wien. med. Wschr., 36 (49), 1633-38 (4 de dezembro).
           
           Parece que este artigo foi reeditado. A presente traduo de James Strachey  a primeira que se fez para o idioma ingls. Aparentemente, havia a inteno 
de que este artigo viesse a ser o primeiro de uma srie, de vez que o encima o ttulo "Beitrage zur Kasuistik der Hysterie, I" (Contribuies ao Estudo Clnico da 
Histeria, I). Mas a srie no teve continuao.
           Em 15 de outubro de 1886, uns seis meses depois de seu retorno de Paris, Freud leu perante a "Gesellschaft der Aerzte" (Sociedade de Medicina) de Viena 
um artigo intitulado "ber mannliche Hysterie" (Sobre a Histeria Masculina). O texto desse artigo no sobreviveu, ainda que sobre ele surgissem resenhas nos peridicos 
mdicos de Viena, como, por exemplo, no Wien, med. Wochenschr., 63 (43), 1444-6 (23 de outubro). Tambm  encontrado num breve resumo de Ernest Jones (1953, 252). 
O prprio Freud d um relato desse evento em seu Estudo Autobiogrfico (1925d), Edio Standard Brasileira, Vol. XX, em [1], IMAGO Editora, 1976. O artigo foi mal 
recebido, e Meynert desafiou Freud a apresentar perante a sociedade um caso de histeria masculina. Freud teve alguma dificuldade em encontrar um caso, pois os mdicos 
mais antigos dos departamentos do Hospital Geral recusaram-se a lhe facultar o uso do material de que dispunham. Por fim, com a ajuda de um jovem laringologista, 
encontrou noutro lugar um paciente adequado e o apresentou perante a "Gesellschaft der Aerzte'' em 26 de novembro de 1886. O caso foi demonstrado por Freud e por 
seu amigo Dr. Konigstein, cirurgio oftalmologista que tinha feito um exame dos sintomas oculares do paciente. O artigo desse especialista foi publicado no Wochenschrift 
uma semana depois do de Freud - na edio de 11 de dezembro (1674-6). Freud conta-nos que o presente artigo encontrou uma recepo melhor do que o artigo anterior; 
todavia, no chegou a suscitar interesse.
           A maior parte do artigo, conforme se ver, trata dos fenmenos fsicos da histeria, nos moldes caractersticos da atitude de Charcot em relao a essa 
doena. H somente alguns indcios muito leves que revelam interesse por fatores psicolgicos.
           
           
           
           Senhores:
           A 15 de outubro, quando tive a honra de pedir-lhes a ateno para um breve informe sobre o recente trabalho de Charcot na rea da histeria masculina, 
fui desafiado pelo meu respeitado mestre Hofrat Professor Meynert a apresentar perante a sociedade alguns casos em que pudessem ser observadas, de forma claramente 
visvel, as indicaes somticas da histeria - os "estigmas histricos" pelos quais Charcot caracteriza essa neurose. Hoje, enfrento esse desafio - de maneira insuficiente, 
 verdade, mas na medida do que me permite o material clnico de que disponho -, apresentando perante os senhores um homem histrico que mostra o sintoma da hemianestesia, 
num grau que se poderia descrever com o mais elevado. Antes de comear minha demonstrao, quero apenas observar que estou longe de pensar que o que lhes estou mostrando 
 um caso raro ou peculiar. Pelo contrrio, considero-o um caso muito comum, de ocorrncia freqente, embora muito amide possa passar despercebido.
           Por esse paciente, devo agradecer  gentileza do Dr. von Beregszszy, que o enviou a mim para confirmao do diagnstico que ele havia feito. O paciente, 
August P., gravador de 29 anos,  a pessoa que est diante dos senhores: um homem inteligente, que de pronto se ofereceu para ser examinado por mim, na esperana 
de uma rpida recuperao.
           Permitam-me que comece por um relato de sua histria familiar e de sua histria pessoal. O pai do paciente, aos 48 de idade, morreu da doena de Bright; 
trabalhava numa adega, bebia muito e tinha temperamento violento. Sua me morreu, aos 46 anos, de tuberculose. Soube-se que ela sofria muito de dores de cabea, 
quando jovem: o paciente nada tem a dizer sobre ataques convulsivos ou algo semelhante. O casal teve seis filhos, dos quais o primeiro levou uma vida irregular e 
faleceu de uma afeco sifiltica cerebral. O segundo filho tem interesse especial para ns; ele desempenha um papel na etiologia da doena de seu irmo e parece 
que ele prprio era histrico. Contou ao nosso paciente haver sofrido de ataques convulsivos; e, por uma estranha coincidncia, nesse mesmo dia, encontrei um colega 
de Berlim que tratara desse irmo, em Berlim, durante uma enfermidade, e havia diagnosticado que ele sofria de histeria - diagnstico este que tambm foi confirmado 
num hospital daquela cidade. O terceiro filho desapareceu desde que desertou do exrcito; o quarto e o quinto morreram em tenra idade, e o ltimo  o nosso paciente.
           Nosso paciente teve um desenvolvimento normal na infncia, nunca sofreu convulses infantis e teve as doenas comuns de crianas. Aos oito anos, teve 
a infelicidade de ser atropelado na rua; sofreu ruptura do tmpano direito, com permanente dficit da audio do ouvido direito, e foi acometido de uma doena que 
durou diversos meses, durante a qual sofria freqentes desmaios, cuja natureza atualmente j no  possvel descobrir. Esses desmaios continuaram por uns dois anos. 
Desse acidente adveio um certo embotamento intelectual, que o paciente afirma ter sido notado em seu rendimento escolar, e uma tendncia a sensaes vertiginosas 
sempre que, por alguma razo, se sentia indisposto. Mais tarde, completou o curso primrio; aps a morte dos pais, passou a aprendiz de gravador; um dado que fala 
muito a favor de seu carter  o fato de ter permanecido como artfice e empregado do mesmo mestre de ofcio durante dez anos. Considera-se pessoa cujos pensamentos 
estavam total e unicamente voltados para a perfeio de seu habilidoso ofcio e que, com esse fim em vista, leu muito e exercitou-se no desenho, no se permitindo 
relacionamentos sociais nem divertimentos. Via-se obrigado a refletir muito acerca de si mesmo e de suas ambies e, por faz-lo com tanta freqncia, caa num estado 
de excitada fuga de idias, no qual ficava alarmado a respeito de sua sade mental; seu sono muitas vezes era agitado e sua digesto fazia-se lenta por causa de 
seu modo de vida sedentrio. Sofreu de palpitaes durante os ltimos nove anos; mas, afora isto, era sadio e jamais precisou interromper seu trabalho.
           Sua doena atual comeou h uns trs anos. Nessa poca, teve um desentendimento com o irmo que levava uma vida desregrada, porque este se recusou a lhe 
pagar uma soma em dinheiro que o paciente lhe emprestara. O irmo ameaou apunhal-lo e avanou contra ele com uma faca. Isto causou ao paciente um medo indescritvel; 
sentiu um zumbido na cabea, como se ela fosse estourar; correu para casa, sem poder contar como foi que chegou l, e caiu no cho, inconsciente, em frente  porta 
de casa. Depois, ouviu dizer que, durante duas horas, tinha tido violentos espasmos, durante os quais falara da cena com seu irmo. Quando voltou a si, sentia-se 
muito fraco; durante as seis semanas seguintes, sofreu de violentas dores no lado esquerdo da cabea e presso intracraniana. Parecia-lhe alterada a sensibilidade 
na metade esquerda do corpo, e seus olhos se cansavam facilmente no trabalho, que ele retomou em seguida. Com algumas oscilaes, seu estado ficou sendo este durante 
trs anos, at que, h sete semanas, uma nova agitao causou uma mudana para pior. O paciente foi acusado de roubo por uma mulher, teve palpitaes violentas e, 
por uns quinze dias, esteve to deprimido que pensou em suicdio; ao mesmo tempo, um tremor muito intenso tomou conta de seus membros esquerdos. A metade esquerda 
de seu corpo ficou como se tivesse sido afetada por um pequeno acidente cerebral; seus olhos se enfraqueceram muito e freqentemente faziam-no ver tudo cinza; seu 
sono era interrompido por aparies terrificantes e sonhos nos quais pensava estar caindo de uma grande altura; comearam a surgir dores no lado esquerdo da garganta, 
na virilha esquerda, na regio sacra e em outras reas; seu estmago, com freqncia, estava "como se tivesse estourado", e ele se viu obrigado a parar de trabalhar. 
Outra piora em todos esses sintomas data da ltima semana. Alm disso, o paciente est sujeito a dores violentas no joelho esquerdo e na planta do p esquerdo, quando 
caminha durante algum tempo; tem uma sensao peculiar na garganta, como se a lngua estivesse presa, ouve freqentes zumbidos nos ouvidos, e outras coisas dessa 
natureza. Sua memria est prejudicada quanto aos acontecimentos ocorridos durante sua doena; quanto aos eventos anteriores  doena, porm, no apresenta problemas. 
Os ataques sob forma de convulses repetiram-se de seis a nove vezes durante os trs anos; contudo, a maior parte deles foi muito benigna; somente um ataque,  noite, 
no ltimo ms de agosto, acompanhou-se de "agitao" com bastante gravidade.
           Agora examinemos o paciente: um homem bastante plido, de compleio mdia. O exame de seus rgos internos nada revela de patolgico, exceto bulhas cardacas 
abafadas. Quando comprimo o ponto de sada dos nervos supra-orbital, infra-orbital ou do mento, do lado esquerdo, o paciente volta a cabea com uma expresso de 
dor intensa. Podemos, portanto, supor que h uma alterao nevrlgica no trigmeo esquerdo. Tambm a abbada craniana  muito sensvel  percusso na sua metade 
esquerda. A pele da metade esquerda da cabea comporta-se, no entanto, de modo muito diferente do que espervamos: est completamente insensvel a estmulos de qualquer 
espcie. Posso aplicar-lhe alfinetadas, belisc-la, torcer o lobo da orelha entre meus dedos, sem que o paciente chegue sequer a perceber o contato. Aqui, pois, 
existe um grau muito elevado de anestesia; esta, contudo, atinge no s a pele como tambm as membranas mucosas, conforme lhes mostrarei no caso dos lbios e da 
lngua do paciente. Se introduzo um rolinho de papel em seu canal auditivo externo esquerdo e depois em sua narina esquerda, no se produz nenhuma reao. Repito 
agora a experincia no lado direito e mostro que aqui a sensibilidade do paciente  normal. Em consonncia com a anestesia, os reflexos sensoriais tambm esto abolidos 
ou diminudos. Assim, posso introduzir meu dedo e tocar todos os tecidos farngeos do lado esquerdo, sem que resultem nsias de vmito; os reflexos farngeos do 
lado direito, contudo, tambm se encontram diminudos; apenas quando toco a epiglote no lado direito  que se d uma reao. O toque da conjuntiva palpebral e ocular 
mal produz o fechamento das plpebras; por outro lado, o reflexo corneano est presente, embora muito reduzido. Alis, os reflexos conjuntival e corneano do lado 
direito tambm esto diminudos, embora em grau menor; e esse comportamento dos reflexos  suficiente para me possibilitar a concluso de que os distrbios da viso 
no se limitam necessariamente a um olho (o esquerdo). E, realmente, quando pela primeira vez examinei o paciente, ele mostrava em ambos os olhos a peculiar poliopia 
monocular dos pacientes histricos e distrbios da sensibilidade s cores. Com o olho direito, reconhecia todas as cores, exceto o roxo, que dizia ser cinzento; 
com o olho esquerdo, reconhecia apenas o vermelho-claro e o amarelo-claro, ao passo que considerava todas as outras cores como cinzento, quando eram claras, e como 
preto, quando escuras. O Dr. Konigstein teve a gentileza de submeter o paciente a um minucioso exame oftalmolgico e posteriormente relatar suas concluses. [Ver 
em [1]] Passando aos outros rgos dos sentidos, o olfato e o paladar esto inteiramente anulados no lado esquerdo. Somente a audio foi poupada da hemianestesia 
cerebral. Convm lembrar que a acuidade do ouvido direito ficou seriamente prejudicada desde que o paciente sofreu um acidente, aos oito anos de idade; seu ouvido 
esquerdo  o melhor; a reduo da audio nele presente  (segundo uma gentil comunicao do Professor Gruber) suficientemente explicada por uma visvel e substancial 
afeco da membrana timpnica.
           Se procedermos agora a um exame do tronco e dos membros, verificaremos tambm uma anestesia absoluta, sobretudo no brao esquerdo. Como vem, consigo 
espetar a ponta de uma agulha numa dobra da pele sem que o paciente reaja. As estruturas profundas - msculos, ligamentos e articulaes - tambm devem estar insensveis 
em grau igualmente elevado, pois posso mover a articulao do punho e estirar os ligamentos sem provocar qualquer sensao no paciente.  consoante com essa anestesia 
das estruturas profundas o fato de que o paciente, quando seus olhos so vendados, tambm no tem noo da posio do seu brao esquerdo no espao, nem de qualquer 
movimento que executo com ele. Passo uma venda em seus olhos e depois lhe pergunto o que fiz com sua mo esquerda. Ele no consegue dizer. Peo-lhe que, com a mo 
direita, segure o polegar, o cotovelo ou o ombro esquerdos. Ele tateia s cegas, confunde sua prpria mo com a minha, que lhe estendo, e ento admite que no sabe 
a quem pertence a mo que segurou.
           
           Deve ser particularmente interessante descobrir se o paciente  capaz de encontrar as partes da metade esquerda de sua face. Seria de supor que isso no 
lhe oferecesse quaisquer dificuldades, pois, afinal, a metade esquerda do rosto est, digamos, firmemente cimentada  metade direita, intacta. Mas a experincia 
mostra o contrrio. O paciente erra o alvo no olho esquerdo, no lobo da orelha esquerda, e assim por diante; na verdade, parece sair-se pior ao tatear com a mo 
direita as partes anestesiadas do rosto do que se estivesse tocando uma parte do corpo de alguma outra pessoa. A causa disso no  uma perturbao na mo direita, 
que ele est usando para apalpar, pois os senhores podem ver com que certeza e rapidez ele encontra os pontos em que lhe digo para tocar a metade direita do rosto.
           A mesma anestesia est presente no tronco e na perna esquerda. Observamos a que a perda das sensaes tem seu limite na linha mdia, ou se estende um 
pouco alm desta.
           Para mim, parece haver um interesse especial na anlise dos distrbios do movimento que o paciente mostra em seus membros anestesiados. Acredito que esses 
distrbios do movimento devam ser atribudos, inteira e unicamente,  anestesia. Certamente no existe paralisia do brao esquerdo, por exemplo. Um brao paralisado 
ou cai flacidamente, ou se mantm rgido, devido s contraturas em posies foradas. Aqui a coisa se passa de modo diverso. Se eu vendar os olhos do paciente, seu 
brao esquerdo permanecer na posio que tinha assumido anteriormente. Os distrbios da mobilidade so mutveis e dependem de diversas condies. Em primeiro lugar, 
aqueles dentre os senhores que tiverem notado como o paciente se despiu com ambas as mos e como fechou sua narina esquerda com os dedos da mo esquerda, no tero 
tido a impresso de qualquer distrbio grave do movimento. A um exame mais acurado, verificar-se- que o brao esquerdo, em especial os dedos, so movimentados mais 
lentamente e com menos habilidade, como se estivessem entorpecidos, e com um leve tremor. Todos os movimentos, at os mais complicados, so, todavia, executados, 
e isso acontece sempre que a ateno do paciente  desviada dos rgos do movimento e dirigida unicamente para o objetivo do movimento. As coisas se passam diversamente 
quando lhe peo que efetue movimentos isolados com o brao esquerdo, sem qualquer objetivo mais remoto - como, por exemplo, dobrar o brao na articulao do cotovelo 
enquanto segue o movimento com os olhos. Nesse caso, seu brao esquerdo parece muito mais inibido do que antes, o movimento  feito com muita lentido, incompletamente, 
em estgios diferentes, como se houvesse uma grande resistncia a ser vencida, e  acompanhado de um ntido tremor. Os movimentos dos dedos so extraordinariamente 
dbeis nessas circunstncias. Uma terceira espcie da perturbao do movimento, a mais grave, surge, finalmente, quando o paciente  solicitado a efetuar movimentos 
isolados com os olhos fechados. Por certo, algo se passa no membro que est absolutamente anestesiado, pois, como vem, a inervao motora  independente de qualquer 
informao sensitiva do tipo que normalmente procede de um membro que vai ser movimentado; esse movimento, no entanto,  mnimo, de modo algum dirigido a um determinado 
segmento, e no determinvel quanto  sua direo por parte do paciente. No suponham, porm, que esse ltimo tipo de perturbao do movimento seja uma conseqncia 
necessria da anestesia;  precisamente com relao a esse aspecto que se encontram marcantes diferenas individuais. Observamos, no Salptrire, pacientes com anestesias 
que, de olhos fechados, conservam um controle muito mais acentuado de membros que tivessem sido eliminados da conscincia.
           A mesma influncia da ateno desviada e do olhar aplica-se  perna esquerda. Hoje, durante pelo menos uma hora, o paciente caminhou a meu lado pelas 
ruas, a passos rpidos, sem olhar para seus ps enquanto andava. E tudo o que pude notar foi que pisava com o p esquerdo girando-o um pouco para fora e que, muitas 
vezes, arrastava-o pelo cho. Mas quando lhe ordeno que ande, ele tem que acompanhar com os olhos cada movimento da perna anestesiada, e o movimento faz-se lento 
e hesitante, cansando-o com muita facilidade. Por fim, com os olhos fechados, ele caminha completamente inseguro e se desloca mantendo ambos os ps em contato com 
o cho, como faria qualquer um de ns se caminhasse no escuro em local desconhecido. Ele tambm tem grande dificuldade em permanecer de p apenas sobre a perna esquerda; 
quando fecha os olhos nessa posio, cai imediatamente ao cho.
           Prosseguirei com a descrio do comportamento de seus reflexos. Estes so, em geral, mais vivos do que o normal e, alm disso, mostram pequena coerncia 
entre si. Os reflexos do trceps e do extensor so efetivamente mais vivos na extremidade direita, no anestesiada. O reflexo patelar parece mais vivo na esquerda; 
o reflexo do tendo de Aquiles  igual em ambos os lados.Tambm  possvel obter uma discreta reao patelar, mais nitidamente observvel  direita. Os reflexos 
do cremaster esto ausentes; por outro lado, os reflexos abdominais so rpidos, sendo que o esquerdo est intensamente aumentado, de modo que o mais leve toque 
numa rea da pele do abdmen provoca uma contrao mxima do msculo reto-abdominal esquerdo.
           Em conjugao com uma hemianestesia histrica, nosso paciente mostra, tanto espontaneamente como sob presso, reas dolorosas nesse lado do corpo que 
, em outros aspectos, o lado insensvel - o que se conhece como "zonas histergenas", embora nesse caso sua conexo com a provocao dos ataques no seja acentuada. 
Assim o nervo trigmeo, cujos ramos terminais, como lhes mostrei anteriormente, so sensveis  presso,  a sede de uma zona histergena desse tipo; tambm o so 
uma estreita rea na fossa cervical mdia esquerda, uma faixa mais larga na parede esquerda do trax (onde a pele tambm  sempre sensvel), a parte lombar da coluna 
e a parte mediana do osso sacro (a pele  sensvel tambm sobre a poro anterior dessas). Finalmente, o cordo espermtico esquerdo est muito sensvel  dor, e 
essa zona se prolonga no trajeto do cordo espermtico, pela cavidade abdominal, at a rea que, nas mulheres, freqentemente  sede da "ovaralgia".
           Devo acrescentar dois comentrios referentes aos desvios que nosso caso apresenta em relao ao quadro tpico da hemianestesia histrica. O primeiro diz 
respeito ao fato de que o lado direito do corpo do paciente tambm no est livre da anestesia, ainda que no seja em grau intenso e parea afetar apenas a pele. 
H, portanto, uma zona de diminuio da sensitividade  dor (e  temperatura) sobre a salincia do ombro direito; uma outra estende-se em forma de faixa ao redor 
da extremidade distal do antebrao; a perna direita apresenta hipoestesia no lado externo da coxa e na panturrilha.
           Um segundo comentrio refere-se ao fato de que a hemianestesia de nosso paciente mostra muito nitidamente a caracterstica da instabilidade. Assim, num 
teste para sensitividade eltrica, contrariando minha expectativa, tornei sensvel uma rea de pele no cotovelo esquerdo; e testes repetidos mostraram que a extenso 
das zonas dolorosas do tronco e as perturbaes do sentido da viso oscilavam de intensidade.  nessa instabilidade do distrbio da sensitividade que baseio minha 
esperana de ser capaz de restaurar a sensitividade normal do paciente, dentro de pouco tempo.
           
           
           
           
           
           
           
           
         
         DUAS BREVES RESENHAS
           
           
           RESENHA DE DIE AKUTE NEURASTHENIE. DE AVERBECK
           
           A insuficincia da chamada formao mdica adquirida em nossos hospitais, diante das necessidades dos mdicos clnicos, revela-se com maior nitidez, talvez, 
a partir do exemplo da "neurastenia". Esse estado patolgico do sistema nervoso seguramente pode ser classificado como a mais comum de todas as doenas em nossa 
sociedade: complica e agrava muitssimo outros quadros clnicos em pacientes das melhores classes, sendo ainda praticamente desconhecido dos mdicos de boa formao 
cientfica, ou tido por eles como apenas um nome moderno com contedo arbitrariamente constitudo. A neurastenia no  um quadro clnico no sentido dos manuais que 
se baseiam, com demasiada exclusividade, na anatomia patolgica: de preferncia, deve ser descrita como um modo de reao do sistema nervoso. Mereceria a mxima 
ateno da parte dos mdicos que trabalham cientificamente - ateno no menor do que a j demonstrada pelos mdicos que trabalham como terapeutas, pelos diretores 
de sanatrios etc. Deve-se, portanto, recomendar a crculos mais amplos esse breve trabalho, em virtude de suas descries oportunas intencionalmente veementes, 
e de suas proposies e observaes referentes s condies sociais. Estas, como suspeita seu autor, nem sempre encontraro a concordncia de seus colegas, embora 
o trabalho venha a despertar o interesse deles em todas as reas. Sua observao sobre o servio militar obrigatrio como cura para os males da vida civilizada e 
sua proposio de que se deve possibilitar uma recuperao peridica para os trabalhadores da classe mdia em pocas de boa sade, por intermdio da assistncia 
do Estado - estas esto abertas a mltiplas objees. Contudo, deve-se admitir que o livreto trata imaginativamente de importantes questes relativas  assistncia 
mdica.
           DR. SIGM. FREUD
           
           RESENHA DE DIE BEHADLUNG GEWISSER FORMEN VON NEURASTHENIE UND HYSTERIE, DE WEIR MITCHELL
           
           O mtodo teraputico proposto por Weir Mitchell, originalssimo especialista em doenas nervosas de Filadlfia, foi recomendado na Alemanha, pela primeira 
vez, por Burkart e teve pleno reconhecimento durante o ano passado, numa conferncia proferida por Leyden. Esse mtodo, combinando repouso no leito, isolamento, 
alimentao abundante, massagem e eletricidade, de forma estritamente controlada, supera os estados de exausto nervosa graves e de longa durao.  tambm Leyden 
o responsvel pela consecuo da traduo desse pequeno livro. Ele contm os mais valiosos conselhos para a seleo de casos adequados ao tratamento em questo e 
algumas observaes interessantes sobre a atuao das diferentes foras teraputicas que compem o tratamento de Wier Mitchell. Sem dvida, trar a todos os mdicos 
uma ampliao de seus conhecimentos. A ordenao especificamente inglesa das frases e pensamentos talvez tenha sido preservada com demasiada exatido na traduo. 
Os termos "histeria" e "histrico" so empregados quase sempre no sentido vulgar, e no no sentido cientfico dessa palavra to deturpada.
           DR. SIGM. FREUD
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
         
         
         HISTERIA (1888)
           
           NOTA DO EDITOR INGLS
           
           HYSTERIE
            (a) EDIES ALEMS:
           1888 Em Handwrterbuch der gesamten Medizin, org. de A. Villaret, Stuttgart, 1, 886-92.
           1953 Psyche, 7 (9), 486-500.
           
           A presente traduo, de James Strachey, parece ser a primeira para o ingls.
           
           Em duas das cartas que escreveu a Fliess, publicadas nos Anfnge (1950a), datadas de 28 de maio (Carta 4) e 29 de agosto (Carta 5) de 1888 - e, implicitamente, 
numa terceira, de 24 de novembro de 1887 (Carta 1) -, Freud fala de suas contribuies  enciclopdia de Villaret, obra publicada em dois volumes (1888 e 1891). 
De vez que os verbetes na Villaret no levam assinatura, no  possvel ter completa certeza da autoria deles. O prprio Freud especifica apenas um deles nessas 
cartas - o que trata de anatomia cerebral - e queixa-se de que sofreu muitos cortes; contudo, em seu Estudo Autobiogrfico (1925d), menciona tambm um verbete sobre 
a afasia, Edio Standard Brasileira, Vol. XX, [1], IMAGO Editora, 1976. Os organizadores dos Anfnge sugerem ainda que os verbetes sobre as leses cerebrais infantis 
e sobre as paralisias poderiam ser atribudos a ele e, com maior convico, incluem como sendo provavelmente de Freud o que se refere  histeria, que  apresentado 
a seguir.
           A reimpresso, em 1953, desse verbete em Psyche, peridico de Stuttgart, vem precedida de um breve artigo escrito pelo Professor Paul Vogel, que faz um 
resumo admirvel e convincente dos argumentos que fazem crer seja o verbete realmente da autoria de Freud. Ningum pode ter dvidas quanto  sua autoria, lendo-o 
em conexo com os escritos contemporneos de Freud.  parte toda uma srie de reprodues de pontos de vista expostos por Freud em outros trabalhos que levam sua 
assinatura, existe um determinado aspecto que parece conclusivo. Trata-se de uma passagem, quase na parte final, em que o mtodo catrtico de tratamento  descrito 
explicitamente e atribudo a Breuer. Nessa data (1888), o mtodo de Breuer no tinha sido publicado nem por ele prprio nem por outra pessoa. Sua primeira publicao 
deu-se na "Comunicao Preliminar", de Breuer e Freud, mais de quatro anos depois (1893a). Freud, segundo ele prprio nos relata (1925d, Edio Standard Brasileira, 
Vol. XX, [1], IMAGO Editora, 1976), h muito gozava da confiana de Breuer e tinha tomado conhecimento de seu mtodo ainda antes de ir a Paris (em 1885). Assim, 
a autoria de Freud pode ser dada como estabelecida.
           O verbete, em seu conjunto, mostra Freud ainda seguindo fielmente as doutrinas de Charcot na sua descrio da histeria, embora, sem levar em conta a referncia 
a Breuer, haja duas ou trs passagens, especialmente no final do verbete, em que existem claros sinais de uma atitude mais independente.
           HISTERIA
           
           HISTERIA (??????, tero); (hystrie, em francs; hysterics [sic],em ingls; isteria, f., isterismo, m., em italiano).
           
           I. HISTRIA. - O nome "histeria" tem origem nos primrdios da medicina e resulta do preconceito, superado somente nos dias atuais, que vincula as neuroses 
s doenas do aparelho sexual feminino. Na Idade Mdia, as neuroses desempenharam um papel significativo na histria da civilizao; surgiam sob a forma de epidemias, 
em conseqncia de contgio psquico, e estavam na origem do que era fatual na histria da possesso e da feitiaria. Alguns documentos daquela poca provam que 
sua sintomatologia no sofreu modificao at os dias atuais. Uma abordagem adequada e uma melhor compreenso da doena tiveram incio apenas com os trabalhos de 
Charcot e da escola do Salptrire, inspirada por ele. At essa poca, a histeria tinha sido a bte noire da medicina. Os pobres histricos, que em sculos anteriores 
tinham sido lanados  fogueira ou exorcizados, em pocas recentes e esclarecidas, estavam sujeitos  maldio do ridculo; seu estado era tido como indigno de observao 
clnica, como se fosse simulao e exagero.
           A histeria  uma neurose no mais estrito sentido da palavra - quer dizer, no s no foram achadas nessa doena alteraes perceptveis do sistema nervoso, 
como tambm no se espera que qualquer aperfeioamento das tcnicas de anatomia venha a revelar alguma dessas alteraes. A histeria baseia-se total e inteiramente 
em modificaes fisiolgicas do sistema nervoso; sua essncia deve ser expressa numa frmula que leve em considerao as condies de excitabilidade nas diferentes 
partes do sistema nervoso. Uma frmula fisiopatolgica desse tipo, no entanto, ainda no foi descoberta; por enquanto, devemo-nos contentar em definir a neurose 
de um modo puramente nosogrfico, pela totalidade dos sintomas que ela apresenta, da mesma forma como a doena de Graves se caracteriza por um grupo de sintomas 
- exoftalmia, bcio, tremor, acelerao do pulso e alterao psquica -, sem qualquer considerao relativa a alguma conexo mais ntima entre esses fenmenos.
           
           II. DEFINIO. - As autoridades alems, assim como as inglesas, ainda hoje tm o hbito de distribuir caprichosamente as descries "histeria"e "histrico" 
e de agrupar indiscriminadamente a "histeria" com os estados nervosos em geral, a neurastenia, muitos dos estados psicticos e muitas neuroses que ainda no foram 
retiradas do caos das doenas nervosas. Charcot, pelo contrrio, sustenta com firmeza a opinio de que a "histeria"  um quadro clnico nitidamente circunscrito 
e bem definido, que pode ser reconhecido com bastante clareza nos casos extremos daquilo que se conhece como "grande hystrie" [grande histeria] (ou histeroepilepsia). 
A histeria cobre tambm as formas mais brandas e rudimentares que ocorrem numa srie que abrange toda uma gradao, desde o tipo da grande hystrie at o tipo normal. 
A histeria  fundamentalmente diferente da neurastenia, e, na verdade, estritamente falando,  o contrrio desta.
           
           III. SINTOMATOLOGIA. - A sintomatologia da "grande histeria", extremamente rica, mas nem por isso anrquica, compe-se de uma srie de sintomas que incluem 
os seguintes:
           (1) Ataques convulsivos. Estes so precedidos de uma "aura" peculiar: presso no epigstrio, constrio na garganta, latejamento nas tmporas, zumbido 
nos ouvidos, ou partes desse complexo de sensaes. Essas sensaes-aura, como so chamadas, tambm surgem, nos pacientes histricos, como sintomas isolados, ou 
representam em si mesmas um ataque.  especialmente conhecido o globus hystericus, uma sensao atribuvel aos espasmos da faringe, como se uma bola estivesse subindo 
do epigstrio para a garganta. Um ataque propriamente dito, quando completo, apresenta trs fases. A primeira, "epileptide", assemelha-se a um ataque epilptico 
unilateral. A segunda fase, a dos "grands mouvements", apresenta movimentos de "salamaleque", atitudes em arco (arc de cercle), contores e outros. A fora desenvolvida 
nesses ataques , com freqncia, muito grande. Para diferenar esses movimentos de um ataque epilptico, deve-se observar que os movimentos histricos sempre so 
executados com certa correo e de modo coordenado, o que contrasta nitidamente com a cega brutalidade dos espasmos epilpticos. Alm disso, mesmo nas convulses 
histricas mais violentas, geralmente se evitam os ferimentos comparativamente graves. A terceira fase, a fase alucinatria do ataque histrico, a das "attitudes 
passionelles", distingue-se pelas atitudes e posturas que sugerem cenas de movimento passional, que o paciente alucina e freqentemente acompanha com as palavras 
correspondentes. Durante todo o ataque, a conscincia pode conservar-se ou se perder - mais freqentemente ocorre a ltima dessas possibilidades. Os ataques do tipo 
descrito seguem-se freqentemente uns aos outros, em srie, de modo que o ataque inteiro pode durar diversas horas ou dias.  insignificante a elevao de temperatura 
durante os mesmos (em contraste com o que acontece na epilepsia). Cada fase do ataque ou cada parte separada de uma fase pode estar isolada e pode representar o 
ataque em casos rudimentares. Naturalmente, os ataques abreviados desse tipo so encontrados com freqncia incomparavelmente maior do que os ataques completos. 
Possuem especial interesse ataques histricos que, em lugar das trs fases, exibem um coma que surge de maneira apoplectiforme - os chamados "ataques de sommeil" 
[ataques de sono]. Esse coma pode assemelhar-se ao sono natural ou acompanhar-se de tamanha diminuio da respirao e da circulao a ponto de ser confundido com 
a morte. Existem casos autnticos de estados dessa espcie que duram semanas e meses; nesse sono prolongado, a nutrio corporal diminui gradualmente, mas no h 
risco de vida. - Em cerca de um tero dos casos de histeria, o sintoma dos ataques, o mais caracterstico, est ausente.
           (2) Zonas histergenas. Em ntima conexo com os ataques, encontramos as chamadas "zonas histergenas", reas supersensveis do corpo, nas quais um leve 
estmulo desencadeia um ataque cuja aura muitas vezes comea por uma sensao proveniente dessa rea. Tais reas podem situar-se na pele, nas partes profundas, nos 
ossos, nas membranas mucosas, at mesmo nos rgos dos sentidos. So encontradas com maior freqncia no tronco do que nos membros e tm preferncia por determinados 
locais - por exemplo, nas mulheres (e mesmo nos homens), numa rea da parede abdominal correspondente aos ovrios, na regio coronria do crnio e na regio inframamria; 
e nos homens, nos testculos e no cordo espermtico. A presso nessas reas desencadeia, com freqncia, no uma convulso, mas sim sensaes-aura. A partir de 
muitas das zonas histergenas tambm  possvel exercer uma influncia inibidora sobre os ataques convulsivos; uma vigorosa presso sobre a rea ovariana, por exemplo, 
desperta muitas pacientes no meio de um ataque histrico ou de um sono histrico. No caso dessas pacientes, pode-se fazer a preveno de um ataque ameaador fazendo-as 
usar um cinto semelhante auma funda para hrnia, cuja almofada comprima a rea ovariana. As zonas histergenas s vezes so numerosas, s vezes poucas, e podem ser 
unilaterais ou bilaterais.
           (3) Distrbios da sensibilidade. Estes so os sinais mais freqentes da neurose e os mais importantes do ponto de vista diagnstico. Persistem mesmo durante 
os perodos de remisso e so os mais importantes, porque os distrbios da sensibilidade desempenham um papel relativamente pequeno nas doenas cerebrais orgnicas. 
Consistem em anestesia ou hiperestesia e apresentam, quanto  extenso e ao grau de intensidade, uma variabilidade no observada em nenhuma outra doena. A anestesia 
pode afetar a pele, as membranas mucosas, os ossos, os msculos e nervos, os rgos dos sentidos e os intestinos; contudo, o mais comum  a anestesia da pele. No 
caso da anestesia histrica da pele, todas as diferentes espcies de sensaes da pele podem ser dissociadas e comportar-se de forma muito independente umas das 
outras. A anestesia pode ser total ou atingir apenas a sensao de dor (analgesia - que  a mais comum), ou apenas as sensaes de temperatura, presso ou eletricidade, 
ou a sensibilidade muscular. S uma possibilidade no se concretiza na histeria: uma diminuio do sentido do tato enquanto as outras propriedades so mantidas. 
Por outro lado, pode ocorrer que as sensaes puramente tteis dem origem a uma sensao de dor (alfalgesia). Muitas vezes, a anestesia histrica atinge um grau 
to elevado que a mais potente faradizao dos troncos nervosos no produz qualquer reao sensorial. Quanto  extenso, a anestesia pode ser total; em casos raros, 
pode afetar toda a superfcie da pele e a maioria dos rgos dos sentidos. Com maior freqncia, no entanto, trata-se de uma hemianestesia, como a que  produzida 
por uma leso da cpsula interna; distingue-se, porm, da hemianestesia devida a doena orgnica pelo fato de que geralmente ultrapassa a linha mdia em algum ponto 
- por exemplo, inclui a lngua, a laringe ou os genitais como um todo - e os olhos no so afetados sob a forma de hemianopsia, e sim de ambliopia ou amaurose em 
um olho. Ademais, a hemianestesia histrica apresenta maior variabilidade na forma como se distribui; pode acontecer que um dos rgos dos sentidos ou um rgo localizado 
no lado anestesiado escape inteiramente  anestesia, e qualquer rea sensvel no quadro da hemianestesia pode ser substituda pela rea simtrica do outro lado (transfert 
espontneo, ver [em [1]]). Por fim, a anestesia histrica pode surgir em focos disseminados unilaterais ou bilaterais, ou simplesmente em determinadas reas, de 
forma monoplgica nos membros ou em reas situadas sobre rgos internos atingidos por alguma doena (faringe, estmago etc.).
           
           Em todas essas relaes, ela pode ser substituda pela hiperestesia.
           No caso da anestesia histrica, os reflexos sensoriais ficam geralmente diminudos, como, por exemplo, o reflexo conjuntival, o do espirro e o faringiano; 
os reflexos vitais da crnea e da glote so, porm, mantidos. Os reflexos vasomotores e a dilatao pupilar mediante estimulao da pele no so interrompidos sequer 
no caso do mais elevado grau de anestesia. A anestesia histrica  sempre um sintoma a ser pesquisado pelo mdico, de vez que, na maior parte dos casos, mesmo quando 
tem ampla extenso e grande gravidade, geralmente escapa totalmente  percepo do paciente. Em contraste com a anestesia orgnica, deve-se enfatizar que os distrbios 
histricos da sensibilidade, a rigor, no prejudicam os pacientes em nenhuma atividade motora. As reas da pele que esto histericamente anestesiadas caracterizam-se, 
com freqncia, por anemia local e no sangram quando picadas; isso  apenas uma complicao, no constituindo, porm, condio necessria da anestesia.  possvel 
separar artificialmente os dois fenmenos um do outro. Freqentemente existe uma relao recproca entre a anestesia e as zonas histergenas, como se toda a sensibilidade 
de uma parte relativamente grande do corpo estivesse comprimida numa nica zona. - Os distrbios da sensibilidade so os sintomas nos quais  possvel basear um 
diagnstico de histeria, mesmo nas suas formas mais rudimentares. Na Idade Mdia, a descoberta de reas anestsicas e no-hemorrgicas (sigmata Diaboli) era considerada 
prova de feitiaria.
           (4) Distrbios da atividade sensorial. Estes podem afetar todos os rgos dos sentidos e podem aparecer simultaneamente com ou independentemente de modificaes 
na sensibilidade da pele. O distrbio histrico da viso consiste em amaurose ou ambliopia unilaterais, ou ambliopia bilateral, mas nunca em hemianopsia. Seus sintomas 
so: fundo de olho normal ao exame; ausncia do reflexo conjuntival (reflexo corneano diminudo); estreitamento concntrico do campo visual; reduo da percepo 
luminosa; e acromatopsia. No caso do ltimo sintoma citado, a sensibilidade ao roxo  a primeira a ser perdida, e a sensibilidade ao vermelho ou ao azul  a que 
persiste por mais tempo. Os fenmenos no se coadunam com nenhuma teoria do daltonismo; as diferentes sensibilidades s cores comportam-se independentemente umas 
das outras. So freqentes os distrbios da acomodao, assim como as falsas concluses deles resultantes. Os objetos que se aproximam do olho e que dele se afastam 
so vistos em tamanhos diferentes e duplicados ou multiplicados (diplopia monocular com macropsia ou micropsia). - A surdez histrica raramente  bilateral; , com 
muita freqncia, mais ou menos completa, combinada com anestesia do pavilho da orelha, do canal auditivo e atmesmo da membrana do tmpano. Quando existe distrbio 
histrico do paladar e tambm do olfato, via de regra  possvel encontrar anestesia das regies da pele e da membrana mucosa pertencentes aos rgos desses sentidos. 
So freqentes em pacientes histricos a parestesia e a hiperestesia dos rgos inferiores dos sentidos; s vezes, h uma extraordinria exacerbao da atividade 
sensria, especialmente do olfato e da audio.
           (5) Paralisias. As paralisias histricas so mais raras do que a anestesia e quase sempre acompanhadas de anestesia da parte do corpo paralisada, ao passo 
que, nas doenas orgnicas, os distrbios da motilidade predominam e surgem independentemente da anestesia. As paralisias histricas no levam em conta a estrutura 
anatmica do sistema nervoso, a qual, conforme se sabe, evidencia-se da maneira mais inequvoca na distribuio das paralisias orgnicas. Acima de tudo, no existem 
paralisias histricas que se possam equiparar s paralisias perifricas do facial, do radial ou do denteado - isto , que abranjam grupos de msculos ou de msculos 
e pele, agrupados segundo a inervao anatmica comum. As paralisias histricas s so comparveis s paralisias corticais, porm se distinguem destas por mltiplos 
aspectos. Assim, existe a hemiplegia histrica na qual, entretanto, so atingidos somente o brao e a perna do mesmo lado: no existe paralisia facial histrica. 
Quando muito, alm da paralisia dos membros, pode haver uma contratura dos msculos faciais e da lngua, situada, s vezes, no lado da paralisia e, s vezes, no 
lado oposto, e manifestada, entre outras coisas, por um excessivo desvio da lngua. Uma outra caracterstica que distingue a hemiplegia histrica  o fato de que 
a perna paralisada no se movimenta, na articulao da coxa, em circunduo, mas  arrastada como um apndice morto. A hemiplegia histrica sempre est ligada a 
uma hemianestesia que, em geral,  de intensidade comparativamente grave. Alm disso, na histeria encontramos paralisia de um brao ou de uma perna, independentemente, 
ou de ambas as pernas (paraplegia). Nesse ltimo caso, a paralisia do intestino e da bexiga pode acompanhar a anestesia das pernas e, por conseguinte, o quadro clnico 
pode vir a se assemelhar de perto a uma paraplegia medular. E mais, a paralisia, em vez de se estender a um membro em todas as suas partes, pode afetar segmentos 
do mesmo - mo, ombro, cotovelo etc. Com relao a isso, no h preferncia para a parte distal, ao passo que  caracterstico de uma paralisia orgnica ser esta 
sempre mais marcada na poro distal de um membro do que nas partes proximais. No caso de paralisia parcial de um membro, a anestesia geralmente obedece aos mesmos 
limites que a paralisia e  circunscrita por linhas que fazem ngulos retos com o eixo longitudinal do membro. Na paralisia histrica das pernas, o tringulo de 
pele situado entre os msculos glteos, correspondente ao nervo sacro, no  afetado pela anestesia. Em todas essas paralisias esto ausentes os fenmenos da degenerao 
descendente, por mais que durem as paralisias; muitas vezes, h uma intensa flacidez muscular e o comportamento dos reflexos  inconstante; por outro lado, os membros 
paralisados podem atrofiar-se, e realmente sucumbem a uma atrofia que se desenvolve muito rapidamente, logo atinge uma parada e no se faz acompanhar por nenhuma 
alterao na excitabilidade eltrica. s paralisias dos membros deve-se acrescentar a afasia histrica, ou, mais corretamente, a mudez, que consiste numa incapacidade 
de produzir qualquer som articulado ou [mesmo] de executar movimentos da fala sem voz.  sempre acompanhada de afonia, que tambm pode ocorrer isoladamente; nesses 
casos, a capacidade de escrever  conservada e at mesmo aumentada. As demais paralisias motoras encontradas na histeria no podem ser relacionadas a partes do corpo, 
mas apenas a funes, como, por exemplo, astasia e abasia (incapacidade de andar e de manter-se de p); isto ocorre enquanto as pernas mantm sua sensibilidade, 
sua fora total e a capacidade de executar qualquer tipo de movimento quando em posio horizontal - uma separao das funes dos mesmos msculos no encontrada 
nas leses orgnicas. Todas as paralisias histricas distinguem-se pelo fato de que podem ser da maior gravidade, mas, ao mesmo tempo, limitam-se nitidamente a uma 
determinada parte do corpo, ao passo que as paralisias orgnicas, via de regra, estendem-se por uma rea maior,  medida que sua gravidade aumenta.
           (6) Contraturas. Nas formas mais graves de histeria, h uma tendncia geral no sentido de o aparelho reagir a pequenos estmulos atravs de contratura 
(diathse de contracture). Para isso pode ser suficiente a simples aplicao de uma faixa de Esmarch. As contraturas dessa espcie tambm ocorrem com freqncia 
em casos graves e nos msculos mais variados. Nos membros, elas se caracterizam por sua excessiva intensidade e podem ocorrer em qualquer posio, o que no se explica 
pela estimulao de determinados troncos nervosos. Apresentam uma persistncia incomum, no relaxam com o sono, como ocorre com as contraturas orgnicas, e no se 
consegue modificar sua intensidade mediante excitao, temperatura etc. Somente cedem com a narcose mais profunda, e recobram sua intensidade total quando o paciente 
acorda. As contraturas musculares so muito freqentes nos outros rgos, nos rgos dos sentidos, nos intestinos e, num grande nmero de casos, tambm constituem 
o mecanismo pelo qual a funo fica suspensa nas paralisias. A tendncia aos espasmos clnicos tambm aumenta muito na histeria.
           (7) Caractersticas gerais. A sintomatologia da histeria tem uma srie de caractersticas gerais; conhec-las  importante tanto para o diagnstico como 
para a compreenso da histeria. As manifestaes histricas tm, preferentemente, a caracterstica de serem exageradas: uma dor histrica  descrita pelos pacientes 
como extremamente dolorosa; uma anestesia e uma paralisia podem com facilidade tornar-se absolutas; uma contratura histrica causa a maior retrao de que um msculo 
 capaz. Ao mesmo tempo, qualquer sintoma particular pode ocorrer, por assim dizer, isoladamente: a anestesia e a paralisia no se acompanham dos fenmenos gerais 
que, no caso das leses orgnicas, evidenciam a afeco cerebral e que, no geral, devido a sua importncia, obscurecem os sintomas localizados. Muito prximo de 
uma rea de pele absolutamente insensvel, poder haver uma outra rea de sensibilidade absolutamente normal. Concomitantemente com um brao completamente paralisado, 
poder haver, do mesmo lado, uma perna perfeitamente intacta.  especialmente caracterstico da histeria que seja um distrbio, ao mesmo tempo, desenvolvido no mais 
alto grau e limitado da maneira mais ntida. Ademais, os sintomas histricos mudam de uma forma que, de sada, exclui qualquer suspeita de leso orgnica. Essa mutabilidade 
dos sintomas realiza-se ou espontaneamente (por exemplo, depois de ataques convulsivos, que muitas vezes alteram a distribuio da paralisia e da anestesia, ou as 
interrompem), ou por influncia artificial dos chamados mtodos estesiognicos, tais como a eletricidade, a aplicao de metais, o emprego de irritantes cutneos, 
ms etc. Esse ltimo mtodo de influncia parece extremamente notvel, tendo em vista o fato de que um sistema nervoso histrico oferece, em regra geral, uma grande 
resistncia  influncia qumica por meio da medicao interna e reage de forma decididamente refratria aos narcticos como a morfina e o hidrato de cloral. - Entre 
os meios capazes de remover os sintomas histricos, cabe mencionar com especial nfase a influncia da excitao e da sugesto hipntica, esta ltima porque atinge 
diretamente o mecanismo dos distrbios histricos e no se pode suspeitar que produza nenhum outro efeito alm dos efeitos psquicos. Quando os sintomas histricos 
mudam, algumas circunstncias marcantes entram em jogo. Pelo uso de mtodos "estesiognicos"  possvel transferir uma anestesia, uma paralisia, uma contratura, 
um tremor etc. para a rea simtrica da outra metade do corpo ("transfert"), enquanto a rea originalmente afetada se normaliza. Desse modo, a histeria fornece provas 
da relao simtrica, havendo, ademais, indcios de que tal relao desempenha um papel tambm nos estados fisiolgicos - tal como, em geral, as neuroses no criam 
nada de novo, mas simplesmente desenvolvem e exageram as relaes fisiolgicas. Uma outra caracterstica muito importante dos distrbios histricos  que estes de 
modo algum representam uma cpia das condies anatmicas do sistema nervoso. Pode-se dizer que a histeria  to ignorante da cincia da estrutura do sistema nervoso 
como ns o somos antes de t-la aprendido. Os sintomas de afeces orgnicas, como se sabe, refletem a anatomia do rgo central e so as fontes mais fidedignas 
de nosso conhecimento a respeito dele. Por essa razo, temos de descartar a idia de que na origem da histeria esteja situada alguma possvel doena orgnica; e 
no devemos apelar para as influncias vasomotoras (espasmos vasculares) como causa dos distrbios histricos. Um espasmo vascular , em essncia, uma modificao 
orgnica, cujo efeito  determinado pelas condies anatmicas; difere da embolia, por exemplo, somente pelo fato de que no produz nenhuma alterao permanente.
           Juntamente com os sintomas fsicos da histeria, pode-se observar toda uma srie de distrbios psquicos nos quais, futuramente, sero sem dvida encontradas 
as modificaes caractersticas da histeria, mas cuja anlise, at o momento, mal comeou. Esses distrbios psquicos so alteraes no curso e na associao de 
idias, inibies na atividade da vontade, exagero e represso dos sentimentos etc. - que podem ser resumidos como alteraes na distribuio normal, no sistema 
nervoso, das quantidades estveis de excitao. Uma psicose, no sentido psiquitrico do termo, no faz parte da histeria, ainda que possa desenvolver-se sobre a 
base do estado histrico, nesse caso devendo ser considerada uma complicao. Aquilo que popularmente se descreve como temperamento histrico - instabilidade da 
vontade, alteraes do humor, aumento da excitabilidade com diminuio de todos os sentimentos altrusticos - pode estar presente na histeria, mas no  absolutamente 
necessrio para seu diagnstico. Existem casos graves de histerianos quais est inteiramente ausente uma alterao psquica desse tipo; muitos dos pacientes que 
pertencem a essa classe encontram-se entre as pessoas mais amveis e inteligentes, de vontade muito forte, que percebem nitidamente sua doena como algo alheio  
sua natureza. Os sintomas psquicos tm sua significao dentro do quadro total da histeria, mas no so mais constantes do que os diferentes sintomas fsicos, os 
estigmas. Por outro lado, as modificaes psquicas, que devem ser assinaladas como o fundamento do estado histrico, ocorrem inteiramente na esfera da atividade 
cerebral inconsciente, automtica. Talvez ainda se possa acentuar que na histeria (como em todas as neuroses) aumenta a influncia dos processos psquicos sobre 
os processos fsicos do organismo, e que os pacientes histricos funcionam com um excesso de excitao no sistema nervoso - excesso que se manifesta ora como inibidor, 
ora como irritante, deslocando-se com grande mobilidade dentro do sistema nervoso. [1]
           A histeria deve ser considerada como um estado, uma ditese nervosa que eclode de tempos em tempos. A etiologia do status hystericus deve ser buscada 
inteiramente na hereditariedade: os histricos sempre tm uma disposio hereditria para perturbaes da atividade nervosa; entre seus parentes so encontrados 
epilpticos, doentes mentais, tabticos etc. A transmisso hereditria direta da histeria tambm  constatada; e  a origem, por exemplo, do surgimento da histeria 
em meninos (originria da me). Comparados com o fator, da hereditariedade, todos os outros fatores situam-se em lugar secundrio e assumem o papel de causas incidentais, 
cuja importncia quase sempre  superestimada na prtica. As causas acidentais de histeria, no entanto, so importantes na medida em que desencadeiam o incio de 
ataques histricos, de histerias agudas. Como fatores capazes de propiciar o desenvolvimento de uma disposio histrica, podem ser mencionados: a criao cheia 
de mimos (histeria em filhos nicos), o despertar prematuro da atividade mental nas crianas, excitamentos freqentes e violentos. Todas essas influncias possuem 
igual tendncia a produzir neuroses de outros tipos (por exemplo, neurastenia), de forma que nisto fica flagrantemente demonstrada a influncia decisiva da disposio 
hereditria. Como fatores que fazem irromper a doena histrica aguda podem se citados: trauma, intoxicao (chumbo, lcool), luto, emoo comsumptiva - tudo, enfim, 
capaz de exercer um efeito de natureza prejudicial. Em outras ocasies, os estados histricos muitas vezes so gerados por causas banais ou obscuras. No que diz 
respeito ao que freqentemente se considera como a influncia preponderante das anormalidades na esfera sexual sobre o desenvolvimento da histeria, deve-se dizer 
que, no mais das vezes, sua importncia  superestimada. Em primeiro lugar, a histeria  encontrada em meninas e meninos sexualmente imaturos, do mesmo modo como 
a neurose tambm ocorre com todas as suas caractersticas no sexo masculino, embora muito mais raramente (1:20). Ademais, a histeria tem sido constatada em mulheres 
que apresentam ausncia total da genitlia, e todo mdico deve ter verificado numerosos casos de histeria em mulheres cujos genitais no mostravam absolutamente 
nenhuma alterao anatmica; do mesmo modo, em contrapartida, a maioria das mulheres com doenas dos rgos sexuais no sofre de histeria. Entretanto, tem-se de 
admitir que as condies funcionalmente relacionadas  vida sexual desempenham importante papel na etiologia da histeria (assim como na de todas as neuroses), e 
isto se d em virtude da elevada significao psquica dessa funo, especialmente no sexo feminino. - O trauma  uma causa incidental freqente da doena histrica, 
em dois sentidos: primeiro, porque a disposio histrica, anteriormente no detectada, pode manifestar-se por ocasio de um trauma fsico intenso, que se acompanha 
de medo e perda momentnea da conscincia; em segundo lugar, porque a parte do corpo afetada pelo trauma se torna sede de uma histeria local. Assim, por exemplo, 
em pessoas histricas, a uma leve contuso da mo pode seguir-se o desenvolvimento de uma contratura da mo, ou, em circunstncias anlogas, pode-se desenvolver 
uma coxalgia dolorosa, e assim por diante. Para os cirurgies,  da maior importncia ter um conhecimento mais ntimo dessas afeces rebeldes; em casos dessa espcie, 
uma interveno cirrgica no pode seno prejudicar. O diagnstico diferencial desses estados nem sempre  fcil, especialmente quando eles envolvem articulaes. 
Os estados mrbidos causados por trauma geral grave (acidentes ferrovirios etc.), conhecidos como "railway spine" e "railway brain", so considerados histeria por 
Charcot, com o que concordam os autores americanos, com inquestionvel autoridade nesse assunto. Esses estados freqentemente possuem a mais sombria e grave aparncia; 
apresentam-se combinados com depresso e humor melanclico e mostram, seja de que maneira for, em numerosos casos, uma combinao de sintomas histricos com sintomas 
neurastnicos e orgnicos. Charcot provou que tambm a encefalopatia conseqente ao saturnismo est relacionada com a histeria e, ademais, que a anestesia comum 
nos alcolatras no  uma doena  parte, mas sim um sintoma de histeria. Contudo, ope-se  idia de estabelecer diferentes subespcies de histeria (traumtica, 
alcolica, saturnina etc.); ele insiste em que a histeria  sempre a mesma e que simplesmente  provocada por uma srie de diferentes causas incidentais. Tambm 
na sfilis de instalao recente tem-se observado o surgimento de sintomas histricos.
           
           IV. EVOLUO DA HISTERIA. - A histeria, mais do que uma doena circunscrita, representa uma anomalia constitucional. Em geral, seus primeiros sinais provavelmente 
aparecem na adolescncia. Na verdade, as doenas histricas, mesmo as de gravidade considervel, no so raridade em crianas entre seis e dez anos. Em meninos e 
meninas de intensa disposico histrica, o perodo anterior e posterior  puberdade enseja um primeiro surto da neurose. Na histeria infantil so encontrados os 
mesmos sintomas das neuroses dos adultos. No entanto, os estigmas quase sempre so mais raros; em primeiro plano esto as alteraes psquicas, os espasmos, os ataques 
e as contraturas. As crianas histricas so, com bastante freqncia, precoces e altamente dotadas; em numerosos casos, a histeria , por certo, simplesmente sintoma 
de profunda degenerao do sistema nervoso, que se manifesta em perverso moral permanente. Conforme se sabe, a juventude, dos quinze anos em diante,  o perodo 
no qual a neurose histrica, na maioria das vezes, se mostra ativa em pessoas do sexo feminino. Isto pode acontecer devido a uma sucesso ininterrupta de distrbios 
relativamente leves (histeria crnica), ou devido a diversos surtos graves (histeria aguda) separados por intervalos livres que duram anos. Em geral, os primeiros 
anos de um casamento feliz interrompem a doena; quando as relaes conjugais se tornam mais frias e os nascimentos sucessivos acarretam um esvaziamento, reaparece 
a neurose. Nas mulheres com mais de quarenta anos, a doena geralmente no apresenta fenmenos novos; mas os antigos sintomas podem persistir, e at mesmo numa idade 
avanada a doena pode intensificar-se diante de provocaes fortes. Os homens em idade juvenil parecem particularmente suscetveis  histeria devida a trauma e 
intoxicao. A histeria masculina tem a aparncia de uma doena grave; os sintomas que produz so quase sempre pertinazes; a doena, em homens, de vez que tem a 
importncia maior de provocar uma interrupo do trabalho, tem tambm maior importncia prtica. - Tambm existe algo de caracterstico a respeito do rumo que tomam 
os diferentes sintomas histricos (como as contraturas, as paralisias etc.) Em alguns casos, os sintomas isolados desaparecem espontaneamente, com grande rapidez, 
e do lugar a outros, igualmente transitrios; em outros casos, todos os fenmenos so dominados por grande fixidez. As contraturas e paralisias muitas vezes podem 
durar anos e, depois, desaparecer inesperada e subitamente. De modo geral, no h limite para a curabilidade dos distrbios histricos;  caracterstico de uma funo 
acometida de distrbio, depois de estar interrompida durante anos, ser, de repente, restaurada em sua totalidade. Por outro lado, a evoluo dos distrbios histricos 
muitas vezes exige uma espcie de incubao, ou melhor, um perodo de latncia, durante o qual a causa desencadeante continua atuando no inconsciente. Assim,  raro 
que uma paralisia histrica aparea imediatamente depois de um trauma; as pessoas envolvidas num acidente de trem, por exemplo, so totalmente capazes de movimentar-se 
aps o trauma e vo para casa aparentemente inclumes; somente alguns dias ou semanas depois  que se produzem os fenmenos que levam  conjectura de uma "concusso 
da medula". Assim, tambm a recuperao que se opera bruscamente requer, em geral, um perodo de diversos dias para se desenvolver. Em todo caso, pode-se afirmar 
que a histeria nunca constitui grave risco de vida, mesmo nas suas manifestaes mais ameaadoras. Alm disso, nos prprios casos mais prolongados de histeria, preservam-se 
uma completa clareza intelectual e uma capacidade at para realizaes no-corriqueiras.
           A histeria pode estar combinada com muitas outras doenas nervosas neurticas e orgnicas, e tais casos oferecem grandes dificuldades  anlise. A mais 
comum  a combinao da histeria com a neurastenia; isto ocorre ou quando se tornam neurastnicas as pessoas cuja disposio histrica estquase esgotada, ou quando 
impresses agravantes desencadeiam ambas as neuroses simultaneamente. Infelizmente, a maioria dos mdicos ainda no aprendeu a fazer a distino entre essas duas 
neuroses. Essa combinao  encontrada, com muita freqncia, em homens histricos. O sistema nervoso masculino tem uma disposio to preponderante para a neurastenia 
como o feminino para a histeria. Alm disso, tambm  superestimada a freqncia da histeria feminina; a maioria das mulheres que os mdicos supem sejam histricas 
so, estritamente falando, apenas neurastnicas. Ademais, a "histeria local" pode acompanhar doenas locais de rgos isolados; uma articulao que est realmente 
mictica pode se tornar sede de artralgia histrica; um estmago com afeco catarral pode originar vmitos histricos, globus hystericus e anestesia ou hiperestesia 
da mucosa do epigstrio. Nesses casos, a doena orgnica torna-se causa eventual da neurose. As doenas febris geralmente interrompem o desenvolvimento da neurose 
histrica; uma hemianestesia histrica regride na presena de febre.
           
           V. TRATAMENTO DA NEUROSE. - Esse assunto dificilmente pode ser abordado em poucas palavras. Nenhuma outra doena dispe o mdico a fazer tantos milagres 
ou mostrar-se to impotente. Do ponto de vista do tratamento devem ser destacadas trs tarefas: o tratamento da disposio histrica, dos ataques histricos (histeria 
aguda) e dos sintomas histricos isolados (histeria local). O tratamento da disposio histrica proporciona ao mdico uma certa liberdade de escolha dos mtodos. 
A disposio no pode ser eliminada, mas podem-se instituir medidas profilticas, tomando-se cuidado para que os exerccios fsicos e a higiene no sejam postos 
de lado em benefcio exclusivo do trabalho intelectual; pode-se aconselhar a no sobrecarregar de esforos o sistema nervoso; pode-se tratar a anemia ou a clorose, 
que parecem emprestar um apoio especial  tendncia  neurose; por fim, pode-se no levar em conta a importncia dos sintomas histricos benignos. Deve-se ter a 
cautela de no revelar com demasiada clareza o interesse, na qualidade de mdico, por sintomas histricos de pouca gravidade, a fim de no incentiv-los. O trabalho 
intelectual srio, ainda que rduo, raramente causa histeria, embora, por outro lado, esse reparo crtico possa ser endereado  educao das melhores classes da 
sociedade, que se empenha pelo cultivo exagerado do sentimento e da sensibilidade. Nesse sentido, os mtodos das geraes anteriores de mdicos (que tratavam as 
manifestaes histricas nos jovens como m-criao e fraqueza da vontade e os ameaavam com castigos) no eram mtodos ruins, ainda que dificilmente estivessem 
baseados em concepes corretas. No tratamento da neurose em crianas, a proibio autoritria pode conseguir mais resultados do que qualquer outro mtodo. Na verdade, 
esse tipo de tratamento no tem xito algum quando aplicado  histeria de adultos ou a casos graves. No tratamento de histerias agudas, nas quais a neurose constantemente 
produz fenmenos novos, o trabalho do mdico  penoso:  fcil cometer erros, e os xitos so raros. A primeira condio para uma interveno bem-sucedida consiste, 
quase sempre, em remover o paciente de suas condies habituais e isol-lo do crculo em que ocorreu o ataque. Essas medidas no so por si mesmas benficas, mas 
possibilitam uma estrita observao mdica e permitem ao mdico dedicar ao paciente uma ateno cuidadosa, sem a qual jamais ter xito no tratamento da histeria. 
Via de regra, um homem histrico - ou uma mulher histrica - no constitui um nico membro neurtico do crculo familiar. O alarma ou o excesso de preocupao dos 
pais ou dos parentes s fazem aumentar a excitao ou a tendncia do paciente, quando nele existe uma modificao psquica, a exibir sintomas mais intensos. Se, 
por exemplo, ocorre um ataque em determinada hora, diversas vezes e sucessivamente, esse ataque ser aguardado pela me do paciente, com regularidade, na mesma hora; 
ansiosamente perguntar ao filho se ele no est se sentindo mal, com isso assegurando a repetio do evento temido. So muito raros os casos em que se consegue 
induzir os parentes a enfrentarem os ataques histricos de uma criana com calma e aparente indiferena; em geral, o convvio com a famlia deve ser substitudo 
por um perodo de internao em casa de sade e a isto os parentes geralmente oferecem maior resistncia do que os prprios pacientes. No sanatrio as percepes 
deformadas do paciente diante da segurana amvel e animadora do mdico e sua convico, que logo se transferem para o paciente, revelam que a neurose no  perigosa 
e pode ser curada rapidamente; a evitao de toda excitao emocional que possa contribuir para um ataque histrico; a aplicao de todo tipo de tratamentos revigorantes 
(massagem, faradizao geral, hidroterapia) - sob todas essas influncias, constata-se que as mais graves histerias agudas, que causaram ao paciente um total colapso 
fsico e moral, do lugar  sade no decorrer de alguns meses. Nestes ltimos anos, a chamada "cura de repouso" de Weir Mitchell (tambm conhecida como tratamento 
de Playfair) conquistou elevada e merecida reputao como mtodo para tratamento da histeria em instituies. Ela consiste numa combinao de isolamento em absoluta 
tranqilidade com aplicao sistemtica de massagens e faradizao geral; a assistncia de uma enfermeira experiente  to essencial como a influncia constante 
do mdico. Esse tratamento tem extraordinrio valor na histeria, como a feliz combinao de "traitement moral" e de melhora no estado geral da nutrio do paciente. 
No deve ser considerado, contudo, como algo sistematicamente completo em si mesmo; o isolamento, em especial, e a influncia do mdico permanecem sendo os agentes 
principais e, juntamente com a massagem e a eletricidade, os outros mtodos teraputicos no devem ser negligenciados. O melhor esquema consiste em, aps quatro 
a oito semanas de repouso no leito, aplicar hidroterapia e ginstica, assim como encorajar ampla movimentao. No caso de outras neuroses, como, por exemplo, a neurastenia, 
o xito do tratamento  muito menos seguro; baseia-se apenas no valor da alimentao abundante, na medida em que isto  possvel a um aparelho digestivo neurastnico, 
e no valor do repouso; na histeria, o sucesso muitas vezes  extraordinrio e permanente.
           O tratamento dos sintomas histricos isolados no oferece nenhuma perspectiva de xito enquanto persiste a histeria aguda: os sintomas eliminados reaparecem 
ou so substitudos por outros, novos. No final, ambos, mdico e paciente, se fatigam. A situao  diferente, contudo, quando os sintomas histricos representam 
um resduo da histeria aguda que findou seu curso, ou quando aparecem numa histeria crnica devido a alguma causa excitante especial, como localizaes da neurose. 
Em princpio, nesses casos desaconselha-se a medicao interna, como tambm devem ser evitadas as drogas narcticas. Prescrever uma droga narctica em caso de histeria 
aguda no passa de grave erro tcnico. No caso de histeria local e resistente, nem sempre  possvel evitar os medicamentos internos; mas no se pode confiar em 
seu efeito. Este, s vezes, surge com rapidez mgica, s vezes no surge de modo algum, e parece depender da auto-sugesto do paciente ou da sua crena na sua eficcia. 
Ademais, podemos escolher entre iniciar o tratamento direto e o tratamento indireto da doena histrica. Este ltimo consiste em negligenciar o problema local e 
visar a uma influncia geral sobre o sistema nervoso, no decorrer da qual utilizamos vida ao ar livre, hidroterapia, eletricidade (de preferncia mediante o tratamento 
com alta-tenso), e procuramos melhorar o sangue por meio de arsenicais e medicao ferrosa. Temos ainda, no uso do tratamento indireto, que considerar a remoo 
de fontes de estmulos, caso exista alguma de natureza fsica. Assim, por exemplo, os espasmos gstricos histricos podem ter sua origem num catarro gstrico benigno, 
ao passo que uma rea eritematosa na laringe ou uma tumefao nos cornetos podem originar uma persistente tussis hysterica.  realmente duvidoso que as alteraes 
nos genitais realmente constituam, com tanta freqncia, fontes de estmulo para os sintomas histricos. Tais casos devem ser examinados com maior senso crtico. 
O tratamento direto consiste na remoo das fontes psquicas que estimulam os sintomas histricos, e isto se torna compreensvel se buscarmos as causas da histeria 
na vida ideativa inconsciente. Consiste em dar ao paciente sob hipnose uma sugesto que contm a eliminao do distrbio em causa. Assim, por exemplo, curamos uma 
tussis nervosa hysterica fazendo presso sobre a laringe do paciente hipnotizado e assegurando-lhe que foi removido o estmulo que o faz tossir, ou curamos uma paralisia 
histrica do brao compelindo o paciente, sob hipnose, a mover o membro paralisado, parte por parte. O efeito at se torna maior se adotarmos um mtodo posto em 
prtica, pela primeira vez, por Joseph Breuer, em Viena, e fizermos o paciente, sob hipnose, remontar  pr-histria psquica da doena, compelindo-o a reconhecer 
a ocasio psquica em que se originou o referido distrbio. Esse mtodo de tratamento  novo, mas produz curas bem-sucedidas, que, por outros meios, no so alcanadas. 
 o mtodo mais apropriado para a histeria, justamente porque imita o mecanismo da origem e da cessao desses distrbios histricos. Isso porque muitos sintomas 
histricos que resistiram a todos os tratamentos desaparecem espontaneamente sob a influncia de um motivo psquico suficiente (por exemplo, uma paralisia da mo 
direita desaparecer se, numa discusso, o paciente sentir mpetos de dar um murro no ouvido do adversrio), ou sob a influncia de alguma excitao moral, de um 
susto ou de uma expectativa (por exemplo, em um local de peregrinao), ou, por fim, quando h uma drstica alterao das excitaes no sistema nervoso, aps um 
ataque convulsivo. O tratamento psquico direto dos sintomas histricos ainda ser considerado o melhor no dia em que o entendimento da sugesto tiver penetrado 
mais profundamente nos crculos mdicos (Bernheim - Nancy). - Atualmente, no se pode decidir com certeza at que ponto a influncia psquica desempenha um papel 
em alguns outros tratamentos aparentemente fsicos. Assim, por exemplo, as contraturas podem ser curadas quando se consegue efetuar um transfert por meio de um m. 
Repetindo-se os transferts, a contratura torna-se mais dbil e, afinal, desaparece.
           
           VI. RESUMO. - Para sintetizar, podemos dizer que a histeria  uma anomalia do sistema nervoso que se fundamenta na distribuio diferente das excitaes, 
provavelmente acompanhada de excesso de estmulos no rgo da mente. Sua sintomatologia mostra que esse excesso  distribudo por meio de idias conscientes ou inconscientes. 
Tudo o que modifica a distribuio das excitaes no sistema nervoso pode curar os distrbios histricos: esses efeitos so, em parte, de natureza fsica e, em parte, 
de natureza diretamente psquica.
           
           APNDICE: HISTEROEPILEPSIA
           
           HISTEROEPILEPSIA (em francs, hystropilepsie; em ingls, hystero-epilepsy; em italiano, isteroepilessia).
           Na histeroepilepsia observam-se ataques de convulses generalizadas, como na epilepsia. Como precursores surgem: sensao de sufocao, dificuldade de 
deglutir, dor de cabea e dor no estmago, vertigem e algumas sensaes peculiares de estiramento nos membros. Os pacientes caem, emitindo forte grito, e so acometidos 
de convulses, sua boca espuma e suas feies ficam deformadas. As convulses, no incio, so de natureza tnica, mas, depois, so clnicas. No entanto, em geral 
o ataque no se instala subitamente, como sucede na epilepsia. Por um curto espao de tempo, os pacientes procuram lutar contra as convulses, precaver-se de leses 
graves por ocasio de quedas e evitar situaes perigosas. Um epilptico pode at cair dentro do fogo, mas isto no acontece com os histricos. Enquanto aquele se 
mostra plido no comeo do ataque e, depois, se torna ciantico, a face de um histrico mantm aproximadamente a sua cor normal. Na histeria, so raras as leses 
da lngua decorrentes de mordedura. Nos ataques histeroepilpticos, ocorre muitas vezes um opisttono completo; isto geralmente no ocorre na epilepsia. Durante 
os ataques, a conscincia no desaparece completamente, a no ser nos casos mais graves. Depois do ataque, o histrico em geral se recupera imediatamente; no subsistem 
a tendncia ao sono e a fraqueza que so observadas nos epilpticos. Por outro lado, no so raras, depois, as vises de ratos, camundongos e cobras, bem como as 
alucinaes auditivas. Alm desses ataques, nesses pacientes so encontrados todos os sintomas da histeria.
           
           
           
           
           
           
         
         
         ARTIGOS SOBRE HIPNOTISMO E SUGESTO (1888-1892)
           
           
           INTRODUO DO EDITOR INGLS
           
           Aps retornar de Paris a Viena, em 1886, Freud dedicou, por alguns anos, grande parte de sua ateno ao estudo do hipnotismo e da sugesto. Naturalmente, 
embora o assunto aparea em muitos pontos (por exemplo, nos Estudos sobre a Histeria e no necrolgio de Charcot), os trabalhos escritos nesse perodo e diretamente 
referentes aos dois temas pareciam ou no existir ou estar fora de alcance, exceto o prefcio  traduo de De la suggestion (1888-9), de Bernheim, e o artigo sobre 
"Um Caso de Cura pelo Hipnotismo" (1892-3). Como se verifica, podemos agora, entre esses dois, inserir trs outros trabalhos bastante extensos. Em primeiro lugar, 
conseguimos devolver  luz a resenha do livro de Forel sobre hipnotismo (1889a), a qual, parece, nunca foi reeditada. Os outros dois,  sua maneira, so trabalhos 
recm-chegados; ambos s vieram  luz em 1963. Destes, o primeiro  realmente um velho conhecido: o artigo que tem por ttulo "Tratamento Psquico (ou Mental)" (1890a) 
que se encontra na Edio Standard Brasileira, Vol. VII, [1], IMAGO Editora, 1972. Esse artigo no foi includo nas Gesammelte Schriften, mas foi editado no quinto 
volume das Gesammelte Werke, sendo atribuda a ele a data de 1905, juntamente com outros trabalhos, como os Trs Ensaios e o relato do caso clnico de "Dora". Foi 
ali classificado como uma contribuio a Die Gesundheit, um manual coletivo de medicina em dois volumes, de carter semipopular. O artigo versa sobre hipnotismo 
e no encerra aluso sequer s descobertas de Freud, exceto uma possvel e nica referncia imprecisa ao tratamento catrtico. Sempre pareceu misterioso que Freud 
retrocedesse quinze anos no tempo, subitamente, em 1905. Recentemente, a explicao desse fato foi dada pelo Prof. Saul Rosenzweig, da Washington University de St. 
Louis. Suas investigaes mostraram que a data de 1905, at h pouco tempo sistematicamente atribuda a esse trabalho, realmente era a data da terceira edio de 
Die Gesundheit - fato que os editores daquele manual deixaram de indicar. Sua primeira edio fora publicada em 1890 e j continha o artigo de Freud, tal como o 
temos agora. (A segunda edio surgiu em 1900.) "Tratamento Psquico (ou Mental)", portanto, simplesmente se situa junto dos demais trabalhos de Freud publicados 
naquele perodo; de direito, deveria ter sido includo neste volume depois da resenha de Forel. A outra novidade, pelo que sabemos,  uma revelao completa. Trata-se 
de um artigo sobre hipnose, com o qual Freud contribuiu para um manual mdico, Therapeutisches Lexikon, editado por A. Bum e publicado pela primeira vez em 1891. 
(Saiu uma segunda edio em 1893 e uma terceira em 1900.) Nenhum vestgio da existncia desse artigo seria encontrado em parte alguma, at ele ser descoberto pelo 
Dr. Paul F. Cranefield, editor do Bulletin of the New??ork Academy of Medicine.
           A experincia clnica de Freud com o hipnotismo pode ser rastreada de modo um tanto detalhado. Em seu Estudo Autobiogrfico (1925d), ele relata que, quando 
ainda era estudante, compareceu a uma exibio pblica feita por Hansen, o "magnetizador", e se convenceu da autenticidade dos fenmenos da hipnose (Edio Standard 
Brasileira, Vol. XX, [1], IMAGO Editora, 1976). Alm disso, mal tinha seus vinte anos, Freud ficou sabendo que seu futuro colaborador Breuer (um homem quase quinze 
anos mais velho) s vezes empregava o hipnotismo com fins teraputicos. A essa poca, entretanto, muitas sumidades mdicas de Viena ainda manifestavam opinies alarmistas 
ou cticas sobre o assunto. (Ver, por exemplo, os comentrios de Meynert, antigo mestre de Freud, citados na resenha de Forel, cf. em [1]. Somente quando, aos trinta 
anos de idade, chegou  clnica de Charcot, em Paris, foi que Freud verificou que a sugesto hipntica era reconhecida e vinha sendo usada correntemente. A profunda 
impresso que isso lhe causou est evidenciada no Relatrio que escreveu quando de seu regresso de Paris, em 1886 (1956a), [1], assim como em muitas outras passagens 
subseqentes. Depois de se estabelecer como neurologista em Viena, tentou valer-se de diferentes mtodos, como eletroterapia, hidroterapia e curas de repouso, para 
o tratamento das neuroses; entretanto, por fim, retornou ao hipnotismo. "Durante essas ltimas semanas", escrevia ele a Fliess em 28 de dezembro de 1887, "utilizei-me 
da hipnose e tive uma srie de pequenos, porm notveis, xitos." Na mesma carta, relatava que j assumira o compromisso de traduzir o livro de Bernheim sobre sugesto. 
Mas essa extrema rapidez no era resultado de entusiasmo, pois, numa carta a Fliess, em 29 de agosto do ano seguinte, que provavelmente acompanhava uma cpia do 
seu prefcio (este, com a data "agosto de 1888") ao livro de Bernheim, ele escrevia que s aceitara a traduo em meio a muita hesitao e por motivos meramente 
prticos (Freud, 1950a, Carta 5). A sugesto hipntica, sem dvida, era sua preocupao imediata; porm, mais uma vez, no Estudo Autobiogrfico, ibid., Vol. XX, 
[1], ele menciona que, "desde o princpio, usei a hipnose de uma outra maneira, diferente da sugesto hipntica". Naturalmente, com isso estava-se referindo ao mtodo 
de Breuer de usar o hipnotismo para determinar a origem dos sintomas. Existem algumas dvidas quanto  data exata em que comeou a aplicar esse novo mtodo; contudo, 
por certo usou-o no caso de Frau Emmy von N., que comeou a tratar em maio de 1889, ou possivelmente um ano antes. (Ver em [1] e [2].) Da em diante, aderiu cada 
vez mais ao mtodo catrtico de Breuer.
           Nesse nterim, continuava o interesse de Freud pela sugesto hipntica. A traduo da obra de Bernheim parece ter sido concluda no incio de 1889. Nessa 
poca, Freud j estava em contato com August Forel, conhecido psiquiatra suo, cujo livro sobre hipnotismo ele resenhou em dois fascculos, em julho e novembro 
de 1889 (em [1]); e foi com a apresentao de Forel que (entre a publicao dos dois fascculos) fez uma visita de algumas semanas a Bernheim e Libeault, em Nancy. 
O motivo para fazer tal visita, conforme nos conta (ibid., Vol. XX, [1]), foi a idia de aperfeioar sua tcnica de hipnose. Pois o fato  que Freud no se considerava 
um grande adepto da arte de hipnotizar, ou ento era mais sincero do que muitas pessoas para reconhecer as limitaes do mtodo. J em 1891,quando publicou a contribuio 
ao dicionrio mdico de Bum, a qual ser encontrada adiante, ele estava provadamente consciente dessas dificuldades e, ademais, comeava a se irritar com elas (em 
[1]). Sua irritao foi expressa novamente, logo depois, numa nota de rodap  traduo que fez (1892-4) das Leons du Mardi (em [1]), de Charcot, e, ainda com maior 
franqueza, numa passagem do caso clnico de Miss Lucy R. nos Estudos sobre a Histeria (1895d), Edio Standard Brasileira, Vol. II, [1]-[2], IMAGO Editora, 1974. 
Muitos anos mais tarde, resumiria sua posio nas Cinco Lies (1910a), ibid., Vol. XI, [1], IMAGO Editora, 1970: "Mas logo a hipnose passou a me desagradar... Quando 
verifiquei que, apesar de todos os meus esforos, no conseguia produzir o estado hipntico seno numa parte dos meus pacientes, decidi abandonar a hipnose..." Mas 
o momento adequado ainda no tinha chegado. Continuou a utilizar a hipnose no s como parte do mtodo catrtico mas tambm para a sugesto direta; em fins de 1892, 
publicou um relato minucioso de um caso desse tipo, especialmente bem-sucedido. (Ver em [1]) Alm disso, no mesmo ano, fez a traduo de um segundo livro de Bernheim 
(1892a), embora dessa vez sem a introduo. No entanto, levou pouco tempo para que concebesse um sistema pelo qual pudesse produzir os efeitos da sugesto, sem a 
necessidade de colocar o paciente em estado de hipnose. O primeiro passo foi substituir o sono hipntico por aquilo que denominou estado de "concentrao" (Estudos 
sobre a Histeria, ibid., Vol. II, [1]-[2], IMAGO Editora, 1974). A seguir, desenvolveu a "tcnica da presso" (ibid., [1]-[2], [3], [4] e [5]): simplesmente exercendo 
presso com suas mos sobre a fronte do paciente, conseguia obter a informao desejada. No est esclarecido se teria empregado esse mtodo pela primeira vez no 
caso de Miss Lucy R. ou no caso de Frulein Elisabeth von R., sendo que ambos os tratamentos comearam no final do ano de 1892. Naturalmente, esse mtodo era utilizado 
apenas no tratamento catrtico e no no tratamento sugestivo.
           No  possvel saber com preciso a poca em que Freud abandonou esses diferentes mtodos. Numa conferncia proferida no final de 1904 (1905a), ele declarava 
(ibid., Vol. VII, [1], IMAGO Editora, 1972): "Ora, h uns oito anos no tenho usado a hipnose com fins teraputicos(exceto para algumas experincias especiais)" 
- portanto, desde mais ou menos 1896. Talvez seja esse o perodo que marca o fim da "tcnica da presso", pois, na descrio de seu mtodo, no comeo de A Interpretao 
dos Sonhos (1900a [1899]), ibid., Vol. IV, [1], IMAGO Editora, 1972, no faz qualquer meno a semelhante contato com o paciente, embora, nessa passagem, ainda recomendasse 
ao paciente manter os olhos fechados. Porm, numa contribuio ao livro de Lewenfeld sobre as obsesses, na qual descrevia sua tcnica (1940a), escreveu explicitamente: 
"Ele [Freud] nem mesmo lhes solicita que fechem os olhos e evita tocar neles, assim como evita qualquer outro procedimento que possa lembrar a hipnose" (ibid., Vol. 
VII, [1], IMAGO Editora, 1972). Na verdade, no fim ainda restava um vestgio de hipnotismo - o "ritual que diz respeito  posio em que  efetuado o tratamento, 
a qual  remanescente do mtodo hipntico a partir do qual se desenvolveu a psicanlise", e que Freud pensava merecesse ser mantida por muita razes ("Sobre o Incio 
do Tratamento", 1913c, ibid., Vol. XII, [1]-[2], IMAGO Editora, 1976). O perodo durante o qual Freud fez algum uso efetivo da hipnose situa-se portanto, no mximo, 
entre 1886 e 1896.
           Naturalmente, o interesse de Freud pela teoria do hipnotismo e da sugesto durou mais tempo. Aqui havia a controvrsia com respeito a correntes que podem 
ser esquematicamente descritas como "Charcot versus Bernheim" - entre a opinio do Salptrire, segundo a qual a sugesto no passa de uma forma leve de hipnose, 
e a opinio da escola de Nancy, de que a hipnose era simplesmente produo da sugesto.  possvel detectar sinais de vacilao na atitude de Freud relativa a esse 
debate. Na carta a Fliess de 29 de agosto de 1888, que j citamos e que ele remeteu imediatamente depois de redigir seu prefcio ao livro de Bernheim, Freud escrevia: 
"No compartilho dos pontos de vista de Bernheim, que me parecem unilaterais, e em meu prefcio procurei defender a opinio de Charcot". A orientao segundo a qual 
Freud assim procedeu pode ser depreendida do prprio prefcio em [1]. Naturalmente, isto se deu antes de sua visita a Nancy, que provavelmente o influenciou muito, 
de vez que, no muito tempo depois, em seu obiturio de Charcot (1893f), manifestava crticas  "abordagem exclusivamente nosogrfica da escola de Salptrire" diante 
dos fenmenos hipnticos: "A limitao do estudo da hipnose aos pacientes histricos, a diferenciao entre grande e pequeno hipnotismo, a hiptese dos trs estgios 
da 'grande hipnose' e a caracterizao desses estgios por fenmenos somticos - tudo isso fez declinar o conceito dos contemporneos de Charcot, quando Bernheim, 
discpulo de Libeault, passou a elaborar a teoria do hipnotismo a partir de um fundamento psicolgico mais abrangente e a fazer da sugesto o ponto central da hipnose". 
(Ibid., Vol. III, [1], IMAGO Editora, 1977.) No entanto, em diversas passagens Freud insistiu na impreciso do termo "sugesto" e no fato de que o prprio Bernheim 
no conseguia explicar o mecanismo do processo: por exemplo, j na resenha de Forel (1889a), em [1], e tambm no caso clnico do "Pequeno Hans" (1909b), Edio Standard 
Brasileira, Vol. X, [1], IMAGO Editora, 1977, e nas Conferncias Introdutrias (1916-17), ibid., Vol. XVI, [1], IMAGO Editora, 1976. Retornou ao tema uma vez mais 
na Psicologia de Grupo (1921c), ibid., Vol. XVIII, [1], IMAGO Editora, 1976, trabalho esse em que h uma srie de discusses tanto sobre sugesto como sobre hipnose. 
E a, numa nota de rodap (ibid., [1]), ele se afastava claramente da sua tendncia anterior a apoiar os pontos de vista de Bernheim: "Parece-me que convm acentuar 
o fato de que as discusses contidas nesta seo nos induziram a abandonar a concepo de Bernheim sobre a hipnose e a voltar  concepo naf [ingnua] anterior. 
Consoante Bernheim, todos os fenmenos hipnticos podem ser atribudos ao fator da sugesto, que por si mesmo no  passvel de qualquer outra explicao. Chegamos 
 concluso de que a sugesto constitui manifestao parcial do estado de hipnose, e que a hipnose se fundamenta solidamente numa predisposio que sobreviveu no 
inconsciente desde o incio da histria da famlia humana". O tranqilo equilbrio dos pontos de vista de Freud a respeito dessa controvrsia foi expresso numa frase 
de uma carta sua a A. A. Roback, muitos anos depois, a 20 de fevereiro de 1930: "Na questo da hipnose, realmente tomei partido contra Charcot, ainda que no estivesse 
inteiramente a favor de Bernheim" (Freud, 1960a, 391).
           
           A despeito de haver abandonado cedo a hipnose como mtodo teraputico, durante toda a sua vida Freud nunca hesitou em expressar-lhe seu sentimento de 
gratido. "Ns, psicanalistas", declarou ele nas Conferncias Introdutrias (1916-17), Edio Standard Brasileira, Vol. XVI, [1], IMAGO Editora, 1976, "podemos afirmar 
que somos seus legtimos herdeiros e no esquecemos quanto estmulo e esclarecimento terico devemos  hipnose." E disso deu uma explicao mais especfica num de 
seus artigos sobre tcnica (1914g): "Ainda devemos ser gratos  velha tcnica da hipnose por nos ter mostrado os processos psquicos simples da anlise, numa forma 
isolada ou esquemtica. S isto pde nos dar a coragem de construir, no tratamento analtico, situaes mais complexas, e de mant-las claras diante de ns". (Ibid., 
Vol. XII, [1].)
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
         
         
         PREFCIO  TRADUO DE DE LA SUGGESTION, DE BERNHEIM (1888-9)
           
           NOTA DO EDITOR INGLS
           
           PREFCIO  TRADUO DE DE LA SUGGESTION,DE BERNHEIM 
           (a) EDIO ALEM:
           1888 Em H. Bernheim, Die Suggestion und ihre Heilwirkung (A Sugesto e Seus Efeitos Teraputicos), iii-xii, Leipzig e Viena: Deuticke, (1896, 2 ed.)
           (b) TRADUES INGLESAS:
           1946 Int J. Psycho-Anal., 27 (1-2), 59-64. (Sob o ttulo "Hypnotism and Suggestion".) (Trad. de James Strachey.)
           1950 C.P., 5, 11-24, (Reviso da anterior.)
           
           A presente edio inglesa  uma verso consideravelmente corrigida da que foi publicada em 1950. O ttulo francs completo do livro de Bernheim era De 
la suggestion et de ses applications  la thrapeutique (Paris: 1886; 2 ed. 1887). Um trecho da traduo de Freud surgiu antecipadamente no Wiener med. Wochenschrift, 
38 (26), 898-900, de 30 de junho de 1888, sob o ttulo "Hypnose durch Suggestion" ("Hipnose pela sugesto"), e o prefcio completo de Freud, com exceo dos seus 
dois primeiros pargrafos, foi publicado no Wiener med. Bltter, 11 (38), 1189-93 e (39), 1226-8, a 20 e a 27 de setembro de 1888, tendo como ttulo "Hypnotismus 
und Suggestion". Embora a pgina de rosto do livro consigne a data "1888", sua publicao realmente no foi completada seno em 1889, como mostra um "Ps-escrito 
do Tradutor" que aparece na ltima pgina: "Em decorrncia de circunstncias pessoais que atingiram o tradutor, a publicao da segunda parte [o livro tem duas partes] 
foi adiada alguns meses alm da data prometida. Mesmo agora, provavelmente eu no teria conseguido termin-la, no tivesse o meu prezado amigo Dr. Otto von Springer 
tido a grande gentileza de se encarregar da traduo de todos os casos clnicos da segunda parte, pelo que lhe expresso os meus melhores agradecimentos. Viena, janeiro 
de 1889". Nada se sabe a respeito do que foram essas "circunstncias pessoais" - se foram, por exemplo, as mesmas que as "razes acidentais e pessoais" que, nessa 
mesma poca, impediram Freud de completar seu artigo em francs sobre as paralisias orgnicas e histricas (1893c), cf. em. [1]. Freud acrescentou somente umas poucas 
e breves notas do tradutor ao texto desse volume, notasque, na sua maioria, eram referncias s edies alems de obras mencionadas por Bernheim. A nica que requer 
ateno  citada em [1]-[2].
           Em seu Estudo Autobiogrfico, Freud mostra alguma confuso quanto  data de publicao do presente trabalho. Depois de descrever sua visita a Bernheim, 
em Nancy, no vero de 1889, conclui assim: "Mantive com ele muita conversas estimulantes e encarreguei-me de traduzir para o alemo seus dois trabalhos sobre a sugesto 
e seus efeitos teraputicos" (Edio Standard Brasileira, Vol. XX, [1], IMAGO Editora, 1976). Na verdade, conforme vimos, esse livro j estava publicado antes de 
se realizar a visita. O segundo livro de Bernheim a ser traduzido por Freud - Hypnotisme, suggestion, psychothrapie: tudes nouvelles - no foi publicado em francs 
seno dois anos mais tarde (Paris: 1891). A traduo de Freud veio  luz no ano seguinte, tendo como ttulo Neue Studien ber Hypnotismus, Suggestion und Psychotherapie 
(Leipzig e Viena: Deuticke). Esse livro no continha nem introduo nem notas do tradutor.
           Em 1896, foi publicada uma segunda edio do primeiro dos dois volumes. Mas essa nova edio, como veremos, passara por uma reviso completa, sob a superviso 
do Dr. Max Kahane, que foi um dos primeiros adeptos de Freud e que tambm se encarregou do segundo volume da traduo das Leons du Mardi, de Charcot (ver em   [1]). 
Nessa segunda edio, a presente introduo no foi, como se tem afirmado, abreviada, mas sim inteiramente abolida e substituda pelo breve prefcio que reproduzimos 
num Apndice em [1].
           
           PREFCIO  TRADUO DE DE LA SUGGESTION, DE BERNHEIM
           
           Este livro j recebeu calorosa recomendao do Prof. Forel, de Zurique, e espera-se que nele os seus leitores venham a descobrir todas as qualidades que 
levaram o tradutor a apresent-lo em lngua alem. Verificaro que o trabalho desenvolvido pelo Dr. Benheim, de Nancy, proporciona uma admirvel introduo ao estudo 
do hipnotismo (assunto que os mdicos no podem mais negligenciar), que, sob muitos aspectos,  estimulante e, sob alguns outros aspecto  realmente esclarecedor 
e est destinado a destruir a crena de que o problema da hipnose, segundo afirma o Prof. Meynert, ainda esteja envolvido por um "halo de absurdo".
           A realizao de Bernheim (e de seus colegas em Nancy que trabalham segundo as mesmas diretrizes) consiste precisamente em despojar as manifestaes do 
hipnotismo do seu mistrio, correlacionando-as com fenmenos conhecidos da vida psicolgica normal e do sono. Parece-me que o valor principal deste livro est na 
prova que ele fornece das relaes que vinculam os fenmenos hipnticos aos processos correntes da vida de viglia e do sono, e no fato de trazer  luz as leis psicolgicas 
que se aplicam a ambos os tipos de eventos. Com isso, o problema da hipnose  inteiramente transposto para a esfera da psicologia, e a "sugesto"  erigida como 
ncleo do hipnotismo e chave para sua compreenso. Alm disso, nos ltimos captulos, assinala-se a importncia da sugesto em outras reas alm da hipnose. Na segunda 
parte do livro, encontram-se provas convincentes de que o uso da sugesto hipntica proporciona ao mdico um poderoso mtodo teraputico, que realmente parece ser 
o mais adequado para combater determinados distrbios nervosos e o mais apropriado ao mecanismo dos mesmos. Isto confere ao livro uma importncia prtica incomum. 
E sua insistncia no fato de que tanto a hipnose como a sugesto hipntica podem ser aplicadas no s aos pacientes histricos e neuropticos graves, mas tambm 
 maior parte das pessoas sadias, destina-se a ampliar para alm do estreito crculo dos neuropatologistas o interesse dos mdicos por esse mtodo teraputico.
           O tema do hipnotismo tem tido uma recepo muitssimo desfavorvel entre os expoentes da cincia mdica alem (excludas algumas poucas excees, como 
Krafft-Ebing, Forel etc.). Ainda assim, a despeito disso,  vlido expressar o desejo de que os mdicos alemes venham a dirigir sua ateno para esse problema e 
para esse mtodo teraputico, pois continua sendo verdade que, em matria cientfica,  sempre a experincia, e nunca a autoridade sem a experincia, que d o veredicto 
final, seja a favor, seja contra. Na verdade, as objees que at o momento temos ouvido, na Alemanha, contra o estudo e o uso da hipnose merecem ateno apenas 
por causa dos nomes dos seus autores, e o Prof. Forel teve pouca dificuldade em refutar, num breve ensaio [1889], toda uma infinidade de objees dessa natureza.
           H cerca de dez anos, a opinio corrente na Alemanha ainda era a de pr em dvida a realidade dos fenmenos hipnticos e procurar explicar os relatos 
referentes a eles como devidos a uma combinao de credulidade por parte dos observadores e simulao por parte das pessoas submetidas s experincias. Atualmente, 
essa posio j no  mais defensvel, graas aos trabalhos de Heidenhain e Charcot, para mencionar apenas os maiores nomes dentre aqueles que deram seu irrestrito 
apoio  realidade do hipnotismo. At os mais ferrenhos adversrios do hipnotismo se tornaram conscientes disso e, por conseguinte, suas obras, embora ainda deixem 
transparecer uma ntida tendncia a negar a realidade da hipnose, geralmente tambm incluem tentativas de explic-la e com isso realmente reconhecem a existncia 
desses fenmenos.
           Uma outra corrente de argumentos hostis  hipnose rejeita-a como sendo perigosa para a sade mental da pessoa e d-lhe o rtulo de "psicose produzida 
experimentalmente". A prova de que a hipnose leva a resultados prejudiciais em uns poucos casos nem por isso seria um argumento decisivo contra sua utilidade geral, 
da mesma forma que, por exemplo, a ocorrncia de casos isolados de morte por narcose pelo clorofrmio no proscreve o uso do clorofrmio com o objetivo de obter 
anestesia cirrgica. No entanto, constitui fato digno de nota que a analogia no consiga estender-se alm desse ponto. O maior nmero de acidentes na narcose pelo 
clorofrmio ocorre com os cirurgies que executam o maior nmero de cirurgias. Contudo, a maior parte dos relatos sobre os efeitos nocivos da hipnose provm de observadores 
que trabalham muito pouco com hipnose, ao passo que todos os pesquisadores que tiveram grande experincia com a hipnose so unnimes na crena de que o mtodo  
incuo. Portanto, a fim de evitar qualquer efeito prejudicial no uso da hipnose, tudo o que  necessrio  que o procedimento seja efetuado com cuidado, de modo 
suficientemente seguro e em casos corretamente selecionados. Deve-se acrescentar que pouco se ganha ao se chamarem as sugestes de "idias obsessivas" e a hipnose 
de "psicose experimental". Parece provvel que as idias obsessivas sero mais bem esclarecidas se comparadas com as sugestes, em vez de se proceder ao contrrio. 
E todo aquele que se atemoriza com o termo injurioso "psicose" bem pode se perguntar se nosso sono natural tambm merece ser descrito como tal - se  que, na realidade, 
existe mesmo algo a lucrar com a transposio de termos tcnicos para situaes alheias s suas reas especficas. No, desse lado no h que temer nenhum perigo 
para a causa do hipnotismo. E to logo um grande nmero de mdicos esteja em condies de relatar observaes do tipo das que se podem encontrar na segunda parte 
do livro de Bernheim, ficar estabelecido que a hipnose  um estado inofensivo e que induzi-la  um mtodo "digno" de um mdico.
           Este livro tambm discute uma outra questo, que, na poca atual, divide em dois campos opostos os adeptos do hipnotismo. Uma corrente, cujas opinies 
Bernheim exprime nestas pginas, sustenta que todos os fenmenos do hipnotismo tm a mesma origem: isto , surgem de uma sugesto, de uma idia consciente, que foi 
introduzida, mediante uma influncia externa, no crebro da pessoa hipnotizada e por esta foi aceita como se tivesse surgido espontaneamente. Sob esse ponto de vista, 
todas as manifestaes hipnticas seriam fenmenos psquicos, efeitos de sugestes. A outra corrente, pelo contrrio, sustenta a opinio de que o mecanismo de pelo 
menos algumas das manifestaes do hipnotismo se baseia em modificaes fisiolgicas - ou seja, em deslocamentos da excitabilidade no sistema nervoso, que ocorrem 
sem a participao das partes do mesmo que operam com a conscincia; os adeptos dessa corrente falam, portanto, dos fenmenos fsicos ou fisiolgicos da hipnose.
           O ponto principal dessa controvrsia  o "grand hypnostisme" ["grande hipnotismo"] - os fenmenos descritos por Charcot no caso de pacientes histricos 
hipnotizados. Diferindo das pessoas normais hipnotizadas, esses pacientes histricos, segundo se acredita, apresentam trs estgios de hipnose, cada um deles distinguindo-se 
por sinais fsicos especiais, de natureza muito marcada (tais como uma extraordinria hiperexcitabilidade neuromuscular, contraturas sonamblicas etc.). Facilmente 
se compreender que, em relao a essa rea de fatos, as diferenas de opinio h pouco delineadas devem ter uma repercusso muito importante. Se tm razo os adeptos 
da teoria da sugesto, todas as observaes feitas no Salptrire ficam invalidadas; tornam-se erros de observao. A hipnose de pacientes histricos no teria nenhuma 
caracterstica prpria; mas todo mdico teria a possibilidade de produzir, nos pacientes que hipnotizasse, qualquer sintomatologia que desejasse. Com o estudo do 
grande hipnotismo no aprenderamos que modificaes sucessivas se efetuam na excitabilidade do sistema nervoso, decorrentes de determinadas formas de interveno; 
iramos apenas aprender quais as intenes que Charcot sugeriu (de uma forma da qual nem ele tinha conscincia) s pessoas submetidas a essas experincias - coisa 
inteiramente irrelevante para nossa compreenso da hipnose e da histeria.
            fcil verificar as demais implicaes desse ponto de vista e como seria conveniente a explicao, que ela pode prometer, da sintomatologia da histeria 
em geral. Se a sugesto feita pelo mdico falsificou os fenmenos da hipnose histrica,  bem possvel que tambm tenha interferido na observao do resto da sintomatologia 
histrica: pode ter estabelecido leis que governem os ataques histricos, as paralisias, as contraturas etc.; esses sintomas teriam na sugesto o seu nico vnculo 
com a neurose e, como conseqncia, perderiam sua validade to logo um outro mdico, num outro lugar, procedesse a um exame dos pacientes histricos. Essa inferncia 
impe-se com muita lgica, e de fato j foi feita. Hckel (1888) exprime sua convico de que o primeiro "transfert" (a transferncia de sensibilidade de uma parte 
do corpo para a parte correspondente do outro lado) feito por uma histrica foi sugerido a ela em alguma circunstncia especfica de sua histria e que, da em diante, 
os mdicos continuaram constantemente a produzir pela sugesto, de forma renovada, esse sintoma pretensamente fisiolgico.
           Estou convencido de que esse ponto de vista ser o mais bem aceito por parte daqueles que se sentem inclinados - e, atualmente, ainda so a maioria, na 
Alemanha - a no atentar para o fato de que os fenmenos histricos so regidos por leis. Aqui devemos assinalar um excelente exemplo de como o descaso pelo fator 
psquico da sugesto desorientou um grande observador e o levou  criao artificial e falsa de um tipo clnico, em decorrncia da natureza cheia de caprichos e 
maleabilidade de uma neurose.
           No obstante, no h dificuldade em provar, parte por parte, a objetividade da sintomatologia da histeria. As crticas de Bernheim podem ser plenamente 
justificadas em relao a investigaes como as que foram efetuadas por Binet e Fr; de qualquer modo, essas crticas revelar-se-o importantes porque, em toda 
investigao futura da histeria e do hipnotismo,a necessidade de excluir o elemento sugesto ser lembrada de modo mais consciente. Os principais pontos da sintomatologia 
da histeria, contudo, esto livres da suspeita de se terem originado na sugesto de um mdico. Os relatos provenientes de pocas passadas e de pases distantes, 
que foram reunidos por Charcot e seus discpulos, no do margem  dvida de que as peculiaridades dos ataques histricos, das zonas histergenas, da anestesia, 
das paralisias e contraturas se tm manifestado em todos os tempos e lugares, tal como foram vistas no Salptrire quando Charcot efetuava sua memorvel investigao 
dessa grande neurose. O "transfert" em particular, que parece prestar-se especialmente bem para provar que os sintomas histricos se originam da sugesto, indubitavelmente 
 um processo autntico. Vem sendo observado em casos de histeria no-influenciados: freqentemente se encontram pacientes nos quais aquilo que sob outros aspectos 
 uma hemianestesia tpica se interrompe justamente num rgo ou numa extremidade, e nos quais essa parte especfica do corpo conserva sua sensibilidade no lado 
insensvel, ao passo que a parte correspondente do outro lado se tornou anestesiada. Ademais, o "transfert"  um fenmeno fisiologicamente compreensvel. Como ficou 
demonstrado por investigaes feitas na Alemanha e na Frana, trata-se meramente do exagero de uma relao normalmente presente em partes simtricas do corpo; tanto 
 assim que pode ser produzido, numa forma rudimentar, em pessoas sadias. Muitos outros sintomas histricos da sensibilidade tambm tm sua origem em relaes fisiolgicas 
normais, como foi brilhantemente demonstrado pelas investigaes de Urbantschitsch. Esta no  a ocasio apropriada para efetuar uma justificao detalhada da sintomatologia 
da histeria; mas podemos aceitar a afirmao de que, na sua essncia, essa sintomatologia  de natureza real, objetiva; no  forjada pela sugesto da parte do observador. 
Isto no significa negar que seja psquico o mecanismo das manifestaes histricas mas no se trata do mecanismo de sugesto por parte do mdico.
           Uma vez demonstrada a existncia de fenmenos fisiolgicos, objetivos, na histeria, j no h mais nenhuma razo para abandonar a possibilidade de que 
o "grande" hipnotismo histrico chegue a apresentar fenmenos que no se derivam da sugesto da parte do pesquisador. Se tais fenmenos de fato ocorrem, isto  uma 
hiptese que deve ser deixada para uma investigao  parte, que tenha esse fim em vista. Assim, cabe  escola do Salptrire provar que os trs estgios da hipnose 
histrica podem ser inequivocamente demonstrados mesmo numa pessoa que vem para a experincia sem qualquer influncia prvia e mesmo quando o pesquisador mantm 
a conduta mais escrupulosa; e, sem dvida, tal prova no h de demorar. Pois j a descrio do grande hipnotismo apresenta sintomas que vo muito nitidamente contra 
a possibilidade de serem considerados psquicos. Refiro-me ao aumento da excitabilidade neuromuscular durante o estgio letrgico. Todo aquele que tenha visto como, 
durante a letargia, uma leve presso sobre um msculo (mesmo que seja um msculo facial ou um dos trs msculos externos do pavilho da orelha, que jamais so contrados 
durante a vida) consegue desencadear uma contrao tnica em todo o feixe muscular em questo, ou como a presso exercida sobre um nervo superficial consegue revelar 
sua distribuio terminal - qualquer pessoa que tenha visto coisas assim inevitavelmente h de supor que o efeito deve ser atribudo a causas fisiolgicas, ou a 
um treino deliberado, e, sem hesitaes, haver de excluir a sugesto no-intencional como causa possvel. Isso porque a sugesto no pode produzir algo que no 
esteja contido na conscincia ou seja nela introduzido. Nossa conscincia, no entanto, apenas toma conhecimento do resultado final de um movimento; nada sabe da 
ao e da distribuio anatmica dos msculos isoladamente e nada sabe da distribuio anatmica dos nervos em relao aos msculos. Num trabalho que ser publicado 
em breve, mostrarei detalhadamente que as caractersticas das paralisias histricas se prendem a esse fato e que  por essa razo que a histeria no apresenta paralisias 
de msculos em separado, paralisias perifricas, nem paralisias faciais de natureza central. O Dr. Bernheim no deveria ter deixado de produzir fenmenos de hiperexcitabilidade 
neuromuscular por meio da sugesto; tal omisso constitui uma grave lacuna em sua argumentao contra os trs estgios.
           Assim, os fenmenos fisiolgicos efetivamente ocorrem, pelo menos no grande hipnotismo histrico. Mas, no pequeno hipnotismo normal, que, conforme insiste 
apropriadamente Bernheim, tem maior importncia para a nossa compreenso do problema, toda manifestao - assim se afirma - surge por meio da sugesto, por meios 
psquicos. At mesmo o sono hipntico, ao que parece, resulta da sugesto: o sono sobrevm por causa da sugestionabilidade humana normal, e por isso Bernheim sugere 
uma expectativa de sono. Porm, outras ocasies h em que o mecanismo do sono hipntico parece ser outro. Todo aquele que tenha hipnotizado com freqncia ter por 
vezes encontrado pessoas que s com muita dificuldade podem ser colocadas em estado de sono mediante conversa, ao passo que, pelo contrrio, o mesmo resultado pode 
ser facilmente obtido fazendo-se com que a pessoa se fixe durante algum tempo. De fato, quem no teve a oportunidade de ver entrar em sono hipntico um paciente 
que no se teve qualquer inteno de hipnotizar e que por certo no tinha nenhuma noo prvia da hipnose? Uma paciente toma seu lugar para que lhe faam um exame 
de olhos ou de garganta; no h nenhuma expectativa de sono, seja da parte do mdico, seja da paciente; porm, mal o feixe de luz incide em seus olhos, ela j passa 
a dormir e, talvez pela primeira vez em sua vida, est hipnotizada. Nesse caso, certamente, poderia ser excluda qualquer ligao psquica consciente. Nosso sono 
natural, que Bernheim, com tanta propriedade, compara com a hipnose, comporta-se de forma semelhante. De modo geral, provocamos o sono por sugesto, por um estado 
de preparao mental e pela expectativa do sono; algumas vezes, porm, ele se instala sem qualquer ingerncia de nossa parte, como resultado da condio fisiolgica 
da fadiga. De igual modo, quando as crianas so ninadas para dormir, ou quando os animais so hipnotizados ao serem mantidos numa posio fixa, dificilmente se 
pode dizer que a causa seja psquica. Assim, chegamos  posio adotada por Preyer e Binswanger na Realencyclopdie de Eulenburg; no hipnotismo existem fenmenos 
tanto psquicos como fisiolgicos, e a hipnose pode ser realizada de uma forma ou de outra. Realmente, na descrio do prprio Bernheim para suas hipnoses, h inequivocamente 
um fator objetivo, independente da sugesto.  com lgica que Jendrassik (1886) insiste em que, se no fosse assim, a hipnose assumiria uma aparncia diferente, 
de acordo com a individualidade de cada experimentador; seria impossvel compreender por que o aumento da sugestionabilidade haveria de seguir uma seqncia uniforme, 
por que o sistema muscular invariavelmente seria influenciado somente em direo  catalepsia, e assim por diante.
           Contudo, devemos concordar com Bernheim em que a diviso dos fenmenos hipnticos em fenmenos fisiolgicos e fenmenos psquicos deixa muito a desejar: 
precisa-se urgentemente de um elo que vincule as duas espcies de fenmenos. A hipnose, seja ela produzida de uma forma ou de outra,  sempre a mesma e mostra os 
mesmos aspectos. A sintomatologia da histeria, sob muitos aspectos, sugere um mecanismo psquico, embora este no precise ser necessariamente o mecanismo da sugesto. 
E, por fim, a sugesto possui uma vantagem sobre os fenmenos fisiolgicos, de vez que seu modo de atuao  incontestvel e relativamente claro, ao passo que no 
temos maior conhecimento das influncias mtuas da excitabilidade nervosa, da qual derivam os fenmenos fisiolgicos. Nos comentrios que se seguem, espero poder 
dar algumas indicaes do elo de ligao entre os fenmenos psquicos e fisiolgicos da hipnose, que estamos pesquisando.
           Em minha opinio, o uso cambiante e ambguo da palavra "sugesto" confere a essas antteses uma exatido enganadora, que de fato no existe. Vale a pena 
refletir sobre o que  que legitimamente podemos chamar de "sugesto". Sem dvida, alguma espcie de influncia psquica est implcita nesse termo; e eu gostaria 
de apresentar o ponto de vista de que o elemento que distingue uma sugesto de outros tipos de influncia psquica, como dar uma ordem ou fornecer uma informao 
ou orientao,  que, no caso da sugesto,  despertada no crebro de outra pessoa uma idia que no  examinada quanto  sua origem, mas que  aceita como originada 
espontaneamente no crebro dessa pessoa. Exemplo clssico de uma sugesto desse tipo ocorre quando o mdico diz a uma pessoa hipnotizada: "Seu brao deve permanecer 
na posio em que o coloquei" e com isto se instala o fenmeno da catalepsia; ou ento, quando o mdico levanta o brao do paciente vezes seguidas, repetidamente, 
depois de o brao ter cado, e com isso faz o paciente supor que o mdico deseja que o brao seja mantido elevado. Mas, em outras ocasies, falamos de sugesto quando 
o mecanismo do processo evidentemente  um mecanismo diferente. Por exemplo, em muitas dentre as pessoas hipnotizadas, a catelepsia se instala sem que se opere qualquer 
interferncia: o brao que foi levantado permanece levantado espontaneamente, ou ento a pessoa mantm inalterada a postura em que iniciou o sono, a menos que haja 
alguma interferncia. Bernheim chama de sugesto tambm a esse resultado, dizendo que a prpria postura sugere a sua manuteno. Nesse caso, contudo, o papel desempenhado 
pela situao fisiolgica da pessoa, que rejeita qualquer impulso no sentido de modificar sua postura,  maior do que nos primeiros casos. A diferena entre uma 
sugesto diretamente psquica e uma sugesto indireta (fisiolgica) talvez possa ser vista com maior clareza mediante o seguinte exemplo. Se eu disser a uma pessoa: 
"Seu brao direito est paralisado; voc no pode mov-lo", estarei fazendo uma sugesto diretamente psquica. Em vez disso, Charcot d uma leve pancada no brao 
da pessoa, ou lhe diz: "Olhe para essa cara horrvel! D um murro nela!"; a pessoa d o murro, e [em ambos os casos] seu brao cai paralisado. Nesses dois [ltimos] 
casos, um estmulo externo produziu, inicialmente, uma sensao de dolorosa exausto no brao; e com isso, em troca, espontnea e independemente de qualquer interveno 
por parte do mdico, a paralisia foi sugerida - se  que aqui ainda se pode aplicar tal expresso. Em outras palavras, trata-se, nesses casos, no tanto de sugestes, 
como de estimulao s auto-sugestes. E estas, como qualquer pessoa pode verificar, encerram um fator objetivo, independente da vontade do mdico, e revelam uma 
conexo entre diferentes estados de inervao ou excitao no sistema nervoso. So as auto-sugestes dessa natureza que levam  produo de paralisias histricas 
espontneas, e  uma tendncia para tais auto-sugestes, mais do que a sugestionabilidade em relao ao mdico, que caracteriza a histeria. E aquela no parece de 
modo algum ter semelhanas com esta.
           No necessito insistir no fato de que tambm Bernheim trabalha, em grande medida, com sugestes indiretas dessa ordem - isto , com estimulaes  auto-sugesto. 
Seu mtodo de produzir o sono, conforme descrito nas primeiras pginas deste livro,  essencialmente um mtodo misto: a sugesto abre vigorosamente as portas que 
de fato se esto abrindo lentamente por auto-sugesto.
           As sugestes indiretas, nas quais uma srie de elos intermedirios, originrios da prpria atividade da pessoa, so inseridos entre o estmulo externo 
e o resultado, so, no obstante, processos psquicos; contudo, no esto mais expostas  plena luz da conscincia, que incide sobre as sugestes diretas. Pois estamos 
muito mais habituados a voltar nossa ateno para as percepes externas do que para os processos internos. As sugestes indiretas ou as auto-sugestes, por conseguinte, 
podem ser igualmente descritas como fenmenos fisiolgicos ou psquicos, e o termo "sugesto" tem o mesmo significado que o recproco despertar de estados psquicos 
segundo as leis da associao. O fechamento dos olhos leva ao sono porque est ligado ao conceito de sono na medida em que  um de seus acompanhamentos mais regulares: 
um componente das manifestaes do sono sugere as demais manifestaes, que completam o fenmeno como um todo. Essa vinculao faz parte da natureza do sistema nervoso 
e no advm de alguma ao arbitrria do mdico; no pode ocorrer a no ser que esteja baseada em modificaes na excitabilidade das regies cerebrais relevantes, 
na inervao dos centros vasomotores etc. e apresente igualmente um aspecto psicolgico e um aspecto fisiolgico. Tal como acontece em qualquer interligao de estados 
do sistema nervoso, esta permite a passagem [de excitao] numa direo diferente. A idia de sono pode produzir sensaes de fadiga nos olhos e nos msculos e o 
correspondente estado nos centros nervosos vasomotores; ou, por outro lado, o estado do aparelho muscular ou um impacto sobre os nervos vasomotores podem despertar 
a pessoa que dorme, e assim por diante. Tudo o que se pode dizer  que seria to unilateral considerar somente o aspecto psicolgico do processo quanto atribuir 
toda a responsabilidade dos fenmenos da hipnose  inervao vascular.
           De que modo isso afeta a anttese entre os fenmenos psquicos e fisiolgicos da hipnose? Havia nela um significado enquanto, por sugesto, entendia-se 
uma influncia psquica diretamente exercida pelo mdico, que impunha  pessoa hipnotizada qualquer sintomatologia que desejasse. Mas tal significado desaparece 
to logo se percebe que mesmo a sugesto s desencadeia determinados grupos de manifestaes fundamentadas nas peculiaridades funcionais do sistema nervoso hipnotizado, 
e que, na hipnose, tambm se fazem presentes outras caractersticas do sistema nervoso, alm da sugestionabilidade. Poder-se-ia, ademais, questionar se todos os 
fenmenos da hipnose tm de passar, em algum lugar, pela esfera psquica; em outras palavras - pois a questo no pode ter outro sentido -, se as mudanas de excitabilidade 
que ocorrem na hipnose invariavelmente afetam apenas a regio do crtex cerebral. Formulando a questo sob essa outra forma, parece que encontramos sua resposta. 
No se justifica estabelecer um contraste como o que aqui se estabeleceu entre o crtex cerebral e o resto do sistema nervoso;  improvvel que uma modificao funcional 
to profunda no crtex do crebro possa ocorrer sem ser acompanhada por mudanas importantes na excitabilidade das demais partes do crebro. No temos critrio algum 
que nos possibilite estabelecer uma distino exata entre um processo psquico e um processo fisiolgico, entre um ato que ocorre no crtex cerebral e um ato que 
ocorre na substncia subcortical; isso porque a "conscincia", o que quer que isto seja, no est ligada a toda atividade do crtex cerebral, e no est sempre ligada 
em igual grau a qualquer de suas atividades em particular; no  algo que esteja em conexo com alguma regio do sistema nervoso. Portanto, parece-me que no pode 
ser aceita, nessa formulao genrica, a questo de saber se a hipnose exibe fenmenospsquicos ou fisiolgicos; e parece-me que a deciso, no caso de cada fenmeno 
em particular, deve ser tomada com base numa investigao especial.
           Nesse sentido, sinto-me justificado ao dizer que, enquanto, de um lado, o trabalho de Bernheim vai alm da rea da hipnose, de outro lado ele deixa de 
levar em conta uma parte do seu tema. Todavia,  de esperar que tambm os leitores alemes de Bernheim venham agora a ter a oportunidade de reconhecer quo esclarecedora 
e importante  a sua contribuio, pelo fato de descrever o hipnotismo a partir do ponto de vista da sugesto.  VIENA, agosto de 1888
           
           APNDICE: PREFCIO  SEGUNDA EDIO ALEM (1896)
           
           A primeira edio alem deste livro tinha um prefcio do tradutor que hoje se tornou desnecessrio reimprimir. A situao da cincia que vigorava na poca 
em que surgiu a traduo de Suggestion, de Bernheim, sofreu modificaes fundamentais na atualidade. Silenciou a dvida a respeito da realidade dos fenmenos hipnticos; 
cessou o antema que ento, inexoravelmente, recaa sobre todo neuropatologista que considerasse essa rea de fenmenos importante e merecedora de uma investigao 
sria. No foi pequeno o mrito deste livro, em si mesmo, ao defender, de modo extraordinariamente convincente e vigoroso, a causa do hipnotismo cientfico.
           Quando se tornou clara a necessidade de, uma segunda vez, tornar acessvel aos leitores de lngua alem essa obra fundamental do mdico de Nancy, o organizador 
e o editor, em concordncia com o autor, decidiram eliminar do livro captulos que continham apenas casos clnicos e relatos de tratamentos. Eles no puderam deixar 
de reconhecer que no era precisamente nesses captulos que estava a fora da obra de Bernheim. Herr Dr. Kahane teve ento a gentileza de se encarregar, em lugar 
deste que subscreve o presente prefcio, da tarefa de revisar a nova edio em francs.
           No que se refere ao contedo do prefcio  primeira edio, o tradutor gostaria apenas de repetir um comentrio, ao qual se mantm to fiel hoje como 
naquela poca. O que ele acha que falta nas proposies de Bernheim  a opinio segundo a qual a "sugesto" (ou melhor, a efetivao de uma sugesto)  um fenmeno 
psquico patolgico que requer condies especiais prvias para que possa realizar-se. No  necessrio pr em xeque essa opinio confrontando-a com a freqncia 
e com facilidade do fenmeno da sugesto, nem com o importante papel que ela desempenha na vida quotidiana. No livro de Bernheim, a constatao dessas ltimas circunstncias 
enquanto fatos ocupa tanto espao que ele descura de examinar o problema psicolgico de quando e por que os mtodos normais de influncia psquica entre os seres 
humanos podem ser substitudos pela sugesto. E, enquanto explica mediante a sugesto todos os fenmenos do hipnotismo, a prpria sugesto permanece inteiramente 
inexplicada e  obscurecida por uma demonstrao de que no necessita de explicao. Sem dvida, essa lacuna foi observada por todos os pesquisadores que seguiram 
Forel na busca de uma teoria psicolgica da sugesto.
           DR. SIGM. FREUD
           VIENA, junho de 1896
           
           
           
           
           
           
           
           
           
         
         
         RESENHA DE HIPNOTISMO, DE AUGUST FOREL (1889)
           
           
           RESENHA DE DER HIPNOTISMUS, DE AUGUST FOREL
           
           (a) EDIO ALEM:
           1889        Wiener med. Wochensch., 39 (28), 1097-1100 e (47), 1892-6 (13 de julho e 23 de novembro).
           Parece que o original alemo jamais foi reeditado; esta traduo (de James Strachey)  a primeira verso para a lngua inglesa.
           O ttulo completo do livro de Forel era Der Hypnotismus, seine Bedeutung und seine Handhabung (O Hipnotismo, Sua Significao e Seu Manejo). Seu autor 
(1848-1931), nessa poca, era professor de psiquiatria em Zurique e gozava de enorme reputao. Seus escritos posteriores sobre temas sociolgicos (e sobre a histria 
natural das formigas) foram muito lidos. Embora no final viesse a criticar acerbamente a psicanlise, foi ele quem apresentou Freud a Bernheim. Freud visitou Nancy 
durante o vero de 1889, entre a publicao das duas partes desta resenha. (Cf. a Introduo do Editor Ingls, em [1])
           
           RESENHA DE HIPNOTISMO, DE AUGUST FOREL
           
           I
           Esta obra do conceituado psiquiatra de Zurique, com apenas 88 pginas,  a ampliao de um artigo sobre a importncia forense do hipnotismo, publicado 
em 1889 na Zeidchrift fr die gesamte Strafrechtswissenschaft [Revista de Penalogia Geral], 9, 131. Sem dvida, ocupar um lugar de destaque, por muitos anos, na 
bibliografia alem sobre hipnotismo. Conciso, com a forma quase de um catecismo, expresso em linguagem muito clara e decidida, cobre toda a rea de fenmenos e problemas 
compreendidos no ttulo "teoria do hipnotismo"; de maneira feliz, estabelece uma distino entre fatos e teorias; nunca lhe falta a abordagem sria que se exige 
de um mdico empenhado em investigao minuciosa; e, no seu todo, evita o tom pomposo que  to despropositado numa discusso cientfica. Somente num ponto a exposio 
de Forel torna-se entusistica o bastante para declarar que "a descoberta da importncia psicolgica da sugesto, levada a efeito por Braid e Libeault, , segundo 
minha opinio, to magnfica que pode ser comparada com as maiores descobertas, ou melhor, revelaes do esprito humano". Todo aquele que achar esse comentrio 
uma flagrante supervalorizao da hipnose deve adiar seu julgamento definitivo at que os prximos anos tenham deixado claro quantas revolues tericas e prticas 
- que a hipnose promete desencadear - podem realmente resultar dela. Ao mencionar os obscuros problemas limtrofes ao hipnotismo (transmisso de pensamento etc.) 
com que se ocupa atualmente o "espiritualismo", Forel mostra uma reserva realmente cientfica.  impossvel compreender por que um autorizado cientista desta cidade, 
diante de um auditrio cientfico, qualificou o autor desta obra como "Forel, o sulista", confrontando-o com um adversrio da hipnose supostamente "mais nortista", 
como modelo de uma forma mais comedida de pensar. Ainda que fosse menos deselegante procurar abordar as opinies sobre assuntos cientficos, emitidas por cientistas 
ainda vivos, tomando como base a nacionalidade ou o pas de origem desses cientistas, e mesmo que o Prof. Forel no tivesse tido a sorte de nascer e ser educado 
na latitude de quarenta e seis graus Norte, no haveriajustificativa para concluir, do presente trabalho, que seu autor tem o costume de deixar que suas emoes 
lhe tirem a lgica.
           Pelo contrrio, este breve estudo  o trabalho de um mdico srio, que veio a conhecer o valor e a importncia da hipnose a partir de sua rica experincia 
prpria e tem o direito de exclamar aos "zombadores e incrdulos": "Provem antes de julgar!" E temos de concordar com ele quando diz: "A fim de formar um julgamento 
acerca do hipnotismo,  preciso que se tenha praticado o hipnotismo por experincia prpria".
           Realmente, h numerosos adversrios da hipnose que formaram seu julgamento de um modo mais apressado. No puseram  prova o novo mtodo teraputico e 
no o empregaram imparcial e cuidadosamente, como se procederia, por exemplo, com uma droga recentemente recomendada; rejeitaram a hipnose a priori, e agora a ausncia 
de conhecimentos dos valiosos efeitos teraputicos desse mtodo no os autoriza, seja qual for o seu fundamento, a manifestar to custicas e injustificadas expresses 
de antipatia  hipnose. Exageram enormemente os perigos da hipnose, passam a destrat-la sistematicamente e, diante da abundncia de relatos de cura pela hipnose, 
que j no podem ser relegadas ao descaso, reagem com esses pronunciamentos oraculares: "As curas nada provam, elas mesmas exigem prova". Tendo em conta a violncia 
de sua oposio, no  de admirar que acusem os mdicos que consideram seu dever usar a hipnose para beneficiar seus pacientes de terem motivos insinceros e formas 
de pensar no-cientficas - acusaes que devem ser excludas de uma discusso cientfica, sejam elas apresentadas publicamente, sejam veiculadas de modo mais ou 
menos disfarado. Quando entre esses adversrios encontram-se homens como Hofrat Meynert, homens que, por seus escritos, adquiriram grande autoridade, e quando essa 
autoridade, sem nem sequer ser posta em dvida, se estende, pelo consenso tanto dos mdicos como do pblico leigo, a todos os seus pronunciamentos, ento sem dvida 
 inevitvel que da resulte algum dano para a causa do hipnotismo. Para a maioria das pessoas,  difcil supor que um cientista que teve grande experincia em certas 
reas da neuropatologia e deu provas de grande agudeza de esprito no possa qualificar-se para ser citado como autoridade em outros problemas; e o respeito  grandeza, 
particularmente  grandeza intelectual, certamente est entre as melhores caractersticas da natureza humana. Mas  necessrio ter o devido respeito pelos fatos. 
No h por que recear dizer isso francamente, quando se trata de colocar de lado a dependncia que se tinha em relao a uma autoridade, em favor da opinio prpria, 
formada a partir do estudo dos fatos.
           Todo aquele que, tal como o autor desta resenha, alcanou um julgamento independente nos assuntos referentes  hipnose, haver de se consolar com a reflexo 
de que qualquer ofensa  reputao da hipnose, feita dessa maneira, s pode ser uma ofensa limitada tanto no tempo como no espao. O movimento que procura introduzir 
o tratamento sugestivo no estoque teraputico da medicina j triunfou em outros pases e, no final, alcanar seu objetivo tambm na Alemanha (e em Viena). Todo 
mdico que se disponha a examinar os fatos com iseno ser levado a tomar uma atitude menos desfavorvel quando verificar que as supostas vtimas da terapia hipntica 
sofrem menos, depois do tratamento, e podem executar suas funes melhor do que o faziam antes - e  este o caso dos meus prprios pacientes, como posso afirmar. 
Algumas experincias mostraro a eles que toda uma srie de censuras  hipnose aplica-se no  hipnose, em particular, mas sim  nossa terapia em geral, e pode, 
na verdade, ser mais justificadamente dirigida contra determinados mtodos que todos ns usamos na prtica do que contra a hipnose. Como mdicos, descobriro que 
 impossvel no utilizar a hipnose e deixar que seus pacientes sofram, quando podem alivi-los mediante o uso incuo da influncia psquica. Sero obrigados a dizer 
a si mesmos que a hipnose no perde nada de sua inocuidade nem de seu valor curativo quando a denominam "loucura artificial" ou "histeria artificial", do mesmo modo 
que a carne no perde nem um pouco seu gosto nem seu valor nutritivo s porque a ira dos vegetarianos a denuncia como "carnia".
           Esqueamos por um momento que conhecemos, por nossa experincia, os efeitos da hipnose; perguntemo-nos que efeitos prejudiciais esperaramos, a priori, 
resultassem dela. O tratamento hipntico, em primeiro lugar, consiste em induzir um estado hipntico e, em segundo, em veicular uma sugesto  pessoa hipnotizada. 
Qual desses dois atos se supe seja prejudicial? Promover a hipnose? Mas a hipnose, quando tem seu mais pleno xito, nada mais  do que o sono comum, coisa to conhecida 
de todos ns, embora, sob muitos aspectos, sem dvida ainda no a compreendamos; e, por outro lado, quando menos completamente desenvolvida, a hipnose corresponde 
s diferentes fases do processo do adormecer.  verdade, que, no sono, perdemos nosso equilbrio psquico, e a atividade de nosso crebro durante o sono  uma atividade 
desordenada que, em muitos aspectos, lembra a loucura; esta analogia, contudo, tambm no impede que despertemos do sono com renovada fora mental. Se fssemos seguir 
as opinies de Meynert acercados efeitos prejudiciais da reduo da atividade cortical e da origem que ele atribui  euforia hipntica, ns, mdicos, realmente teramos 
toda a razo para manter as pessoas insones. At agora, porm, as pessoas ainda preferem dormir, e no temos por que recear que os perigos da terapia hipntica se 
situem no ato de hipnotizar. Comunicar uma sugesto seria o fator prejudicial? Isto  impossvel, pois  ato notrio que os ataques da oposio de modo algum so 
dirigidos contra a sugesto. Como se sabe, o uso da sugesto tem sido uma coisa familiar aos mdicos, desde pocas imemoriais: "Todos ns estamos dando sugestes 
constantemente", dizem eles; e, realmente, um mdico - mesmo que no pratique a hipnose - nunca se sente mais satisfeito do que depois de haver recalcado um sintoma 
da ateno de um paciente mediante o poder de sua personalidade e influncia de suas palavras - e de sua autoridade. Por que no deveria ento o mdico procurar 
exercer sistematicamente a influncia que sempre lhe parece to desejvel quando nela tropea inadvertidamente? Entretanto, talvez seja a sugesto, de qualquer modo, 
o elemento passvel de objees: a represso de uma personalidade livre pelo mdico, que ao mesmo tempo conserva um poder de direo sobre o crebro adormecido em 
sono artificial.  deveras interessante ver os mais ardorosos deterministas defendendo, de repente, o periclitante "livre-arbtrio pessoal" e constatar que os psiquiatras 
que esto habituados a sufocar a "atividade mental de livre aspirao" de seus pacientes com grandes doses de brometos, morfina e hidrato de cloral passem a acusar 
a influncia da sugesto como coisa degradante tanto para o paciente como para o mdico. Ser ento realmente possvel esquecer que a represso da independncia 
de um paciente pela sugesto da hipnose  sempre apenas uma represso parcial; que ela visa aos sintomas de uma doena; que (como foi mostrado uma centena de vezes) 
toda a educao social dos seres humanos se baseia numa represso de idias e motivaes imprprias e na sua substituio por outras melhores; e que, diariamente, 
a vida produz em todas as pessoas efeitos psquicos que, ainda que as atinjam no seu estado de viglia, nelas produzem modificaes muito mais intensas do que aquelas 
produzidas pela sugesto do mdico que tenta eliminar uma idia penosa ou angustiante, usando a eficcia de uma contra-idia? No. No h nada de perigoso na terapia 
pela hipnose; apenas o seu mau uso  que pode ser perigoso; e todo aquele que, na qualidade de mdico, no confiar no escrpulo ou retido de sua inteno de evitar 
esse mau uso, agir acertadamente mantendo-se  distncia desse mtodo teraputico novo.
           No que concerne  avaliao pessoal dos mdicos que tm a coragem de utilizar a hipnose como medida teraputica antes que a onda da moda a torne obrigatria, 
o autor desta resenha  de opinio de que  conveniente ter certa tolerncia para com a freqente intolerncia dos grandes homens. Por isso, no lhe parece aconselhvel, 
ou matria digna de algum interesse para um crculo mais amplo, investigar aqui as razes que levaram o Hofrat Maynert a apresent-lo [o resenhista], bem como a 
parte da histria de sua vida, aos leitores de seu artigo sobre as neuroses traumticas.
           O autor desta resenha julga mais importante falar a favor da hipnose para aqueles que se habituaram a deixar que seu julgamento sobre matrias cientficas 
seja determinado por uma grande autoridade, e que talvez a isto tenham sido levados por uma correta percepo da inadequao do seu prprio discernimento. Prope-se 
faz-lo, confrontando com a resistente autoridade de Meynert, outros cientistas que se mostraram mais receptivos  hipnose. Lembra que, entre ns, foi o Prof. H. 
Obersteiner quem primeiro deu impulso ao estudo cientfico da hipnose e que um psiquiatra e neurologista to conceituado como o Prof. Krafft-Ebing (recente aquisio 
de nossa Universidade) pronunciou-se irrestritamente a favor da hipnose e a utiliza em sua prtica mdica com os melhores resultados. Ver-se- que esses nomes satisfaro 
tambm queles que so desprovidos de opinio, que sua confiana exige das autoridades cientficas o preenchimento de determinadas condies, tais como nacionalidade, 
raa e latitude geogrfica, e cuja confiana acaba nos postos de fronteira de sua terra natal.
           Todos os outros que so receptivos  autoridade cientfica, mesmo que proveniente de fora de sua terra natal, incluiro tambm o Prof. Forel entre os 
homens cuja defesa da hipnose pode tranqiliz-los quanto  suposta ilegitimidade e desmerecimento desse mtodo de tratamento. O autor desta resenha, em particular, 
quando se defrontou com os ataques de Meynert, sentiu que, apoiando a hipnose, estava em boa companhia. O Prof. Forel  uma prova de que um homem pode ser um notvel 
anatomista do crebro e, no obstante, enxergar na hipnose algo mais do que um absurdo. Tambm no pode ser-lhe negada a qualificao de "um mdico de rigorosa formao 
em fisiologia" - que o Hofrat Meynert muito amavelmente atribuiu ao passado deste que escreve esta resenha; e assim como o autor desta resenha retornou da iniqidade 
de Paris em estado corrompido, uma visita a Bernheim, em Nancy, constituiu para o Prof. Forel o ponto de partida da nova atividade a que devemos este excelente trabalho.
           II
           Nas partes iniciais deste livro, Forel procura, na medida do possvel, estabelecer uma distino entre "fatos, teorias, conceitos e terminologia".
           O fato principal do hipnotismo consiste na possibilidade de colocar uma pessoa num estado especial da mente (ou, mais precisamente, do crebro), que se 
assemelha ao sono. Esse estado  conhecido como hipnose. Um segundo conjunto de atos consiste na maneira como esse estado  produzido (e encerrado). Isto parece 
ser possvel de trs modos: (1) pela influncia psquica que uma pessoa exerce sobre outra (sugesto), (2) pela influncia (fisiolgica) de determinados mtodos 
(fixao), por ms, pela mo do hipnotizador etc. e (3) pela auto-influncia (auto-sugesto). No entanto, apenas o primeiro desses mtodos est estabelecido: a 
produo por idias - sugesto. Em nenhuma das outras formas de produzir a hipnose parece possvel excluir a ao da sugesto, de uma ou de outra forma.
           Um terceiro grupo de fatos diz respeito  conduta da pessoa hipnotizada. Quando a pessoa est sob hipnose,  possvel exercer, pela sugesto, os mais 
amplos efeitos sobre quase todas as funes do sistema nervoso e, entre elas, sobre aquelas atividades cuja dependncia com relao aos processos que ocorrem no 
crebro  geralmente estimada como bastante reduzida. O fato de a influncia do crebro sobre as funes orgnicas poder tornar-se mais intensa sob hipnose do que 
no estado de viglia certamente se harmoniza pouco com as teorias dos fenmenos hipnticos que procuram consider-los como "depressores da atividade cortical", uma 
espcie de imbecilidade experimental. Existem, contudo, muitas outras coisas, alm dos fenmenos hipnticos, que no se harmonizam com essa teoria, a qual procura 
compreender quase todos os fenmenos da atividade cerebral por meio do contraste entre "cortical" e "subcortical" e parece chegar ao ponto de localizar o princpio 
do "mal" nas partes subcorticais do crebro.
           
           Outros fatos inquestionveis so a dependncia da atividade mental da pessoa hipnotizada em relao  do hipnotizador e a produo daquilo que se conhece 
como efeitos "ps-hipnticos'' na pessoa hipnotizada - isto , a determinao de atos psquicos que s so executados muito tempo depois de cessada a hipnose. Por 
outro lado, h toda uma srie de afirmativas que relatam as mais interessantes atividades executadas pelo sistema nervoso (clarividncia, sugesto mental etc.), 
mas que, atualmente, no podem ser arroladas como fatos; e embora um exame cientfico dessas afirmaes no deva ser recusado, deve-se ter em mente que um esclarecimento 
satisfatrio das mesmas envolve as maiores dificuldades.
           Para explicar os fenmenos da hipnose foram propostas trs teorias fundamentalmente diferentes. A mais antiga destas, que ainda denominamos teoria de 
Mesmer, supe que, no ato de hipnotizar, um material impondervel - um fluido - passa do hipnotizador para o organismo hipnotizado. Mesmer chamava esse agente de 
"magnetismo". Sua teoria tornou-se to estranha  nossa forma de pensamento cientfico contemporneo que pode ser considerada eliminada. Uma segunda teoria, somtica, 
explica os fenmenos hipnticos com base nos reflexos medulares; considera a hipnose um estado fisiolgico modificado do sistema nervoso, causado por estmulos externos 
(impacto da mo, fixidez da atividade sensorial, aduo de ms, aplicao de metais etc.). Afirma que os estmulos desse tipo s tm efeito "hipnognico" quando 
h uma disposio peculiar do sistema nervoso e, portanto, s os neuropatas (especialmente os histricos) so hipnotizveis. Despreza a influncia das idias na 
hipnose e descreve uma srie tpica de modificaes puramente somticas que podem ser observadas durante o estudo hipntico. Como se sabe,  a grande autoridade 
de Charcot que apia essa concepo exclusivamente somtica da hipnose.
           Forel, no entanto, posiciona-se inteiramente segundo uma terceira teoria - a teoria da sugesto, criada por Libeault e seus discpulos (Bernheim, Beaunis, 
Ligeois). Segundo essa teoria, todos os fenmenos da hipnose constituem efeitos psquicos, efeitos de idias que, intencionalmente ou no, so provocadas na pessoa 
hipnotizada. O estado de hipnose, como tal,  produzido no por estmulos externos, mas por uma sugesto; no  exclusivo dos neuropatas e pode ser conseguido, sem 
muita dificuldade, na grande maioria das pessoas sadias. Em resumo, "o conceito de hipnotismo, to mal definido at agora, deve equivaler ao conceito de sugesto". 
Deve ficar reservado  deciso de uma crtica mais aprofundada saber se o conceito de sugesto realmente  menos mal definido que o conceito de hipnotismo. Aqui 
 necessrio apenas assinalar que um mdico que deseja estudar a hipnose e, a respeito dela, formar uma opinio, indubitavelmente dever adotar, em princpio, a 
teoria da sugesto. Pois ser capaz de se convencer da correo dos postulados da escola de Nancy, a qualquer tempo, com seus prprios pacientes, ao passo que provavelmente 
ter poucas condies de confirmar por sua prpria observao os fenmenos descritos por Charcot como "grande hipnotismo", os quais parecem ocorrer somente em alguns 
portadores de grande hystrie.
           A segunda parte do livro trata da sugesto; com admirvel conciso e uma capacidade de descrio magistral e penetrante, cobre toda a rea dos fenmenos 
psquicos que foram observados em pessoas sob hipnose. A chave para a compreenso da hipnose  dada pela teoria do sono normal (ou melhor, do adormecer normal), 
de Libeault, segundo a qual a hipnose se distingue somente pela insero do relacionamento entre a pessoa hipnotizada e a pessoa que a faz adormecer. Dessa teoria 
infere-se que toda pessoa  hipnotizvel e que, para no se promover a hipnose,  necessria a presena de obstculos especiais. Examina-se a natureza desses obstculos 
(um desejo demasiadamente intenso de ser hipnotizado, tanto quanto uma grande resistncia intencional, e assim por diante), discutem-se os graus de hipnose e se 
estuda a relao entre o sono sugerido e os outros fenmenos da hipnose, quase sempre em completo acordo com Bernheim, cuja obra categorizada sobre a sugesto parece 
ter encontrado amplo crculo de leitores em sua traduo alem. Os pargrafos sobre os efeitos da sugesto sob hipnose so igualmente apresentados sob a forma de 
excertos de Bernheim, mas so invariavelmente ilustrados com exemplos provenientes da experincia do prprio autor. Forel apresenta-os com esta frase: "Por meio 
da sugesto sob hipnose,  possvel produzir, influenciar, impedir (inibir, modificar, paralisar, ou estimular) todos os fenmenos subjetivos conhecidos da mente 
humana e uma grande parte das funes objetivamente conhecidas do sistema nervoso" - isto , influenciar as funes sensitivas e motoras do corpo, determinados reflexos 
e processos vasomotores (a ponto mesmo de causar bolhas!) e, na esfera psquica, influenciar sentimentos, instintos, memria, atividade volitiva e assim por diante. 
Todo aquele que j tenha acumulado algumas experincias pessoais com o hipnotismo h de se lembrar da impresso que lhe causou o fato de, pela primeira vez, poder 
exercer sobre a vida psquica de uma outra pessoa aquilo que at ento tinha sido uma influncia inimaginvel, e de poder efetuar com uma mente humana uma experincia 
que, de tal forma, normalmente s  possvel executar no corpo de um animal.  verdade que essa influncia apenas raramente se efetua sem resistncia da parte da 
pessoa hipnotizada. Esta no  um simples autmato; muitas vezes, empreende uma luta contra a sugesto, e por sua prpria atividade cria "auto-sugestes" - termo 
que, alis, apenas parece enriquecer o conceito de "sugesto", mas que, estritamente falando,  uma ab-rogao do mesmo.
           So da maior importncia as discusses que se seguem, referentes aos fenmenos ps-hipnticos - sugestes destinadas a produzir seu efeito aps um tempo-limite 
fixado - e a sugesto em estado de viglia - grupo de fenmenos cujo estudo j trouxe as mais valiosas concluses acerca dos processos psquicos normais dos seres 
humanos, embora sua interpretao ainda esteja sujeita a alguma controvrsia. Se o trabalho de Libeault e seus discpulos no tivesse produzido nada alm do conhecimento 
desses fenmenos notveis - embora, ao mesmo tempo, sejam fenmenos do dia-a-dia - e do enriquecimento da psicologia por um novo mtodo experimental, esse trabalho, 
mesmo excetuando qualquer alcance prtico, j teria assegurado um lugar de destaque entre as descobertas cientficas deste sculo. O pequeno livro de Forel contm 
toda uma srie de comentrios e conselhos oportunos sobre a aplicao prtica do hipnotismo, os quais impem a mais integral admirao do autor. S um mdico que 
associa o mais completo domnio do seu difcil tema a uma firme convico da importncia deste pode escrever dessa maneira. A tcnica do hipnotismo no  to fcil, 
como se poderia supor pela conhecida crtica feita no primeiro debate de Berlim: "Hipnotizar no  uma especialidade mdica, j que qualquer pastor de ovelhas adolescente 
a pratica".  necessrio estar imbudo de entusiasmo, pacincia, grande certeza e uma boa dose de estratagemas e inspirao. Aquele que tenta hipnotizar segundo 
um padro predeterminado, que teme a desconfiana ou o escrnio da pessoa a ser hipnotizada, ou que j comea com um estado de nimo vacilante, conseguir pouca 
coisa. A pessoa a ser hipnotizada no deve ser nervosamente deixada em apuros; as pessoas muito nervosas so as menos indicadas para realizar esse tipo de tratamento. 
Um procedimento competente e firme elimina todas as supostas ms conseqncias do hipnotismo. Conforme apropriadamente se expressou o Dr. Brillon, "On ne s'improvise 
pas plus mdecin hypnotiseur qu'on ne s'improvise oculiste."
           
           Pois bem, o que pode conseguir a hipnose? Forel d uma lista de doenas "que parecem ceder muito bem com a sugesto", sem pretender que essa lista seja 
completa. Deve-se acrescentar que a posio que ocupam as "indicaes", no caso do tratamento hipntico, difere um tanto do que se passa em outros casos, como, por 
exemplo, no uso da digitalina. Praticamente depende mais das caractersticas da pessoa do que da natureza de sua doena. H determinadas pessoas nas quais dificilmente 
um sintoma deixa de ceder  sugesto, por mais firme que seja sua base orgnica - por exemplo, a vertigem, na doena de Mnire, ou a tosse, na tuberculose; em outras 
pessoas  impossvel exercer qualquer influncia, sequer sobre distrbios de indubitvel origem psquica. E no depende menos da habilidade do hipnotizador e das 
condies nas quais ele  capaz de tratar seus pacientes. Eu mesmo tenho tido no poucos resultados felizes com o tratamento hipntico; mas no me arrisco a empreender 
certas curas de um tipo que testemunhei junto a Libeault e Bernheim, em Nancy. Tambm sei que boa parte do sucesso  devida  "atmosfera sugestiva" que circunda 
a clnica daqueles dois mdicos, ao milieu e ao estado de nimo dos pacientes - coisas de que nem sempre consigo encontrar sucedneos em meus clientes experimentais.
           Ser possvel modificar permanentemente uma funo nervosa por meio da sugesto? Ou ser justificada a acusao de que a sugesto s produz xitos sintomticos 
por um curto espao de tempo? O prprio Bernheim deu a essa acusao uma resposta irrefutvel, nos ltimos pargrafos de seu livro. Assinala que a sugesto atua 
da mesma forma que qualquer outro agente teraputico que temos  nossa disposio; isto , uma sugesto escolhe, dentre um complexo de fenmenos patolgicos, um 
ou outro sintoma importante cuja remoo exercer a influncia mais favorvel na evoluo de todo o processo. Pode-se acrescentar que a sugesto, alm disso, satisfaz 
todos os requisitos de um tratamento causal, em numerosos casos.  o que sucede, por exemplo, nos distrbios histricos, que so resultado direto de uma idia patognica 
ou sedimento de uma experincia desagregadora. - Quando essa idia  eliminada ou essa lembrana  enfraquecida - que  o que a sugesto realiza -, tambm o distrbio 
geralmente  superado.  verdade que isso no significa que a histeria esteja curada: em condies parecidas, ela provocar sintomas parecidos. Mas ser que a histeria 
 curada pelahidroterapia, pela superalimentao ou pela valeriana? Acaso se espera que um mdico possa curar uma ditese nervosa quando persistem as circunstncias 
que a sustentam? Segundo Forel, pode-se conseguir xito permanente, por meio da sugesto, nas seguintes condies: (1) Quando a mudana efetuada tem dentro de si 
mesma a fora para se manter entre os elementos da dinmica do sistema nervoso. Por exemplo, suponhamos que uma criana, por meio da sugesto, interrompeu a enurese 
noturna. Ento o hbito normal pode conseguir estabelecer-se to firmemente como o hbito anterior, indesejvel. Ou (2) quando essa fora para a mudana  suprida 
por um medicamento. Suponhamos, por exemplo, que algum sofra de insnia, fadiga e enxaqueca. Ento a sugesto lhe assegura o sono e, assim, melhora seu estado geral, 
e o retorno da enxaqueca  evitado permanentemente.
           Mas o que  realmente a sugesto, que  a base de todo o hipnotismo, no qual todos esses resultados so possveis? Ao levantarmos essa questo, apontamos 
um dos pontos fracos da teoria de Nancy. Sem querer, lembramo-nos da questo do ponto de apoio de So Cristvo, quando verificamos que o trabalho exaustivo de Bernheim, 
que culmina com a afirmao "Tout est dans la suggestion", nem de longe procura abordar a natureza da sugesto - isto , a definio do conceito. Quando tive o privilgio 
de receber ensinamentos pessoais do professor Bernheim sobre os problemas do hipnotismo, pareceu-me verificar que ele denominava sugesto a toda influncia psquica 
eficaz exercida por uma pessoa sobre outra, e que considerava como "sugerir" todo esforo no sentido de exercer uma influncia psquica em alguma outra pessoa. Forel 
procura estabelecer uma distino mais clara. Uma seo sobre "Sugesto e Conscincia", rica em idias, intenta compreender a atuao da sugesto com base em determinadas 
hipteses fundamentais relativas aos eventos psquicos normais. Ainda que no sejamos solicitados a dar uma declarao de que estamos completamente satisfeitos com 
esse debate, devemos ao autor nossos agradecimentos por apontar a direo em que se pode procurar uma soluo para o problema, e por numerosas sugestes e contribuies 
nesse sentido. No pode haver dvidas de que comentrios como os que fez Forel nessa seo de seu livro tm maior conexo com o problema da hipnose do que o contraste 
entre "cortical esubcortical" e as especulaes sobre dilatao e constrio dos vasos sangneos do crebro.
           O livro termina com uma seo sobre a importncia forense da sugesto. Conforme sabemos, at o momento, os "crimes sugeridos" so simplesmente uma possibilidade 
para a qual os juristas esto se preparando, e que os romancistas podem prever como "no to improvveis que no possam acontecer algum dia". De fato, em laboratrio, 
no  difcil induzir um bom sonmbulo a cometer um crime imaginrio. Mas, depois das perspicazes crticas de Delboeuf aos experimentos de Ligeois, deve permanecer 
em aberto a questo de at que ponto a conscincia de se tratar apenas de uma experincia facilita  pessoa a execuo do crime.
           DR. SIGM. FREUD
           
           
           
           
           
           
         
         
         HIPNOSE (1891)
           
            (a) EDIO ALEM:
           1891 Em Therapeutisches Lexikon, de Anton Bum, 724-732. (Viena: Urban & Schwarzenberg.) (1893, 2 ed., 896-904; 1900, 3 ed., 1, 1110-19.)
           A segunda e a terceira edies no sofreram modificaes, exceto quanto a algumas correes mnimas, principalmente tipogrficas. A traduo de James 
Strachey  a primeira para o ingls.
           Essa contribuio assinada para um dicionrio mdico tinha passado inteiramente despercebida at ser descoberta, em 1963, pelo Dr. Paul F. Cranefield, 
Ph.D., editor do Bulletin of the New York Academy of Medicine. A ele cabem nossos agradecimentos por chamar-nos a ateno para esse trabalho e por nos ter fornecido 
cpias fotostticas. Parece que nada se sabe acerca da feitura desse trabalho.
           
           Seria um equvoco pensar que  muito fcil praticar a hipnose com fins teraputicos. Pelo contrrio, a tcnica de hipnotizar  um mtodo mdico to difcil 
como qualquer outro. Um mdico que deseja hipnotizar deve t-lo aprendido com um mestre nessa arte e, mesmo depois disso, dever ter tido bastante experincia prpria, 
a fim de obter xitos em mais do que alguns poucos casos. Depois, como hipnotizador experiente, haver de abordar o assunto com toda a seriedade e firmeza que nascem 
da conscincia de estar empreendendo algo til e, a rigor, em algumas circunstncias, necessrio. A rememorao de tantas outras curas realizadas pela hipnose conferir 
 sua conduta para com seus pacientes uma certeza que no deixar de despertar, tambm nestes, a expectativa de mais um xito teraputico. Todo aquele que se pe 
a hipnotizar com ceticismo, que talvez se afigure cmico a si mesmo nessa situao e que revele, por sua expresso, sua voz e seus modos, no esperar nada da experincia, 
no ter motivos para se surpreender com seus fracassos; deveria, preferentemente, deixar esse mtodo de tratamento para outros mdicos capazes de pratic-lo sem 
se sentirem feridos em sua dignidade mdica, de vez que se convenceram, pela experincia e pela leitura, da realidade e da importncia da influncia hipntica.
           Devemos ter como regra no procurar impor ao paciente o tratamento pela hipnose. Entre o pblico acha-se difundido o preconceito (realmente reforado 
por alguns mdicos conceituados, conquanto inexperientes nesse assunto) de que a hipnose  um procedimento perigoso. Se tentssemos impor a hipnose a algum que 
acreditasse nessa afirmao, provavelmente viramos a ser interrompidos, no mais do que uns poucos minutos depois, por acontecimentos desagradveis, que surgiriam 
da ansiedade do paciente e de seu sentimento angustiante de estar sendo dominado, os quais, porm, com bastante certeza, seriam considerados como resultado da hipnose. 
Portanto, sempre que surge uma intensa resistncia contra o uso da hipnose, devemos renunciar ao mtodo e esperar at que o paciente, sob a influncia de outras 
informaes, aceite a idia de ser hipnotizado. Por outro lado, no  absolutamente desfavorvel se um paciente declara que no teme a hipnose, mas que no acredita 
nela ou no acredita que ela lhe possa ser til. Num caso desses, dizemos-lhe: "No exigimos sua crena, mas, de incio, apenas sua ateno e sua cooperao". E, 
em regra, nesse estado de esprito indiferente do paciente, encontramos excelente apoio. Por outro lado, deve-se dizer que h pessoas que so impedidas de serem 
hipnotizadas justamente por sua vontade e insistncia em serem hipnotizadas. Isto est em completa discordncia com a opinio popular segundo a qual a "f"  um 
fator da hipnose; mas realmente so estes os fatos. Em geral, podemos partir da presuno de que qualquer pessoa  hipnotizvel; porm, todo mdico encontrar determinado 
nmero de pessoas que, dentro das condies de suas experincias, no conseguir hipnotizar e, muitas vezes, ser incapaz de dizer de onde se originou seu fracasso. 
Por vezes, um mtodo consegue obter algo que parecia impossvel com um outro mtodo, e o mesmo se aplica aos diferentes mdicos. Nunca podemos dizer antecipadamente 
se ser possvel hipnotizar um paciente ou no; empreender a tentativa  a nica maneira de que dispomos para descobrir isso. At os dias atuais, no se conseguiu 
relacionar a acessibilidade  hipnose com qualquer outro atributo de uma pessoa. O que se sabe de verdadeiro  que os portadores de doena mental e os degenerados, 
na sua maior parte, no so hipnotizveis, e os neurastnicos somente o so com grande dificuldade. No  verdade que os pacientes histricos no se adaptem  hipnose. 
Pelo contrrio, so precisamente estes os pacientes nos quais a hipnose se efetua como reao a medidas puramente fisiolgicas e com toda a aparncia de um estado 
fsico especial.  importante formar um julgamento provisrio da individualidade psquica do paciente que desejamos hipnotizar; mas, nesse ponto especfico, no 
se podem estabelecer leis gerais. Entretanto,  evidente que no h vantagem em comear um tratamento mdico pela hipnose;  melhor, antes de tudo, conquistar a 
confiana do paciente e deixar que sua desconfiana e seu senso crtico se neutralizem. No entanto, todo aquele que goza de uma grande reputao como mdico ou como 
hipnotizador pode agir sem essa preparao. 
           Contra que doenas podemos usar a hipnose? Nesse sentido, as indicaes so mais difceis do que no caso de outros mtodos de tratamento, pois a reao 
individual  terapia hipntica desempenha um papel quase to grande como a prpria natureza da doena a ser combatida. Em geral, evitaremos aplicar o tratamento 
hipntico em sintomas que tenham origem orgnica; empregaremos esse mtodo apenas em casos de doenas nervosas puramente funcionais, em doenas de origem psquica, 
bem como em casos de dependncia de txicos e outras dependncias. Ainda assim, convencer-nos-emos de que numerosos sintomas de doenas orgnicas so acessveis 
 hipnose e de que a modificao orgnica pode existir sem distrbio funcional dela decorrente. Devido  antipatia ao tratamento hipntico verificada no momento, 
raramente podemos empregar a hipnose, exceto quando todos os outros tipos de tratamento foram tentados sem xito. Isto tem sua vantagem, pois assim ficamos conhecendo 
a verdadeira rea de ao da hipnose. Naturalmente, tambm podemos hipnotizar com vistas ao diagnstico diferencial: por exemplo, quando estamos em dvida se determinados 
sintomas se relacionam com a histeria ou com uma doena nervosa orgnica. Contudo, essa prova s tem algum valor em casos nos quais o resultado  favorvel.
           Quando tivermos conseguido uma certa familiaridade com o paciente e tivermos estabelecido o diagnstico, surge a questo de saber se iremos experimentar 
a hipnose num tte--tte, ou se introduziremos uma terceira pessoa de confiana. Essa medida seria desejvel para proteger o paciente de um mau uso da hipnose, 
bem como proteger o mdico de alguma acusao de abuso do mtodo. E ambas as coisas sabidamente j ocorreram. Mas nem sempre se pode empregar essa medida. A presena 
de uma amiga, ou do marido da paciente, e assim por diante, muitas vezes perturba enormemente a paciente e por certo diminui a influncia do mdico. Ademais, o assunto 
central das sugestes a serem feitas na hipnose nem sempre  apropriado para se tornar do conhecimento de pessoas muito prximas da paciente. A introduo de um 
segundo mdico no teria essa desvantagem, mas aumenta em tal grau a dificuldade de executar o tratamento que o torna impossvel, na maioria dos casos. Visto que 
compete ao mdico, acima de tudo, prestar auxlio por meio da hipnose, na maior parte dos casos ele ter de abrir mo da introduo de uma terceira pessoa e enfrentar 
o risco j mencionado, junto com os demais riscos inerentes ao exerccio da profisso mdica. A paciente, porm, dever precaver-se, no se deixando hipnotizar por 
um mdico que no parea merecer a mais completa confiana.
           Por outro lado,  da maior utilidade para a paciente a ser hipnotizada que ela veja outras pessoas em estado de hipnose, que saiba por imitao, como 
ir se conduzir e saiba, por outras pessoas, qual a natureza das sensaes que ocorrem durante o estado hipntico. Em Nancy, na clnica de Bernheim e no ambulatrio 
de Libeault, onde todo mdico pode obter esclarecimentos a respeito dos resultados de que  capaz a influncia hipntica, nunca se efetua a hipnose num tte--tte. 
Todo paciente que, pela primeira vez, toma contato com a hipnose observa, durante algum tempo, como adormecem os pacientes h mais tempo em tratamento, como obedecem 
durante a hipnose e como, depois de acordarem, admitem que seus sintomas desapareceram. Isso o conduz a um estado de preparao psquica que, to logo chegue sua 
vez, o faz entrar em profunda hipnose. Contra esse procedimento existe a objeo de as doenas e males de cada indivduo serem discutidos diante de grande nmero 
de pessoas, o que no  adequado a pacientes de classe social mais elevada. No obstante, um mdico que deseje tratar pela hipnose no deve renunciar a esse poderoso 
fator auxiliar, e deve, na medida do possvel, dispor as coisas de tal modo que a pessoa a ser hipnotizada esteja presente, antes, a uma ou mais experincias hipnticas. 
Se no podemos contar com a possibilidade de o paciente hipnotizar-se por imitao, logo que lhe damos o sinal, podemos escolher entre diferentes mtodos de induzir-lhe 
a hipnose, tendo todos eles em comum o fato de que, por determinadas sensaes fsicas, lembrem o adormecer. A melhor maneira de proceder  a que se segue. Colocamos 
o paciente numa cadeira confortvel, pedimos que se mantenha cuidadosamente atento e que no fale mais, pois falar lhe impediria o adormecer. Remove-se-lhe qualquer 
roupa apertada e pede-se a quaisquer outras pessoas presentes que se mantenham numa parte da sala onde no possam ser vistas pelo paciente. Escurece-se a sala, mantm-se 
o silncio. Aps esses preparativos, sentamo-nos em frente ao paciente e pedimos-lhe que fixe os olhos em dois dedos da mo direita do mdico e, ao mesmo tempo, 
observe atentamente as sensaes que passar a sentir. Depois de curto espao de tempo, um minuto, talvez, comeamos a persuadir o paciente a sentir as sensaes 
do adormecer. Por exemplo: "Estou reparando que as coisas esto indo rpido no seu caso: seu rosto assumiu um aspecto fixo, sua respirao ficou mais profunda, voc 
ficou muito tranqilo, suas plpebras esto pesadas, seus olhos esto piscando, voc no pode mais ver com muita clareza, logo ter de engolir, depois vai fechar 
os olhos - e voc est dormindo". Com essas palavras e outras semelhantes, j estamos propriamente no processo de "sugerir", que  como podemos chamar a esses comentrios 
persuasivos durante a hipnose. Mas estamos apenas sugerindo sensaes e processos da motricidade, tal como ocorrem espontaneamente na instalao do sono hipntico. 
Podemos convencer-nos disto se tivermos diante de ns uma pessoa que possa ser submetida  hipnose somente por meio da fixao do olhar (mtodo de Braid), pessoa 
em que, por conseguinte, a fadiga dos olhos causa o estado de sono, devido ao esforo da ateno e porque esta se desvia das outras impresses. Primeiramente, a 
fisionomia do paciente assume um aspecto rgido, sua respirao se aprofunda, seus olhos se umedecem e piscam freqentemente, ocorrem um ou mais movimentos de deglutio 
e, por fim, os globos oculares se voltam para dentro e para cima,as plpebras caem e a hipnose est presente.  grande o nmero de pessoas nas quais o fenmeno se 
passa dessa maneira; se observarmos que temos diante de ns uma pessoa nessas condies, ser bom mantermos silncio e s ocasionalmente dar ajuda mediante uma sugesto. 
Procedendo de modo diferente, s estaramos perturbando o paciente que se est hipnotizando, e se a sucesso de sugestes no corresponder  seqncia real de suas 
sensaes, provocaremos uma contradio. Contudo, geralmente  aconselhvel no esperar pelo desenvolvimento espontneo da hipnose; convm estimul-la por sugestes. 
Estas, no entanto, devem ser dadas de modo resoluto numa seqncia rpida. No se deve deixar, por assim dizer, que o paciente caia em si: ele no deve ter tempo 
para testar se  correto aquilo que lhe foi dito. Para que seus olhos se fechem, no precisamos de mais do que dois a quatro minutos aproximadamente; se no se fecharem 
espontaneamente, ns os fechamos exercendo uma presso sobre eles, sem demonstrar surpresa ou aborrecimento por no ter ocorrido seu fechamento espontneo. Se os 
olhos permanecerem cerrados,  provvel que tenhamos conseguido um determinado grau de influncia hipntica. Este  o momento decisivo para tudo o que vir a seguir.
           Pois acontece uma de duas possibilidades. A primeira alternativa  o paciente, mantendo fixo o olhar e ouvindo as sugestes, realmente ter sido posto 
em estado hipntico; nesse caso, ele permanece quieto depois de cerrar os olhos. Podemos ento fazer a prova da catalepsia, dar-lhe as sugestes requeridas para 
sua doena e, ento, despert-lo. Depois de acordar, o paciente ou estar amnsico (esteve "sonamblico", durante a hipnose), ou conservar completamente a sua memria 
e relatar as sensaes que teve durante a hipnose. No  raro aparecer no seu semblante um sorriso, depois de termos fechado seus olhos. O mdico no deve perturbar-se 
com isso; via de regra, significa apenas que a pessoa sob hipnose ainda  capaz de ajuizar acerca de seu prprio estado e o acha estranho ou cmico. A segunda alternativa, 
porm,  a de no se ter estabelecido a influncia, ou de ter havido apenas um grau muito leve da mesma, enquanto o mdico se conduziu como se tivesse diante de 
si uma hipnose completa. Imaginemos o estado mental do paciente nessa situao. Ele prometeu, no incio dos preparativos, manter-se calmo, no falar mais e no dar 
nenhuma indicao de confirmao ou negao; agora ele verifica que, com base em sua concordncia com isto, est-lhe sendo dito que est hipnotizado; ele se irrita 
com o fato, sente-se mal por no lhe ser permitido expressar sua irritao; sem dvida, tambm est receoso de que o mdico de imediato comece a fazer sugestes, 
na crena de que ele, paciente, est hipnotizado, antes de estar. E nisso a experincia mostra que, se no est realmente hipnotizado, no mantm o acordo que fizemos 
com ele. O paciente abre os olhos e diz (geralmente ressentido): "No estou dormindo coisa nenhuma!" Um principiante, diante disso, pensaria que a hipnose  um fracasso, 
mas algum com experincia no haver de perder sua compostura. Responder sem a menor irritao, ao mesmo tempo que novamente fecha os olhos do paciente: "Mantenha-se 
tranqilo. Voc prometeu no falar. Naturalmente, sei que voc no est dormindo; e nem isso  necessrio. Qual teria sido o sentido de eu simplesmente fazer voc 
adormecer? Voc no compreenderia quando eu lhe falasse. Voc no est dormindo, mas est hipnotizado, est sob minha influncia; o que eu lhe digo agora causar 
uma impresso especial em voc e lhe ser til". Depois dessa explicao, geralmente o paciente se mantm calmo e lhe fazemos as sugestes; por ora, abstemos-nos 
de procurar os sinais fsicos da hipnose; contudo, depois que essa dita hipnose tiver sido repetida diversas vezes, verificaremos que aparecem alguns dos fenmenos 
somticos que caracterizam a hipnose.
           Em muitos casos desse tipo, no final ainda continua duvidoso se o estado que provocamos merece o nome de "hipnose". No entanto, estaramos cometendo um 
erro se procurssemos restringir a veiculao de sugestes aos casos em que o paciente se torna sonamblico ou entra em um grau profundo de hipnose. Em casos assim, 
que, na realidade, s tm a aparncia de hipnose, podemos conseguir os mais surpreendentes resultados teraputicos, que, por outro lado, no so obtidos com a "sugesto 
de viglia". Portanto, tambm nesse caso, o que temos diante de ns , ainda assim, certamente hipnose - cujo nico objetivo, afinal,  o efeito que nela se produz 
pela sugesto. Entretanto, se, depois de tentativas repetidas (de trs a seis), no houver qualquer indcio de xito, nem qualquer sinal somtico de hipnose, desistiremos 
da experincia.
           Bernheim e outros distinguiram diversos graus de hipnose, mas sua enumerao tem pouco valor na prtica. O que tem importncia decisiva  apenas se o 
paciente ficou sonamblico ou no - isto , se o estado de conscincia produzido na hipnose difere nitidamente do estado habitual de modo significante para que a 
lembrana daquilo que ocorreu durante a hipnose esteja ausente depois de ele acordar. Nesses casos, o mdico pode negar a realidade das dores que esto presentes, 
ou de qualquer outro sintoma, com a maior deciso - o que, geralmente, ele  incapaz de fazer, se sabe que alguns minutos mais tarde o paciente lhe dir: "Quando 
o senhor disse que eu no tinha mais dores, eu as tinha do mesmo jeito, e as tenho ainda agora". Os esforos do hipnotizador orientam-se no sentido de ele se poupar 
de contradies dessa ordem, que s fazem abalar sua autoridade. Portanto, seria da maior importncia para o tratamento se possussemos um mtodo que possibilitasse 
colocar qualquer pessoa em estado de sonambulismo. Infelizmente, no h tal mtodo. A principal deficincia do tratamento pela hipnose  que ele no pode ser dosado. 
O grau alcanvel de hipnose no depende do mtodo do mdico, mas da reao casual do paciente.  tambm muito difcil aprofundar a hipnose em que um paciente entra, 
embora isso habitualmente acontea quando as sesses se repetem com freqncia.
           Quando no ficamos satisfeitos com a hipnose obtida, procuramos lanar mo de outros mtodos quando o tratamento prossegue. Estes, muitas vezes, atuam 
mais energicamente ou continuam atuando depois de se haver enfraquecido a influncia do mtodo inicialmente adotado. Aqui esto alguns desses mtodos: aplicar pequenos 
golpes no rosto e no corpo do paciente, com ambas as mos, continuamente, durante cinco a dez minutos (isto tem um efeito surpreendentemente relaxante e tranqilizador); 
usar a sugesto acompanhada da passagem da corrente galvnica fraca, que produz uma perceptvel sensao de sabor (o andio colocado numa faixa larga sobre a testa 
e o catdio numa faixa ao redor do pulso) - aqui a impresso de estar atado e a sensao galvnica contribuem em muito para a hipnose. Podemos improvisar mtodos 
parecidos a nosso critrio; basta que mantenhamos o objetivo de desenvolver, por uma associao de pensamento, o estado do adormecer e de fixar a ateno por meio 
de uma sensao persistente.
           O verdadeiro valor teraputico da hipnose est nas sugestes feitas durante a mesma. Essas sugestes consistem numa enrgica negao dos males de que 
o paciente se queixou, ou num asseguramento de que ele pode fazer algo, ou numa ordem para que o execute. Um resultado muito mais marcante do que o produzido por 
simples asseguramento ou negao ser obtido se vincularmos a esperada cura a uma ao ou interveno [nossa] durante a hipnose. Por exemplo: "Voc no tem mais 
dores neste lugar; eu aperto aqui e a dor desaparece". Aplicar pequenas pancadas e presso na parte afetada do corpo, durante a hipnose, em geral proporciona excelente 
apoio  sugesto falada. E no devemos deixar de esclarecer o paciente sob hipnose acerca da natureza de sua afeco, mostrar-lhe as razes do trmino do seu problema, 
e assim por diante; pois o que temos diante de ns, via deregra, no  um autmato psquico, mas um ser dotado do poder de crtica e da capacidade de julgamento, 
sobre o qual simplesmente estamos em condio de exercer maior impresso agora do que quando ele se encontra em estado de viglia. Quando a hipnose  incompleta, 
devemos evitar permitir que o paciente fale. Uma expresso motora dessa espcie faz dissipar a sensao de entorpecimento que corrobora sua hipnose, e o faz acordar. 
Pode-se, sem receio, permitir s pessoas sonamblicas que falem, andem e ajam, e obtemos uma influncia psquica de mximo alcance sobre elas perguntando-lhes, quando 
esto sob hipnose, a respeito dos seus sintomas e da origem deles.
           Mediante a sugesto, fazemos surgir ou um efeito imediato - especialmente ao tratar paralisias, contraturas etc. -, ou um efeito ps-hipntico - ou seja, 
um efeito cujo aparecimento estipulamos para um determinado tempo aps o despertar. No caso de sintomas muito rebeldes,  muito vantajoso intercalar um perodo de 
espera como este (digamos, at mesmo uma noite inteira) entre a sugesto e a sua execuo. A observao dos pacientes mostra que, em regra geral, as impresses psquicas 
necessitam de certo tempo, de um perodo de incubao, a fim de efetuarem uma modificao fsica. (Cf. "Neurose traumtica"). Cada uma das sugestes deve ser feita 
com a maior deciso, pois qualquer indcio de dvida  percebido pelo paciente, que o explora desfavoravelmente; no deve ser permitida uma contradio sequer e, 
se formos capazes, insistiremos em nosso poder de produzir catalepsia, contraturas, anestesia, e assim por diante.
           A durao de uma hipnose deve ser planejada de acordo com a necessidade prtica; a manuteno da hipnose por tempo relativamente longo - at algumas horas 
- certamente no  desfavorvel para o xito. O despertar  executado mediante algum comentrio mais ou menos assim: "Isto  suficiente por ora!" No devemos deixar 
de assegurar ao paciente, na primeira sesso de hipnose, que ele vai acordar sem dor de cabea, sentindo-se satisfeito, bem-disposto. Apesar disso, pode-se observar 
que, aps uma ligeira hipnose, muitas pessoas despertam com sensao de presso na cabea e fadiga, no caso de a durao da hipnose ter sido demasiado curta.  como 
se no tivessem terminado seu sono.
           A profundidade de uma hipnose no est invariavelmente em proporo direta com seu sucesso. Podemos produzir as maiores modificaes nashipnoses mais 
leves e, ao contrrio, podemos fracassar num caso que atinja o estado de sonambulismo. Quando o resultado desejado no  conseguido aps algumas hipnoses, aparece 
uma outra dificuldade vinculada a esse mtodo de tratamento. Enquanto paciente algum se arrisca a mostrar-se impaciente, caso ainda no tenha sido curado depois 
da vigsima sesso de aplicao de eletricidade, ou depois de igual nmero de garrafas de gua mineral, no tratamento hipntico tanto o mdico como o paciente se 
cansam muito mais depressa, em conseqncia do contraste entre o matiz deliberadamente otimista das sugestes e a melanclica verdade dos efeitos. Tambm aqui, os 
pacientes inteligentes podem tornar mais fcil o trabalho do mdico, na medida em que percebem que, ao fazer as sugestes, o mdico est, por assim dizer, desempenhando 
um papel, e que, quanto mais energicamente ele atacar a doena dos pacientes, mais benefcios, segundo se espera, estes obtero. Em todo tratamento hipntico prolongado 
deve-se evitar cuidadosamente um procedimento montono. O mdico deve estar constantemente  procura de um novo ponto de partida para suas sugestes, de uma renovada 
prova de seu poder, de uma nova modificao no seu mtodo de hipnotizar. Pois tambm para ele, que tem, quem sabe, dvidas ntimas a respeito do xito, este representa 
um grande e at exaustivo esforo.
           No h dvida de que a rea coberta pelo tratamento hipntico  muito mais extensa do que a de outros mtodos de tratamento de doenas nervosas. E no 
h nenhuma justificativa para a acusao de que a hipnose s  capaz de influenciar sintomas, e apenas por breve perodo de tempo. Se o tratamento hipntico  dirigido 
somente contra os sintomas, e no contra os processos patolgicos, est seguindo justamente o mesmo caminho que todos os demais mtodos de tratamento so obrigados 
a trilhar.
           Quando a hipnose tem xito, a estabilidade da cura depende dos mesmos fatores que a estabilidade de todas as curas conseguidas por outro mtodos. Caso 
a hipnose se tenha defrontado com fenmenos residuais de um processo j concludo, a cura ser permanente; se as causas que produziram os sintomas ainda estiverem 
em atividade e com sua fora no diminuda,  provvel que haja uma recada. O emprego da hipnose nunca exclui o emprego de qualquer outro tratamento, diettico, 
mecnico ou de algum outro tipo. Em numerosos casos - ou seja, naqueles em que os sintomas so de origem psquica - a hipnose preenche todos os requisitos que se 
podem exigir de um tratamento causal; nessas circunstncias, fazer perguntas einfundir calma ao paciente em hipnose profunda geralmente proporciona o mais brilhante 
xito.
           Tudo que se tem dito e escrito a respeito dos grandes perigos da hipnose pertence ao reino da fantasia. Se colocarmos de lado o mau uso da hipnose com 
fins ilegtimos - possibilidade esta que existe em todos os outros mtodos teraputicos eficazes -, o problema principal que teremos de considerar  a tendncia 
de as pessoas com neurose grave, depois de se repetir a hipnose, entrarem em hipnose espontaneamente. Cabe  capacidade do mdico proibir essa hipnose espontnea, 
que parece ocorrer somente em pessoas muito impressionveis. As pessoas cuja impressionabilidade vai ao ponto de poderem ser hipnotizadas contra sua vontade tambm 
podem ser protegidas, de modo bastante completo, pela sugesto de que apenas seu mdico ser capaz de hipnotiz-las.
           FREUD
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
         
         
         UM CASO DE CURA PELO HIPNOTISMO (1892-93)
           
           
           EIN FALL VON HYPNOTISCHER HEILUNG NEBST BEMERKUNGEN BER DIE ENTSTEHUNG HYSTERISCHER SYMPTOME DURCH DEN "GEGENWILLEN"
           (a) EDIES ALEMS:
           1892-93 Zeitschr. Hypnot., 1 (3), 102-7, (4), 123-9. (dezembro de 1892 e janeiro de 1893).
           1925 G. S., 1, 258-72.
           1952 G. W., 1, 3-17.
           (b) TRADUO INGLESA:
           "A Case of Successful Treatment by Hypnotism"
           1950 C. P., 5, 33-46. (Trad. de James Strachey.)
           A presente traduo inglesa constitui uma verso ligeiramente corrigida da que foi publicada em 1950.
           
           Este artigo veio  luz quase exatamente na mesma poca da "Comunicao Preliminar" de Breuer e Freud (1893a). Algumas das idias nele encontradas (por 
exemplo, a da "contra vontade") aparecem na obra posterior de Freud, constituindo o artigo como que uma ligao entre seus escritos sobre hipnotismo e aqueles que 
abordam a histeria, pela qual ele passava a se interessar. A opinio de que "um momento de disposio para a histeria" - neste caso, a fadiga fsica - proporciona 
a ocasio para a contra vontade afirmar-se sugere a influncia de Breuer e do "estado hipnide". (Ver em [1].)
           
           UM CASO DE CURA PELO HIPNOTISMO COM ALGUNS COMENTRIOS SOBRE A ORIGEM DOS SINTOMAS HISTRICOS ATRAVS DA CONTRAVONTADE
           
           Nas pginas que se seguem, proponho-me trazer a pblico um caso isolado de cura pela sugesto hipntica, pois, devido a uma srie de circunstncias concomitantes, 
esse caso foi mais convincente e mais claro do que a maioria dos nossos tratamentos nos quais houve xito.
           J havia vrios anos que eu conhecia a senhora a quem pude, desse modo, proporcionar atendimento numa fase importante de sua existncia, e ela permaneceu 
sob minha observao, posteriormente, por vrios anos. O distrbio do qual foi aliviada pela sugesto hipntica tinha surgido, pela primeira vez, algum tempo antes. 
E havia em vo lutado contra ele e, devido a tal problema, tinha sido forada a uma limitao da qual depois, com minha ajuda, se viu livre. Um ano mais tarde, o 
mesmo distrbio apareceu mais uma vez, e novamente foi superado da mesma forma. O xito teraputico foi valioso para a paciente e persistiu enquanto ela desejou 
levar a cabo a funo afetada pelo distrbio. Por fim, nesse caso, foi possvel individualizar o mecanismo psquico bsico do distrbio e correlacion-lo com atos 
semelhantes na rea da neuropatologia.
           Posso agora deixar de falar por enigmas. Tratava-se de uma me que era incapaz de amamentar seu beb recm-nascido, at haver a interveno da sugesto 
hipntica. Suas experincias com um filho anterior e com um outro, subseqente, serviram de controle do xito teraputico, tal como raramente se consegue lograr.
           A pessoa de que trata esse caso clnico  uma jovem senhora, entre vinte e trinta anos de idade, a quem eu conhecia desde os seus anos de infncia. Sua 
capacidade, tranqilo bom senso e espontaneidade tornavam impossvel que algum, inclusive seu mdico de famlia, a considerasse neurtica. Tendo em conta as circunstncias 
que passo a relatar, devo classific-la, segundo a apropriada expresso de Charcot, como uma histrique d'occasion. Essa categoria, como sabemos, no exclui uma 
admirvel combinao de qualidades e de uma sade nervosa isenta de comprometimentos em outros aspectos. Quanto a sua famlia, conheo sua me, que de modo algum 
 uma pessoa neurtica, e uma irm mais nova, igualmente sadia. Um irmo sofreu de uma neurastenia tpica do incio da idade adulta, o que arruinou sua carreira. 
Estou familiarizado com a etiologia e a evoluo dessa forma de doena, que encontro repetidamente, todos os anos, no meu exerccio da medicina. Tendo comeado a 
vida com uma boa constituio, o paciente se defronta, na puberdade, com as dificuldades sexuais prprias da idade; seguem-se anos de sobrecarga de trabalho, como 
estudante; ele se prepara para exames e sofre um ataque de gonorria, seguido de um sbito incio de dispepsia, acompanhada de uma constipao rebelde e inexplicvel. 
Depois de alguns meses, a constipao  substituda por sensao de presso intracraniana, depresso e incapacidade para o trabalho. Da em diante o paciente torna-se 
cada vez mais ensimesmado e seu carter vai ficando sempre mais fechado, at ele se tornar um tormento para a famlia. No tenho certeza se no  possvel adquirir 
essa forma de neurastenia com todos os seus elementos; portanto, sobretudo porque no conheo os demais parentes da minha paciente, deixo em aberto a questo de 
podermos supor que, nessa famlia, estaria presente uma disposio hereditria para a neurose.
           Ao chegar a poca do nascimento do primeiro filho de seu casamento (que era um casamento feliz), a paciente pretendia amamentar o beb. O parto no foi 
mais difcil do que o habitual numa primpara j no to jovem; foi concludo por frceps. Entretanto, embora sua constituio fsica parecesse favorvel, ela no 
conseguia amamentar satisfatoriamente a criana. Havia pouca produo de leite, surgiam dores quando o beb era posto a mamar, a me perdeu o apetite e se mostrava 
alarmantemente sem vontade de se alimentar, tendo noites agitadas e insones. Por fim, aps uns quinze dias, a fim de evitar algum risco maior para a me e a criana 
diante do fracasso, abandonou-se a tentativa e a criana passou a ser alimentada por uma ama-de-leite. Com isso, todos os problemas da me desapareceram. Devo acrescentar 
que no tenho condies de fazer um relato, nem como mdico nem como testemunha ocular, dessa primeira tentativa de amamentao.
           Trs anos mais tarde, nasceu o segundo beb; nessa ocasio, circunstncias externas somaram-se ao fato de ser desejvel evitar a ama-de-leite. Mas os 
esforos da prpria me para amamentar a criana pareciam ainda menos bem-sucedidos e pareciam provocar sintomas ainda mais desagradveis do que da primeira vez. 
A paciente vomitava todo o alimento ingerido, ficava inquieta quando ele era trazido at sua cama e era completamente incapaz de dormir. Ficou to deprimida com 
sua incapacidade que seus dois mdicos de famlia - mdicos amplamente conceituados em Viena, como o Dr. Breuere o Dr. Lott - no queriam nem ouvir em prosseguir 
com alguma outra tentativa mais prolongada nessa ocasio. Recomendaram apenas que se fizesse mais um esforo - com o auxlio da sugesto hipntica; e, no entardecer 
do quarto dia, fizeram com que eu fosse apresentado profissionalmente, de vez que pessoalmente eu j era conhecido da paciente.
           Encontrei-a deitada no leito, as faces ruborizadas, irritada com sua incapacidade de amamentar o beb - incapacidade que aumentava a cada tentativa, mas 
contra a qual ela lutava com todas as suas foras. A fim de evitar os vmitos, no tinha ingerido nenhum alimento durante todo aquele dia. Seu epigstrio estava 
distendido e apresentava-se sensvel  presso; a palpao revelou motilidade anormal do estmago; de tempos em tempos, havia eructao inodora, e a paciente se 
queixou de ter tido mau gosto constante na boca. A rea de ressonncia gstrica estava consideravelmente aumentada. Longe de ser bem recebido como um salvador em 
hora de necessidade, vi-me sendo recebido de m vontade e no pude contar com muita confiana por parte da paciente.
           Logo tratei de induzir a hipnose por meio de fixao do olhar, ao mesmo tempo que fazia constantes sugestes referentes aos sintomas do sono. Trs minutos 
depois, a paciente estava deitada, com a fisionomia tranqila de algum que dorme profundamente. No me recordo de ter feito quaisquer testes de catalepsia e outros 
sintomas de flexibilidade. Utilizei a sugesto para contestar todos os temores dela e os sentimentos em que esses temores se baseavam: "No tenha receio! Voc vai 
poder cuidar muito bem do seu beb, ele vai crescer forte. O seu estmago est perfeitamente calmo, o seu apetite est excelente, voc j est na expectativa da 
prxima refeio etc." A paciente continuou dormindo, o que permiti por alguns minutos, e, depois que a despertei, ela revelou amnsia para o que ocorrera. Antes 
de sair de casa, vi-me na necessidade de contestar um comentrio preocupado do marido da paciente; achava ele que os nervos de uma mulher poderiam ser totalmente 
arruinados pela hipnose.
           No comeo da noite seguinte, foi-me dito algo que me pareceu uma garantia de xito, mas que, muito estranhamente, no tinha causado nenhuma impresso 
na paciente nem nas pessoas da famlia. Na noite anterior, ela havia feito uma refeio, sem qualquer conseqncia prejudicial, dormindo placidamente, e, na manh 
seguinte, por sua prpria iniciativa, tinha-se alimentado e amamentado a criana impecavelmente. No entanto, no suportou a refeio bastante farta do almoo. Nem 
bem a comida lhe foi trazida e logo sua indisposio voltou; os vmitos comearam antes mesmo de ela tocar no alimento. Foi impossvel colocar o beb ao seio e todos 
os sinais objetivos eram os mesmos de quando eu chegara, na noitinha anterior. No consegui nenhum resultado com minha argumentao de que a batalha j estava quase 
ganha, de que agora ela estaria convencida de que o problema podia desaparecer e que de fato havia desaparecido durante meio dia. Produzi ento a segunda hipnose, 
que a levou ao estado de sonambulismo, to rapidamente como da primeira vez, e agi com maior energia e confiana. Disse  paciente que, cinco minutos depois de minha 
sada, ela iria zangar-se com sua famlia e dizer com aspereza: o que tinha acontecido com o jantar dela? ser que pretendiam deix-la passar fome? como poderia 
ela amamentar a criana, se ela mesma no tinha nada para comer? e assim por diante.
           Na terceira tarde, quando retornei, a paciente recusou-se a prosseguir qualquer tratamento. J no havia mais nenhum problema, disse ela: tinha um excelente 
apetite e muito leite para o beb, no havia a menor dificuldade quando este era posto a mamar etc. Seu marido achou muito estranho que, depois de minha sada, na 
vspera, ela tivesse reclamado violentamente, exigindo comida, e tivesse censurado a me de um modo que no lhe era habitual. Todavia, acrescentou ele, tudo tinha 
estado muito bem desde ento.
           No havia nada mais a ser feito por mim. A me amamentou a criana por oito meses; e com satisfao tive repetidas oportunidades de me inteirar de que 
ambos passavam bem. No entanto, eu achava difcil compreender, ao mesmo tempo que isto me aborrecia, o fato de jamais ter sido feita qualquer referncia ao meu notvel 
trabalho.
           Um ano mais tarde, chegou a minha vez, quando o terceiro filho fez as mesmas exigncias  me e esta foi incapaz de corresponder a elas, tal como nas 
ocasies anteriores. Encontrei a paciente no mesmo estado do ano anterior, sentindo-se efetivamente exasperada consigo mesma, pois sua vontade nada conseguia fazer 
contra sua averso aos alimentos e contra seus outros sintomas; e a primeira hipnose da tarde teve como nico resultado faz-la sentir-se mais desesperada. Mais 
uma vez, aps a segunda hipnose, os sintomas foram eliminados to completamente que no se fez necessria uma terceira hipnose. Tambm essa criana, que agora tem 
dezoito meses de idade, foi amamentada sem qualquer problema e a me tem gozado de boa sade.
           Em face desse xito, a paciente e seu marido perderam o constrangimento e confessaram o motivo que havia determinado sua conduta em relao a mim. "Eu 
me sentia envergonhada", disse-me a mulher, "porque uma coisa como a hipnose podia obter resultado, ao passo que eu, com toda a minha fora de vontade, no conseguia 
nada." No obstante, no penso que ela ou o marido tenham superado a ojeriza  hipnose.
           
           Passarei agora a considerar qual pode ter sido o mecanismo psquico do distrbio de minha paciente, que foi, desse modo, removido pela sugesto. No tenho 
informaes diretas sobre o assunto, como as tenho referentes a alguns outros casos, que discutirei noutra ocasio; por isso sou forado a recorrer  alternativa 
de deduzir qual teria sido esse mecanismo.
           Existem determinadas idias que tm um afeto de expectativa que lhes est vinculado. So de dois tipos: idias de eu fazer isto ou aquilo - o que denominamos 
intenes - e idias de isto ou aquilo me acontecer - so as expectativas propriamente ditas. O afeto vinculado a tais idias depende de dois fatores: primeiro, 
o grau de importncia que o resultado tem para mim; segundo, o grau de incerteza inerente  expectativa desse resultado. A incerteza subjetiva, a contra-expectativa, 
 em si representada por um conjunto de idias ao qual darei o nome de "idias antitticas aflitivas". No caso de uma inteno, essas idias antitticas se passam 
assim: "No vou conseguir executar minha inteno, porque isto ou aquilo  demasiado difcil para mim, e eu sou incapaz de faz-lo; sei, tambm, que algumas outras 
pessoas igualmente fracassaram em situao semelhante". O outro caso, o de uma expectativa, no precisa de comentrio: a contra-expectativa consiste em enumerar 
todas as coisas que talvez possam me acontecer, diferentes da que eu desejo. Ainda seguindo essa linha de raciocnio, iramos chegar at as fobias, que desempenham 
to grande papel na sintomatologia das neuroses. Retornemos, todavia,  primeira categoria, s intenes. Como  que uma pessoa, com vida ideativa sadia, lida com 
as idias antitticas que se opem a uma inteno? Com a poderosa autoconfiana da sade, a pessoa as reprime e inibe, na medida do possvel, e as exclui de suas 
associaes de pensamentos. Isto muitas vezes sucede em tal medida que a existncia de uma idia antittica contra uma inteno geralmente nem sequer se manifesta, 
tornando-se uma probabilidade somente quando passamos a examinar as neuroses. De outro lado, quando h uma neurose presente - e no me estou referindo explicitamente 
apenas  histeria, mas ao status nervosus em geral -, temos de supor a presena primria de uma tendncia  depresso e  diminuio da autoconfiana, tal como as 
encontramos muito desenvolvidas e individualizadas na melancolia. Nas neuroses, pois, uma grande ateno  dedicada [pelo paciente] s idias antitticas que se 
opem s intenes, talvez porque o tema de tais idias se coadune com o estado de nimo da neurose, ou talvez porque as idias antitticas, que de outro modo estariam 
ausentes, vicejem no terreno da neurose.
           Quando essa intensificao das idias antitticas se relaciona com expectativas, se o caso  de um simples status nervosus, o feito se manifesta num quadro 
mental difusamente pessimista; se o caso  de neurastenia, as idias, associando-se s mais fortuitas sensaes, ocasionam as numerosas fobias encontradas nos neurastnicos. 
Quando a intensificao se relaciona com intenes, ela origina as perturbaes que se agrupam sob a classificao de folie de doute, que tem como ponto principal 
a descrena na capacidade pessoal. Justamente nesse ponto as duas principais neuroses, neurastenia e histeria, comportam-se de modo diferente, caracterstico de 
cada uma delas. Na neurastenia, a idia antittica, patologicamente intensificada, combina-se com a idia volitiva num nico ato da conscincia; ela exerce uma subtrao 
na idia volitiva e causa a fraqueza da vontade, que  to marcante nos neurastnicos e de que eles mesmos esto conscientes. Na histeria, o processo difere desse 
que acabamos de descrever, em dois aspectos ou, possivelmente, apenas em um aspecto. [Em primeiro lugar,] em consonncia com a tendncia  dissociao da conscincia 
na histeria, a idia antittica aflitiva, que parece estar inibida,  afastada da associao com a inteno e continua a existir como idia desconectada, muitas 
vezes inconscientemente para o prprio paciente. [Em segundo lugar,]  extremamente caracterstico da histeria que, quando chega o momento de se pr em execuo 
a inteno, a idia antittica inibida consegue atualizar-se atravs da inervao do corpo, com a mesma facilidade com que o faz, em circunstncias normais, uma 
idia volitiva. A idia antittica se estabelece, por assim dizer, como uma "contravontade", ao passo que o paciente, surpreso, apercebe-se de que tem uma vontade 
que  resoluta, porm impotente. Talvez, conforme j disse, esses dois fatores, no fundo, sejam um s: pode ser que a idia antittica apenas seja capaz de se impor 
porque no a inibe a sua combinao com a inteno, da forma como a inteno  inibida por ela. [1]
           Se, no caso de que nos ocupamos, a me, que se viu impedida por dificuldades neurticas de amamentar seu filho, fosse neurastnica, sua conduta teria 
sido diferente. Ela teria sentido um temor consciente da tarefa que lhe competia, teria estado muito preocupada com os vrios acidentes e perigos possveis e, depois 
de muito contemporizar com ansiedades e dvidas, teria, afinal, conseguido amamentar sem qualquer dificuldade; ou ento, se a idia antittica se tivesse tornado 
dominante, a paciente teria abandonado seu encargo, por sentir-se receosa do mesmo. Mas a histrica se conduz de modo muito diverso. Pode no estar consciente do 
seu receio, estar bastante decidida a levar a cabo sua inteno e passar a execut-la sem hesitao. A, porm, comporta-se como se fosse sua vontade no amamentar 
a criana em absoluto. Ademais, essa vontade desperta nela todos os sintomas subjetivos que uma simuladora apresentaria como desculpa para no amamentar seu filho; 
perda do apetite, averso  comida, dores quando a criana  posta a mamar. E, como a contravontade exerce sobre o corpo um controle maior do que a simulao consciente, 
tambm produz no aparelho digestivo uma srie de sinais objetivos que a simulao seria incapaz de engendrar. Aqui, em contraste com a fraqueza da vontade mostrada 
na neurastenia, temos uma perverso da vontade; e, em contraste com a resignada irresoluo mostrada no primeiro caso, aqui encontramos surpresa e exasperao ante 
uma dissenso que  incompreensvel para a paciente.
           Portanto, considero-me justificado ao classificar minha paciente como uma hystrique d'occasion, de vez que ela, em conseqncia de uma causa fortuita, 
era capaz de produzir um complexo de sintomas com um mecanismo to agudamente caracterstico da histeria. Pode-se presumir que, nesse caso, a causa fortuita era 
o estado de excitao da paciente antes do primeiro parto ou sua exausto aps o mesmo. Um primeiro parto, afinal,  o maior choque a que est sujeito o organismo 
feminino e, em conseqncia dele, uma mulher geralmente produz alguns sintomas neurticos, que podem estar latentes em sua disposio.
           Parece provvel que o caso dessa paciente seja um caso tpico, e ele esclarece toda uma srie de outros casos nos quais a amamentao no seio, ou alguma 
funo semelhante,  impedida por influncias neurticas. Contudo, visto que, no caso por mim relatado, s entendi o mecanismo psquico por inferncias, apresso-me 
a acrescentar a afirmao de que, muitas vezes, consegui estabelecer diretamente a ao de um mecanismo psquico semelhante em sintomas histricos, investigando 
o paciente sob hipnose.
           Aqui, desejo mencionar apenas um dentre os exemplos mais expressivos. H alguns anos, tratei uma paciente histrica que demonstrava grande fora de vontade 
nos aspectos de sua conduta no afetados pela doena; contudo, nos que estavam assim afetados, ela mostrava bem claramente o peso da carga que lhe impunham os numerosos 
e opressivos impedimentos e incapacidades histricos. Umas das caractersticas mais evidentes era um rudo peculiar que, como um tique, intrometia-se em sua conversa. 
Posso descrev-lo melhor, dizendo que se tratava de um singular estalo da lngua, com sbita interrupo do fechamento convulsivo dos lbios. Depois de observ-lo 
por algumas semanas, perguntei-lhe quando e como aquilo tinha surgido pela primeira vez. "No sei quando foi", respondeu, "ah! faz muito tempo." Isso me levou a 
considerar que se tratava de um tique verdadeiro, at que, um dia, me ocorreu fazer-lhe a mesma pergunta estando a paciente em profunda hipnose. Essa paciente, sob 
hipnose, conseguia chegar (sem haver qualquer necessidade de sugerir-lhe a idia) ao acervo completo de suas recordaes - ou, como eu preferiria expressar-me, a 
toda a extenso de sua conscincia, que se encontrava limitada durante sua vida desperta. Ela respondeu prontamente: "Foi quando minha filha mais nova esteve muito 
doente; ela havia passado o dia inteiro tendo convulses, mas, por fim, no final da tarde, adormeceu. Eu estava sentada  beira da cama dela e pensei comigo mesma: 
'Agora voc tem de ficar absolutamente quieta, para no acord-la.' Foi ento que o estalo ocorreu pela primeira vez. Depois, desapareceu. Mas, um dia, passados 
alguns anos, quando eu estava passando de carruagem por uma floresta perto de -, sobreveio uma violenta tempestade, e um tronco de rvore junto ao caminho, bem  
nossa frente, foi atingido por um raio, de forma que o cocheiro teve de sofrear os cavalos bruscamente, e eu pensei comigo: 'Agora, haja o que houver, voc no deve 
gritar, seno os cavalos disparam'. E naquele momento o estalo veio novamente e persistiu desde essa ocasio". Pude verificar que o rudo que ela fazia no era um 
tique verdadeiro, pois, a partir do momento em que assim se desvendou sua origem, ele desapareceu e nunca mais retornou durante todos os anos em que permaneci em 
contacto com a paciente. Esta, porm, foi a primeira ocasio em que consegui observar a origem dos sintomas histricos mediante a atuao de uma idia antittica 
aflitiva - isto , mediante a contravontade. A me, exausta com suas angstias e dvidas acerca de suas tarefas de cuidar da criana enferma, tomou a deciso de 
no deixar que sequer um som sasse de seus lbios, com receio de perturbar o sono da filhinha, o qual tinha custado tanto a vir. Mas, no seu estado de exausto, 
mostrou-se mais forte a concomitante idia antittica de que ela, no obstante, pudesse fazer um rudo; e essa idia teve acesso  inervao da lngua, que sua deciso 
de manter-se em silncio talvez pudesse ter-se esquecido de inibir, irrompeu no fechamento dos lbios e produziu um rudo que da em diante permaneceu fixado por 
muitos anos, especialmente depois que se repetiu a mesma sucesso de fatos.
           Existe uma objeo que temos de enfrentar antes de podermos compreender inteiramente esse processo. Pode-se perguntar como sucede a idia antittica adquirir 
supremacia em conseqncia da exausto geral (que  o que constitui a disposio para o processo). Eu responderia apresentando a teoria de que a exausto  apenas 
parcial. O que est exausto so os elementos do sistema nervoso que formam o fundamento material das idias associadas com a conscincia primria; as idias que 
esto excludas dessa cadeia associativa - isto , da cadeia de associaes do ego normal -, as idias inibidas e suprimidas, no esto exaustas e, por conseguinte, 
predominam no momento da disposio para a histeria.
           Todo aquele que esteja bem familiarizado com a histeria h de observar que o mecanismo psquico que acabei de descrever oferece uma explicao no apenas 
das ocorrncias histricas isoladas, mas tambm das partes principais da sintomatologia da histeria e, ainda, de uma de suas caractersticas mais salientes. Se atentarmos 
cuidadosamente para o fato de que so as idias antitticas aflitivas (inibida e rechaadas pela conscincia normal) que se impem num primeiro plano, no momento 
da disposio para a histeria, e tm acesso  inervao somtica, ento teremos a soluo para compreender tambm a peculiaridade dos delrios dos ataques histricos. 
No  mera coincidncia que o delrio histrico das monjas durante as epidemias da Idade Mdia tenha assumido a forma de blasfmias violentas e linguagem ertica 
desenfreada, ou (como observou Charcot no primeiro volume de suas Leons du Mardi) que sejam justamente os meninos de boa educao e bem-comportados os que sofrem 
de ataques histricos, nos quais do livre vazo a todo tipo de insubordinao, a todo tipo de m-criao e m conduta. So os grupos de idias recalcadas - laboriosamente 
recalcadas - que entram em ao nesses casos, pela operao de uma espcie de contravontade, quando a pessoa cai vtima de exausto histrica. Talvez, na realidade, 
a conexo possa ser mais ntima, pois o estado histrico  possivelmente produzido pela represso laboriosa; mas, no presente trabalho, no estou levando em considerao 
os aspectos psicolgicos de tal estado. Aqui me interessa simplesmente explicar por que - supondo que haja um estado de disposio para a histeria - os sintomas 
assumem a forma particular sob a qual os vemos.
           Essa emergncia de uma contravontade  predominantemente responsvel pela caracterstica demonaca to freqentemente mostrada pela histeria - isto , 
a caracterstica de os pacientes serem incapazes de fazer alguma coisa precisamente quando e onde mais ardentemente desejam faz-la; de fazerem justamente o oposto 
daquilo que lhes foi solicitado; e de serem obrigados a cobrir de maus-tratos e suspeitas tudo o que mais valorizam. A perversidade de carter que os histricos 
mostram, sua nsia de fazerem a coisa errada, de parecerem doentes quando mais necessitam estar bem - as compulses dessa ordem (como as conhece todo aquele que 
j teve contacto com esses pacientes) muitas vezes podem comprometer os caracteres mais irrepreensveis, quando, durante algum perodo, esses pacientes se tornam 
vtimas desamparadas de suas idias antitticas.
           Parece destitudo de significao querer saber o que acontece s intenes inibidas em relao  vida ideativa normal. Poderamos ser tentados a responder 
que elas simplesmente no existem. O estudo da histeria mostra que, no obstante, elas realmente existem, ou seja, que  mantida a modificao fsica a elas correspondente 
e que elas so armazenadas e levam a vida insuspeitada numa espcie de reino das sombras, at emergirem como maus espritos e assumirem o controle do corpo, que, 
geralmente, est sob as ordens da predominante conscincia do ego.
           J disse que esse mecanismo  extremamente caracterstico da histeria, mas devo acrescentar que no ocorre somente na histeria. Encontra-se presente, 
de modo bastante notvel, no tic convulsif, uma neurose que, em matria de sintomas, tem tanta semelhana com a histeria que todo o seu quadro pode ocorrer como 
manifestao parcial da histeria. Tanto  assim que Charcot, se no compreendi mal seus ensinamentos sobre esse assunto, aps manter separados a histeria e o tic 
convulsif por algum tempo, conseguiu constatar apenas um aspecto diferencial entre os dois - o tique histrico desaparece, mais cedo ou mais tarde, enquanto o tique 
verdadeiro persiste. O quadro de tic convulsif grave, como sabemos,  constitudo de movimentos involuntrios, freqentemente (ou sempre, conforme opinio de Charcot 
e Guinon) sob a forma de caretas ou gestos que, numa poca, tiveram um significado - de coprolalia, de ecolalia e de idias obsessivas pertencentes ao mbito da 
folie de doute. Contudo,  surpreendente verificar que Guinon, que nunca teve qualquer idia de penetrar no mecanismo psquico desses sintomas, nos conta que alguns 
dos seus pacientes vieram a ter os espasmos e caretas porque uma idia antittica tinha entrado em ao. Esses pacientes relataram que, em alguma ocasio, tinham 
visto um tique parecido ou tinham visto um comediante fazer intencionalmente uma careta semelhante, e tinham tido o receio de que pudessem ser obrigados a imitar 
esses movimentos grotescos. Da em diante, realmente, tinham comeado a imit-los. Sem dvida, apenas uma pequena proporo dos movimentos involuntrios que ocorrem 
nos tiques tem essa origem. Por outro lado, seria tentador atribuir a esse mecanismo a origem da coprolalia, um termo usado para descrever a exclamao involuntria, 
ou melhor, a exclamao a contragosto, dos piores palavres, que ocorre nos tiques. Assim, a coprolalia teria origem na percepo do paciente de que ele no consegue 
impedir-se de produzir determinado som, geralmente um "h'm'h'm". Ele ento recearia perder o controle tambm de outros sons, especialmente o controle de palavras 
que um homem de boa educao evita usar, e esse receio faria com que se efetuasse o que temia. Guinon no apresenta nenhuma anamnese que confirme essa hiptese; 
eu prprio nunca tive a oportunidade de interrogar um paciente que sofresse de coprolalia. Por outro lado, na obra desse mesmo autor, encontrei um relato sobre um 
outro caso de tique em que a palavra pronunciada involuntariamente no pertencia (e isso  muito excepcional) ao vocabulrio coprollico. Tratava-se de um homem 
adulto que era atormentado pela necessidade de exclamar "Maria"! Quando esse paciente estava na idade escolar, tinha tido uma ligao sentimental com uma menina 
chamada Maria; ficara totalmente absorto por ela, e esse acontecimento, pode-se supor, o predisps a uma neurose. Naquela poca, ele comeou a exclamar o nome de 
seu dolo no meio da aula, e o nome continuou com ele por boa parte de sua vida, depois de ter esquecido seu caso amoroso. Penso que a explicao deve ser esta: 
num momento de especial excitao, o seu esforo mais resoluto de manter em segredo o nome inverteu-se na contravontade e, depois disso, o tique persistiu, como 
sucedeu no caso de meu segundo paciente. Caso minha explicao desse exemplo esteja correta, seria interessante atribuir ao mesmo mecanismo a coprolalia propriamente 
dita, visto que as palavras obscenas constituem segredos que todos ns conhecemos, mas cujo conhecimento sempre procuramos ocultar. [1] 
           
         
         
         PREFCIO E NOTAS DE RODAP  TRADUO DAS CONFERNCIAS DAS TERAS-FEIRAS, DE CHARCOT (1892-94)
           
           
           NOTA DO EDITOR INGLS
           
           PREFCIO E NOTAS DE RODAP  TRADUO DAS LEONS DU MARDI DE LA SALPTRIRE (1887-8) DE CHARCOT
            
           (a) EDIO ALEM:
           1892-4 Em J.-M. Charcot, Poliklinische Vortrge [Conferncias de Ambulatrio], 1, Ano Acadmico de 1887-1888, iii-vi, Leipzig e Viena, Deuticke.
           
           Parece que esse prefcio e essas notas de rodap nunca foram reeditados; a traduo de James Strachey  a primeira para o ingls. O livro em francs foi 
publicado, em Paris, em 1888.
           
           A data de publicao da traduo de Freud levanta algumas dvidas referentes  cronologia. Seu prefcio  datado de "Junho de 1892" e a pgina de rosto 
de alguns exemplares encadernados do livro tambm leva a data "1892"; mas outros exemplares levam na pgina de rosto a data "1894". De fato, o livro foi publicado 
em fascculos no decorrer desses anos. A uma carta que enviou a Fliess, datada de 28 de junho de 1892, Freud juntou um fascculo (provavelmente o primeiro) com o 
seguinte comentrio: "O fascculo de Charcot que lhe estou enviando hoje  todo ele um sucesso; mas estou aborrecido em virtude de diversos acentos errados e erros 
de ortografia no corrigidos nas poucas palavras em francs. Desleixo!" 
           O mtodo de edio em fascculos induz Freud a algumas incoerncias nas suas notas de rodap. Por exemplo, nelas existem duas referncias ao artigo de 
Freud sobre a diferena entre paralisias orgnicas e histricas (1893c, includo no presente volume, em [1]), uma antes (ver em [1]) e outra depois (em [1]) da publicao 
do artigo, a qual de fato se deu no final de junho de 1893. De modo semelhante, existem duas referncias provavelmente antes (ver em [1]) e a outra depois (em [1]) 
da publicao da "Comunicao Preliminar" (1893a), que ocorreu no incio de janeiro de 1893. A primeira dessas duas indicaes da teoria da catarse talvez seja, 
na realidade, a sua primeira publicao; infelizmente, porm, no dispomos de material para estabelecer com exatido a data do fascculo em questo.
           O nmero de notas de rodap que Freud acrescentou  sua traduo  muito grande, e muitas delas so evidentes crticas s opinies de Charcot. Em A Psicopatologia 
da Vida Cotidiana (1901b), Freud menciona a matria um pouco em tom de desculpa: "Acrescentei notas ao texto que traduzi, sem pedir a permisso do autor, e, alguns 
anos depois, tive motivos para suspeitar de que o autor havia ficado insatisfeito com minha ao arbitrria" (Edio Standard Brasileira, Vol. VI, [1], IMAGO Editora, 
1976). As notas de rodap focalizam principalmente tpicos puramente neurolgicos, e aqui inclumos somente aquelas que denotam algum interesse psicolgico.
           Observe-se por fim, que Charcot morreu (no vero de 1893) antes que a publicao estivesse concluda.
           
           
           As conferncias de Charcot, que aqui se encontram traduzidas para o alemo com a gentil permisso do autor, tm em francs o ttulo de Leons du Mardi 
de la Salptrire. Esse ttulo deriva-se do dia da semana em que o professor titular, pessoalmente, diante do seu auditrio, examina pacientes do departamento de 
ambulatrio. O primeiro volume dessas Leons surgiu em 1888, de modo muito modesto, como "Notas de MM. Blin, Charcot Jnior e Colin". No corrente ano (1892), foi 
revisado pelo autor; e essa reviso  a base de nossa edio alem.
           A edio francesa foi apresentada por um prefcio escrito pelo Dr. Babinski, no qual esse discpulo preferido de Charcot insiste, com justificado orgulho, 
em como emanou do "Mestre" uma abundncia quase inexaurvel de estmulos e ensinamentos, ainda muitos anos depois, e insiste em quo imperfeitamente o estudo de 
seus escritos publicados substitui o efeito que tinha o seu ensino oral. Ele acredita, pois, que se justifica o plano de difundir junto ao pblico essas conferncias 
improvisadas e, assim ampliar incomensuravelmente o crculo de seus discpulos e ouvintes. E penso que todo aquele que teve o privilgio de, ao menos por um curto 
perodo de tempo, ver o grande pesquisador trabalhando e assimilar seus ensinamentos, haver de concordar inteiramente com o Dr. Babinski.
           Essa conferncias realmente encerram tanto material novo que ningum, nem mesmo os especialistas no assunto, as ler sem um considervel acrscimo em 
seus conhecimentos. E esse material novo se reveste de uma forma to estimulante e esplndida que o livro est destinado, como talvez nenhuma outra obra desde as 
Leons de Trousseau, a servir como manual para os estudantes e para todos os mdicos que desejem manter seu interesse pela neuropatologia.
           O encanto peculiar dessas conferncias reside no fato de que, na sua maior parte, elas foram inteiramente improvisadas. O professor no conhece o paciente 
que lhe  apresentado, ou o conhece apenas superficialmente.  obrigado a conduzir-se diante de seu auditrio tal como habitualmente o faz somente em sua clnica 
particular, exceto quanto ao detalhe de que pensa em voz alta e permite que os ouvintes participem do rumo de suas conjecturas e investigaes. Interroga o paciente, 
examina um sintoma e depois outro, e dessa forma estabelece o diagnstico do caso, delimitando-o ou confirmando-o com outros exames. Observamos que ele comparou 
o caso que tem diante de si com um acervo de quadros clnicos derivados de sua experincia e arquivados na sua memria, e identificou os sinais visveis do presente 
caso com um desses quadros. De fato, tambm  assim que todos ns,  beira do leito de um enfermo, chegamos a um diagnstico, embora o ensino oficial da clnica, 
muitas vezes, d ao estudante uma idia diferente. A isto se seguem os comentrios acerca do diagnstico diferencial, e o conferencista se empenha em tornar claros 
os fundamentos em que se baseou sua identificao: fundamentos que, conforme sabemos, muitos mdicos com habilidade para fazer diagnsticos no sabem explicitar, 
embora seu juzo seja determinado por eles. A discusso restante refere-se s peculiaridades clnicas do caso. O quadro clnico, a "entit morbide", permanece a 
base de todo o estudo; mas o quadro clnico  formado por uma srie de fenmenos, uma srie que freqentemente se ramifica em numerosas direes. A identificao 
clnica do caso consiste em definir a sua localizao dentro da srie de fenmenos. No centro da srie est o "type", a forma extrema do quadro clnico, consciente 
e intencionalmente esquematizada; ou, ento, podem ser estabelecidos diversos desses tipos, que esto conectados por formas de transio. Certamente  verdade que 
o type, a descrio completa e caracterstica do quadro clnico, pode ser encontrado; mas os casos que de fato so observados geralmente divergem do tipo: determinados 
detalhes do quadro esto apagados; esses casos podem ser agrupados em uma ou mais sries que se afastam do quadro e por fim terminam em formas rudimentares, praticamente 
indeterminadas (formes frustes), nas quais somente um especialista consegue reconhecer derivados do tipo. Enquanto a descrio dos quadros clnicos  o tema central 
da nosografia, a tarefa da clnica mdica  averiguar at o fim a forma individual que cada caso assume e a combinao de seus sintomas.
           Aqui enfatizei os conceitos de "entit morbide", de sries, de "type" e de "formes frustes", porque  no emprego desses conceitos que repousa a principal 
caracterstica do mtodo francs de trabalhar em clnica mdica. Essa forma de abordagem , de fato, estranha ao mtodo alemo. Para este, o quadro clnico e o tipo 
no desempenham qualquer papel de relevo, e  explicada pela evoluo dos clnicos alemes: uma tendncia a fazer umainterpretao fisiolgica do estado clnico 
e da inter-relao dos sintomas. A observao clnica dos franceses, indubitavelmente, ganha em auto-suficincia, no sentido de que relega a plano secundrio os 
critrios relativos  fisiologia. A excluso destes, no entanto, pode ser a principal explicao para a impresso enigmtica que os mtodos clnicos franceses causam 
ao no-iniciado. Alis, nisso no h nenhum descaso pela fisiologia, mas uma deliberada excluso, que  considerada vantajosa. Ouvi Charcot dizer: "Je fais la morphologie 
pathologique, je fais mme un peu l'anatomie pathologique; mais je ne fais pas la physiologie pathologique, j'attend que quelqu'un autre la fasse".
           A apreciao que fazemos dessas conferncias ficaria lamentavelmente incompleta se a interrompssemos neste ponto. O interesse por uma conferncia s 
era propriamente despertado quando o diagnstico tinha sido feito e o caso, examinado de acordo com suas peculiaridades. Depois, Charcot se valia da vantagem que 
lhe oferecia a liberdade desse mtodo de ensino para fazer daquilo que tnhamos visto o ponto de partida para comentrios sobre casos semelhantes de que se lembrava, 
e para iniciar as mais esclarecedoras discusses sobre tpicos essencialmente clnicos de sua etiologia, hereditariedade e correlao com outras doenas. Era nessas 
ocasies que, fascinados tanto pelo talento artstico do narrador como pela inteligncia penetrante do observador, ouvamos atentamente as pequenas histrias que 
mostravam como uma experincia clnica tinha levado a uma nova descoberta; era ento que, em companhia de nosso mestre, ramos conduzidos da considerao de um quadro 
clnico, relativo a uma doena nervosa, para o debate de algum problema fundamental da doena em geral; era tambm nessas ocasies que todos vamos, a um s tempo, 
o mestre e o mdico dando lugar ao sbio, cuja mente aberta absorveu o grande e variado panorama das realizaes do mundo e que nos proporciona um vislumbre de como 
as doenas nervosas no devem ser consideradas uma extravagncia da patologia, mas sim um componente necessrio de todo o conjunto. Essas conferncias apresentam 
um quadro to preciso da maneira de falar e de pensar de Charcot que, para todo aquele que um dia foi seu ouvinte, torna-seviva a lembrana da voz e dos gestos do 
mestre, e retornam as horas preciosas em que o encanto de uma grande personalidade atraa irresistivelmente os seus ouvintes para os temas e os problemas da neuropatologia.
           Devo acrescentar algumas palavras para justificar as notas que, impressas em tipos menores, interrompeu a seqncia da exposio de Charcot, em intervalos 
muito irregulares. Essas notas so de minha autoria e, em parte, constituem explicaes do texto e referncias adicionais  bibliografia; mas, em parte, so objees 
e anotaes crticas, tais como as que podem ocorrer a quem est ouvindo uma conferncia. Espero que estes comentrios no venham a ser entendidos como seu eu estivesse 
tentando, de algum modo, colocar minhas opinies acima das de meu respeitado mestre, a quem muito devo pessoalmente como seu discpulo. Simplesmente estou pretendendo 
exercer o direito de criticar, do qual se serve, por exemplo, todo autor de resenha de revista tcnica, independentemente dos seus prprios mritos. Na neuropatologia 
existem tantas coisas ainda no explicadas e ainda passveis de debate, e a compreenso das mesmas pode beneficiar-se tanto com esse debate, que me aventurei a pr 
em discusso alguns desses pontos, mencionados de passagem nas conferncias.  por demais evidente que o fao segundo meu prprio ponto de vista, na medida em que 
este diverge das teorias do Salptrire. No entanto, com estes comentrios no se pretende dar ensejo a que os leitores de Charcot lhes dispensem mais ateno do 
que eles mereceriam por sua prpria natureza.
           Ao traduzir essas conferncias, meu esforo se fez no sentido no propriamente de imitar o estilo incomparavelmente claro, e ao mesmo tempo elevado, de 
Charcot - o que seria inatingvel para mim -, mas de obscurecer o menos possvel sua linguagem caracteristicamente informal.
           DR. SIGM. FREUD
           VIENA, junho de 1892
           
           EXTRATOS DAS NOTAS DE RODAP DE FREUD  SUA TRADUO DAS CONFERNCIAS DAS TERAS-FEIRAS, DE CHARCOT
           
           Pg. 107
           [Charcot tinha feito uma descrio dos ataques histricos.]
           ...Sirvo-me da oportunidade que me oferece o texto para apresentar ao leitor uma opinio independente sobre os ataques histricos. O "tipo" de Charcot, 
com suas modificaes e com a possibilidade de cada fase tornar-se independente e representar o ataque inteiro etc., sem dvida  suficientemente extenso para abranger 
todas as formas de ataque observadas. Por essa mesma razo, alguns podero argumentar que ele no representa uma verdadeira entidade.
           Procurei abordar o problema dos ataques histricos segundo um outro critrio diferente do descritivo; examinando pacientes histricos em estado hipntico, 
cheguei a novos achados, alguns dos quais mencionarei aqui. O ponto central de um ataque histrico, qualquer que seja a forma em que este aparea,  uma lembrana, 
a revivescncia alucinatria de uma cena que  significativa para o desencadeamento da doena.  esse evento que se manifesta de forma perceptvel na fase das "attitudes 
passionelles"; mas tambm est presente quando o ataque parece consistir somente em fenmenos motores. O contedo da lembrana geralmente  ou um trauma psquico, 
que, por sua intensidade,  capaz de provocar a irrupo da histeria no paciente, ou  um evento que, devido  sua ocorrncia em um momento particular, tornou-se 
um trauma.
           Nos casos conhecidos como histeria "traumtica", esse mecanismo  evidente at  observao mais superficial, mas tambm pode ser demonstrado na histeria 
em que no existe um nico trauma de maior significao. Em tais casos, constatamos traumas menores, repetidos, ou, quando predomina o fator da disposio, lembranas 
em si mesmas indiferentes, mas que assumem a intensidade de traumas. Um trauma teria de ser definido como um acrscimo da excitao no sistema nervoso, que este 
 incapaz de fazer dissipar-se adequadamente pela reao motora. Um ataque histrico talvez deva ser considerado como uma tentativa de completar a reao ao trauma.
           
           - Neste ponto, posso remeter a um trabalho sobre esse assunto, iniciado em colaborao com o Dr. Josef Breuer.
           Pg. 137
           [Charcot descrevera casos em que meninos de esmerada educao tinham ataques histricos acompanhados por exploses de linguagem obscena.]
           Seria casual que os ataques em jovens de cuja boa educao e boas maneiras Charcot fala elogiosamente assumam a forma de delrio furioso e linguagem desaforada? 
Penso que isso em nada difere do fato conhecido de que os delrios histricos das monjas se manifestam sob a forma de blasfmias e imagens erticas. Nisso podemos 
suspeitar da existncia de uma conexo que nos permite uma profunda compreenso interna do mecanismo dos estados histricos. Nos delrios histricos, emerge um material 
sob a forma de idias e impulsos  ao que a pessoa, em seu estado sadio, rechaou e inibiu - muitas vezes, inibiu mediante um grande esforo psquico. Algo parecido 
aplica-se a muitos sonhos, que desfiam associaes adicionais que foram rejeitadas ou interrompidas durante o dia. Foi nesse fato que baseei a teoria da "contravontade 
histrica", que abrange um bom nmero de sintomas histricos.
           Pg. 142
           [Charcot discutia um caso em que apareciam simultaneamente sintomas de tique e obsesses.]
           Posso lembrar aqui um caso interessante que observei recentemente; esse caso mostrava uma variante nova da relao entre o tique e a obsesso. Um homem 
de 23 anos consultou-me em virtude de sofrer de obsesses de uma espcie tpica. Dos 8 aos 15 anos ele tinha sofrido de um tique violento,que da em diante desapareceu. 
As obsesses surgiram aos 12 anos e se tornaram muito mais graves recentemente.
           Pg. 210
           [Freud escreve uma longa nota de rodap em que trata de uma minuciosa discusso exposta por Charcot, que sustentava que, em determinados casos, podia 
ocorrer completa hemianestesia, devido a um tipo especial de leso orgnica central, nesses casos exatamente semelhante  hemianetesia histrica. Em especial, Charcot 
negava que em tais casos estivesse presente a hemianopsia.]
           ...Quando, certa vez, me dispus a fazer-lhe perguntas sobre esse ponto e argumentar que isso contrariava a teoria da hemianopsia, ele saiu-se com este 
excelente comentrio: "La thorie c'est bon; mais a n'empche pa d'exister". Se ao menos se soubesse o que  que existe!... 
           Pg. 224
           [Charcot tinha afirmado que a hereditariedade era a "causa verdadeira" dos ataques histricos de um paciente, de sua vertigem e de sua agorafobia.]
           Eu me animo a apontar uma contradio nesse ponto. Com maior freqncia, a causa da agorafobia, assim como de outras fobias, est no na hereditariedade, 
mas nas anormalidades da vida sexual.  at possvel especificar a forma de mau uso da funo sexual em questo. Esses distrbios podem ser adquiridos, em qualquer 
grau de intensidade; naturalmente, havendo a mesma etiologia, ocorrem com maior intensidade em pessoas com disposio hereditria.
           Pg. 237
           [Charcot discutia um caso de doena de Graves.]
           
           Alguns leitores, assim como eu, por certo faro objees  teoria etiolgica de Charcot, que no faz distino entre a disposio para as neuroses e a 
disposio para as doenas nervosas orgnicas, que no leva em conta o papel desempenhado pelas doenas nervosas adquiridas (que  impossvel superestimar) e que 
considera uma tendncia  artrite em pessoas da famlia como uma disposio neuroptica hereditria. Sua valorizao excessiva da influncia do fator hereditrio 
tambm explica o fato de que, ao abordar a doena de Graves, Charcot no menciona o rgo em cujas alteraes, segundo indicaes de peso nos aconselham, devemos 
procurar a verdadeira causa da afeco. Refiro-me naturalmente,  glndula tireide e, em conexo com essa discusso sobre o fato de a disposio hereditria e o 
trauma psquico desempenharem papel importante no desenvolvimento da doena, posso mencionar o excelente artigo de Moebius sobre a doena de Graves, na Deutsche 
Zeitschrift fr Nervenheilkunde, 1 (1891).
           Pg. 268
           [Charcot mostrava a diferena entre afasia orgnica e histrica.]
           Quando deixei o Salptrire, em 1886, Charcot incumbiu-se de efetuar um estudo comparativo das paralisias orgnicas e histricas, com base nas observaes 
feitas pelo Salptrire. Executei o trabalho, mas no o publiquei. Seu resultado  uma ampliao da tese aqui exposta por Charcot: as paralisias histricas se caracterizam 
por dois fatores e, em particular, alm disso, por uma convergncia dos mesmos. Em primeiro lugar, elas so capazes de possuir a maior intensidade e, em segundo 
lugar, de apresentar a mais ntida delimitao, e se diferenciam especialmente das paralisias orgnicas quando combinam intensidade e delimitao. Uma monoplegia 
do brao, que seja de causa orgnica, pode limitar-se exclusivamente ao brao; mas nesse caso quase nunca  absoluta. To logo sua intensidade cresce, tambm a paralisia 
se torna mais extensa; de fato, observamos regularmente que, ento, ela se acompanha tambm de um discreto grau de paresia na face e na perna. Quando se limita apenas 
ao brao e, ao mesmo tempo,  absoluta, a paralisia s pode ser histrica. [1]
           
           Pg. 286
           [Charcot estivera dando conselhos tcnicos sobre o uso da sugesto: "Os ingleses, que certamente so pessoas prticas, tm na sua linguagem um conselho: 
'No faa profecias, a menos que voc tenha certeza'. Gostaria de me juntar a essa maneira de pensar e os aconselharia a que agissem da mesma forma. Na verdade, 
se, em caso de indubitvel paralisia de origem psquica, voc diz ao paciente, com plena confiana: 'Levante-se e ande!', e se ele realmente o faz, voc de fato 
pode atribuir a si mesmo e ao seu diagnstico o milagre que realizou. Mas eu os aconselho a no irem demasiado longe nessas coisas e, antes de tudo, a considerarem 
o modo como, no possvel caso de um fracasso, vocs podero garantir-se uma sada honrosa'."]
           Com estas sbias palavras Charcot revela um dos maiores inconvenientes com que tem de contar o uso prtico da sugesto em estado desperto e sob hipnose 
superficial. A longo prazo, nem o mdico nem o paciente podem tolerar a contradio criada entre a decidida negao da doena, contida na sugesto, e a necessria 
constatao da doena fora da sugesto.
           Pg. 314
           [Charcot expusera o caso clnico de um paciente histrico cuja doena aparentemente resultara de intoxicao por mercrio.]
           Os leitores dessas conferncias provavelmente esto cientes de que P. Janet, Breuer e eu, assim como outros autores, em data muito recente, procuramos 
delinear uma teoria psicolgica dos fenmenos histricos com base nos trabalhos escritos de Charcot (sobre a explicao das paralisias histerotraumticas). Por mais 
slida e promissora que essa teoria possa nos parecer, a prudncia recomenda admitir que, at o momento, no se deu nenhum passo no sentido de mostrar que a histeria 
por intoxicao, ou que a analogia entre hemiplegia histrica e orgnica, ou que a origem das contraturas histricas possam estar subordinadas  idia bsica dessa 
linha de abordagem. Espero que essa tarefa no se mostre insolvel ou, pelo menos, que esses fatos no venham a se revelar inconciliveis com a teoria psicolgica.
           
           Pg. 368
           [Charcot assinalava o diagnstico diferencial entre monoplegias orgnicas e histricas.]
           Num breve trabalho ("Quelques considrations pour une tude comparative des paralysies motrices organiques et hystriques", Archives de Neurologie, N 
77, 1893), procurei ampliar essa observao de Charcot e debati sua relao com a teoria das neuroses.
           Pg. 371
           [Charcot descrevia os diferentes ataques apresentados por uma jovem histrica.]
           Por certo no estaremos compreendendo mal Charcot se, a partir dos seus comentrios sobre "hystro-pilepsie  crises mixtes" e "crises spares", concluirmos 
que o termo "histeroepilepsia"  certamente objetvel e que o seu uso deve ser totalmente abolido. Alguns dos pacientes indicados sob essa designao simplesmente 
padecem de histeria; outros sofrem de histeria e epilepsia, duas doenas que tm pouca relao essencial entre si e que s por acaso so encontradas num mesmo indivduo. 
Uma afirmao como esta pode no ser desnecessria, visto que muitos mdicos, no obstante, parecem ser da opinio de que a "histeroeplepsia"  um agravamento da 
histeria, ou uma transio da histeria para a epilepsia. Sem dvida, ao se criar o termo "histeroepilepsia", houve a inteno de veicular esses significado. Mas 
Charcot, h muito tempo, abandonou tal ponto de vista; e no h por que ficarmos desatualizados em relao a ele nesse ponto. 
           Pg. 399
           [Charcot expressara sua opinio sobre o excesso de trabalho como causa de "neurastenia cerebral".]
           Todas essas discusses etiolgicas referentes  neurastenia so incompletas na medida em que no so consideradas as influncias nocivas sexuais,as quais, 
em minha experincia, constituem o fator mais importante, o nico fator etiolgico indispensvel.
           Pg. 404
           [A propsito de uma discusso sobre os determinantes hereditrios das neuroses.] 
           ...A teoria da "famille nvropathique" certamente necessita de uma reviso urgente.
           Pg. 417
           [Tpico semelhante ao anterior.]
           ...Dificilmente poderia resistir a uma crtica sria a concepo da famille nvropathique - que, alis, engloba quase tudo que conhecemos sob a forma 
de doenas nervosas, orgnicas e funcionais, sistmicas e acidentais.
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
         
         
         ESBOOS PARA A COMUNICAO PRELIMINAR DE 1893 (1940-41 [1892])
           
           
           Os trs apontamentos condensados que vm a seguir estavam includos entre os escritos pstumos de Freud, no volume XVII das Gesammelte Werke. (Dados bibliogrficos 
mais detalhados encontram-se anexados a cada um dos esboos, adiante.) Os editores da edio alem nos informam que todos os trs escritos tinham estado em poder 
de Breuer, mas foram por este devolvidos a Freud em 1909, ano seguinte ao da publicao da segunda edio dos Estudos sobre a Histeria. Freud acusou o recebimento 
deles numa carta que leva a data de 8 de outubro de 1909: "Agradeo-lhe muito por me dar a oportunidade de reaver os velhos esboos e rascunhos, que me parecem muito 
interessantes. Quanto s notas a respeito dos ataques histricos [Esboo C, adiante], deve ser como voc diz; mas no guardei o manuscrito depois de publicado".
           Conquanto o segundo desses esboos no traga data, no cabem dvidas de que todos os trs foram escritos no final de 1892, em preparao para a "Comunicao 
Preliminar" - "Sobre o Mecanismo Psquico dos Fenmenos Histricos" (1893a), Edio Standard Brasileira, Vol. II, [1], IMAGO Editora, 1974. Esse trabalho, produzido 
em colaborao com Josef Breuer, foi publicado nos dias 1 e 15 de janeiro de 1893.
           Grande parte desses esboos encontra-se numa forma altamente condensada, mas  possvel descobrir, quase que um por um, todos os elementos que depois 
se encontram enunciados de modo mais claro na "Comunicao Preliminar". H, contudo, uma exceo especial. O "princpio da constncia" est enunciado com muita clareza, 
e possivelmente pela primeira vez na Seo 5 do Esboo C (em [1]); mas, por algum motivo ignorado, est inteiramente omitido na "Comunicao Preliminar". Um apanhado 
completo da histria do "princpio da constncia" pode ser encontrado no Apndice do Editor Ingls a propsito das "Hipteses Fundamentais de Freud" na Edio Standard 
Brasileira, Vol. III, ver em [1], IMAGO Editora, 1977.
           
           (A) CARTA A JOSEF BREUER
           
           29.6.92
           Prezado amigo,
           A satisfao com que despreocupadamente lhe entreguei essas minhas poucas pginas deu lugar ao desassossego que to facilmente acompanha os esforos de 
pensar. Atormenta-me este problema: como oferecer um quadro bidimensional de algo to slido como a nossa teoria da histeria. Sem dvida, a questo principal  saber 
se devemos descrev-la do ponto de vista histrico e comear com todos os casos clnicos (ou dois dentre os melhores), ou se, de outro lado, devemos comear por 
afirmar dogmaticamente as teorias que formulamos  guisa de explicao. Penso que  prefervel a segunda sugesto; o material ficaria assim disposto:
           (1) Nossas teorias:
           (a)
           O teorema referente  constncia da soma da excitao.
           (b)
           A teoria da memria.
           (c)
           O teorema que estabelece que os contedos dos diferentes estados de conscincia no esto relacionados entre si.
           (2) A origem dos sintomas histricos crnicos: sonhos, auto-hipnose, afetos e resultados dos traumas absolutos. Os trs primeiros desses fatores relacionam-se 
com a disposio; o ltimo relaciona-se com a etiologia. Parece que os sintomas crnicos correspondiam a um mecanismo normal; so deslocamentos [tema subsidirio], 
em parte, ao longo de uma via normal (modificao interna) de somas de excitao que no foram dissipadas. Motivo do deslocamento: tentativa de reao. Motivo da 
persistncia: teorema (c) [acima], referente ao isolamento associativo. - Comparao com a hipnose. [1]
           Tema subsidirio: A respeito da natureza do deslocamento: localizao dos sintomas histricos crnicos.
           (3) O ataque histrico: Tambm uma tentativa de reao, por meio da recordao etc.
           (4) A origem dos estigmas histricos: Altamente obscura, escassos indcios.
           (5) A frmula patolgica da histeria: Histeria disposicional e acidental. A srie proposta por mim. A magnitude da soma da excitao, o conceito de trauma, 
o segundo estado da conscincia.
           
           (B) III
           
           No que escrevemos acima, tivemos de salientar como fato observado que as recordaes subjacentes aos fenmenos histricos esto ausentes da memria acessvel 
do paciente, ao passo que, sob hipnose, elas podem ser despertadas com a clareza de alucinaes. Tambm salientamos que numerosas recordaes dessa ordem relacionam-se 
a fatos ocorridos em estados peculiares (como cataplexia devida ao susto, estados onirides, auto-hipnose, e assim por diante), cujo contedo no est em conexo 
associativa com a conscincia normal. Assim, com relao a isso, ainda nos era impossvel discutir o que  que determina a ocorrncia dos fenmenos histricos, sem 
primeiro considerar uma hiptese especial, que procura caracterizar a disposio histrica. Na histeria, de acordo com essa hiptese, o contedo da conscincia com 
facilidade se torna temporariamente dissociado, e determinados complexos de idias, que no esto em conexo associativa, com facilidade se desgarram. A disposio 
histrica, portanto, deve ser pesquisada quando estados dessa espcie aparecem espontaneamente (devido a causas internas), ou se produzem facilmente devido a influncias 
externas; e podemos supor uma srie de casos em que esses dois fatores desempenham um papel de importncia varivel.
           Descrevemos esses estados como "hipnides" e enfatizamos que uma caracterstica essencial deles  o fato de seu contedo, em grau maior ou menor, estar 
desconectado do contedo restante da conscincia, e assim se encontrar privado da possibilidade de ser liberado pelas associaes - do mesmo modo que no sonhar e 
no estado de viglia, um modelo de dois estados que diferem entre si, no estamos inclinados a fazer associaes de um estado para o outro, mas apenas associaes 
dentro de cada um deles em particular. Em pessoas com disposio histrica, qualquer afeto pode dar origem a uma diviso desse tipo; e uma impresso recebida durante 
a vigncia do afeto se tornaria, assim, um trauma, mesmo que no fosse suficiente, em si, para agir como um trauma. Ademais, a impresso mesma poderia produzir o 
afeto. Na sua forma completamente desenvolvida, esses estados hipnides,entre os quais pode haver conexes associativas, formam a condition seconde, to conhecida 
nos casos clnicos. Mas os rudimentos de tal disposio, segundo parece, so identificveis em qualquer pessoa e podem ser desenvolvidos por traumas apropriados, 
mesmo em pessoas sem essa disposio. A vida sexual  especialmente apropriada para proporcionar o contedo [de tais traumas], devido ao contraste muito grande que 
representa para o restante da personalidade e por ser impossvel reagir a suas idias.
           Deve-se compreender que nossa terapia consiste em remover os resultados das idias que no sofreram ab-reao, seja revivendo o trauma num estado de sonambulismo, 
e ento ab-reagindo e corrigindo-o, seja trazendo-o para o plano da conscincia normal, sob hipnose relativamente superficial.
           
           (C) SOBRE A TEORIA DOS ATAQUES HISTRICOS
           
           At onde sabemos, no h, por enquanto, nenhuma teoria dos ataques histricos, mas apenas uma descrio dos mesmos, feita por Charcot, que se relaciona 
ao raro e prolongado "grande attaque hystrique [grande ataque histrico]". Segundo Charcot, um ataque "tpico" dessa espcie compe-se de quatro fases: (1) fase 
epileptide, (2) fase dos grandes movimentos, (3) fase das "attitudes passionnelles", (4) fase do delrio terminal. Todas as variadas formas de ataques histricos, 
que o mdico tem oportunidade de observar com mais freqncia do que o tpico grande ataque, surgem, conforme nos diz Charcot, na medida em que essas distintas fases 
se tornam independentes, ou se prolongam, ou se modificam, ou so omitidas.
           
           Essa descrio no projeta absolutamente nenhuma luz sobre alguma conexo que possa haver entre as diferentes fases, sobre a importncia dos ataques no 
quadro geral da histeria, ou sobre a maneira como os ataques so modificados em cada paciente individualmente. Talvez no estejamos equivocados ao supor que a maioria 
dos mdicos tende a considerar o ataque histrico como "uma descarga peridica dos centros motores e psquicos do crtex cerebral".
           Formamos nossa opinio sobre os ataques histricos tratando pacientes histricos por meio da sugesto hipntica e, desse modo, investigando seus processos 
psquicos durante o ataque. A exposio que fazemos a seguir  o que pensamos a respeito do ataque histrico; e devemos preliminarmente assinalar que, para a explicao 
dos fenmenos histricos,  indispensvel supor a presena de uma dissociao - uma diviso no contedo da conscincia.
           (1) O elemento constante e essencial de um ataque histrico (recorrente)  o retorno de um estado psquico que o paciente j experimentou anteriormente 
- em outras palavras, o retorno de uma lembrana.
           Afirmamos, pois, que a parte essencial de um ataque histrico est situada na fase que Charcot denominou de attitudes passionnelles. Em muitos casos, 
 bastante evidente que essa fase encerra uma lembrana oriunda da vida do paciente e, freqentemente, na verdade, essa lembrana  sempre a mesma. Mas, em outros 
casos, essa fase parece estar ausente, e o ataque aparentemente consiste apenas em fenmenos motores - contraes epileptides, ou um estado de imobilidade catalptica, 
ou um estado semelhante ao sono; contudo, mesmo nesses casos, o exame sob hipnose evidencia nitidamente um processo mnmico psquico tal como, em geral, se manifesta 
francamente na phase passionnelle.
           Os fenmenos motores de um ataque nunca so desprovidos de relao com seu contedo psquico; ou exprimem no seu aspecto geral a emoo concomitante, 
ou correspondem exatamente s aes envolvidas no processo alucinatrio.
           (2) A lembrana que forma o contedo de um ataque histrico no  uma lembrana qualquer;  o retorno do evento que causou a irrupo da histeria - o 
trauma psquico.
           Essa relao tambm se manifesta nos casos clssicos de histeria traumtica, segundo demonstrado por Charcot em pacientes do sexo masculino; nesses casos, 
um indivduo previamente no-histrico passava a sofrer de uma neurose aps um nico episdio de medo intenso (como um acidente ferrovirio, uma queda etc.). Nesses 
casos, o contedo do ataque consiste na reproduo alucinatria do evento que ps em perigo a vida da pessoa, reproduo essa que talvez se acompanhe das seqncias 
de pensamentos e impresses da sensibilidade que passaram por sua mente na ocasio. Mas a conduta desses pacientes no difere da conduta de pacientes comuns do sexo 
feminino;  um modelo exato desta. Se examinarmos o contedo dos ataques de uma dessas pacientes na forma como foi indicado, depararemos com eventos que, por sua 
natureza, so igualmente apropriados para atuar como traumas (por exemplo, sustos, ofensas humilhantes, frustraes). Nesses casos, porm, o grande trauma isolado 
est substitudo, geralmente, por uma srie de traumas menores que se inter-relacionam por sua semelhana ou pelo fato de fazerem parte de uma histria penosa. Esses 
pacientes, por conseguinte, muitas vezes tm ataques de tipos diferentes, cada um desses com um contedo mnmico particular. Esse fato torna necessrio ampliar consideravelmente 
o conceito de histeria traumtica.
           Num terceiro grupo de casos, constatamos que o contedo dos ataques consiste em lembranas que no consideraramos capazes, por si mesmas, de constituir 
traumas. Evidentemente, devem isto ao fato de se terem associado, numa coincidncia fortuita, com um momento em que a disposio histrica da pessoa se encontrava 
patologicamente intensificada e, com isso, foram elevadas  condio de traumas.
           (3) A lembrana que forma o contedo de um ataque histrico  uma lembrana inconsciente, ou, mais corretamente, faz parte do segundo estado da conscincia, 
que est presente, organizado em grau maior ou menor, em toda histeria. Por conseguinte, essa lembrana ou est inteiramente ausente da recordao do paciente, quando 
este se encontra em seu estado normal, ou est presente apenas em forma rudimentar, condensada. Se conseguirmos trazer essa lembrana inteiramente  conscincia 
normal, ela deixa de ter a capacidade de produzir ataques. Durante um ataque real, o paciente se encontra parcial ou totalmente no segundo estado de conscincia. 
Nesse ltimo caso, o ataque inteiro  coberto pela amnsia, durante sua vida normal; no primeiro caso, o paciente apercebe-se da modificao em seu estado e da sua 
conduta motora, mas os eventos psquicos que ocorrem durante o ataque lhe permanecem ocultos. No entanto, podem ser despertados a qualquer momento pela hipnose.
           (4) A questo da origem do contedo mnmico dos ataques histricos coincide com a outra questo: o que decide se uma experincia (uma idia,inteno etc.) 
haver de se localizar na segunda conscincia, e no na conscincia normal? Descobrimos, com certeza, dois desses determinantes nas pessoas histricas:
           Se uma pessoa histrica intencionalmente procura esquecer uma experincia, ou decididamente rechaa, inibe e suprime uma inteno ou idia, esses atos 
psquicos, em conseqncia, entram no segundo estado da conscincia; da produzem seus efeitos permanentes e a lembrana deles retorna sob a forma de ataque histrico. 
(Cf. histeria em monjas, em mulheres castas, em adolescentes de boa educao, em pessoas com aspiraes artsticas ou teatrais etc.)
           As impresses recebidas durante estados psquicos no-habituais (como os estados afetivos, estados de xtase ou auto-hipnose) tambm entram no segundo 
estado da conscincia.
           Pode-se acrescentar que esses dois fatores muitas vezes se combinam por meio de vnculos internos e que provavelmente h outros determinantes alm destes.
           (5) O sistema nervoso procura manter constante, nas suas relaes funcionais, algo que podemos descrever como a "soma da excitao". Ele executa essa 
precondio da sade eliminando associativamente todo acmulo significativo de excitao, ou, ento, descarregando-o mediante uma reao motora apropriada. Se partirmos 
desse enunciado, o qual, alis, tem implicaes de amplo alcance, verificaremos que as experincias psquicas que formam o contedo dos ataques histricos tm uma 
caracterstica que lhes  comum. Todas so impresses que no conseguiram encontrar uma descarga adequada, seja porque o paciente se recusa a enfrent-las, por temor 
de conflitos mentais angustiantes, seja porque (tal como ocorre no caso de impresses sexuais) o paciente se sente proibido de agir, por timidez ou condio social, 
ou, finalmente, porque recebeu essas impresses num estado em que seu sistema nervoso estava impossibilitado de executar a tarefa de elimin-las.
           Chegamos, assim, tambm a uma definio de trauma psquico, que pode ser empregada na teoria da histeria: transforma-se em trauma psquico toda impresso 
que o sistema nervoso tem dificuldade em abolir por meio do pensamento associativo ou da reao motora.
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           


ALGUMAS CONSIDERAES PARA UM ESTUDO COMPARATIVO DAS PARALISIAS MOTORAS ORGNICAS E HISTRICAS (1893 [1888-1893)]
           
           
           NOTA DO EDITOR INGLES
           
           QUELQUES CONSIDRATIONS POUR UNE TUDE COMPARATIVE DES PARALYSIES MOTRICES ORGANIQUES ET HYSTRIQUES
            
           (a) EDIES FRANCESAS:
           1893 Arch. Neurol., 26 (77), 29-43. (Julho.)
           1906 S. K. N .S., 1, 30-44 (1911, 2 ed.; 1920, 3 ed.; 1922, 4 ed.)
           1925 G. S., 1, 273-89.
           1952 G.W., 1, 39-55.
           
           (b)TRADUO INGLESA:"Some Points in a Comparative Study of Organic and Hysterical Paralyses"
           1924 C. P., 1, 42-58. (Tad. de M. Meyer.)
           
           Includo (N XXVIII) no sumrio dos primeiros trabalhos de Freud organizado por ele prprio (1897b). O original foi escrito em francs. A presente traduo 
inglesa  uma nova traduo, com ttulo modificado, feita por James Strachey.
           
           Esse artigo tem toda uma longa histria atrs de si, narrada em detalhes por Ernest Jones (1953, 255-7). Aparentemente, o tema da presente investigao 
foi sugerido por Charcot a Freud, em fevereiro de 1886, pouco antes de este partir de Paris. No seu "Relatrio sobre Meus Estudos em Paris e Berlim" (1956a) escrito 
em abril de 1886, imediatamente aps o regresso a Viena, Freud escreve que suas conversas com Charcot "levaram-me a preparar um artigo que est por ser publicado 
nos Archives de Neurologie e que tem como ttulo 'Vergleichung der hysterischen mit der organischen Symptomatologie"' ["Comparao entre a Sintomatologia Histrica 
e a Orgnica"]. (Ver em [1]) Assim, parece que o artigo j estava escrito naquela poca; porm, mais de dois anos aps, em carta a Fliess de 28 de maio de 1888, 
ele escreve: "O primeiro rascunho das 'paralisias histricas' est agora concludo; no sei quando concluirei o segundo". (Freud, 1950a, Carta 4.) Trs meses depois, 
escreve novamente, em 29 de agosto: "Agora estou justamente terminando as paralisias histricas e orgnicas o que me deixa mesmo muito satisfeito" (ibid., Carta 
5). Ademais, em seu prefcio (que tambm leva a data "agosto de 1888")  traduo do livro sobre a sugesto de Bernheim (Freud, 1888-9), ele se refere ao presente 
assunto e fala de um trabalho "que est por ser publicado em breve" (em [1]). Seguem-se ento cinco anos de completo silncio, rompido mais uma vez por uma carta 
a Fliess, em 30 de maio de 1893 (ibid., Carta 12): "O livro que hoje estou lhe remetendo no  muito interessante. O outro trabalho, sobre paralisias histricas, 
menor e mais interessante, vai surgir no comeo de junho". A 10 de julho (ibid., Carta 13): "As paralisias histricas deveriam ter sido publicadas h muito tempo; 
provavelmente aparecero no nmero de agosto.  um artigo muito curto... Talvez voc possa estar lembrado de que eu j me ocupava dessa questo quando voc era meu 
aluno, e que, naquela poca, proferi uma de minhas conferncias na Universidade sobre esse assunto". Isto se teria passado no outono de 1887, quando Fliess assistiu 
a algumas das conferncias de Freud em Viena. E, por fim, numa outra carta (no publicada) a Fliess, de 24 de julho de 1893: "Enfim, foram publicadas as paralisias 
histricas".
           No existe nada que mostre qual a natureza dos "motivos fortuitos e pessoais a que Freud se refere aqui (em [1]) para explicar o atraso de cinco anos 
na publicao do rascunho original, aparentemente concludo. (Cf. tambm em [1]) No sabemos dizer se tambm este foi escrito em francs; porm, apesar do ttulo 
em alemo, que lhe foi dado em seu "Relatrio de Paris'' (em [1]), atrs, parece provvel que tenha sido escrito em francs, pois, conforme vimos,  poca de seus 
entendimentos iniciais, parece que Charcot prometeu publicar o resultado da pesquisa de Freud nos Archives de Neurologie, e o fez sete anos depois - somente cerca 
de duas semanas antes de sua morte inesperada.
           
           No entanto, talvez haja uma explicao para o atraso, que est relacionado com a posio que esse artigo ocupa no divisor de guas entre os escritos neurolgicos 
e psicolgicos de Freud. As trs primeiras partes do trabalho so inteiramente sobre neurologia e, sem dvida, foram escritas em 1888, se no em 1886. Mas a quarta 
parte deve datar de 1893, quando menos porque cita a "Comunicao Preliminar", de Breuer e Freud, que surgira no incio desse ano. A totalidade dessa ltima parte, 
na verdade, baseia-se inteiramente nas novas idias com que Breuer e Freud tinham comeado a operar - recalcamento, ab-reao, princpio de constncia -, todas elas 
a implcitas, quando no nomeadas explicitamente. O contacto direto de Freud com essas idias tinha comeado por volta de 1887 e, nos anos seguintes, ele se deixou 
absorver cada vez mais por elas. Parece no ser impossvel que, ao concluir o primeiro esboo desse artigo, ele houvesse comeado a ter alguma vaga idia de uma 
explicao dos atos contidos nele, explicao esta que envolvia novas idias, e, por esse motivo, ele pode ter suspendido a publicao at penetrar mais profundamente 
na questo.
           Por fim, pode-se comentar um ponto menos importante, mas que tem interesse por ser um sinal das coisas que estavam por vir: no fim do artigo h um pargrafo 
que talvez seja a primeira incurso breve e pblica de Freud na antropologia social.
           
           
           
           Na poca em que, em 1885 e 1886, fui aluno de M. Charcot, ele teve a grande amabilidade de me confiar a tarefa de efetuar um estudo comparativo das paralisias 
motoras orgnicas e histricas, baseado nas observaes do Salptrire, na esperana de que tal estudo pudesse revelar algumas caractersticas gerais da neurose 
e proporcionar melhor viso da sua natureza. Por motivos fortuitos e pessoais, durante muito tempo me vi impedido de realizar a incumbncia que ele me dera; e mesmo 
agora estou apresentando somente alguns dos resultados de minhas pesquisas, deixando de lado os detalhes necessrios a uma completa formulao de minhas opinies.
           I
           Devo comear apresentando algumas observaes acerca das paralisias motoras orgnicas, observaes que, alis, so de aceitao geral. A neurologia clnica 
reconhece dois tipos de paralisia motora - paralisia perifrico-medular ou (bulbar) e paralisia cerebral. Essa distino condiz inteiramente com os achados da anatomia 
do sistema nervoso, que mostra que o trajeto das fibras condutoras da motricidade se divide em apenas dois segmentos: o primeiro segmento estende-se da periferia 
at as clulas do corno anterior da medula espinhal, onde comea o segundo segmento, que vai at o crtex cerebral. A histologia moderna do sistema nervoso, fundamentada 
no trabalho de Golgi, Ramn y Cajal, Klliker etc., exprime esses fatos com a afirmao de que "o trajeto das fibras da conduo da motricidade  constitudo por 
dois neurnios (unidades neurais clulo-fibrilares), que se acham em conexo e se relacionam entre si no nvel das clulas conhecidas como clulas motoras do corno 
anterior". A diferena essencial entre essas espcies de paralisia, em termos clnicos,  a seguinte: a paralisia perifrico-medular  uma paralisia "dtaille", 
a paralisia cerebral  uma paralisia "en masse".
           O tipo da primeira  a paralisia facial na paralisia de Bell, a paralisia da poliomielite infantil aguda etc. Nessas doenas, cada msculo - poder-se-ia 
dizer, cada fibra muscular - pode estar paralisado individualmente, isoladamente. O que acontece depende da localizao e da extenso da leso nervosa; no h regra 
fixa segundo a qual um elemento perifrico possa escapar da paralisia, enquanto outro  afetado por ela permanentemente.
           A paralisia cerebral, pelo contrrio,  sempre um distrbio que acomete uma parte extensa da periferia, um membro, um segmento de uma extremidade, ou 
um aparelho motor complexo. Nunca afeta um nico msculo - por exemplo, o bceps no brao ou o tribial, isoladamente; e se existem evidentes excees a essa regra 
(por exemplo, a ptose cortical), podemos constatar claramente que o que est em questo so msculos que executam por si mesmos uma funo da qual constituem o nico 
instrumento.
           Nas paralisias cerebrais dos membros pode-se observar que os segmentos distais sempre esto mais comprometidos do que os proximais; por exemplo, a mo 
est mais paralisada do que o ombro. Pelo que sei, no existe, por exemplo, uma paralisia cerebral do ombro, isoladamente, com a mo conservando sua motilidade, 
ao passo que o contrrio constitui regra nas paralisias que no so completas.
           No estudo crtico da afasia, publicado em 1891, procurei mostrar que a causa dessa importante diferena entre as paralisias perifrico-medulares e cerebrais 
deve ser investigada na estrutura do sistema nervoso. Cada elemento da periferia corresponde a um elemento da massa cinzenta da medula, que, conforme disse Charcot, 
 sua terminao nervosa; a periferia, por assim dizer,  projetada sobre a massa cinzenta da medula, ponto por ponto, elemento por elemento. Propus dar  paralisia 
perifrico-medular dtaille o nome de paralisia em projeo. Mas o mesmo no se aplica s relaes entre os elementos da medula e os do crtex. O nmero de fibras 
condutoras j no seria suficiente para dar uma segunda projeo da periferia sobre o crtex. Devemos supor que as fibras que se estendem da medula at o crtex 
no representam mais, cada uma em separado, um elemento nico da periferia, e sim um grupo de elementos perifricos, e que at mesmo, por outro lado, um elemento 
da periferia pode corresponder a diversas fibras condutoras medulo-corticais. O fato  que h uma modificao no ordenamento das fibras no ponto de conexo entre 
os dois segmentos do sistema motor. Sustento, pois, que a reproduo da periferia no crtex no  mais uma reproduo fiel, ponto por ponto; que no  mais uma projeo 
verdadeira.  uma relao por meio do que se pode chamar de fibras representativas, e para a paralisia cerebral proponho o nome de paralisia em representao.
           
           Naturalmente, quando a paralisia em projeo  total e muito extensa, tambm ela  uma paralisia en masse e sua caracterstica principal  eliminada. 
Por outro lado, a paralisia cortical, que se distingue dentre as paralisias cerebrais por sua maior tendncia  dissociao, sempre apresenta, ainda assim, o carter 
de uma paralisia em representao.
           As outras diferenas entre paralisias em projeo e paralisias em representao so bem conhecidas. Posso citar, como exemplos de tais diferenas, a nutrio 
normal e a integridade das reaes  eletricidade [nas partes afetadas] que esto associadas  ltima. Embora sejam muito importantes sob o aspecto clnico, esses 
sinais no possuem a importncia terica que se costuma atribuir  primeira caracterstica diferencial que mencionamos - paralisia dtaille e paralisia en masse.
           Com muita freqncia tem-se atribudo  histeria a capacidade de simular as mais diferentes doenas nervosas orgnicas. Surge a questo de saber se, mais 
precisamente, ela simula as caractersticas dos dois tipos de paralisias orgnicas, se existem paralisias histricas em projeo e paralisias histricas em representao, 
tal como as que encontramos na sintomatologia orgnica. Nesse ponto emerge um aspecto importante. A histeria nunca simula paralisias perifrico-medulares ou paralisias 
em projeo; as paralisias histricas somente compartilham as caractersticas das paralisias orgnicas em representao. Este  um dado muito interessante, pois 
a paralisia de Bell, a paralisia radial etc. esto entre os distrbios mais comuns do sistema nervoso.
           Convm assinalar aqui, com a finalidade de evitar qualquer confuso, que estou tratando somente das paralisias histricas flcidas, e no das contraturas 
histricas. Parece impossvel aplicar as mesmas regras s paralisias histricas e s contraturas histricas. Pode-se afirmar que  tpico das paralisias histricas 
flcidas no afetarem msculos isolados (exceto onde o msculo em questo  o nico instrumento de uma funo), serem sempre paralisias en masse e, nesse aspecto, 
corresponderem s paralisias em representao ou paralisias cerebrais orgnicas. Alm disso, no que tange  nutrio das partes paralisadas e s suas reaes  eletricidade, 
as paralisias histricas apresentam as mesmas caractersticas que as paralisias cerebrais orgnicas.
           Se a paralisia histrica est assim correlacionada com a paralisia cerebral e, em especial, com a paralisia cortical, que apresenta maior tendncia  
dissociao, por outro lado delas se distingue por importantes caractersticas. Em primeiro lugar, no obedece  regra, que se aplica regularmente s paralisias 
cerebrais orgnicas, segundo a qual o segmento distal sempre est mais afetado do que o segmento proximal. Na histeria, o ombro ou a coxa podem estar mais paralisados 
do que a mo ou o p. Podem surgir movimentos dos dedos enquanto o segmento proximal ainda est absolutamente inerte. No existe a menor dificuldade em produzir 
artificialmente uma paralisia isolada da coxa, da perna etc., e, clinicamente, podem-se encontrar com muita freqncia essas paralisias isoladas, contrariando as 
regras da paralisia cerebral orgnica.
           Quanto a esse importante aspecto, a paralisia histrica , por assim dizer, intermediria entre a paralisia em projeo e a paralisia orgnica em representao. 
Se no possui todas as caractersticas de dissociao e delimitao prprias da primeira, est longe de ver-se submetida s leis estritas que regem a segunda - a 
paralisia cerebral. Tendo em conta tais restries, pode-se afirmar que a paralisia histrica tambm  paralisia em representao, mas com um tipo especial de representao 
cujas caractersticas permanecem como um assunto a ser desvendado.
           II
           Como um passo nessa direo, proponho estudar as demais caractersticas que fazem a distino entre a paralisia histrica e a paralisia cortical, o tipo 
mais acabado de paralisia cerebral orgnica. J mencionamos a primeira dessas caractersticas - o fato de que a paralisia histrica pode estar mais dissociada, mais 
sistematizada do que a paralisia cerebral. Na histeria, os sintomas da paralisia orgnica aparecem como que fracionados. Dos sintomas da hemiplegia orgnica comum 
(paralisia dos membros superiores e inferiores e da parte inferior da face), a histeria reproduz somente a paralisia dos membros, e at mesmo dissocia, com muita 
freqncia e com a maior facilidade, as paralisias do brao e da perna, sob a forma de monoplegias. Da sndrome da afasia orgnica ela copia a afasia motora, isoladamente; 
e -algo no existente na afasia orgnica - ela pode criar a afasia total (motora e sensitiva) para um determinado idioma, sem causar a menor interferncia na capacidade 
de compreender e de articular um outro idioma. (Observei isto em alguns casos no publicados.) Esse mesmo poder de dissociao manifesta-se nas paralisias isoladas 
de um segmento de um membro, ao passo que outras partes do mesmo membro permanecem totalmente indenes, ou ento na total abolio de uma funo (por exemplo, na 
abasia e na astasia), enquanto outra funo executada pelo mesmos rgos permanece intacta. Essa dissociao , sem dvida, surpreendente quando a funo que no 
foi prejudicada  a funo mais complexa. Na sintomatologia orgnica, se existe um debilitamento desigual de diversas funes,  sempre a funo mais complexa, a 
que foi adquirida mais recentemente, a que fica mais afetada em conseqncia da paralisia.
           Alm do mais, a paralisia histrica exibe uma outra caracterstica que, por assim dizer,  o sinal identificador da neurose e que surge como acrscimo 
ao primeiro. A histeria, conforme ouvi M. Charcot dizer,  realmente uma doena com excessivas manifestaes; tende a produzir seus sintomas com a mxima intensidade 
possvel. Essa caracterstica evidencia-se no s nas suas paralisias, mas tambm nas suas contraturas e anestesias. Sabemos em que grau de distoro podem efetuar-se 
as contraturas histricas - grau praticamente no igualado na sintomatologia orgnica. Tambm sabemos com que freqncia ocorrem na histeria as anestesias profundas, 
absolutas, das quais as leses orgnicas s conseguem reproduzir um plido esboo. O mesmo se d com as paralisias. Freqentemente, so absolutas no grau mais extremo. 
O afsico no articula uma s palavra, ao passo que o afsico orgnico quase sempre conserva algumas palavras, "sim" ou "no", uma exclamao etc.; o brao paralisado 
fica completamente inerte - e assim por diante. Essa caracterstica  por demais conhecida para que se insista nela. Contrastando com isso, sabemos que, na paralisia 
orgnica, a paresia  sempre mais comum do que a paralisia absoluta.
           A paralisia histrica se caracteriza, pois, pela delimitao precisa e pela intensidade excessiva; possui essas duas qualidades ao mesmo tempo, e  nisso 
que manifesta o maior contraste em relao  paralisia cerebral orgnica, na qual regularmente se constata que essas duas caractersticas no se associam entre si. 
Existem monoplegias na sintomatologia orgnica, mas quase sempre so monoplegias a priori e sem delimitao precisa. Se o brao est paralisado em conseqncia de 
uma leso cortical orgnica, h quase sempre um comprometimento concomitante, menor, na face e na perna; e se essa complicao no  visvel num dado momento, certamente 
ter existido no incio da doena. A verdade  que uma monoplegia cortical  sempre uma hemiplegia da qual um ou outro componente est mais ou menos apagado, porm, 
mesmo assim, ainda  reconhecvel. Prosseguindo um pouco mais, suponhamos que a paralisia no tenha atingido nenhuma outra parte a no ser o brao e que se trate 
apenas de uma monoplegia cortical; nesse caso se verificar que a paralisia tem uma intensidade moderada. To logo essa monoplegia aumenta de intensidade e se torna 
uma paralisia absoluta, ela perde seu carter de monoplegia simples e  acompanhada por distrbios motores da perna ou da face. No consegue ao mesmo tempo tornar-se 
absoluta e conservar sua delimitao.
           Isso, pelo contrrio,  o que consegue realizar com facilidade uma paralisia histrica, como nos demonstra todos os dias a experincia clnica. Por exemplo, 
afeta um brao, exclusivamente, sem que possamos encontrar um vestgio seu na perna ou na face. Ademais, no nvel do brao, essa paralisia histrica  to grave 
quanto pode ser uma paralisia, e nisso vemos uma ntida diferena em relao a uma paralisia orgnica - uma diferena que nos oferece redobrados motivos para reflexo.
           Naturalmente, h casos de paralisias histricas em que a intensidade no  excessiva e em que a dissociao no  de modo algum notvel. Tais casos podem 
ser reconhecidos por outras caractersticas; so, contudo, casos que no apresentam a marca tpica da neurose e que, visto no nos ensinarem nada acerca de sua natureza, 
no se revestem de nenhum interesse, do nosso atual ponto de vista.
           Acrescentarei alguns comentrios, que so de importncia secundria e que at mesmo se situam um tanto fora dos limites de nosso tema.
           Em primeiro lugar, quero assinalar que as paralisias histricas, muito mais freqentemente do que as paralisias orgnicas, se acompanham de distrbios 
de sensibilidade. Tais distrbios geralmente so mais profundos e mais freqentes nas neuroses do que na sintomatologia orgnica. Nada  mais comum do que a anestesia 
ou a analgesia histricas. Por outro lado, recorde-se com que tenacidade persiste a sensibilidade onde h uma leso neural. Quando um nervo perifrico  lesado, 
a anestesia  menor em extenso e intensidade do que seria de esperar. Se uma leso inflamatria atinge os nervos espinhais ou os centros medulares, sempre verificamos 
que a motilidade  a primeira coisa a ser enfraquecida, de vez que aqui e ali sempre subsistem elementos neurais que no foram totalmente destrudos. Onde h uma 
leso cerebral, j conhecemos bem a freqncia e a durao da hemiplegia motora, ao mesmo tempo que a hemianestesia concomitante  indistinta e transitria e no 
est presente em todos os casos. So apenas algumas localizaes muito especiais da leso que conseguem produzir uma perturbao intensa e persistente da sensibilidade 
(confluncia de trajetos sensitivos), e, assim mesmo, esse caso  passvel de dvidas.
           Esse comportamento da sensibilidade, que  diferente nas leses orgnicas e na histeria, dificilmente pode ser explicado na atualidade. Parece que aqui 
temos um problema cuja soluo talvez possa projetar alguma luz sobre a natureza ntima dos fenmenos.
           Outro ponto que julgo deva ser mencionado  que, na histeria, como de resto nas paralisias perifrico-medulares em projeo, no se encontram certas formas 
de paralisia cerebral.  o que se passa, de modo especial, com a paralisia da metade inferior da face, que  a manifestao mais freqente de uma doena orgnica 
do crebro, e (se me permitem passar, por um momento, s paralisias sensoriais) com a hemianopsia lateral homnima. Estou consciente de que  quase arriscar-se a 
um desafio afirmar que esse ou aquele sintoma no  encontrado na histeria, quando as pesquisas de M. Charcot e seus discpulos encontram nela - poder-se-ia dizer, 
a cada dia - sintomas novos, dos quais antes no se suspeitara. Mas devo considerar as coisas tal como so no momento. A ocorrncia de paralisia facial histrica 
 firmemente rejeitada por M. Charcot e, mesmo que acreditemos que isso possa ocorrer, trata-se de um fenmeno muito raro. Na histeria, a hemianopsia ainda no foi 
observada, e penso que jamais o ser.
           Como , portanto, que as paralisias histricas, conquanto estreitamente assemelhadas s paralisias corticais, divergem destas pelas caractersticas diferenciais 
que tentei destacar? E qual  a caracterstica gentica do tipo especial de representao com o qual devem estar associadas? A resposta a essa questo incluiria 
uma parte extensa e importante da teoria da neurose.
           III
           No existe a mais leve dvida quanto s condies que regem a sintomatologia da paralisia cerebral. Tais condies so constitudas pelos fatos da anatomia 
- a estruturao do sistema nervoso e a distribuio de seus vasos - e a relao entre essas duas sries de fatos e as circunstncias da leso. Assinalamos que o 
nmero menor de fibras que vm da medula at o crtex, em comparao com o menor nmero de fibras que vm da periferia at a medula,  a base da diferena entre 
a paralisia em projeo e a paralisia em representao. Da mesma forma, cada detalhe clnico da paralisia em representao pode ser explicado por algum detalhe da 
estrutura cerebral; e, inversamente, a partir das caractersticas clnicas das paralisias podemos deduzir a estrutura do crebro. Penso que existe um completo paralelismo 
entre essas duas sries.
           Assim, se no h grande facilidade para a dissociao na paralisia cerebral comum, isto se d porque as fibras motoras percorrem to unidas um longo trecho 
do seu trajeto intracerebral que no podem ser lesadas individualmente. Se a paralisia cortical mostra maior tendncia a ser monoplgica, isso ocorre porque o dimetro 
dos feixes condutores (braquial, crural etc.) aumenta no sentido do crtex. Se a paralisia da mo  a mais completa de todas as paralisias corticais, isso se deve, 
segundo pensamos, ao fato de que a relao cruzada entre o hemisfrio cerebral e a periferia  mais atingida por uma paralisia do que o segmento proximal; supomos 
que as fibras representativas do segmento distal sejam muito mais numerosas do que as do segmento proximal, de modo que a influncia cortical se torna mais importante 
para a parte distal do que para a proximal. Quando as leses muito extensas do crtex no conseguem produzir monoplegias puras, inferimos que os centros motores 
no crtex esto nitidamente separados uns dos outros por territrio neutro, ou inferimos que existem fatores operando  distncia (Fernwirkungen), que pareceriam 
anular o efeito de uma separao precisa entre os centros.
           De igual maneira, se, na afasia orgnica, sempre h uma mistura de distrbios de diferentes funes, isso pode ser explicado pelo fato de que os ramos 
da mesma artria irrigam todos os centros da fala, ou, se for aceita a opinio expressada no meu estudo crtico da afasia [Freud, 1891b], pelo fato de que no estamos 
tratando de centros separados, mas de uma rea contnua de associao. Seja como for, sempre se pode encontrar uma explicao baseada na anatomia.
           As notveis associaes com tanta freqncia observadas clinicamente nas paralisias corticais (afasia motora e hemiplegia  direita, alexia e hemianopsia 
 direita) so explicadas pela proximidade dos centros lesados.A hemianopsia como tal, sintoma muito curioso e estranho para uma mente no-cientfica, s  explicvel 
pelo cruzamento das fibras do nervo ptico no quiasma;  a expresso clnica desse cruzamento, assim como todo detalhe das paralisias cerebrais  a expresso clnica 
de um fato da anatomia.
           De vez que s pode haver uma nica anatomia cerebral verdadeira, de vez que ela se expressa nas caractersticas clnicas das paralisias cerebrais, evidentemente 
 impossvel que essa anatomia constitua explicao dos aspectos diferenciais das paralisias histricas. Por essa razo, no devemos, com base na sintomatologia 
dessas paralisias histricas, tirar concluses sobre a anatomia cerebral.
           A fim de explicar esse difcil problema, por certo devemos considerar a natureza da leso em estudo. Nas paralisias orgnicas, a natureza da leso desempenha 
um papel secundrio; ao contrrio, so a extenso e a localizao da leso que, em determinadas condies estruturais do sistema nervoso, produzem as caractersticas 
da paralisia orgnica que indicamos. Qual poderia ser a natureza da leso, na paralisia histrica, que define a situao sem respeitar a localizao ou a extenso 
da leso ou da anatomia do sistema nervoso?
           Em diversas ocasies ouvimos M. Charcot dizer que se trata de uma leso cortical, mas uma leso puramente dinmica ou funcional. Esta  uma tese cujo 
aspecto negativo podemos entender facilmente: equivale a afirmar que nenhuma modificao tecidual detectvel ser encontrada post mortem. Mas, no seu aspecto positivo, 
sua interpretao est longe de ser inequvoca. Afinal, o que  uma leso dinmica? Tenho bastante certeza de que muitos daqueles que leram as obras de M. Charcot 
acreditam que uma leso dinmica  realmente uma leso, contudo uma leso da qual, aps a morte, no se encontra nenhum vestgio, tal como um edema, uma anemia ou 
uma hiperemia ativa. Contudo, esses sinais, embora no necessariamente possam persistir aps a morte, so leses orgnicas verdadeiras, mesmo que sejam mnimas e 
transitrias. As paralisias partilhariam das caractersticas das paralisias orgnicas. Nem o edema nem a anemia, no menos do que a hemorragia ou o amolecimento, 
poderiam produzir a dissociao e a intensidade das paralisias histricas. A nica diferena estaria em que a paralisia devida a edema, por constrio vascular etc. 
seria menos duradoura do que a paralisia devida  destruio do tecido nervoso. Elas tm em comum todas as outras condies, e a anatomia do sistema nervoso determinar 
as propriedades da paralisia, tanto no caso de uma anemia transitria, como no caso de uma anemia que  permanente e final.
           Estes comentrios no me parecem totalmente prescindveis. Se algum ler que "deve haver uma leso histrica" nesse ou naquele centro, o mesmo centro 
no qual uma leso orgnica produziria uma correspondente sndrome orgnica, e recordar que se est acostumado a localizar uma leso dinmica histrica da mesma forma 
que uma leso orgnica, ser levado a crer que por trs da expresso "leso dinmica" est oculta a idia de uma leso como edema ou anemia, que so, de fato, afeces 
orgnicas transitrias. Eu, pelo contrrio, afirmo que a leso nas paralisias histricas deve ser completamente independente da anatomia do sistema nervoso, pois, 
nas suas paralisias e em outras manifestaes, a histeria se comporta como se a anatomia no existisse, ou como se no tivesse conhecimento desta.
           E, de fato, um bom nmero de caractersticas das paralisias histricas justifica essa afirmao. A histeria ignora a distribuio dos nervos, e  por 
isso que no simula paralisias perifrico-medulares ou paralisias em projeo. Ela no conhece o quiasma ptico e, por conseguinte, no produz hemianopsia. Ela toma 
os rgos pelo sentido comum, popular, dos nomes que eles tm: a perna  a perna at sua insero no quadril, o brao  o membro superior tal como aparece visvel 
sob a roupa. No h motivo para acrescentar  paralisia do brao a paralisia da face. Um histrico que no consegue falar no tem motivo para esquecer que compreende 
a fala, de vez que a afasia motora e a surdez para a palavra no esto correlacionadas entre si na concepo popular, e assim por diante. S posso concordar inteiramente 
com as opinies expressas por M. Janet em nmeros recentes dos Archives de Neurologie; elas so confirmadas tanto pelas paralisias histricas como pela anestesia 
e pelos sintomas psquicos.
           IV
           Por fim, procurarei indicar como poderia ser essa leso causadora das paralisias histricas. No digo que mostrarei que tipo de leso ; pretendo simplesmente 
indicar uma linha de pensamento, a qual poderia levar a uma concepo que no contraria as propriedades da paralisia histrica, na medida em que esta difere da paralisia 
cerebral orgnica.
           Tomarei a expresso "leso funcional ou dinmica" no seu sentido prprio, isto , "modificao na funo ou na dinmica" - modificao de uma propriedade 
funcional. Exemplos de modificao dessa espcie seria numa diminuio na excitabilidade ou numa qualidade fisiolgica que normalmente permanece constante ou varia 
dentro de limites fixos.
           Mas, objeta-se, a modificao funcional no  uma coisa diferente da modificao orgnica,  simplesmente o outro lado desta. Suponhamos que o tecido 
nervoso esteja num estado de anemia transitria; nesse caso, essa circunstncia diminui sua excitabilidade.  impossvel, com esse expediente, deixar de levar em 
conta as leses orgnicas.
           Tentarei mostrar que pode haver modificao funcional sem leso orgnica concomitante - ou, ao menos, sem leso nitidamente perceptvel at a mais minuciosa 
anlise. Em outras palavras, darei um exemplo adequado de modificao de uma funo primitiva; e, com essa finalidade, somente peo permisso para passar  rea 
da psicologia - que dificilmente se pode evitar, em se tratando de histeria.
           Estou de acordo com M. Janet quando diz que, na paralisia histrica, assim como na anestesia etc., o que est em questo  a concepo corrente, popular, 
dos rgos e do corpo em geral. Essa concepo no se fundamenta num conhecimento profundo de neuroanatomia, mas nas nossas percepes tcteis e, principalmente, 
visuais. Se  isso o que determina as caractersticas da paralisia histrica, esta, naturalmente, deve mostrar-se ignorante e independente de qualquer noo da anatomia 
do sistema nervoso. Portanto, na paralisia histrica, a leso ser uma modificao da concepo, da idia de brao, por exemplo. Mas que espcie de modificao ser 
essa, capaz de produzir a paralisia?
           Considerada do ponto de vista psicolgico, a paralisia do brao consiste no fato de que a concepo do brao no consegue entrar em associao com as 
outras idias constituintes do ego, das quais o corpo da pessoa  parte importante. A leso, portanto, seria a abolio da acessibilidade associativa da concepo 
do brao. O brao comporta-se como se no existisse para as operaes das associaes. No h dvida de que, se as condies materiais correspondentes  concepo 
do brao esto profundamente modificadas, a concepo tambm ser prejudicada. Mas tenho de demonstrar que esta consegue estar inacessvel sem estar destruda e 
sem estar lesado o seu substrato material (o tecido nervoso da regio correspondente do crtex).
           Comearei mostrando alguns exemplos extrados da vida social. Uma histria cmica narra que um homem de grande lealdade no queria lavar a mo porque 
seu soberano a tinha tocado. A relao dessa mo com a imagem do rei parecia to importante para a vida do homem que ele se recusava a deixar que a mo entrasse 
em qualquer outra relao. Estamos obedecendo ao mesmo impulso quando quebramos a taa em que bebemos  sade de um par recm-casado. Na Antiguidade, as tribos selvagens 
que queimavam o cavalo do seu chefe morto, suas armas e at mesmo suas esposas, juntamente com seu corpo morto, estavam obedecendo  concepo segundo a qual ningum 
jamais deveria toc-los. A fora de todas essas aes  evidente. A quantidade de afeto que devotamos  primeira associao de um objeto oferece resistncia a que 
ela entre numa nova associao com outro objeto e, por conseguinte, torna a idia do [primeiro] objeto inacessvel  associao.
           No se trata de uma simples comparao;  quase a mesma coisa, quando passamos  esfera da psicologia das concepes. Se, numa associao, a concepo 
do brao est envolvida com uma grande quantidade de afeto, essa concepo ser inacessvel ao livre jogo das outras associaes. O brao estar paralisado em proporo 
com a persistncia dessa quantidade de afeto ou com a diminuio atravs de meios psquicos apropriados. Esta  a soluo do problema que levantamos, pois em todos 
os casos de paralisia histrica verificamos que o rgo paralisado ou a funo abolida esto envolvidos numa associao subconsciente que  revestida de uma grande 
carga de afeto, e pode ser demonstrado que o brao tem seus movimentos liberados to logo essa quantidade de afeto seja eliminada. Por conseguinte, a concepo do 
brao existe no substrato material, mas no est acessvel s associaes e impulsos conscientes, porque a totalidade de sua afinidade associativa est, por assim 
dizer, impregnada de uma associao subconsciente com a lembrana do evento, o trauma, que produziu a paralisia.
           M. Charcot foi o primeiro a nos ensinar que, para explicar a neurose histrica, devemos concentrar-nos na psicologia. Breuer e eu seguimos seu exemplo 
numa comunicao preliminar (1893a) "Sobre o Mecanismo Psquico dos Fenmenos Histricos". Nesse artigo, mostramos que os sintomas permanentes da histeria que so 
descritos como "no-traumticos" so explicados (com exceo dos estigmas) pelo mesmo mecanismo que Charcot identificou nas paralisias traumticas. Mas tambm mostramos 
o motivo que explica a persistncia desses sintomas e mostramos por que eles podem ser curados por um mtodo especial de psicoterapia hipntica. Todo evento, toda 
impresso psquica  revestida de uma determinada carga de afeto (Affektbetrag) da qual o ego se desfaz, seja por meio de uma reao motora, seja pela atividade 
psquica associativa. Se a pessoa  incapaz de eliminar esse afeto excedente ou se mostra relutante em faz-lo, a lembrana da impresso passa a ter a importncia 
de um trauma e se torna causa de sintomas histricos permanentes. 
           A impossibilidade de eliminao torna-se evidente quando a impresso permanece no subconsciente. Denominamos a essa teoria "Das Abreagieren der Reizzuwchse".
           Para resumir, penso que est em completo acordo com nossa opinio geral acerca da histeria, j que conseguimos mold-la segundo o ensinamento de M. Charcot, 
supor que a leso, nas paralisias histricas, no consiste seno na incapacidade do rgo ou funo em exame de ter acesso s associaes do ego consciente; que 
essa modificao puramente funcional (mesmo no estando afetada a concepo)  causada pela fixao dessa concepo numa associao subconsciente com a lembrana 
do trauma; e que essa concepo no fica liberada e acessvel enquanto a carga de afeto do trauma psquico no  eliminada por uma reao motora adequada ou pela 
atividade psquica consciente. Mas, mesmo que no ocorra esse mecanismo, se uma idia auto-sugestiva direta sempre  necessria para haver uma paralisia histrica, 
como se depreende dos casos clnicos de traumas de M. Charcot, conseguimos demonstrar qual teria de ser a natureza da leso, ou melhor, da modificao, na paralisia 
histrica, a fim de explicar as diferenas entre esta e a paralisia cerebral orgnica.
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
         
         
         EXTRATOS DOS DOCUMENTOS DIRIGIDOS A FLIESS (1950 [1892-1899])
           
           
           NOTA DO EDITOR INGLS
           
           
           (a) EDIO ALEM:
           1950 Em Aus den Anfngen der Psychoanalyse, editado por Marie Bonaparte, Anna Freud e Ernst Kris. Londres: Imago Publishing Co.
           
           (b) TRADUO INGLESA:
           1954 Em The Origins of Psycho-Analysis, editado como acima. Londres: Imago Publishing Co.; Nova Iorque: Basic Books. (Trad. de Eric Mosbacher e James 
Strachey.)
           
           A presente traduo inglesa, baseada na de 1954, foi inteiramente revista.
           
           A histria do relacionamento de Freud com Wilhelm Fliess (1858-1928) est narrada com detalhes no Captulo XIII do primeiro volume da biografia de Freud 
por Ernest Jones (1953) e na introduo que Ernst Kris escreveu para os livros da bibliografia acima. Aqui basta explicar que Fliess, dois anos mais novo do que 
Freud, era mdico especialista em nariz e garganta e residia em Berlim; com ele Freud manteve uma correspondncia volumosa e ntima, entre 1887 e 1902. Fliess era 
um homem de grande capacidade, com interesses muito amplos em biologia geral; mas, nessa rea, adotou teorias que atualmente so consideradas excntricas e praticamente 
indefensveis. Contudo, era mais acessvel s idias de Freud do que qualquer outro contemporneo. Por conseguinte, Freud lhe comunicava seus pensamentos com a mxima 
liberdade, e o fazia no apenas em suas cartas, como tambm numa srie de documentos ("Rascunhos", como os chamamos aqui) que representavam relatos organizados de 
suas idias em evoluo e que, em alguns casos, so os primeiros esboos de obras posteriormente publicadas. O mais importante deles  o extenso documento - com 
umas quarenta mil palavras - a que demos o ttulo de Projeto para uma Psicologia Cientfica. Mas toda a srie de documentos, escritos durante os anos de formao 
das teorias psicanalticas de Freud, que culminam com A Interpretao dos Sonhos, merece o mais atento estudo.
           Esses documentos, e mesmo o fato da sua existncia, eram totalmente desconhecidos at a poca da Segunda Guerra Mundial. A melodramtica histria de sua 
descoberta e seu salvamento tambm foi narrada por Ernest Jones no mesmo captulo de sua biografia. Nossa dvida principal em todo esse assunto  para com a Princesa 
Marie Bonaparte (Princesa George, da Grcia), que no s adquiriu os documentos imediatamente, como teve a extraordinria coragem de resistir aos intentos do autor 
deles, e seu mestre, de destru-los.
           At agora, foi publicada somente uma seleo desses documentos (editada nos livros citados no cabealho desta nota). Para a Edio Standard, fizemos uma 
outra seleo a partir daquela seleo. Escolhemos (a) o Projeto para uma Psicologia Cientfica, (b) todos os "Rascunhos", menos um deles, e (c) as partes das cartas 
que parecem ter uma conexo significativa com a histria da psicanlise e a evoluo dos pontos de vista de Freud. O leitor dever ter em mente que o material desses 
rascunhos e cartas no foi projetado por seu autor para ser considerado uma expresso acabada de suas opinies e que, muitas vezes, o material ser articulado numa 
forma altamente condensada. Portanto, no h por que surpreender-se com a presena ocasional de incoerncias e obscuridades. 
           A presente traduo inglesa baseia-se na verso alem publicada nos Anfnge. Contudo, foi comparada com o manuscrito original e, nas passagens em que 
foram constatadas divergncias significativas, estas foram corrigidas, sempre com uma nota explicativa. Para simplificar as referncias, manteve-se a designao 
com letras e nmeros dos rascunhos e cartas adotada nos Anfnge e nas Origins. Seguimos o critrio dos organizadores dos Anfnge (por motivos que explicamos em [1]), 
ao destacar o Projeto do restante da correspondncia e edit-lo no fim do volume.
           
           RASCUNHO A
           
           PROBLEMAS
           
           (1) Ser a angstia das neuroses de angstia derivada da inibio da funo sexual ou da angstia ligada  etiologia dessas neuroses?
           (2) At que ponto uma pessoa sadia reage aos traumas sexuais posteriores de modo diferente de algum predisposto pela masturbao? Apenas quantitativamente? 
Ou qualitativamente?
           (3) Ser o coitus reservatus simples (condom) um fator nocivo?
           (4) Existir uma neurastenia inata, com fraqueza sexual inata, ou ser ela sempre adquirida na juventude? (Por meio das babs, da masturbao praticada 
por outra pessoa.)
           (5) Ser a hereditariedade algo mais que um multiplicador?
           (6) O que  que participa da etiologia da depresso peridica?
           (7) Ser a anestesia sexual nas mulheres outra coisa que no um resultado da impotncia? Poder ela, por si mesma, provocar neuroses?
           
           TESES
           (1) No existe nenhuma neurastenia ou neurose anloga sem distrbio da funo sexual.
           (2) Este tem um efeito causal imediato, ou ento atua como uma disposio para outros fatores, mas sempre de tal modo que, sem ele, os demais fatores 
no podem causar neurastenia.
           (3) A neurastenia nos homens, dada sua etiologia,  acompanhada de relativa impotncia.
           (4) A neurastenia nas mulheres  uma conseqncia direta da neurastenia nos homens, por meio da reduo da potncia deles.
           (5) A depresso peridica  uma forma de neurose de angstia, que, fora desta, manifesta-se em fobias e ataques de angstia.
           (6) A neurose de angstia , em parte, uma conseqncia da inibio da funo sexual.
           (7) O excesso simples e a sobrecarga de trabalho no so fatores etiolgicos.
           (8) A histeria, nas neuroses neurastnicas, indica a represso dos afetos concomitantes.
           GRUPOS [PARA OBSERVAO]
           (1) Homens e mulheres que permaneceram sadios.
           (2) Mulheres estreis em que h ausncia de traumas pela preveno da gravidez no casamento.
           (3) Mulheres infectadas por gonorria.
           (4) Homens de vida promscua que tm gonorria e que, por esse motivo, esto protegidos em todos os sentidos, tendo conhecimento de sua hipospermia.
           (5) Membros que permaneceram sadios em famlias gravemente afetadas.
           (6) Observaes de pases em que so endmicas certas anormalidades sexuais especficas.
           
           FATORES ETIOLGICOS
           (1) Esgotamento devido a [formas de] satisfao anormais.
           (2) Inibio da funo sexual. 
           (3) Afetos concomitantes a essas prticas.
           (4) Traumas sexuais anteriores ao incio da idade da compreenso.
           
           RASCUNHO B A ETIOLOGIA DAS NEUROSES
           
           Estou escrevendo tudo uma segunda vez para voc, meu caro amigo, e em prol de nossos trabalhos em comum. Naturalmente, voc manter este rascunho longe 
de sua jovem esposa.
           I. Pode-se tomar como fato reconhecido que a neurastenia  uma conseqncia freqente da vida sexual anormal. Contudo, a afirmao que quero fazer e comprovar 
por minhas observaes  que a neurastenia  sempre apenas uma neurose sexual.
           Adotei uma opinio semelhante (juntamente com Breuer) com relao  histeria. A histeria traumtica era bem conhecida; o que afirmamos, alm disso, foi 
que toda histeria que no  hereditria  traumtica. Do mesmo modo, afirmo agora que toda neurastenia  sexual.
           Por ora, deixaremos de lado a questo de saber se a disposio hereditria e, secundariamente, as influncias txicas conseguem produzir a neurastenia 
verdadeira, ou se aquilo que parece ser neurastenia hereditria tambm remonta a um esgotamento sexual precoce. Se existe algo que se possa chamar neurastenia hereditria, 
cabe indagar se o status nervosus dos casos hereditrios no deveria ser diferenado da neurastenia; que relaes ela tem, afinal, com os sintomas correspondentes 
na infncia, e assim por diante.
           Portanto, em primeiro lugar, minha argumentao se restringir  neurastenia adquirida. Por conseguinte, o que afirmo pode ser formulado da seguinte maneira. 
Na etiologia de uma afeco nervosa, devemos distinguir (1) a precondio necessria sem a qual o estado no pode surgir em absoluto e (2) os fatores desencadeantes. 
A relao entre esses dois elementos pode ser assim retratada: quando a precondio necessria atua de modo suficiente, a afeco se instala como conseqncia inevitvel; 
quando no atua de modo suficiente, o resultado de sua atuao , em primeiro lugar, uma disposio para a afeco, que deixa de ser latente to logo sobrevm uma 
quantidade suficiente de um dos fatores secundrios. Assim, o que falta para o efeito integral na etiologia primria pode ser substitudo pela etiologia de segunda 
ordem; esta, contudo,  dispensvel, ao passo que a de primeira ordem  imprescindvel.
           Se essa frmula etiolgica for aplicada a nosso caso atual, chegaremos  seguinte concluso: apenas o esgotamento sexual pode, por si s, provocar neurastenia. 
Quando no consegue esse resultado por si mesmo, tem um efeito tal sobre a disposio do sistema nervoso que a doena fsica, os afetos depressivos e o excesso de 
trabalho (influncias txicas) no mais podem ser tolerados sem [levar ] neurastenia. Sem o esgotamento sexual, porm, todos esses fatores so incapazes de gerar 
neurastenia. Acarretam fadiga normal, tristeza normal e fraqueza fsica normal, mas continuam apenas a evidenciar quanto "dessas influncias prejudiciais uma pessoa 
normal consegue tolerar".
           Examinarei separadamente a neurastenia nos homens e nas mulheres.
           A neurastenia masculina  adquirida na puberdade e se manifesta quando o paciente atinge a casa dos vinte anos. Sua origem  a masturbao, cuja freqncia 
tem completa correlao com a freqncia da neurastenia masculina. Podemos observar, no crculo de nossas relaes (ao menos nas populaes urbanas), que os indivduos 
que foram seduzidos por mulheres em idade precoce escapam  neurastenia. Quando esse fator nocivo atua por um perodo prolongado e com intensidade, ele transforma 
a pessoa em questo num neurastnico sexual cuja potncia fica igualmente prejudicada; a intensidade da causa tem correlao com a persistncia desse estado por 
toda a vida. Uma prova adicional da conexo causal est no fato de que um neurastnico sexual sempre , ao mesmo tempo, um neurastnico geral.
           Se o fator nocivo no foi suficientemente intenso, ele ter (de acordo com a frmula dada acima) um efeito sobre a disposio do paciente; desse modo, 
se, posteriormente, intervierem fatores precipitantes, ele provocar neurastenia, que esses fatores isoladamente no teriam produzido. Trabalho intelectual - neurastenia 
cerebral; atividade sexual normal - neurastenia medular etc.
           Nos casos intermedirios, encontramos a neurastenia da juventude, que tipicamente comea e segue sua evoluo acompanhada de dispepsia etc., e que cessa 
com o casamento.
           O segundo fator nocivo, que afeta homens em idade mais avanada, exerce seu impacto sobre um sistema nervoso que ou est intacto ou foi predisposto  
neurastenia pela masturbao. A questo  saber se esse fator pode acarretar resultados prejudiciais mesmo no primeiro caso;  provvel que sim. Seu efeito  patente 
no segundo caso, em que ele revive a neurastenia da juventude e cria novos sintomas. Esse segundo fator nocivo  o onanismus conjugalis - o coito incompleto, com 
a finalidade de evitar a gravidez. Quanto aos homens, todos os mtodos utilizados para conseguir isso parecem equivaler-se: atuam com intensidade varivel, conforme 
a disposio prvia da pessoa, mas, de fato, no diferem qualitativamente. Mesmo o coito normal no  tolerado pelos que tm uma disposio intensa ou pelos neurastnicos 
crnicos; e, alm disso, a intolerncia ao condom, ao coito extravaginal e ao coitus interruptus cobra seu tributo. Um homem sadio tolerar todos esses mtodos por 
longo tempo, mas no indefinidamente. Depois de certo tempo, comporta-se como o indivduo portador de uma predisposio. Sua nica vantagem em relao ao masturbador 
 o privilgio de uma latncia mais prolongada, ou o fato de que, em cada ocasio, ele necessita de uma causa precipitante. Nisso o coitus interruptus prova ser 
o principal fator nocivo e produz seu efeito caracterstico mesmo em indivduos no-predispostos.
           
           Neurastenia feminina. Normalmente, as meninas so sadias e no-neurastnicas; e isto  tambm para as jovens mulheres casadas, apesar de todos os traumas 
sexuais desse perodo da vida. Em casos relativamente raros, a neurastenia em sua forma pura surge em mulheres casadas e em mulheres no-casadas de mais idade; deve-se 
ento pensar que surgiu espontaneamente e do mesmo modo [? que nos homens]. Com muito maior freqncia, a neurastenia numa mulher casada decorre da neurastenia existente 
no homem, ou  produzida simultaneamente. Nesse caso, quase sempre h uma mistura de histeria, e temos ento a neurose mista comum da mulheres.
           A neurose mista das mulheres decorre da neurastenia existente nos homens, em todos os casos no raros em que o homem, sendo neurastnico sexual, sofre 
de limitaes na sua potncia. A mistura com a histeria resulta diretamente do refreamento da excitao do ato. Quanto mais reduzida a potncia do homem, mais predominante 
 a histeria da mulher; assim, um homem sexualmente neurastnico torna sua mulher no tanto neurastnica, mas histrica.
           Essa neurose surge, juntamente com a neurastenia dos homens, durante o segundo impacto dos fatores nocivos sexuais, que  de significao maior para a 
mulher, supondo-se que seja sadia. Assim, encontramos muito mais homens neurticos durante a primeira dcada da puberdade e muito mais mulheres neurticas durante 
a segunda. No caso das mulheres, isso resulta dos fatores nocivos devidos  evitao da gravidez. No  fcil classific-los e, de modo geral, nenhum deles deve 
ser considerado inteiramente incuo para as mulheres; de modo que, mesmo nos casos mais favorveis (condom), as mulheres, sendo parceiros sexuais mais escrupulosos, 
dificilmente escaparo de neurastenia discreta. Evidentemente, muita coisa depender das duas predisposies: se (1) a mulher era neurastnica antes do casamento 
ou se (2) tornou-se histrico-neurastnica durante o perodo de relaes sexuais livres [sem preservativos].
           II. Neurose de angstia. Todos os casos de neurastenia caracterizam-se, indubitavelmente, por uma certa diminuio da autoconfiana, uma expectativa pessimista 
e uma inclinao para idias antitticas aflitivas. Contudo, a questo  saber se o surgimento proeminente desse fator [angstia], sem estarem os outros sintomas 
especialmente desenvolvidos, no deveria ser destacado como uma "neurose de angstia" independente, particularmente tendo em conta que esta pode ser encontrada no 
menos freqentemente na histeria do que na neurastenia.
           A neurose de angstia surge sob duas formas: como um estado crnico e como um ataque de angstia. As duas formas podem combinar-se facilmente; e um ataque 
de angstia nunca ocorre sem sintomas crnicos. Os ataques de angstia so mais comuns nas formas ligadas  histeria - so, portanto, mais freqentes em mulheres. 
Os sintomas crnicos so mais comuns em homens neurastnicos. Os sintomas crnicos so: (1) angstia relacionada com o corpo (hipocondria); (2) angstia em relao 
ao funcionamento do corpo (agorafobia, claustrofobia, vertigem em lugares altos); (3) angstia relacionada com as decises e a memria - isto , as fantasias de 
algum a respeito de seu prprio funcionamento psquico (folie de doute, ruminaes obsessivas etc.). At este momento, no tive nenhuma razo para no tratar desses 
sintomas como sendo equivalentes. De resto, a questo  a seguinte: (1) em que medida esse estado emerge nos casos hereditrios, sem qualquer fator nocivo sexual, 
(2) se ele  desencadeado, no casos hereditrios, por algum fator nocivo sexual, (3) se ele se acrescenta, sob a forma de intensificao,  neurastenia comum. No 
h dvida de que  adquirido, e especialmente por homens e mulheres casados, durante o segundo perodo de fatores nocivos sexuais, atravs do coitus interruptus. 
No penso que, para isso, seja necessria uma predisposio devida a uma neurastenia anterior; mas, quando falta a predisposio, a latncia  maior. A frmula causal 
 a mesma da neurastenia [em [1]].
           Os casos mais raros de neurose de angstia fora do casamento so encontrados especialmente nos homens. No final, revelam-se como casos de congressus interruptus 
em que o homem se envolve psiquicamente de forma intensa com mulheres cujo bem-estar constitui, para ele, tema de preocupao. Esse procedimento, em tais condies, 
 um fator nocivo de maior importncia para o homem do que o coitus interruptus no casamento, de vez que este  e freqentemente corrigido, por assim dizer, pelo 
coito normal fora do casamento.
           
           Devo examinar a depresso peridica, um ataque de angstia com durao de semanas ou meses, como uma terceira forma de neurose de angstia. Essa forma 
de depresso, em contraste com a melancolia propriamente dita, quase sempre tem uma conexo aparentemente racional com um trauma psquico. Este, no entanto,  apenas 
a causa precipitante. Ademais, essa depresso peridica no  acompanhada por anestesia [sexual] psquica, que  caracterstica da melancolia [em [1]].
           Tive a possibilidade de estabelecer como causa de numerosos casos dessa espcie o coitus interruptus; seu incio era tardio, durante o casamento, depois 
do nascimento do ltimo filho. Num caso de uma torturante neurastenia que comeou na puberdade, pude comprovar a existncia de uma violncia sexual no oitavo ano 
de vida. Um outro caso, que durava desde a infncia, veio a revelar-se como reao histrica a uma violncia sexual sob a forma de masturbao. Assim, no posso 
dizer se, nesses casos, estamos diante de formas verdadeiramente hereditrias sem uma causa sexual; e, por outro lado, no sei dizer se o coitus interruptus, por 
si mesmo, pode ser incriminado nesses casos, nem se a disposio hereditria  sempre prescindvel.
           Omitirei as neuroses ocupacionais, pois, como lhe disse, nelas foram demonstradas modificaes nos componentes musculares.
           CONCLUSES
           Depreende-se do que eu disse que as neuroses so inteiramente evitveis como tambm inteiramente incurveis. A tarefa do mdico desloca-se totalmente 
para a profilaxia.
           A primeira parte dessa tarefa, a preveno do fator nocivo sexual do primeiro perodo, coincide com profilaxia contra a sfilis e a gonorria, pois estes 
so os fatores nocivos que ameaam todo aquele que abandona a masturbao. A nica alternativa seriam as relaes sexuais livres entre rapazes e moas respeitveis; 
isto, contudo, s poderia ser adotado se houvesse mtodos incuos de evitar a gravidez. No sendo assim, as alternativas so: masturbao, neurastenia masculina 
e histero-neurastenia na mulher, ou ento sfilis no homem, sfilis na gerao seguinte, gonorria no homem, gonorria e esterilidade na mulher.
           
           O mesmo problema - um meio incuo de controlar a concepo -  trazido pelo trauma sexual do segundo perodo, pois o condom no proporciona uma soluo 
segura nem aceitvel para quem j  neurastnico.
           Na ausncia de tal soluo, a sociedade parece condenada a cair vtima de neuroses incurveis, que reduzem a um mnimo o gozo da vida, destroem a relao 
conjugal e trazem a runa hereditria a toda a gerao seguinte. As camadas inferiores da sociedade nada sabem do malthusianismo, mas esto em plena procura e, do 
jeito que as coisas vo, atingiro o mesmo ponto e sero vitimadas pela mesma fatalidade.
           Assim, o mdico se defronta com um problema cuja soluo merece todo o seu empenho.
           
           CARTA 14
           
           ...As coisas se complicam cada vez mais,  medida que chega a confirmao. Ontem, por exemplo, vi quatro casos novos cuja etiologia, como evidenciado 
pelos dados cronolgicos, s poderia ser o coitus interruptus. Talvez eu possa mant-lo interessado, fazendo um breve relato desses casos. Eles esto longe de ser 
uniformes.
           (1) Mulher, 41 anos; filhos, com 16, 14, 11 e 7 anos. Problemas nervosos nos ltimos 12 anos; passou bem nos perodos de gravidez; recada, posteriormente; 
no piorou com a ltima gravidez. Ataques de vertigem com sensao de fraqueza, agorafobia, expectativa ansiosa, nenhum indcio de neurastenia, histeria pouca. Etiologia 
confirmada: [neurose de angstia] simples.
           (2) Mulher, 24 anos; filhos de 4 e 2 anos. Desde a primavera de '93, ataques de dor (nas costas at o esterno)  noite, com insnia; quanto ao mais, nada 
de especial; durante o dia, bem. Marido, caixeiro-viajante; esteve em casa por algum tempo na primavera e agora. No vero, enquanto o marido estava fora, sentia-se 
muito bem. Coitus interruptus e muito receio de ter filhos. Histeria, portanto.
           
           (3) Homem, 42 anos: filhos de 17, 16 e 13 anos. Esteve bem at h seis anos. A, com a morte do pai, sbito ataque de angstia com palpitaes, temores 
hipocondracos de cncer da lngua; vrios meses depois, um segundo ataque, com cianose, pulso intermitente, medo de morrer etc.; a partir de ento, fraqueza, vertigem, 
agorafobia, alguma dispepsia. Este  um caso de neurose de angstia pura, acompanhado de sintomas cardacos subseqentes a uma emoo; contudo, o coitus interruptus 
foi aparentemente tolerado com facilidade durante dez anos. [1]
           (4) Homem, 34 anos. Perda do apetite nos ltimos trs anos; dispepsia h um ano, com perda de 20 quilos, constipao. Quando esses sintomas cessaram, 
passou a sentir violenta presso intracraniana nas ocasies em que soprava o siroco; ataques de fraqueza com sensaes correlatas e espasmos clnicos histeriformes. 
Nesse caso, portanto, predomina a histeria. Tem um filho de cinco anos de idade. Desde ento, coitus interruptus devido a uma doena da mulher. Mais ou menos na 
mesma poca em que se recuperou da dispepsia, foram reiniciadas as relaes sexuais normais.
           Em vista dessas reaes aos mesmos fatores nocivos,  preciso coragem para insistir na natureza especfica dos seus efeitos, tal como a concebo. E, no 
entanto, deve ser assim; h determinados pontos que ligam todos esses quatro casos (neurose de angstia simples - histeria simples - neurastenia com histeria).
           Em (1), uma mulher muito inteligente, no havia receio de ter filhos; ela tem uma neurose de angstia simples.
           Em (2), uma mulher jovem, agradvel e obtusa, a angstia era muito intensa; depois de breve perodo, teve histeria pela primeira vez.
           O caso (3), com neurose de angstia e sintomas cardacos, era um homem muito potente e fumante inveterado.
           O caso (4), pelo contrrio, era (sem se ter masturbado) apenas moderadamente potente - frgido.
           
           RASCUNHO D: SOBRE A ETIOLOGIA E A TEORIA DAS PRINCIPAIS NEUROSES
           
           I. CLASSIFICAO
           Introduo. Histrico. Diferenciao gradual das neuroses. O curso de evoluo dos meus prprios pontos de vista.
           A. Morfologia das Neuroses.
           (1) Neurastenia e as pseudoneurastenias.
           (2) Neurose de angstia.
           (3) Neurose obsessiva.
           (4)Histeria.
           (5) Melancolia, Mania.
           (6) As neuroses mistas.
           (7) Ramificaes das neuroses e transies para o normal.
           
           B. Etiologia das Neuroses (provisoriamente restrita s neuroses adquiridas).
           (1) Etiologia da neurastenia - Tipo de neurastenia congnita.
           (2) Etiologia da neurose de angstia.
           (3) da neurose obsessiva e da histeria.
           (4) da melancolia.
           (5) da neuroses mistas.
           (6) A frmula etiolgica bsica [em [1], atrs]. - A tese da especificidade [da etiologia]; a anlise do conjunto das neuroses.
           (7) Os fatores sexuais em sua significao etiolgica.
           (8) Exame dos pacientes.
           (9) Objees e Provas.
           (10) Conduta das pessoas assexuais.
           
           C. Etiologia e Hereditariedade.
           Os tipos hereditrios. - Relao da etiologia com a degenerao, com as psicoses e com a predisposio.
           II. TEORIA
           D. Pontos de Contacto com a Teoria da Constncia.
           Aumento interno e externo do estmulo; excitao constante e passageira. - Soma, uma caracterstica da excitao interna. Reao especfica. - Formulao 
e exposio da teoria da constncia. - Interposio do ego, com acumulao da excitao.
           E. O Processo Sexual  Luz da Teoria da Constncia.
           A via seguida pela excitao no processo sexual masculino e feminino. - A via seguida pela excitao na presena de fatores sexuais nocivos etiologicamente 
operantes. - Teoria de uma substncia sexual. - O diagrama esquemtico sexual.
           F. Mecanismo das Neuroses.
           As neuroses como perturbaes do equilbrio devidas ao aumento da dificuldade de descarga. - Tentativas de ajustamento, limitadas em sua eficcia. - Mecanismo 
das diferentes neuroses em relao  sua etiologia sexual. - Afetos e neuroses.
           G. Paralelo entre as neuroses da sexualidade e a fome.
           H. Resumo da teoria da constncia e da teoria da sexualidade e das neuroses.
           Lugar das neuroses na patologia; fatores a que elas esto sujeitas; leis que regem sua combinao. - Inadequao psquica, desenvolvimento, degenerao 
etc.
           
           CARTA 18
           
           ...Existe ainda uma centena de lacunas, grandes e pequenas, em minhas idias a respeito das neuroses. Mas estou-me aproximando de um ponto de vista abrangente 
e de alguns critrios gerais de abordagem. Conheo trs mecanismos: transformaes do afeto (histeria de converso), deslocamento do afeto (obsesses) e (3) troca 
de afeto (neurose de angstia e melancolia). Em todos os casos,  a excitao sexual que parece sofrer essas alteraes, mas o estmulo para elas no , em todos 
os casos, algo sexual. Ou seja, em todos os casos em que as neuroses so adquiridas, elas o so devido a perturbaes na vida sexual; mas existem pessoas nas quais 
o comportamento de seus afetos sexuais  perturbado hereditariamente, e elas desenvolvem as formas correspondentes de neuroses hereditrias. Os aspectos mais gerais 
a partir dos quais posso classificar as neuroses so os seguintes:
           (1) Degenerao.
           (2) Senilidade. E o que significa isto? 
           (3) Conflito
           (4) Conflagrao.
           Degenerao: significa o comportamento inatamente anormal dos afetos sexuais; desse modo, os processos da converso, do deslocamento e da transformao 
em angstia ocorrem na proporo em que os afetos sexuais desempenham um papel no decurso da vida.
           Senilidade:  evidente. Por assim dizer,  uma degenerao normalmente adquirida na velhice.
           Conflito: coincide com minha concepo de defesa [rechao]; compreende os casos de neurose adquirida em pessoas que no so hereditariamente anormais. 
O que  rechaado  sempre a sexualidade.
           Conflagrao:  uma concepo nova. Significa o que se pode chamar de degenerao aguda (por exemplo, nas intoxicaes graves, nas febres, no estgio 
inicial da paralisia geral) - ou seja, catstrofes em que h perturbaes dos afetos sexuais sem causas desencadeantes sexuais. Talvez as neuroses traumticas pudessem 
ser abordadas sob esse enfoque.
           Naturalmente, o ponto central e principal de todo esse assunto continua sendo o fato de que, em conseqncia de determinados fatores nocivos sexuais, 
at mesmo as pessoas sadias podem adquirir as diferentes formas de neurose. O acesso a uma viso mais ampla  proporcionado pelo fato de que, nos casos em que uma 
neurose se desenvolve sem um fator nocivo, pode-se demonstrar a presena, desde o incio, de uma perturbao similar dos afetos sexuais. "Afeto sexual", naturalmente, 
 tomado no seu sentido mais amplo, como uma excitao de quantidade definida. 
           Posso apresentar-lhe o meu mais recente exemplo para apoiar essa tese:
           Um homem de 42 anos, forte e elegante, de repente desenvolveu uma dispepsia neurastnica, aos 30 anos, perdendo uns 25 quilos de peso, e a partir da 
viveu uma vida limitada e neurastnica. Na poca em que isso aconteceu, alis, ele tinha combinado seu casamento e estava emocionalmente abalado pela doena da noiva. 
Salvo esse aspecto, porm, no havia fatores sexuais nocivos. Ele se masturbou mais ou menos por um ano, dos 16 anos aos 17 anos; dos 17 em diante, passou a ter 
relaes sexuais normais; muito raramente, coitus interruptus; nenhum excesso, nenhuma abstinncia. Ele prprio atribui a causa  sobrecarga a que submeteu sua constituio 
at a idade de 30 anos: trabalhava, bebia e fumava muito, levava uma vida irregular. Mas esse homem vigoroso, sujeito [apenas] a fatores nocivos corriqueiros, nunca 
(nunca, entre os 17 e os 30 anos) foi propriamente potente: jamais conseguiu praticar mais de um coito em cada ocasio; sempre ejaculava rapidamente, nunca fez pleno 
uso de seu sucesso [inicial] junto s mulheres, nunca conseguiu penetrar com facilidade a vagina. Qual era a origem de sua limitao? No sei dizer. O interessante, 
todavia,  que isso estava presente justamente nele. Alis, tratei de duas de suas irms, portadoras de neuroses; uma delas est entre as minhas mais bem-sucedidas 
curas de dispepsia neurastnica. 
           
           RASCUNHO E: COMO SE ORIGINA A ANGSTIA
           
           Com mo certeira voc tocou na questo que penso ser o ponto fraco. Tudo o que sei a respeito  o seguinte:
           Logo ficou claro para mim que a angstia de meus pacientes neurticos tinha muito a ver com a sexualidade; e me chamou especialmente a ateno a certeza 
com que o coitus interruptus praticado numa mulher conduz  neurose de angstia. Comecei, ento, a seguir diversas pistas falsas. Achei que a angstia de que sofrem 
os pacientes devia ser considerada um prolongamento da angstia experimentada durante o ato sexual - ou seja, que era, na realidade, um sintoma histrico. Na verdade, 
so por demais evidentes as conexes entre a neurose de angstia e a histeria. Duas coisas poderiam originar o sentimento de angstia no coitus interruptus: na mulher, 
o receio de ficar grvida e, no homem, a preocupao de seu artifcio [preventivo] poder falhar. A partir de uma srie de casos, convenci-me de que a neurose de 
angstia tambm surgia em situaes em que, para as duas pessoas envolvidas, a eventualidade de virem a ter um filho basicamente no representava uma questo de 
maior importncia. Assim, a angstia da neurose de angstia no era continuada, relembrada, histrica.
           Um segundo ponto, extremamente importante, ficou definido para mim a partir da seguinte observao. A neurose de angstia afeta tanto as mulheres que 
so frgidas no coito como as que tm sensibilidade. Esse aspecto  interessante, e s pode significar que a origem da angstia no deve ser buscada na esfera psquica. 
Por conseguinte, deve estar radicada na esfera fsica:  um fator fsico da vida sexual que produz a angstia. Mas que fator?
           
           Tendo em mira esse ponto, reuni os casos em que encontrei a angstia originando-se de uma causa sexual. Em princpio, eles me pareceram muito heterogneos:
           (1) Angstia das pessoas virgens (observaes e informaes sexuais, prenncios da vida sexual); confirmada por numerosos exemplos, em ambos os sexos, 
predominantemente no sexo feminino. No raro, existe um indcio de uma ligao intermediria - uma sensao semelhante  ereo, que aparece nos genitais.
           (2) Angstia das pessoas voluntariamente abstinentes, das beatas (um tipo de neuropata), de homens e mulheres que se caracterizam pelo rigor excessivo 
e por uma paixo pela limpeza, que consideram horrvel tudo o que  sexual. As mesmas pessoas tendem a transformar sua ansiedade em fobias, atos obsessivos, folie 
de doute.
           (3) Angstia da pessoas obrigatoriamente abstinentes: mulheres que so esquecidas por seus maridos ou no so satisfeitas devido  falta de potncia. 
Essa forma de neurose de angstia certamente pode ser adquirida e, devido a circunstncias concomitantes, combina-se muitas vezes com a neurastenia.
           (4) Angstia das mulheres que vivem a prtica do coitus interrruptus ou, o que  parecido, das mulheres cujos maridos sofrem de ejaculao precoce - portanto, 
pessoas em que a estimulao fsica no  satisfeita.
           (5) Angstia dos homens que praticam o coitus interruptus e mesmo dos homens que se excitam de diferentes maneiras e no empregam sua ereo para o coito.
           (6) Angstia dos homens que vo alm do seu desejo ou da sua fora, pessoas de mais idade cuja potncia est diminuindo, mas que, ainda assim, se impem 
a prtica do coito.
           (7) Angstia das pessoas que se abstm ocasionalmente: homens jovens que se casaram com mulheres de mais idade, por quem na verdade sentem repulsa; ou 
neurastnicos que foram desviados da masturbao pelo trabalho intelectual, sem compens-la atravs do coito; ou homens cuja potncia comea a enfraquecer e que, 
no casamento, abstm-se das relaes sexuais por causa de sensaes post coitum [cf. em [1]].
           Nos demais casos, no ficou evidenciada a ligao entre a angstia e a vida sexual. (Poderia ser estabelecida teoricamente.)
           
           Como juntar todos esses casos separados? O que h de comum neles, com maior freqncia,  a abstinncia. Depois de constatar o fato de que mesmo as mulheres 
frgidas esto sujeitas  angstia aps o coitus interruptus, somos levados a dizer que se trata de uma questo de acumulao fsica de excitao - isto , uma acumulao 
de tenso sexual fsica. A acumulao ocorre como conseqncia de ter sido evitada a descarga. Assim a neurose de angstia  uma neurose de represamento, como a 
histeria; da a sua semelhana. E visto que absolutamente nenhuma angstia est contida no que  acumulado, a situao se define dizendo-se que a angstia surge 
por transformao a partir da tenso sexual acumulada.
           Aqui se pode intercalar algum conhecimento que nesse meio tempo se obteve acerca do mecanismo da melancolia. Com freqncia muito especial verifica-se 
que os melanclicos so anestticos. No tm necessidade de relao sexual (e no tm a sensao correlata). Mas tm um grande anseio pelo amor em sua forma psquica 
- uma tenso ertica psquica, poder-se-ia dizer. Nos casos em que esta se acumula e permanece insatisfeita, desenvolve-se a melancolia. Aqui, pois, poderamos ter 
a contrapartida da neurose de angstia. Onde se acumula tenso sexual fsica - neurose de angstia. Onde se acumula tenso sexual psquica - melancolia.
           Mas por que ocorre essa transformao em angstia quando h uma acumulao? Nesse ponto devemos examinar o mecanismo normal para lidar com a tenso acumulada. 
O que nos interessa aqui  o segundo caso - o caso da excitao endgena. As coisas so mais simples no caso da excitao exgena. A fonte da excitao situa-se 
externamente e envia para dentro da psique um acrscimo de excitao que  manejado de acordo com sua quantidade. Para esse propsito, basta qualquer reao que 
reduza em igual quantidade a excitao psquica. [Cf. em [1].]
           
           Mas as coisas se passam de modo diverso no caso da tenso endgena, cuja fonte se situa dentro do corpo do indivduo (fome, sede, pulso sexual). Nesse 
caso, s tm utilidade as reaes especficas - reaes que evitem novo surgimento de excitao nos rgos terminais em questo, sejam essas reaes exeqveis com 
maior ou menor gasto [de energia]. Aqui podemos supor que a tenso endgena cresce contnua ou descontinuamente, mas, de qualquer modo, s  percebida quando atinge 
um determinado limiar.  somente acima desse limiar que a tenso passa a ter significao psquica, que entra em contacto com determinados grupos de idias que, 
com isso, passam a buscar solues. Assim, a tenso sexual fsica acima de certo nvel desperta a libido psquica, que ento induz ao coito etc. Quando a reao 
especfica deixa de se realizar, a tenso fsico-psquica (o afeto sexual) aumenta desmedidamente. Torna-se uma perturbao, mas ainda no h base para sua transformao. 
Contudo, na neurose de angstia, essa transformao de fato ocorre, o que sugere a idia de que, nessa neurose, as coisas se desvirtuam da seguinte maneira: a tenso 
fsica aumenta, atinge o nvel do limiar em que consegue despertar afeto psquico, mas, por algum motivo, a conexo psquica que lhe  oferecida permanece insuficiente: 
um afeto sexual no pode ser formado, porque falta algo nos fatores psquicos. Por conseguinte, a tenso fsica, no sendo psiquicamente ligada,  transformada em 
- angstia.
           Se aceitarmos a teoria at esse ponto, teremos de insistir em que deve haver, na neurose de angstia, um dficit constatvel de afeto sexual na libido 
psquica. E isso se confirma pela observao. Quando essa correlao  posta diante de alguma paciente, ela sempre se indigna e declara que, pelo contrrio, agora 
j no tem nenhum desejo etc. Os pacientes do sexo masculino muitas vezes confirmam, como fato observado, que, aps passarem a sofrer de angstia, no sentiram nenhum 
desejo sexual.
           
           Vejamos agora se esse mecanismo concorda com os diferentes casos enumerados acima.
           (1) Angstia das pessoas virgens. Nesse caso, o conjunto de idias que deve captar a tenso fsica ainda no est presente, ou est presente apenas de 
maneira insuficiente; e, alm disso, existe uma recusa psquica que  um resultado secundrio da educao. Esse exemplo se enquadra muito bem.
           (2) Angstia das pessoas excessivamente pudicas. Nesse caso, o que existe  a defesa - uma completa rejeio psquica que impossibilita qualquer transformao 
da tenso sexual.  tambm nesses casos que encontramos numerosas obsesses. Outro exemplo muito adequado.
           (3) Angstia nos casos de abstinncia forosa.  essencialmente a mesma, pois a maioria das mulheres desse tipo cria uma rejeio psquica destinada a 
evitar a tentao. Nesse caso, a rejeio  uma contingncia; em (2) trata-se de algo fundamental.
           (4) Angstia das mulheres, decorrente de coitus interruptus. Nesse caso, o mecanismo  mais simples. Trata-se de excitao endgena que no se origina 
[espontaneamente], mas  induzida, embora no em quantidade suficiente para que seja capaz de despertar afeto psquico. Efetua-se artificialmente um alheamento entre 
o ato fsico-sexual e sua transformao psquica. Quando, depois disso, a tenso endgena aumenta ainda mais por sua prpria conta, ela no consegue ser transformada 
e gera angstia. Nesse caso, a libido pode estar presente, mas no ao mesmo tempo que a angstia. Desse modo, aqui, a rejeio psquica  seguida de alheamento psquico; 
a tenso de origem endgena  acompanhada por uma tenso induzida.
           (5) Angstia dos homens em decorrncia do coitus interruptus ou do coitus reservatus. O caso do coitus reservatus  mais claro; o coitus interruptus pode 
ser considerado, em parte, subordinado a ele. Tambm nesse caso, trata-se de um afastamento psquico, pois a ateno  voltada para um outro objetivo e mantida afastada 
da transformao da tenso fsica. Contudo, provavelmente h que aprimorar a explicao para o coitus interruptus.
           (6) Angstia que acompanha a diminuio da potncia ou a libido insuficiente. De vez que, nesses casos, no ocorre a transformao da tenso fsica em 
angstia, por causa da senilidade, a explicao estaria no fato de que  insuficiente o desejo psquico que pode ser concentrado para o ato em questo.
           (7)Angstia dos homens em conseqncia de averso, ou dos neurastnicos abstinentes. O primeiro caso no requer uma explicao nova; o outro, dos neurastnios 
abstinentes, talvez seja uma forma atenuada de neurose de angstia, pois em geral isso s acontece propriamente em homens potentes. Pode ser que o sistema nervoso 
neurastnico no consiga tolerar uma acumulao de tenso fsica, pois a masturbao implica o habituar-se a uma freqente e completa ausncia de tenso.
           No seu todo, a concordncia no  to precria assim. Nos casos em que h um considervel desenvolvimento da tenso sexual fsica, mas esta no pode ser 
convertida em afeto pela transformao psquica - por causa do desenvolvimento insuficiente da sexualidade psquica, ou por causa da tentativa de suprimi-la (defesa), 
ou por causa do declnio da mesma, ou por causa do alheamento habitual entre sexualidade fsica e psquica -, a tenso sexual se transforma em angstia. Assim, nisso 
desempenham um papel a acumulao de tenso fsica e a evitao da descarga no sentido psquico.
           Mas por que a transformao se faz precisamente em angstia? Angstia  a sensao de acumulao de um outro estmulo endgeno, o estmulo de respirar, 
um estmulo que  incapaz de ser psiquicamente elaborado  parte o prprio respirar; portanto, a angstia poderia ser empregada para a tenso fsica acumulada em 
geral. Alm disso, se examinarmos mais detidamente os sintomas da neurose de angstia, encontraremos nela os componentes separados de um grande ataque de angstia, 
ou seja, dispnia isolada, palpitaes isoladas, sensao de angstia isolada, ou uma combinao desses elementos. Vistas mais de perto, estas so as vias de inervao 
que a tenso psicossexual comumente percorre, mesmo quando est por ser transformada psiquicamente. A dispnia e as palpitaes fazem parte do coito; e, conquanto 
sejam habitualmente utilizadas somente como vias auxiliares de descarga, aqui, por assim dizer, servem como as nicas sadas para a excitao. Na neurose de angstia, 
existe uma espcie de converso, tal como ocorre na histeria (mais um exemplo de sua semelhana [em [1]]); contudo, na histeria,  a excitao psquica que toma 
um caminho errado, exclusivamente em direo  rea somtica, ao passo que aqui  uma tenso fsica,que no consegue penetrar no mbito psquico e, portanto, permanece 
no trajeto fsico. As duas se combinam com extrema freqncia.
           Foi esse o ponto a que consegui chegar por ora. As lacunas precisam muito ser preenchidas. Penso que tudo isso est incompleto: falta-me algo; mas creio 
que os fundamentos esto corretos. Naturalmente, tudo isso ainda no est maduro para ser publicado. Sugestes, ampliaes e certamente refutaes e explicaes 
sero recebidas com a mxima gratido.
           
           RASCUNHO F: COLEO III
           
           18 de agosto de 1894.N 1.
           Neurose de angstia:disp. hered.
           Herr K., 27 anos.
           Pai em tratamento por melancolia senil; irm, O., bom caso de neurose de angstia complicada, cuidadosamente analisado; todos os membros da famlia K. 
so neurticos e de constituio geniosa. Primo do Dr. K., em Bordus. - Boa sade at h pouco tempo; tem dormindo mal nos ltimos nove meses; em fevereiro e maro, 
acordava muitas vezes, com pesadelos e palpitaes; excitabilidade geral aumentando gradualmente; remisso dos sintomas devido a manobras militares, que lhe fizeram 
muito bem. H trs semanas, no incio da noite, sbito ataque de angstia, sem razo [aparente], com sensao de congesto desde o peito at a cabea. Interpretou 
que isso significava que, necessariamente, algo de terrvel estava por acontecer; sem opresso concomitante, apenas discretas palpitaes. Posteriormente, ataques 
semelhantes tambm durante o dia, na hora da refeio do meio-dia.H duas semanas, consultou um mdico; melhorou com o brometo; o estado ainda continua, mas dorme 
bem. Tambm durante as duas ltimas semanas, breves ataques de profunda depresso, assemelhando-se a completa apatia, durante apenas alguns minutos. Melhorou somente 
aqui em R[eichenau]. Alm disso, acessos de presso na parte posterior da cabea.
           Ele prprio tomou a iniciativa de dar informaes sobre sua vida sexual. H um ano, apaixonou-se por uma moa com quem flertava; grande choque ao saber 
que ela estava noiva de outro. No est mais apaixonado atualmente. - Atribui pouca importncia ao fato. - Prosseguiu: masturbava-se entre os 13 e os 16 ou 17 anos 
(seduzido no colgio), moderadamente, disse ele. Moderado nas relaes sexuais; nos ltimos 2 anos e meio, tem feito uso do condom, por medo de infeco; depois 
de tais relaes, muitas vezes se sente fraco. Descreveu esse tipo de relaes como foradas. Verifica que sua libido diminuiu muito durante o ltimo ano. Ficava 
excitadssimo sexualmente em seu relacionamento com a moa (sem toc-la etc.) Seu primeiro ataque,  noite (fevereiro), ocorreu dois dias aps uma relao sexual; 
seu primeiro ataque de angstia se deu aps relao sexual, na mesma noite; a partir de ento (trs semanas), abstinente - um homem tranqilo, de maneiras afveis 
e, afora isso, sadio.
           18 de agosto de 1894.Discusso do N 1
           Ao procurarmos interpretar o caso de K., uma coisa nos chama especialmente a ateno. O homem tem uma disposio hereditria: seu pai sofre de melancolia, 
talvez melancolia de angstia; a irm tem uma tpica neurose de angstia; conheo intimamente essa neurose, mas, no fosse por isso, eu decerto a descreveria como 
adquirida. Isso d motivo para pensar em sua hereditariedade. Na famlia K., provavelmente existe apenas uma "disposio" (uma tendncia a adoecer cada vez com maior 
gravidade em resposta  etiologia tpica), e no uma "degenerao". Podemos, pois, supor que, no caso de Herr K., a discreta neurose de angstia se desenvolveu a 
partir de uma etiologia discreta. Onde busc-la, sem preconceito?
           Em primeiro lugar, parece-me tratar-se de um estado de enfraquecimento da sexualidade. A libido desse homem vinha diminuindo h algum tempo; os preparativos 
para usar um condom so o bastante para que ele sinta que todo o ato  algo que lhe  forado, e o prazer derivado do ato, algo a que foi induzido. Sem dvida, esse 
 o n de toda essa questo. Aps o coito, muitas vezes se sente enfraquecido; como diz, ele percebe isso e ento, dois dias depois de um coito, ou, conforme o caso, 
na mesma noite, tem seus primeiros ataques de angstia.
           A confluncia do declnio da libido e da neurose de angstia se ajusta sem dificuldade  minha teoria. H uma debilidade no domnio psquico da excitao 
sexual somtica. Essa fraqueza tem estado presente h algum tempo e possibilita o aparecimento da angstia quando h um aumento casual da excitao somtica.
           Como foi adquirido esse enfraquecimento psquico? No se poderia esperar maiores conseqncias de sua masturbao na juventude; ela certamente no teria 
dado esses resultados, especialmente porque no parece ter ultrapassado as medidas habituais. Seu relacionamento com a moa, que muito o excitava sensualmente, parece 
muito mais apto a ter como efeito uma perturbao nesse sentido; de fato, o caso se assemelha s conhecidas condies das neuroses dos homens durante os noivados 
prolongados. Acima de tudo, porm, no se pode duvidar de que o temor de infeco e a deciso de usar um condom constituram o motivo daquilo que descrevi como o 
fator do alheamento entre o somtico e o psquico [em [1]]. O efeito seria o mesmo do caso do coitus interruptus nos homens. Em resumo, Herr K. desenvolveu uma fraqueza 
sexual psquica porque por si mesmo arruinou o coito, e, estando intactas sua sade fsica e a produo de estmulos sexuais, a situao deu origem  produo de 
angstia. Podemos dizer que sua deciso de tomar precaues, em vez de procurar satisfao adequada num relacionamento seguro, mostra que sua sexualidade, j de 
incio, no tinha muito vigor. O homem tinha uma disposio hereditria; a etiologia que pode ser encontrada nesse caso, embora seja qualitativamente importante, 
seria tolerada sem maiores prejuzos por um homem sadio - isto , um homem vigoroso.
           Um aspecto interessante desse caso  o aparecimento de um estado de esprito tipicamente melanclico em ataques de curta durao. Isso deve ter importncia 
terica para a neurose de angstia devida ao alheamento; por ora, posso apenas fazer o registro disso.
           
           20 de agosto de 1894. N 2.Herr von F., Budapeste, 44 anos.
           Homem fisicamente sadio, ele se queixa de que "est perdendo sua vivacidade e o prazer de viver, de uma forma que no  natural num homem da sua idade". 
Esse estado - em que tudo lhe parece indiferente, em que considera seu trabalho uma carga pesada e se sente mal-humorado e debilitado -  acompanhado de intensa 
presso no alto e tambm na parte posterior da cabea. Ademais, esse estado se caracteriza por m digesto - isto , averso  comida, flatulncia e priso de ventre. 
Tambm parece dormir mal.
           No entanto, o estado  evidentemente intermitente. Dura, a cada vez, uns 4 ou 5 dias, e se dissipa lentamente. Pela flatulncia, ele percebe que a fraqueza 
nervosa est chegando. H intervalos de 12 a 14 dias, e ele chega a passar bem durante vrias semanas. Tm ocorrido at mesmo perodos melhores, com durao de meses. 
Ele insiste em que as coisas tm estado assim nos ltimos 25 anos. Como acontece tantas vezes, tem-se de comear a compor o quadro clnico, pois ele fica repetindo 
monotonamente suas queixas e declara no ter prestado ateno a outros eventos. Assim, os contornos indeterminados dos ataques, bem como sua completa irregularidade 
no tempo, fazem parte do quadro. Naturalmente, ele atribui a culpa do seu estado  digesto...
           Organicamente sadio; sem preocupaes ou perturbaes emocionais de gravidade. Quanto  sexualidade: masturbao entre os 12 e os 16 anos; depois, relaes 
muito regulares com mulheres; no se sentia muito atrado; casado nos ltimos 14 anos, teve somente 2 filhos, o ltimo h 10 anos; nesse intervalo e desde ento, 
somente uso de condom e nenhuma outra tcnica. Nos ltimos anos, ntida diminuio da potncia. Coito a cada 12 ou 14 dias, mais ou menos; muitas vezes, h tambm 
longos intervalos. Admite que, aps coito com o uso do condom, sente-se enfraquecido e infeliz; mas no logo depois, s dois dias mais tarde - ou, como diz, tem 
notado que, dois dias depois, tem problemas digestivos. Por que usa condom? No se deve ter filhos demais! ([Ele tem] 2.)
           
           Discusso.
           Um caso benigno, mas muito caracterstico, de depresso peridica, melancolia. Sintomas: apatia, inibio, presso intracraniana, dispepsia, insnia - 
o quadro est completo.
           H uma inequvoca semelhana com a neurastenia, e a etiologia  a mesma. Tenho alguns casos bastante parecidos: so masturbadores (Herr A.) e tm tambm 
um trao hereditrio. Os von F. so reconhecidamente psicopatas. Assim, trata-se de um caso de melancolia neurastnica; deve haver a um ponto de contato com a teoria 
da neurastenia.
            bem possvel que o ponto de partida de uma melancolia de menor importncia, como a que vimos, possa ser sempre o ato do coito: um exagero do ditado 
da filosofia "omne animal post coitum triste". Os intervalos de tempo provariam se este  ou no o caso. O homem sente melhoras a cada srie de tratamentos, a cada 
ausncia de casa - isto , em cada perodo em que se v livre do coito. Naturalmente, como afirma, ele  fiel  esposa. O uso do condom  uma prova de pouca potncia; 
sendo algo parecido com a masturbao,  uma causa contnua de sua melancolia.
           
           
           
           CARTA 21
           
           ...S reuni uns poucos casos esta segunda-feira.
           N 3.
           Dr. Z., mdico, 34 anos. Por muitos anos, tem sofrido de sensibilidade orgnica nos olhos: fosfenos [clares], ofuscao, escotomas etc. Isso tem aumentado 
consideravelmente, a ponto de impedi-lo de trabalhar nos ltimos quatro meses (desde a poca de seu casamento). Antecedentes: masturbao desde os 14 anos de idade, 
aparentemente continuada at esses ltimos anos. Casamento no consumado, potncia muito reduzida; alis, tomadas providncias para o divrcio.
           Caso tpico evidente de hipocondria num determinado rgo em um masturbador, em perodos de excitao sexual.  interessante que a formao mdica atinja 
uma profundidade to rasa.
           
           N 4.
           Her D., sobrinho de Frau A., que morreu histrica. Famlia altamente neurtica. Idade, 28 anos. H algumas semanas tem sofrido de lassido, presso intracraniana, 
pernas bambas, potncia reduzida, ejaculao precoce e dos prdromos da perverso: as jovens muito novas o excitam em grau maior do que as de mais idade.
           Alega que, desde o incio, sua potncia foi instvel; admite a masturbao, mas no muito prolongada; atualmente, anda numa fase de abstinncia. Antes 
disto, estados de angstia no incio da noite.
           Ser que ele fez uma confisso completa?
           
           RASCUNHO G: MELANCOLIA
           
           I
           Os fatos que temos diante de ns parecem ser assim:
           (A) Existem notveis correlaes entre a melancolia e a anestesia [sexual]. Isso foi estabelecido (1) pela verificao de que, em muitos melanclicos, 
houve uma longa histria prvia de anestesia, (2) pela descoberta de que tudo o que provoca anestesia favorece o desenvolvimento da melancolia, (3) pela existncia 
de um tipo de mulheres, psiquicamente muito exigentes, nas quais o desejo intenso facilmente se transforma em melancolia, e que so frgidas.
           (B)A melancolia se desenvolve como intensificao da neurastenia, atravs da masturbao.
           (C)A melancolia surge numa combinao tpica com a angstia intensa.
           (D)A forma tpica e extrema da melancolia parece ser a forma hereditria peridica ou cclica.
           
           II
           A fim de obtermos algum proveito desse material, precisamos estabelecer alguns pontos de partida fixos. Estes parecem ser proporcionados pelas seguintes 
consideraes:
           (a)O afeto correspondente  melancolia  o luto - ou seja, o desejo de recuperar algo que foi perdido. Assim, na melancolia, deve tratar-se de uma perda 
- uma perda na vida pulsional.
           (b)A neurose nutricional paralela  melancolia  a anorexia. A famosa anorexia nervosa das moas jovens, segundo me parece (depois de cuidadosa observao), 
 uma melancolia em que a sexualidade no se desenvolveu. A paciente afirma que no se alimenta simplesmente porque no tem nenhum apetite; no h qualquer outro 
motivo. Perda do apetite - em termos sexuais, perda da libido.
           Portanto, no seria muito errado partir da idia de que a melancolia consiste em luto por perda da libido.
           Restaria saber se essa frmula explica a ocorrncia e as caractersticas dos pacientes melanclicos. Discutirei isso com base no diagrama esquemtico 
da sexualidade.
           
           III
           
           Com base no diagrama esquemtico da sexualidade [Fig. 1], de que me tenho utilizado freqentemente, passarei agora a examinar as condies sob as quais 
o grupo sexual psquico (ps. S) sofre uma perda na quantidade de 
           
           1. QUADRO ESQUEMTICO DA SEXUALIDADE

           sua excitao. Aqui, so possveis dois casos: (1) quando a produo de s. S. (excitao sexual somtica) diminuiu ou cessa, e (2) quando a tenso sexual 
 desviada por ps. S. [grupo sexual psquico]. O primeiro caso, em que cessa a produo de s. S. [excitao sexual somtica],  provavelmente o que caracteriza a 
melancolia grave comum propriamente dita, que reaparece periodicamente, ou a melancolia cclica, na qual se alternam perodos de aumento e cessao da produo. 
Ademais, podemos supor que a masturbao excessiva, que, segundo nossa teoria, conduz a uma excessiva descarga de E. (o rgo efetor) e, com isso, a um baixo nvel 
de estmulo em E. - a masturbao excessiva passa a afetar a produo de s. S. [excitao sexual somtica] e a causar uma reduo duradoura de s. S., levando, conseqentemente, 
a um enfraquecimento do p. S. [grupo sexual psquico]. Essa  a melancolia neurastnica. O [segundo] caso, no qual a tenso sexual  desviada do p. S. [grupo sexual 
psquico], embora a produo de s. S. [excitao sexual somtica] no esteja diminuda, pressupe que a s. S. [excitao sexual somtica]  utilizada em outra parte 
- na fronteira [entre o somtico e o psquico]. Este, contudo,  o fator determinante da angstia; e, por conseguinte, isso coincide com o caso da melancolia de 
angstia, uma forma mista que rene neurose de angstia e melancolia.
           Assim sendo, nesta discusso esto explicadas as trs formas de melancolia, que realmente devem ser diferenciadas.
           
           IV
           
           Como  que a anestesia desempenha esse papel na melancolia?
           De acordo com o diagrama esquemtico [Fig. 1], existem os tipos de anestesia que se seguem.
           A anestesia, realmente, sempre consiste na omisso de V. (a sensao voluptuosa), que deve ser dirigida para o ps. S. [grupo sexual psquico] aps a ao 
reflexa que descarrega o rgo efetor. A sensao voluptuosa  medida pela quantidade da descarga.
           (a)O E. [rgo efetor] no est completamente provido de carga; da a descarga no coito ser pequena, e a V. [sensao voluptuosa], muito reduzida: o caso 
da frigidez.
           (b)O trajeto desde a sensao at a ao reflexa est prejudicado, de modo que a ao no  suficientemente forte. Nesse caso, tambm  reduzida a descarga 
de V.:  o caso da anestesia masturbatria, da anestesia do coitus interruptus etc.
           
           (c)Tudo o mais est em ordem; s que a V. no  admitida no ps. G. [grupo sexual psquico] por estar vinculada numa outra direo (com a repulsa-defesa): 
esta  a anestesia histrica, inteiramente anloga  anorexia nervosa (repulsa).
           Em que grau, pois, a anestesia favorece a melancolia?
           No caso (a), de frigidez, a anestesia no  a causa da melancolia, mas um sinal de predisposio para a melancolia. Isso se coaduna com o Fato A (1), 
mencionado no comeo deste artigo [em [1]]. Em outros casos, a anestesia  a causa da melancolia, pois o ps. G. [grupo sexual psquico]  intensificado pela introduo 
de V. e enfraquecido por sua ausncia. (Fundamentado em teorias gerais da vinculao da excitao na memria.) O Fato A (2)  assim levado em conta [em [1]].
           Disto se conclui que  possvel a pessoa sofrer de anestesia sem ser melanclica, pois a melancolia est relacionada com a falta de s. S. [excitao sexual 
somtica], ao passo que a anestesia se relaciona com a ausncia de V. No entanto, a anestesia  um sinal ou um prdromo da melancolia, pois o p. S. [grupo sexual 
psquico] fica to enfraquecido pela ausncia de V. como pela ausncia de s. S. [excitao sexual somtica].
           
           V
           
           Torna-se necessrio verificar por que a anestesia  to predominantemente caracterstica das mulheres. Isso tem origem no papel passivo desempenhado por 
elas. Um homem com anestesia logo deixa de empreender qualquer relao sexual; a mulher no tem escolha. As mulheres tornam-se frgidas mais facilmente porque:
           (1)toda a sua educao se faz no sentido de no despertarem s. S.[excitao sexual somtica], e sim de transformarem em estmulos psquicos todas as excitaes 
que de outro modo teriam esse efeito - isto , de dirigirem a linha pontilhada [no diagrama esquemtico, Fig. 1] do objeto sexual inteiramente para o ps. G. [grupo 
sexual psquico]. Isso  necessrio porque, se houvesse uma vigorosa s. S. [excitao sexual somtica], o ps. G. [grupo sexual psquico] logo adquiriria tal intensidade, 
intermitentemente, que, como ocorre no caso dos homens, traria o objeto sexual para uma situao favorvel, por meio de uma reao especfica [em [1]]. Mas das mulheres 
exige-se que renunciem ao arco da reao especfica; em lugar 
           
           
           Fig. 2
           
           disso, delas se exigem aes especficas que atraiam o homem para a ao especfica. A tenso sexual  mantida em nvel reduzido, seu acesso ao ps. G. 
[grupo sexual psquico], na medida do possvel,  vedado, e a fora indispensvel do ps. G.  suprida de uma outra maneira. Quando o ps G. entra num estado de desejo 
intenso, ento, em vista do reduzido nvel [de tenso] no E. [rgo efetor], esse estado  facilmente transformado em melancolia. O ps G., por si mesmo, comporta 
pouca resistncia. Aqui temos o tipo juvenil e imaturo de libido, e as mulheres exigentes e frgidas, mencionadas acima [Fato A (3), em [1]], so simplesmente uma 
continuao desse tipo.
           (2)As mulheres [tornam-se frgidas mais facilmente do que os homens] porque, muitas vezes, chegam ao ato sexual (casam) sem amor - ou seja, com menos 
s. S. [excitao sexual somtica] e tenso em E. Nesse caso, so frgidas e continuam a s-lo.
           O reduzido nvel de tenso em E. parece encerrar a principal predisposio  melancolia. Em pessoas desse tipo, toda neurose assume facilmente um cunho 
melanclico. Assim, enquanto os indivduos potentes adquirem facilmente neuroses de angstia, os impotentes tendem  melancolia.
           
           VI
           E agora, como se explicam os efeitos da melancolia? A melhor descrio dos mesmos: inibio psquica, com empobrecimento pulsional e o respectivo sofrimento.
           Podemos imaginar que, quando o ps. G. [grupo sexual psquico] se defronta com uma grande perda da quantidade de sua excitao, pode acontecer uma retrao 
para dentro (por assim dizer) na esfera psquica, que produz um efeito de suco sobre as quantidades de excitao contguas. Os neurnios associados so obrigados 
a desfazer-se de sua excitao, o que produz sofrimento. [Fig. 2.] Desfazer associaes  sempre doloroso. Com isso, instala-se um empobrecimento da excitao (no 
seu depsito livre) - uma hemorragia interna, por assim dizer - que se manifesta nas outras pulses e funes. Essa retrao para dentro atua de forma inibidora, 
como uma ferida, num modo anlogo ao da dor (cf. a teoria da dor fsica). (Uma contrapartida disso seria apresentada pela mania, na qual o excedente de excitao 
se comunica a todos os neurnios associados [Fig. 3].)
           
           
           Fig. 3
           
           Aqui, pois, h uma semelhana com a neurastenia. Nesta, acontece um empobrecimento muito semelhante, porque  como se, digamos, a excitao escapasse 
atravs de um buraco. Mas, nesse caso, o que escapa pelo buraco  s. S. [excitao sexual somtica]; na melancolia, o buraco  na esfera psquica. Contudo, o empobrecimento 
neurastnico pode estender-se  esfera psquica. E, realmente, as manifestaes so to parecidas que alguns casos s podem ser diferenados com dificuldade.
           
           RASCUNHO H: PARANIA
           
           Na psiquiatria, as idias delirantes situam-se ao lado das idias obsessivas como distrbios puramente intelectuais, e a parania situa-se ao lado da 
loucura obsessiva como um psicose intelectual. Se as obsesses j foram atribudas a uma perturbao afetiva e se encontrou prova de que elas devem sua fora a um 
conflito, ento a mesma opinio deve ser vlida para osdelrios, e tambm estes devem ser conseqncia de distrbios afetivos, e sua fora deve estar radicada num 
processo psicolgico. Os psiquiatras aceitam o contrrio desse fato, ao passo que os leigos tendem a atribuir a loucura delirante a eventos mentais desagregadores. 
"Um homem que no perde a razo diante de determinadas coisas no tem nenhuma razo para perder."
           
           Ora, sucede que a parania, na sua forma clssica,  um modo patolgico de defesa, tal como a histeria, a neurose obsessiva e a confuso alucinatria. 
As pessoas tornam-se paranicas diante de coisas que no conseguem tolerar, desde que para isso tenham a predisposio psquica caracterstica.
           Em que consiste essa predisposio? Nenhuma tendncia para aquilo que representa a caracterizao psquica da parania; e esta, ns a estudaremos mediante 
um exemplo.
           Uma mulher solteira, j no muito nova (cerca de trinta anos), morava numa casa com o irmo e a irm [mais velha]. Pertencia  classe trabalhadora superior; 
seu irmo trabalhou at tornar-se um pequeno industrial. Nesse meio tempo, alugaram um quarto a um colega de trabalho, um homem muito viajado, um tanto enigmtico, 
muito talentoso e inteligente. Ele morou na companhia deles durante um ano e mantinha [com essa famlia] um relacionamento muito amvel e comunicativo. A seguir, 
foi-se embora, mas voltou seis meses mais tarde. Dessa vez, ficou morando na casa por um tempo relativamente breve, e ento desapareceu definitivamente. As irms, 
muitas vezes, costumavam lamentar sua ausncia e no podiam seno falar bem dele. No obstante, a irm mais nova contou  mais velha um episdio em que ele fizera 
uma tentativa de deix-la em dificuldade. Ela estava fazendo a arrumao dos quartos, enquanto ele ainda estava na cama. Ele a chamou para junto da cama e quando, 
inadvertidamente, ela obedeceu, ele colocou o pnis na mo dela. A cena no teve seqncia, e bem pouco tempo depois o estranho foi embora.
           No decorrer dos anos seguintes, a irm que tinha tido essa experincia adoeceu. Passou a se queixar e, por fim, desenvolveu delrios inequvocos de estar 
sendo observada e perseguida, no seguinte sentido: achava que suas vizinhas tinham pena dela por ter sido abandonada pelo pretenso namorado e por ainda estar esperando 
que o homem voltasse; estavam sempre a lhe dizer insinuaes dessa natureza, diziam-lhe todo tipo de coisas a respeito do homem, e assim por diante. Tudo isso, dizia 
ela, era naturalmente inverdico. A partir da, a paciente cai nesse estado somente por algumas semanas de cada vez. Sua compreenso interna (insight) retorna temporariamente 
e ela explica que tudo isso foi conseqncia de se haver excitado; mesmo assim, nos intervalos, padece de uma neurose que pode ser facilmente interpretada como neurose 
sexual. E logo cai em novo surto de parania.
           A irm mais velha ficava surpresa ao verificar que, to logo a conversa se encaminhava para a cena da seduo, a paciente costumava evit-la. Breuer ouvir 
falar no caso, a paciente foi-me encaminhada, e procurei curar sua tendncia  parania tentando faz-la reviver a lembrana da cena. No obtive resultado. Conversei 
com ela duas vezes e insisti para que me contasse tudo o que se relacionava com o inquilino, em hipnose de "concentrao". Em resposta a minhas perguntas para saber 
se no teria mesmo acontecido algo de embaraoso, deparei com a mais resoluta negativa - nunca mais vi a paciente. Ela ainda me enviou um recado, para dizer que 
aquilo a havia aborrecido demais. Defesa! Isso era bvio. Ela queria no se lembrar do incidente e, por conseguinte, recalcava-o intencionalmente.
           No podia haver qualquer dvida a respeito da defesa; mas essa defesa poderia igualmente ter levado a um sintoma histrico ou a uma idia obsessiva. Qual 
seria a peculiaridade da defesa paranica?
           Ela estava-se poupando de algo; algo fora recalcado. Podemos entrever o que era. Provavelmente, na realidade, ela ficava excitada com o que viu e com 
a lembrana do fato. Logo, estava-se poupando da censura de ser uma "mulher depravada". Da em diante, passou a ouvir essa mesma censura, agora proveniente de fora. 
Assim, o tema permanecia inalterado; o que mudava era a localizao da coisa. Antes, tratara-se de uma autocensura interna; agora, era uma recriminao vinda de 
fora. O julgamento a respeito dela fora transposto para fora: as pessoas estavam dizendo aquilo que, de outro modo, ela diria a si mesma. Havia uma vantagem nisso. 
Ela teria sido obrigada a aceitar o julgamento proveniente de dentro; j o que vinha do exterior, podia rejeitar. Dessa forma, o julgamento, a censura, era mantida 
afastada de seu ego.
           
           Portanto, o propsito da parania  rechaar uma idia que  incompatvel com o ego, projetando seu contedo no mundo externo.
           Neste ponto surgem duas questes: [1] Como se efetua uma transposio dessa espcie? [2] Isso se aplica tambm a outros casos de parania?
           (1) A transposio se efetua de maneira muito simples. Trata-se do abuso de um mecanismo psquico muito comumente utilizado na vida normal: a transposio 
ou projeo. Sempre que ocorre uma modificao interna, temos a opo de supor a existncia de uma causa interna ou de uma causa externa. Quando algo nos impede 
a derivao interna, naturalmente recorremos  externa. E, depois, estamos acostumados a verificar que nossos estados internos se revelam (por uma expresso da emoo) 
s outras pessoas. Isso responde pelos delrios normais de estar sendo observado e pela projeo normal. Pois so normais na medida em que, nesse processo, permanecemos 
conscientes de nossa prpria mudana interna. Se a esquecermos e se nos ativermos to-somente a uma das premissas do silogismo, quela que conduz para o exterior, 
teremos a a parania, com sua supervalorizao daquilo que as pessoas sabem a nosso respeito e daquilo que as pessoas nos fizeram. O que  que as pessoas sabem 
a nosso respeito, de que nada sabemos e que no podemos admitir? Trata-se, pois, de um abuso do mecanismo da projeo para fins de defesa.
           Realmente, algo muito parecido se passa com as idias obsessivas. O mecanismo de substituio tambm  um mecanismo normal. Quando uma solteirona idosa 
se dedica a cuidar de um co, ou um solteiro idoso coleciona caixas de rap, aquela est encontrando um sucedneo para sua necessidade de companhia no casamento, 
e este, para sua necessidade de - uma infinidade de conquistas. Todo colecionador  substituto de um Don Juan Tenorio, como igualmente o so o montanhista, o desportista, 
todas essas pessoas. Essas coisas so equivalentes erticos. As mulheres tambm as conhecem. O tratamento ginecolgico enquadra-se nessa categoria. H duas espcies 
de pacientes femininas: umas so to leais a seus mdicos como a seus maridos, e outras mudam de mdico com a mesma freqncia com que mudam de amante. Esse mecanismo 
de substituio, normalmente atuante,  usado em excesso nas idias obsessivas - e tambm a a finalidade  a defesa.
           
           (2) Pois bem, ser que esse ponto de vista se aplica tambm aos outros casos de parania? A todos eles,  o que penso. No entanto, passo a mostrar alguns 
exemplos.
           O paranico litigante no consegue tolerar a idia de que agiu errado ou de que deve repartir sua propriedade. Portanto, pensa que o julgamento no foi 
legalmente vlido, que ele no est errado etc. Esse caso  por demais claro, mas tambm no de todo evidente; talvez se possa mostr-lo em termos mais simples.
           A "grande nation" no consegue enfrentar a idia de ter sido derrotada na guerra. Logo, no foi derrotada; a vitria no conta. Constituiu um exemplo 
de parania de massa e cria o delrio de traio.
           O alcolatra jamais admitir perante si mesmo que se tornou impotente por causa da bebida. Por mais que consiga tolerar o lcool, no consegue suportar 
esse conhecimento. Assim,  sua mulher a culpada - delrios de cime, e assim por diante.
           O hipocondraco vai se debater, durante muito tempo, at encontrar a chave de suas sensaes de estar gravemente enfermo. No admitir perante si mesmo 
que seus sintomas tm origem na sua vida sexual; mas causa-lhe a maior satisfao pensar que seu mal, como diz Moebius, no  endgeno, mas exgeno. Logo, ele est 
sendo envenenado.
           O funcionrio que foi preterido na promoo convence-se de que deve haver conspirao contra ele e de que devem estar a espion-lo em sua sala. No fosse 
isso, teria de admitir seu fracasso.
           Nem sempre, necessariamente, so delrios de perseguio que se desenvolvem desse modo. Talvez a megalomania at comporte mais capacidade de manter afastada 
do ego a idia penosa. Tome-se, por exemplo, uma cozinheira que perdeu seus atrativos e que precisa acostumar-se com a idia de que est definitivamente excluda 
da felicidade no amor.  este o momento certo de aparecer o cavalheiro da casa em frente, que, evidentemente, deseja casar-se com ela, que lhe est dando a entender 
isso de um modo extraordinariamente tmido, mas, mesmo assim, inconfundvel.
           Em todos os casos a idia delirante  sustentada com a mesma energia com que uma outra idia, intoleravelmente penosa,  rechaada do ego. Assim, essas 
pessoas amam seus delrios como amam a si mesmas.  esse o segredo.
           Pois bem, como  que se compara essa forma de defesa com as formas de defesa que j conhecemos: (1) histeria, (2) idia obsessiva, (3) confuso alucinatria, 
(4) parania? Temos de levar em conta: afeto, contedo da idia e alucinaes. [Cf. resumo na Fig. 4.]
           (1) Histeria. A idia incompatvel no tem acesso  associao com o ego. O contedo  retido num compartimento separado, est ausente da conscincia; 
seu afeto [ eliminado] por converso na esfera somtica - A psiconeurose  a nica [conseqncia].
           (2) Idia obsessiva. Tambm aqui, a idia incompatvel no tem acesso  associao. O afeto  conservado; o contedo  representado por um substituto.
           (3) Confuso alucinatria. A totalidade da idia incompatvel - afeto e contedo -  mantida afastada do ego; e isto s se torna possvel  custa de um 
desligamento parcial do mundo externo. Resta o recurso s alucinaes, que comprazem ao ego e apiam a defesa.
           (4) Parania. O contedo e o afeto da idia incompatvel so mantidos, em direto contraste com (3); mas so projetados no mundo externo. As alucinaes, 
que surgem em algumas formas da doena, so hostis ao ego, mas apiam a defesa.
           Nas psicoses histricas, pelo contrrio, so justamente as idias rechaadas que assumem o domnio. O tipo dessas psicoses  o ataque e o tat secondaire. 
As alucinaes so hostis ao ego.
           A idia delirante  ou uma cpia da idia rechaada, ou o oposto desta (megalomania). A parania e a confuso alucinatria so as duas psicoses de desafio 
ou oposio. A "auto-referncia" da parania  anloga s alucinaes dos estados confusionais, pois estas procuram afirmar exatamente o contrrio do fato que foi 
rechaado. Assim, a referncia a si mesmo sempre tenta provar a correo da projeo.
           
           RESUMO
           
           Fig. 4
           
           CARTA 22
           
           ...No tenho nada para lhe contar. Quando muito, uma pequena analogia com a psicose onrica de D, que estudamos juntos.  Rudi Kaufmann, sobrinho muito 
inteligente de Breuer, e tambm estudante de medicina,  uma pessoa que custa a levantar da cama. Manda que a empregada o chame, porm sempre reluta muito em obedecer 
a ela. Certa manh, ela o despertou uma segunda vez e, como ele no respondesse, chamou-o pelo nome: "Herr Rudi!" Com isso, o dorminhoco teve uma alucinao com 
um quadro de avisos junto a um leito de hospital (cf. o Rudolfinerhaus), no qual havia o nome "Rudolf Kaufmann", e disse a si mesmo: "Bom, de qualquer modo o R. 
K. est no hospital; portanto, no preciso ir at l", e continuou a dormir. [1]
           
           RASCUNHO I: ENXAQUECA: ASPECTOS ESTABELECIDOS
           
           (1) Uma questo de soma: H um intervalo de horas ou dias entre a instigao dos sintomas. Tem-se uma espcie de sensao de que um obstculo est sendo 
superado e de que um processo segue ento adiante.
           (2) Uma questo de soma. Mesmo sem uma instigao, tem-se a impresso de que deve haver um estmulo que se acumula, o qual est presente em quantidade 
mnima, no incio do intervalo, e em quantidade mxima, no fim do mesmo.
           (3) Uma questo de soma, na qual a suscetibilidade aos fatores etiolgicos est na altura do nvel do estmulo j presente.
           (4) Uma questo com etiologia complexa. Talvez nos moldes de uma etiologia em cadeia, na qual uma causa prxima pode ser induzida por uma srie de fatores, 
direta e indiretamente, ou nos moldes de uma etiologia em soma, na qual, juntamente com uma causa especfica, as causas acumuladas podem agir como substitutos quantitativos. 
[1]
           (5) Uma questo semelhante ao modelo da enxaqueca menstrual e pertencente ao grupo sexual. Provas:
           (a) Rarssima em homens sadios.
           (b) Restrita ao perodo sexual da vida: infncia e velhice praticamente excludas.
           (c) Se  produzida por soma, tambm o estmulo sexual  algo que se produz por soma.
           (d) A analogia da periodicidade.
           (e) Freqncia em pessoas com perturbao da descarga sexual (neurastenia, coitus interruptus).
           (6) Certeza de que a enxaqueca pode ser produzida por estmulos qumicos: emanaes txicas humanas, siroco, fadiga, odores. Ora, o estmulo sexual tambm 
 um estmulo qumico.
           (7) Cessao da enxaqueca durante a gravidez, quando a produo talvez esteja voltada para outra parte.
           Isto parece mostrar que a enxaqueca  um efeito txico produzido pela substncia estimulante sexual quando esta no consegue encontrar descarga suficiente. 
E talvez se deve acrescentar a isto o fato de que est presente uma determinada via (cuja localizao precisa ser determinada) que se acha num estado de suscetibilidade 
especial. A questo implcita nisto  a questo a respeito da localizao da enxaqueca.
           (8) Com relao a essa via, temos indicaes de que as doenas orgnicas do crnio, tumores e supuraes (sem ligaes txicas intermedirias?) produzem 
enxaqueca, ou algo parecido, alm do que a enxaqueca  unilateral, correlaciona-se com o nariz e se liga a fenmenos isolados de paralisias.O primeiro desses sinais 
no  muito claro. A unilateralidade, a localizao acima do olho e a complicao pelas paralisias localizadas so mais importantes.
           (9) A dor da enxaqueca s pode sugerir o envolvimento das meninges, pois as afeces da massa cerebral certamente so indolores.
           (10) Se, nesse sentido, a enxaqueca se assemelha  nevralgia, isso se coaduna com a soma, a sensibilidade e suas oscilaes, a produo de nevralgia mediante 
estmulos txicos. A nevralgia txica ser, assim, o seu prottipo fisiolgico. O couro cabeludo  a sede de sua dor e o trigmeo  sua via. Como, entretanto, a 
alterao nevrlgica s pode ser de natureza central, devemos supor que, logicamente, o centro da enxaqueca  um ncleo do trigmeo cujas fibras inervam a dura-mter.
           De vez que, na enxaqueca, a dor tem uma localizao parecida com a da nevralgia supra-orbital, esse ncleo dural deve situar-se nas proximidades do ncleo 
da primeira ramificao. Como os diferentes ramos e ncleos do trigmeo se influenciam uns aos outros, todas as outras afeces do trigmeo podem contribuir para 
a etiologia [da enxaqueca] como fatores convergentes (no como fatores banais).
           A sintomatologia e a posio biolgica da enxaqueca.
           A dor de uma nevralgia geralmente encontra sua descarga atravs de tenso tnica (ou mesmo de espasmo clnico). Portanto, no  impossvel que a enxaqueca 
possa incluir uma inervao espstica dos msculos dos vasos sangneos na esfera reflexa da regio dural. Podemos atribuir a essa interveno a perturbao geral 
(e, a rigor, a perturbao local) da funo, que no difere, sintomatologicamente, de um distrbio parecido, causado por constrio vascular. (Cf. a semelhana entre 
a enxaqueca e os ataques de trombose.) Parte da inibio  devida  prpria dor. Presumivelmente,  a rea vascular do plexo coride a primeira a ser atingida pelo 
espasmo da descarga. A relao com o olho e com o nariz  explicada pela sua inervao comum pelo primeiro ramo [do trigmeo]. [1]
           
           RASCUNHO J
           FRAU P. J. (27 ANOS)
           
           
           
           [I]
           
           Estava casada havia trs meses. Seu marido, caixeiro-viajante, precisara deix-la por algumas semanas, depois do casamento, e j estava ausente h semanas. 
Ela sentia muita falta dele e ansiava por sua volta. Tinha sido cantora ou, pelo menos, se formara como cantora. Para passar o tempo, estava [um dia] sentada ao 
piano, cantando, quando subitamente sentiu-se mal - um mal-estar no abdome e no estmago, com a cabea rodando, sensaes de opresso e angstia e parestesia cardaca; 
pensou que estava enlouquecendo. Instantes aps, lembrou-se de que, naquela manh, havia comido ovos e cogumelos e concluiu ter-se envenenado. No entanto, esse estado 
logo se dissipou. No dia seguinte, a empregada contou-lhe que uma mulher que morara na mesma casa tinha enlouquecido. Desse momento em diante, nunca mais ficou livre 
da obsesso, acompanhada de angstia, de que tambm ela estaria por enlouquecer.
           Essa  a essncia do caso. De incio, supus que sua condio tivesse sido um ataque de angstia - uma liberao de sensao sexual que se transformou 
em angstia. Um ataque desse tipo, segundo pensei, poderia ocorrer sem qualquer processo psquico concomitante. Ainda assim, eu no queria rejeitar a possibilidade 
mais favorvel de que se pudesse descobrir tal processo; pelo contrrio, eu o tomaria como o ponto de partida de meu trabalho. O que eu esperava encontrar era o 
seguinte. Ela alimentava um desejo intenso pelo marido - isto , o desejo de ter relaes sexuais com ele; com isso, veio-lhe uma idia que excitou o afeto sexual 
e, depois, a defesa contra a idia; a seguir, ela foi assaltada pelo medo e fez uma falsa conexo ou substituio.
           
           Comecei perguntando-lhe acerca das circunstncias acessrias do ocorrido; algo devia t-la feito recordar-se do marido. Ela estivera cantando a ria de 
Carmen "Prs des remparts de Sville". Pedi-lhe que a repetisse para mim; ela nem conseguia lembrar-se exatamente das palavras. - Em que ponto a Sr acha que lhe 
veio o ataque? - Ela no sabia. - Quando apliquei presso [em sua fronte], ela disse que tinha sido depois de haver terminado a ria. Isso parecia bem possvel: 
tinha sido uma seqncia de pensamentos, que emergira a partir da letra da ria. - Afirmei ento que, antes do ataque, tinha havido nela pensamentos dos quais no 
conseguia lembrar-se. De fato, no se lembrava de nada, mas a presso [em sua fronte] fez surgir as palavras "marido" e "desejar". Diante de minha insistncia, esta 
ltima palavra foi mais especificada como sendo desejo de carcias sexuais. - "Penso que  isso mesmo. Afinal, seu ataque no passou de um estado de extravasamento 
amoroso. Pergunto-lhe se conhece a cano do pajem:
           Voi che sapete che cosa  amor,Donne vedete s'io l'ho nel cor...
           Por certo houve algo alm disso: uma sensao na parte inferior do corpo, um desejo convulsivo de urinar." - Ela ento confirmou isso. A insinceridade 
das mulheres comea quando elas omitem os sintomas sexuais caractersticos ao descreverem o que sentem. De modo que tinha sido realmente um orgasmo.
           -"Bem, a senhora percebe, de qualquer modo, que um estado de desejo como esse, numa mulher jovem que se viu abandonada pelo marido, no  nada de que 
se deva sentir vergonha." - Pelo contrrio, pensou ela, algo a ser aprovado. - "Muito bem; mas, nesse caso, no consigo ver o motivo do medo. Certamente a senhora 
no receou 'marido' nem 'desejo'; de modo que devem estar faltando outros pensamentos que so mais prprios para suscitar medo." - Mas ela apenas acrescentou que 
sempre temera as dores que lhe causava a relao sexual, mas que seu desejo tinha sido muito mais forte do que o medo das dores. - Nesse ponto, interrompemos.
           II
           Havia fortes razes para suspeitar de que, na Cena I (estando a paciente ao piano), juntamente com os pensamentos desejantes em relao ao marido (dos 
quais antes se lembrava), ela havia entrado numa outra seqncia profunda de pensamentos, da qual no tinha recordao, e foram estes os pensamentos que levaram 
 Cena II. Mas eu ainda no conhecia seu ponto de partida. Hoje, a paciente veio chorando e desesperada, evidentemente sem qualquer esperana de o tratamento ter 
xito. De modo que suas resistncias j estavam aguadas, e o progresso se tornou bem mais difcil. O que eu desejava saber, a essa altura, era que pensamentos capazes 
de assust-la ainda se encontravam presentes. Ela mencionou todo tipo de coisas que no poderiam ser pertinentes ao caso: o fato de que, por longo tempo, no tinha 
sido deflorada (o que lhe foi confirmado pelo Prof. Chrobak), de que atribua seu estado nervoso a isso e, por esse motivo, desejava que o defloramento pudesse ser 
feito. - Naturalmente, esse pensamento provinha de uma poca posterior: at a Cena I ela tivera boa sade. - Por fim, obtive a informao de que ela j havia experimentado 
um ataque semelhante, mas muito mais fraco e mais transitrio, com as mesmas sensaes. (A partir disso, verifiquei ter sido a partir do quadro mnmico do orgasmo 
que entrou em jogo a via de acesso que abriu caminho para as camadas mais profundas.) Investigamos a outra cena. Naquela poca - h quatro anos passados - ela tivera 
um compromisso em Ratisbona. Pela manh, havia cantado num recital e tinha-se sado bem. De tarde, em casa, teve uma "viso" - como se houvesse algo, uma "briga" 
entre ela e o tenor da companhia e um outro homem, e depois disso teve o ataque, com o medo de estar enlouquecendo.
           Aqui estava, pois a Cena II, a que se fizera uma aluso, por associao, na Cena I. No entanto, era evidente que tambm aqui havia lacunas na memria. 
Outras idias deveriam ter estado presentes para explicar o desencadeamento da sensao sexual e do pavor. Indaguei sobre esses elos intermedirios e, em lugar destes, 
foram-me contados os motivos da paciente. Ela se havia desgostado de tudo o que se referia  vida de artista. - "Por qu?" - A rispidez do diretor e o relacionamento 
dos atores entre si. - Perguntei por detalhes a esse respeito. - Tinha havido uma velha atriz cmica, com quem os atores jovens costumavam gracejar, perguntando-lhe 
se podiam passar a noite com ela. - "E o que mais, a respeito do tenor?" - Tambm este a tinha importunado; no recital, tinha colocado a mo no seio dela. - "Na 
sua roupa, ou diretamente na pele?" - Primeiro, ela disse que fora na pele, mas depois voltou atrs: disse que fora tocada na roupa. - "Bem, e o que mais?" - Todas 
as caractersticas dos relacionamentos daquelas pessoas, todos os abraos e beijos entre os atores tinham-na deixado amedrontada. - "Sim?" - Mais uma vez, fala na 
rispidez do diretor, embora s tivesse ficado l alguns dias. - "A investida do tenor aconteceu no mesmo dia do seu ataque?" - No; ela no sabia se fora antes ou 
depois. - Minhas perguntas feitas com auxlio da presso mostraram que a tentativa de seduo ocorrera no quarto dia de sua estada, e o ataque, no sexto.
           Interrompido pelo sumio da paciente.
           NOTA
           Durante toda a parte final do ano de 1895, Freud esteve muito ocupado com o problema terico fundamental da relao entre neurologia e psicologia. Suas 
reflexes finalmente levaram ao trabalho inconcluso a que demos o ttulo de Projeto para uma Psicologia Cientfica. Este foi escrito em setembro e outubro de 1895 
e deveria ser publicado, cronologicamente, nesse ponto dos documentos dirigidos a Fliess. No entanto, ele sobressai tanto dentre esses outros documentos e constitui 
uma entidade to extraordinria e autnoma que pareceu aconselhvel edit-lo de forma destacada, no final deste volume. Uma das cartas, a de n 39, escrita em 1 
de janeiro de 1896, est to estreitamente relacionada com o Projeto (sem o qual, alis, seria ininteligvel) que tambm foi tirada do seu lugar original na correspondncia 
e editada como um apndice ao Projeto. Que Freud, durante todo esse tempo, tivesse estado interessado tambm em temas clnicos, fica visivelmente demonstrado pelo 
fato de que, no mesmo dia em que remeteu essa carta (1 de janeiro de 1896), tambm remeteu a Fliess o Rascunho K, que se segue aqui e que , sob muitos aspectos, 
um esboo preliminar completo de seu segundo artigo sobre as neuropsicoses de defesa (1896b), concludo logo aps.
           
           RASCUNHO K: AS NEUROSES DE DEFESA
           
           (Um Conto de Fadas Natalino)
           H quatro tipos e muitas formas dessas neuroses. Posso apenas traar uma comparao entre histeria, neurose obsessiva e uma forma de parania. Elas tm 
vrias coisas em comum. So aberraes patolgicas de estados afetivos psquicos normais: de conflito (histeria), de autocensura (neurose obsessiva), de mortificao 
(parania), de luto (amncia alucinatria aguda). Diferem desses afetos pelo fato de no conduzirem  resoluo de coisa alguma, e sim a um permanente prejuzo para 
o ego. Ocorrem sujeitas s mesmas causas precipitantes dos seus prottipos afetivos, contanto que a causa preencha duas precondies a mais - que seja de natureza 
sexual e que ocorra durante o perodo anterior  maturidade sexual (as precondies de sexualidade e infantilismo). Quanto s precondies que se aplicam  pessoa 
em questo, no tenho novos conhecimentos. Genericamente, diria que a hereditariedade  uma precondio a mais, no sentido de que ela facilita e aumenta o afeto 
patolgico - isto , a precondio que, predominantemente, torna possveis as gradaes entre o normal e o caso extremo. No creio que a hereditariedade determine 
a escolha de uma neurose defensiva especial.
           Existe uma tendncia normal  defesa - uma averso contra dirigir a energia psquica de tal maneira que da resulte algum desprazer. Essa tendncia, que 
est ligada s condies mais fundamentais do funcionamento psquico (a lei da constncia), no pode ser empregada contra as percepes, pois estas so capazes de 
se impor  ateno (como  evidenciado pela conscincia dessas percepes); tal tendncia atua somente contra as lembranas e os pensamentos.  incua quando se 
trata de idias s quais, em alguma poca, esteve ligado algum desprazer, mas que, na poca atual, no tem possibilidade de originar desprazer (a no ser o desprazer 
recordado); tambm em tais casos, essa tendncia pode ser implantada pelo interesse psquico.
           A tendncia  defesa, porm, torna-se prejudicial quando  dirigida contra idias tambm capazes de, sob a forma de lembranas, liberar um novo desprazer 
- como  o caso das idias sexuais.  nisso, realmente, que se concretiza a possibilidade de uma lembrana ter, posteriormente, uma capacidade de liberao maior 
do que a produzida pela experincia correspondente. Somente uma coisa  necessria para isto: que a puberdade se interponha entre a experincia e sua repetio na 
lembrana - evento que tanto aumenta o efeito da revivescncia. O funcionamento psquico parece despreparado para essa exceo; por esse motivo, para que a pessoa 
esteja livre da neurose, a precondio necessria  que antes da puberdade no tenha ocorrido nenhuma estimulao sexual de maior significao, embora seja verdade 
que o efeito de tal experincia deve ser incrementado pela predisposio hereditria, antes de poder atingir um nvel capaz de causar doena.
           (Aqui surge um problema correlato: como ocorre que, sob condies anlogas, em vez da neurose emerjam a perverso ou, simplesmente, a imoralidade?)
           Por certo mergulharemos profundamente em enigmas psicolgicos, se investigarmos a origem do desprazer que parece ser liberado pela estimulao sexual 
prematura, e sem o qual, enfim, no  possvel explicar um recacalmento. A resposta mais plausvel apontar o fato de que a vergonha e a moralidade so as foras 
recalcadoras, e que a vizinhana em que esto naturalmente situados os rgos sexuais deve, inevitavelmente, despertar repugnncia junto com as experincias sexuais. 
Onde no existe vergonha (como numa pessoa do sexo masculino), ou onde no entra a moralidade (como nas classes inferiores da sociedade), ou onde a repugnncia  
embrutecida pelas condies de vida (com nas zonas rurais), tambm no resultam nem neurose nem recalcamento em decorrncia da estimulao sexual na infncia. Contudo, 
temo que essa explicao no resista a um teste mais aprofundado. No penso que a produo de desprazer durante as experincias sexuais seja conseqncia da mistura 
ao acaso de determinados fatores desprazerosos. A experincia diria nos mostra que, quando a libido alcana um nvel suficiente, a repulsa no  sentida e a moralidade 
 suplantada; penso que o aparecimento da vergonha se relaciona, por meio de ligaes mais profundas, com a experincia sexual. Em minha opinio, a produo de desprazer 
na vida sexual deve ter uma fonte independente: uma vez que esteja presente essa fonte, ela pode despertar sensaes de repulsa, reforar a moralidade, e assim por 
adiante. Persisto no modelo da neurose de angstia em adultos, na qual uma quantidade proveniente da vida sexual causa, de modo parecido, um distrbio na esfera 
psquica, embora habitualmente pudesse ter um outro uso no processo sexual. De vez que no existe nenhuma teoria correta do processo sexual, permanece sem resposta 
a questo da origem do desprazer que atua no recalcamento. [Ver em [1].]
           O rumo tomado pela doena nas neuroses de recalcamento , em geral, sempre o mesmo: (1) a experincia sexual (ou a srie de experincias), que  traumtica 
e prematura e deve ser recalcada. (2) Seu recalcamento em alguma ocasio posterior, que desperta a lembrana correspondente; ao mesmo tempo, a formao de um sintoma 
primrio. (3) Um estgio de defesa bem-sucedida, que  equivalente  sade, exceto quanto  existncia do sintoma primrio. (4) O estgio em que as idias recalcadas 
retornam e em que, durante a luta entre elas e o ego, formam-se novos sintomas, que so os da doena propriamente dita: isto , uma fase de ajustamento, de ser subjugado, 
ou de recuperao com uma malformao.
           As principais diferenas entre as diversas neuroses so demonstradas na forma como retornam as idias recalcadas; outras diferenas so evidenciadas na 
maneira como os sintomas se formam e no rumo tomado pela doena. Mas o carter especfico de uma determinada neurose est no modo como se realiza o recalque.
           O curso dos acontecimentos na neurose obsessiva  o mais claro para mim, pois foi o que cheguei a conhecer melhor.
           
           NEUROSE OBSESSIVA
           Aqui, a experincia primria foi acompanhada de prazer. Quer tenha sido uma experincia ativa (nos meninos), quer tenha sido uma experincia passiva (nas 
meninas), ela se realizou sem dor ou qualquer mescla de nojo; e isso, no casos das meninas, implica, em geral, uma idade relativamente maior (cerca de 8 anos). Quando 
essa experincia  relembrada posteriormente, ela d origem ao surgimento de desprazer; e, em especial, emerge primeiro uma autocensura, que  consciente. Na verdade, 
aparentemente,  como se todo o complexo psquico - lembrana e autocensura - fosse de incio consciente. Depois, sem que nada de novo sobrevenha, ambas so recalcadas, 
e na conscincia se forma, em lugar delas, um sintoma antittico, uma nuana de escrupulosidade.
           O recalcamento pode processar-se devido ao fato de que a lembrana do prazer, como tal, produz desprazer, quando recordada anos depois; isso deveria ser 
explicvel por uma teoria da sexualidade. Mas as coisas tambm podem acontecer de modo diferente. Em todos os meus casos de neurose obsessiva, em idade muito precoce, 
anos antes da experincia de prazer, tinha havido uma experincia puramente passiva; e isso dificilmente se daria por acaso. Assim, podemos supor que  a convergncia, 
posteriormente, dessa experincia passiva com a experincia de prazer que adiciona o desprazer  lembrana prazerosa e possibilita o recalcamento. De modo que uma 
precondio clnica necessria da neurose obsessiva consistiria em que a experincia passiva deveria ocorrer to precocemente que no fosse capaz de impedir a ocorrncia 
espontnea da experincia de prazer. A frmula, portanto, seria esta:
           Desprazer - Prazer - Recalcamento.
           O fator determinante seriam as relaes cronolgicas das duas experincias entre si e com a poca da maturidade sexual.
           No estgio do retorno do recalcado ocorre que a autocensura retorna sem modificao, mas raramente de modo a atrair a ateno para si; durante certo tempo, 
portanto, emerge simplesmente como um sentimento de culpa sem qualquer contedo. Em geral, vem a se ligar a um contedo que  distorcido de duas maneiras - no tempo 
e no contedo: distorcido quanto ao tempo na medida em que se refere a uma ao contempornea ou futura, e distorcido quanto ao contedo na medida em que significa 
no o evento real, mas um sucedneo escolhido a partir da categoria daquilo que  anlogo - uma substituio. Por conseguinte, uma idia obsessiva  produto de um 
compromisso, correto quanto ao afeto e  categoria, mas falso devido ao deslocamento cronolgico e  substituio por analogia.
           O afeto da autocensura pode ser transformado, por diferentes processos psquicos, em outros afetos, os quais, depois, entram na conscincia mais claramente 
do que o afeto como tal: por exemplo, pode ser transformado em angstia (medo das conseqncias da ao a que se refere a autocensura), hipocondria (medo dos efeitos 
corporais), delrios de perseguio (medo dos seus efeitos sociais), vergonha (medo de que outras pessoas saibam), e assim por diante.
           O ego consciente considera a obsesso como algo que lhe  estranho: no acredita nela, ao que parece, valendo-se da idia antittica da escrupulosidade, 
formada muito tempo antes. Mas, nesse estgio, muitas vezes pode acontecer uma subjugao do ego pela obsesso - por exemplo, quando o ego  atingido por uma melancolia 
transitria. Exceto quanto a isso, a fase de doena  marcada pela luta defensiva do ego contra a obsesso; e isso, por si s, pode produzir novos sintomas - os 
da defesa secundria. A idia obsessiva, tal como qualquer outra idia,  atacada pela lgica, embora sua fora compulsiva seja inabalvel. Os sintomas secundrios 
so uma intensificao da escrupulosidade e uma compulso a perscrutar minuciosamente as coisas e acumul-las. Outros sintomas secundrios surgem quando a compulso 
 transferida para impulsos motores contra a obsesso - por exemplo, compulso a ensimesmar-se, compulso para a bebida (dipsomania), rituais protetores, folie de 
doute.
           Com isto, chegamos  formao de trs espcies de sintomas:
           (a) o sintoma primrio da defesa - escrupulosidade,
           (b) os sintomas de compromisso da doena - idias obsessivas ou afetos obsessivos,
           (c) os sintomas secundrios da defesa - ensimesmamento obsessivo, acumulao obsessiva de objetos, dipsomania, rituais obsessivos.
           Os casos em que o contedo da memria no se tornou admissvel  conscincia atravs da substituio, mas em que o afeto da autocensura se tornou admissvel 
mediante transformao, do a impresso de ter ocorrido um deslocamento numa cadeia de inferncias: acuso-me por causa de um acontecimento - receio que outras pessoas 
saibam dele - portanto, sinto vergonha diante de outras pessoas. To logo  recalcado o primeiro elo da seqncia, a obsesso passa para o segundo ou terceiro elo 
e leva a duas formas de delrios de observao que, no entanto, fazem realmente parte da neurose obsessiva. A luta defensiva termina em mania de generalizada dvida 
ou no desenvolvimento de uma vida de excntrico, com um sem-nmero de sintomas defensivos secundrios - isto , se  que chega mesmo a haver um trmino.
           Ainda permanece em aberto a questo de saber se as idias recalcadas retornam espontaneamente, sem a ajuda de qualquer fora psquica contempornea, ou 
se necessitam desse tipo de ajuda a cada novo movimento de retorno. Minhas experincias indicam esta ltima alternativa. Parece que os estados de libido insatisfeita 
contempornea so o elemento que empresta afora do seu desprazer para reavivar a autocensura recalcada. Uma vez que tenha ocorrido esse reavivamento e que os sintomas 
tenham surgido mediante o impacto do recalcado sobre o ego, a, sem dvida, o material ideativo recalcado continua a atuar espontaneamente; contudo, dentro das oscilaes 
de potencial quantitativo, sempre permanece dependente da quantidade de tenso libidinal presente no momento. A tenso sexual que, por ter sido satisfeita, no tem 
oportunidade de se transformar em desprazer, permanece incua. Os neurticos obsessivos so pessoas sujeitas ao perigo de que toda a tenso sexual cotidianamente 
gerada neles acabe por se transformar em autocensura, ou melhor, nos sintomas provenientes da autocensura, embora, nessa ocasio, no reconheam novamente a autocensura 
primria.
           A neurose obsessiva pode ser curada se desfizermos todas as substituies e transformaes afetivas ocorridas, de tal modo que a autocensura primria 
e a experincia a ela pertinente possam ser desnudadas e colocadas diante do ego consciente para serem julgadas de novo. Ao fazermos isso, temos de trabalhar um 
nmero incrvel de idias intermedirias ou de compromisso, que se tornam temporariamente idias obsessivas. Adquirimos uma convico muito clara de que, para o 
ego,  impossvel dirigir para o material recalcado a parte da energia psquica a que o pensamento consciente est vinculado. As idias recalcadas - ao que devemos 
crer - esto presentes nas seqncias mais racionais de idias e nelas penetram sem inibio; e tambm a lembrana delas  despertada pelas mais insignificantes 
aluses. A suspeita de que a "moralidade"  apresentada como fora recalcadora somente na qualidade de pretexto  confirmada pela experincia segundo a qual a resistncia, 
durante o trabalho teraputico, se vale de todos os motivos de defesa possveis.
           
           PARANIA
           Os determinantes clnicos e as relaes cronolgicas do prazer e do desprazer na experincia primria ainda me so desconhecidos. O que pude distinguir 
foram a existncia do recalcamento, o sintoma primrio e o estgio de doena tal como determinado pelo retorno das idias recalcadas.
           A experincia primria parece ser de natureza semelhante  da neurose obsessiva. O recalque ocorre depois que a respectiva lembrana causou desprazer 
- no se sabe como. Contudo, nenhuma autocensura se forma, nem  posteriormente recalcada; e o desprazer gerado  atribudo a pessoas que, de algum modo, se relacionam 
com o paciente, segundo a frmula psquica da projeo. O sintoma primrio formado  a desconfiana (suscetibilidade a outras pessoas). Nesta, o que se passa  que 
a pessoa se recusa a crer na autocensura.
           Podemos suspeitar da existncia de diferentes formas, conforme o caso: quando apenas o afeto  reprimido por projeo, ou quando, juntamente com o afeto, 
tambm o contedo da experincia  recalcado. Logo, mais uma vez, o que retorna pode ser simplesmente o afeto aflitivo, ou tambm a lembrana. No segundo caso, que 
 o que conheo melhor, o contedo da experincia retorna sob a forma de um pensamento que ocorre ao paciente como alucinao visual ou sensorial. O afeto reprimido 
parece retornar invariavelmente nas alucinaes auditivas.
           As partes das lembranas que retornam sofrem uma distoro ao serem substitudas por imagens anlogas, extradas do momento presente - isto , so simplesmente 
distorcidas por uma substituio cronolgica, e no pela formao de um substituto. As vozes, igualmente, lembram a autocensura, como sintoma de compromisso, e o 
fazem, em primeiro lugar, distorcidas em seu enunciado a ponto de se tornarem indefinidas e de se transformarem em ameaas; e, em segundo lugar, relacionadas no 
com a experincia primria, mas justamente com a desconfiana - isto , com o sintoma primrio.
           Como a crena foi separada da autocensura primria, ela assume o comando irrestrito dos sintomas de compromisso. O ego no os considera como estranhos 
a si mesmo, mas  impelido por eles a fazer tentativas de explic-los, tentativas que podem ser descritas como delrios assimilatrios.
           Nesse ponto, com o retorno do recalcado sob forma distorcida, a defesa fracassa de vez; e os delrios assimilatrios no podem ser interpretados como 
sintomas de defesa secundria, mas como o incio de uma modificao do ego, expresso do fato de ter sido ele subjugado. O processo atinge seu ponto conclusivo ou 
na melancolia (sentimento de aniquilao do ego), que, de um modo secundrio, liga s distores a crena que foi desvinculada da autocensura primria; ou - o que 
 mais freqente e mais grave - nos delrios protetores (megalomania), at o ego ser completamente remodelado.
           O elemento determinante da parania  o mecanismo da projeo, que envolve a recusa da crena na autocensura. Da decorrem os aspectos caractersticos 
comuns da neurose: a importncia das vozes como meio pelo qual as outras pessoas nos afetam, e tambm dos gestos, que nos revelam a vida mental das outras pessoas; 
e a importncia do tom dos comentrios e das aluses das vozes - pois que uma referncia direta que ligue o contedo dos comentrios  lembrana recalcada  inadmissvel 
para a conscincia.
           Na parania, o recalque se d aps um processo de pensamento consciente e complexo (a recusa da crena). Talvez isso seja um indcio de que ele se instala, 
pela primeira vez, em idade relativamente mais avanada do que na neurose obsessiva e na histeria. As precondies do recalcamento so, sem dvida, as mesmas. Ainda 
no se sabe se o mecanismo da projeo  inteiramente uma questo de predisposio individual ou se  selecionado por fatores especiais transitrios e fortuitos.
           Quatro espcies de sintomas:
           (a) sintomas primrios de defesa,
           (b) sintomas de compromisso do retorno,
           (c) sintomas secundrios de defesa,
           (d) sintomas da subjugao do ego.
           
           HISTERIA
           A histeria pressupe necessariamente uma experincia primria de desprazer - isto , de natureza passiva. A passividade sexual natural das mulheres explica 
o fato de elas serem mais propensas  histeria. Nos casos em que encontrei histeria em homens, pude comprovar, em suas anamneses, a presena de acentuada passividade 
sexual. Uma outra condio da histeria  que a experincia primria de desprazer no ocorra numa idade muito precoce, na qual a produo de desprazer seja ainda 
muito reduzida e na qual,naturalmente, os eventos causadores de prazer ainda possam ter um prosseguimento independente. De outro modo, o resultado ser apenas a 
formao de obsesses. Por essa razo, muitas vezes encontramos nos homens uma combinao das duas neuroses, ou a substituio de uma histeria inicial por uma neurose 
obsessiva subseqente. A histeria comea com a subjugao do ego, que  o ponto a que leva a parania. A produo de tenso, na experincia primria de desprazer, 
 to grande que o ego no resiste a ela e no forma nenhum sintoma psquico, mas  obrigado a permitir uma manifestao de descarga - geralmente, uma expresso 
exagerada de excitao. Esse primeiro estgio da histeria pode ser qualificado como "histeria do susto"; seu sintoma primrio  a manifestao de susto, acompanhada 
por uma lacuna psquica. Ainda no se sabe at que idade pode ocorrer essa primeira subjugao histrica do ego.
           O recalcamento e a formao de sintomas defensivos s ocorrem posteriormente, em conexo com a lembrana; e, da em diante, defesa e subjugao (isto 
, a formao dos sintomas e a irrupo dos ataques) podem estar combinadas em qualquer grau na histeria.
           O recalcamento no se d pela construo de uma idia antittica excessivamente forte [em [1]], mas sim pela intensificao de uma idia limtrofe, que, 
depois, representa a lembrana no fluxo do pensamento. Pode ser chamada de idia limtrofe porque, de um lado, pertence ao ego e, de outro, forma uma parte no-distorcida 
da lembrana traumtica. Assim, tambm aqui se trata do resultado de um compromisso; este, contudo, no se manifesta numa substituio com base em alguma categoria 
de tema, mas num deslocamento da ateno ao longo de uma srie de idias ligadas pela simultaneidade temporal. Quando o evento traumtico encontra uma sada para 
si mesmo atravs de uma manifestao motora,  esta que se torna a idia limtrofe e o primeiro smbolo do material recalcado. Assim, no h necessidade de supor 
que alguma idia esteja sendo suprimida em cada repetio do ataque primrio; trata-se, primordialmente, de uma lacuna na psique.
           
           
           CARTA 46
           
           ...Como fruto de trabalhosas reflexes, envio-lhe a seguinte soluo da etiologia das psiconeuroses, que ainda aguarda confirmao de anlises individuais. 
Podem-se distinguir quatro perodos de vida [Fig. 5]:
           
           Fig. 5
           
           A e B (desde cerca de 8 a 10 e 13 a 17 anos) so os perodos de transio durante os quais ocorre o recalcamento, na maior parte dos casos.
           O despertar, numa poca posterior, de uma lembrana sexual de poca precedente produz um excesso de sexualidade na psique, o qual atua como uma inibio 
do pensamento e confere  lembrana e s conseqncias desta um carter obsessivo - impossibilidade de ser inibido.
           O perodo Ia possui a caracterstica de ser intraduzvel, de modo que o despertar de uma cena sexual Ia conduz no a conseqncias psquicas, mas  converso. 
O excesso de sexualidade impede a traduo.
           O excesso de sexualidade, isoladamente, no  suficiente para causar recalcamento; faz-se necessria a cooperao da defesa; entretanto, sem um excesso 
de sexualidade a defesa no produz uma neurose.
           As diferentes neuroses tm seus requisitos cronolgicos particulares para suas cenas sexuais [Fig. 6].
           
           
           Fig. 6
           
           Isto , para a histeria, as cenas ocorrem no primeiro perodo da infncia (at os 4 anos), no qual os resduos mnmicos no so traduzidos em imagens 
verbais.  indiferente se essas cenas de Ia so despertadas durante o perodo posterior  segunda dentio (8 aos 10 anos) ou na fase da puberdade. O resultado  
sempre a histeria, e sob a forma de converso, pois a atuao conjunta da defesa e do excesso de sexualidade impede a traduo.
           Para as neuroses obsessivas, as cenas pertencem  poca Ib. Elas dispem de traduo em palavras e, ao serem despertadas em II ou em III, formam-se os 
sintomas obsessivos psquicos.
           Quanto  parania, as cenas respectivas situam-se no perodo posterior  segunda dentio, na poca II, e so despertadas em III (maturidade). Nesse caso, 
a defesa manifesta-se atravs da desconfiana. Assim, os perodos em que se d o recalque no tm nenhuma importncia para a escolha da neurose, sendo decisivos 
os perodos em que ocorre o evento. A natureza da cena tem importncia na medida em que ela seja capaz de dar origem  defesa. [Cf. em [1].]
           O que acontece quando as cenas se estendem por vrios perodos? Nesse caso, a poca mais precoce  decisiva, ou aparecem formas combinadas, o que deveria 
ser possvel demonstrar. Tal combinao , na sua maior parte, impossvel entre a parania e a neurose obsessiva, porque o recalcamento da cena Ib, efetuado durante 
II, torna impossvel novas cenas sexuais. [Cf. Rascunho N. [1].]
           
           A histeria  a nica neurose em que os sintomas talvez possam existir mesmo sem defesa, pois mesmo assim a caracterstica da converso permaneceria. (Histeria 
somtica pura.)
           Verifica-se que a parania quase no depende dos fatores infantis.  a neurose de defesa par excellence, independente at mesmo da moralidade e da repulsa 
 sexualidade, que  o que, em A e B, proporciona o motivo para a defesa na neurose obsessiva e na histeria e, por conseguinte, tem incidncia mais provvel nas 
classes inferiores.  uma doena da idade adulta. Quando no h cenas em Ia, Ib, ou II, a defesa no pode ter nenhuma conseqncia patolgica (recalcamento normal). 
O excesso de sexualidade preenche as precondies para que haja ataques de angstia durante a idade adulta. Os traos de memria so insuficientes para absorver 
a quantidade sexual liberada, que deveria transformar-se em libido [psquica.].
           A importncia dos intervalos entre as experincias sexuais  evidente. Uma continuao das cenas atravs de uma faixa limtrofe entre as pocas talvez 
consiga evitar a possibilidade de recalcamento, pois, nesse caso, no surge nenhum excesso de sexualidade entre a cena e a primeira lembrana significativa da mesma.
           A respeito da conscincia [isto , do estar consciente], ou melhor, do tornar-se consciente, devemos supor trs coisas:
           (1) que, no que tange s lembranas, ela consiste, na maior parte, na conscincia verbal relativa a essas lembranas - isto , no acesso s representaes 
verbais associadas;
           (2) que a conscincia no est exclusiva e inseparavelmente ligada nem ao chamado inconsciente, nem ao chamado reino consciente, de modo que parece necessrio 
rejeitar esses termos;
           (3) que a conscincia  influenciada por um compromisso entre as diferentes foras psquicas que entram em conflito quando ocorrem os recalcamentos.
            necessrio examinar minuciosamente essas foras e tirar concluses acerca dos seus efeitos. Estes so (1) a fora quantitativa inerente de uma representao 
e (2) uma ateno livremente mvel, que  atrada segundo certas regras e repelida de acordo com a regra da defesa. Quase todos os sintomas so estruturas de compromisso. 
Deve-se fazer uma distino entre processos psquicos no-inibidos e inibidos pelo pensamento.  no conflito entre esses dois processos que os sintomas surgem como 
solues de compromisso para as quais est aberto o acesso  conscincia. Nas neuroses, cada um desses processos , em si mesmo, racional (o no-inibido  monoidestico, 
unilateral); o compromisso resultante  irracional, anlogo a um erro de pensamento.
           Em todos os casos devem ser preenchidas as condies quantitativas, pois, de outro modo, a defesa pelo processo inibido pelo pensamento impedir a formao 
do sintoma.
           Quando a fora dos processos no-inibidos aumenta, surge uma espcie de distrbio psquico; uma outra espcie surge quando decresce a fora da inibio 
pelo pensamento. (Melancolia, exausto - os sonhos como um prottipo.)
           O aumento dos processos no-inibidos, a ponto de eles manterem a posse exclusiva do acesso  conscincia verbal, produz a psicose.
           No h como separar os dois processos; so somente os critrios relativos ao desprazer que impedem as diversas transies associativas possveis entre 
eles.
           
           CARTA 50
           
           ...Preciso contar-lhe um sonho interessante que tive na noite aps os funerais. Eu me encontrava num local pblico e li um aviso que havia l:
           
           Pede-seque voc feche os olhos.
           Imediatamente reconheci o local como sendo o salo de barbearia a que vou diariamente. No dia do sepultamento, tive de me demorar ali, esperando minha 
vez, e por isso cheguei  casa funerria um tanto atrasado. Na ocasio, meus familiares estavam aborrecidos comigo porque eu providenciara para que o funeral fosse 
modesto e simples, com o que depois concordaram, achando isso bastante acertado. Tambm interpretaram um pouco mal o meu atraso. A frase no quadro de avisos tem 
um duplo sentido, e em ambos os sentidos significa: "deve-se cumprir a obrigao para com os mortos". (Uma desculpa, como se eu no a tivesse cumprido e como se 
minha conduta precisasse ser tolerada, e a obrigao, assumida literalmente.) Assim, o sonho  uma sada para a tendncia  autocensura, que costuma estar presente 
entre os sobreviventes.
           
           CARTA 52
           
           ...Como voc sabe, estou trabalhando com a hiptese de que nosso mecanismo psquico tenha-se formado por um processo de estratificao: o material presente 
em forma de traos da memria estaria sujeito, de tempos em tempos, a um rearranjo segundo novas circunstncias - a uma retranscrio. Assim, o que h de essencialmente 
novo a respeito de minha teoria  a tese de que a memria no se faz presente de uma s vez, mas se desdobra em vrios tempos; que ela  registrada em diferentes 
espcies de indicaes. Postulei a existncia de um tipo parecido de rearranjo (Afasia), h algum tempo, para as vias que vo da periferia [do corpo para o crtex]. 
No sei dizer quantos desses registros h: trs, pelo menos, provavelmente mais. Isto est mostrado na figura esquemtica que se segue [Fig. 7], que supe que os 
diferentes registros tambm estejam separados (no necessariamente segundo o aspecto topogrfico) de acordo com os neurnios que so seus veculos. Essa suposio 
talvez no seja necessria, mas  a mais simples e  provisoriamente admissvel.
           
           
           Fig. 7
           
           W [Wahrnehmungen (percepes)] so os neurnios em que se originam as percepes, s quais a conscincia se liga, mas que, nelas mesmas, no conservam 
nenhum trao do que aconteceu. Pois a conscincia e a memria so mutuamente exclusivas.
           Wz [Wahrnehmungszeichen (indicao da percepo)]  o primeiro registro das percepes;  praticamente incapaz de assomar  conscincia e se dispe conforme 
as associaes por simultaneidade.
           Ub (Unbewusstsein) [inconscincia]  o segundo registro, disposto de acordo com outras relaes (talvez causais). Os traos Ub talvez correspondam a lembranas 
conceituais; igualmente sem acesso  conscincia.
           Vb (Vorbewusstsein) [pr-conscincia)  a terceira transcrio, ligada s representaes verbais e correspondendo ao nosso ego reconhecido como tal. As 
catexias provenientes de Vb tornam-se conscientes de acordo com determinadas regras; essa conscincia secundria do pensamento  posterior no tempo e provavelmente 
se liga  ativao alucinatria das representaes verbais, de modo que os neurnios da conscincia seriam tambm neurnios da percepo e, em si mesmos, destitudos 
de memria.
           Se eu conseguisse dar uma descrio completa das caractersticas psicolgicas da percepo e dos trs registros, teria descrito uma nova psicologia. Disponho 
de algum material para isso, mas no  esta a minha inteno, por ora.
           Gostaria de acentuar o fato de que os sucessivos registros representam a realizao psquica de pocas sucessivas da vida. Na fronteira entre essas pocas 
deve ocorrer uma traduo do material psquico. Explico as peculiaridades das psiconeuroses com a suposio de que essa traduo no se fez no caso de uma determinada 
parte do material, o que provoca determinadas conseqncias. Pois sustento firmemente a crena numa tendncia ao ajustamento quantitativo. Cada transcrio subseqente 
inibe a anterior e lhe retira o processo de excitao. Quando falta uma transcrio subseqente, a excitao  manejada segundo as leis psicolgicas vigentes no 
perodo anterior e consoante as vias abertas nessa poca. Assim, persiste um anacronismo: numa determinada regio ainda vigoram os "fueros"; estamos em presena 
de "sobrevivncias".
           Uma falha na traduo - isto  o que se conhece clinicamente como "recalcamento". Seu motivo  sempre a produo de desprazer que seria gerada por uma 
traduo;  como se esse desprazer provocasse um distrbio do pensamento que no permitisse o trabalho de traduo.
           Dentro de uma mesma fase psquica e entre os registros da mesma espcie, forma-se uma defesa normal devida  produo do desprazer. J a defesa patolgica 
somente ocorre contra um trao de memria de uma fase anterior, que ainda no foi traduzido.
           Certamente no  por causa da magnitude da produo de desprazer que a defesa consegue efetuar o recalcamento. Muitas vezes, lutamos em vo precisamente 
contra lembranas que envolvem o mximo de desprazer. Foi por isso que chegamos  seguinte formulao. Se um evento A, quando era atual, despertou uma determinada 
quantidade de desprazer, ento o seu registro mnmico, A I ou A II, possui um meio de inibir a produo de desprazer quando a lembrana  redespertada. Quanto mais 
freqentemente a lembrana retorna, mais inibida se torna, finalmente, a produo de desprazer. Contudo, existe um caso em que a inibio  insuficiente. Se A, quando 
era atual, produziu determinado desprazer, e se, quando redespertado, produz um novo desprazer, ento este no pode ser inibido. Nesse aspecto, a lembrana se comporta 
como se se tratasse de um evento atual. Esse caso s pode ocorrer com os eventos sexuais, porque as magnitudes das excitaes causadas por eles aumentam por si mesmas 
com o tempo (com o desenvolvimento sexual).
           Assim, um evento sexual de uma dada fase atua sobre a fase seguinte como se fosse um evento atual e, por conseguinte, no  passvel de inibio. O que 
determina a defesa patolgica (recalcamento), portanto,  a natureza sexual do evento e a sua ocorrncia numa fase anterior.
           Nem todas as experincias sexuais produzem desprazer; a maioria delas produz prazer. Assim, a maioria delas est ligada a um prazer no passvel de inibio. 
O prazer no passvel de inibio dessa espcie constitui uma compulso. Chegamos, pois,  seguinte formulao. Quando uma experincia sexual  recordada numa fase 
diferente, a liberao de prazer  acompanhada por uma compulso e a liberao de desprazer  acompanhada pelo recalcamento. Em ambos os casos, a traduo para as 
indicaes de uma nova fase parece ser inibida (?).
           Ora, a experincia clnica nos evidencia trs grupos de psiconeuroses sexuais - histeria, neurose obsessiva e parania; e nos ensina que as lembranas 
recalcadas referem-se quilo que era atual, no caso da histeria, entre as idades de 1 1/2 e 4 anos; no caso da neurose obsessiva, entre os 4 e os 8 anos; e, no caso 
da parania, entre os 8 e os 14 anos. Mas, antes dos 4 anos de idade, ainda no existe recalque, de modo que os perodos psquicos do desenvolvimento e as fases 
sexuais no coincidem. [Fig. 8.]
           
           
           Fig. 8
           
           O pequeno diagrama seguinte encaixa-se aqui: [Fig. 9 em [1].]
           
           
           Fig. 9
           
           Pois uma outra conseqncia das experincias sexuais prematuras  a perverso, cuja causa parece consistir em que a defesa ou no ocorreu antes de estar 
completo o aparelho psquico, ou no ocorreu nunca.
           Basta da superestrutura. Agora, passemos a uma tentativa de situar isso em seus fundamentos orgnicos. O que falta explicar  por que as experincias 
sexuais, que, na poca em que eram atuais, geraram prazer, passam, quando so lembradas numa fase diferente, a gerar desprazer em algumas pessoas e, em outras, a 
persistir como compulso. No primeiro caso,  evidente que elas devem estar liberando, numa poca posterior, um desprazer que no foi liberado de incio.
           Tambm precisamos delinear a derivao das diferentes pocas, psicolgicas e sexuais. Voc me explicou estas ltimas como sendo mltiplos especiais do 
ciclo feminino de 28 dias.
           A fim de explicar por que o resultado [da experincia sexual prematura (ver acima)] s vezes  a perverso e, s vezes, a neurose, valho-me da bissexualidade 
de todos os seres humanos. Num ser puramente masculino, haveria um excesso de liberao masculina tambm nas duas barreiras sexuais - isto , seria gerado prazer 
e, em conseqncia, perverso; nos seres exclusivamente femininos haveria, nessas ocasies, um excesso de substncias causadoras de desprazer. Nas primeiras fases, 
as liberaes seriam paralelas, isto , produziriam um excesso normal de prazer. Isso explicaria a preferncia das pessoas verdadeiramente femininas pelas neuroses 
de defesa.
           Desse modo, a natureza intelectual dos seres humanos masculinos estaria confirmada com base na teoria que voc props.
           Por fim, no posso eliminar uma suspeita de que a indiferena entre neurastenia e neurose de angstia, que detectei clinicamente, esteja correlacionada 
com a existncia das duas substncias, de 23 dias e 28 dias.
           Alm dessas duas, sugiro aqui, poderia haver diversas substncias de cada tipo.
           Cada vez mais me parece que o ponto essencial da histeria  que ela resulta de perverso por parte do sedutor, e mais e mais me parece que a hereditariedade 
 a seduo pelo pai. Assim, surge uma alternncia entre as geraes:
           1 gerao: Perverso.
           2 gerao: Histeria e conseqente esterilidade. Por vezes, h uma metamorfose dentro de um mesmo indivduo: pervertido durante a idade do vigor e, depois, 
passado um perodo de angstia, histrico. Por conseguinte, histeria no  sexualidade repudiada, mas, antes, perverso repudiada.
           Ademais, por trs disso est a idia das zonas ergenas abandonadas. Isto , parece que, durante a infncia, seria possvel obter a liberao sexual a 
partir de muitas das diferentes partes do corpo, as quais, em poca posterior, s so capazes de liberar a substncia dos 28 [dias], e no outras. Nessa diferenciao 
e limitao [estaria, pois,] o progresso na cultura e na moral, assim como no desenvolvimento individual.
           O ataque histrico no  uma descarga, mas uma ao; e conserva a caracterstica original de toda ao - ser um meio de reproduo do prazer. (Isso, pelo 
menos,  o que o ataque  em sua origem; alm disso, apresenta todos os tipos de outras razes ao pr-consciente.) Assim, os pacientes aos quais foi feito algo de 
sexual no sono tm ataques de sono. Iro dormir novamente a fim de experimentar a mesma coisa e, muitas vezes, provocam dessa maneira um desmaio histrico.
           Os ataques de vertigem e acessos de choro - tudo isso tem como alvo uma outra pessoa - mas, na sua maior parte, uma outra pessoa pr-histrica, inesquecvel, 
que nunca  igualada por nenhuma outra posterior. At o sintoma crnico de o indivduo ser um dorminhoco preguioso  explicado da mesma forma. Um dos meus pacientes 
ainda choraminga durante o sono, como costumava fazer para ser levado para a cama por sua me, que morreu quando ele tinha 22 meses de idade. Parece que os ataques 
nunca ocorrem como uma "expresso intensificada de emoo".
           
           
           CARTA 55
           
           ...Estou-lhe remetendo duas idias recentssimas, que me ocorreram hoje e me parecem viveis. Baseiam-se, naturalmente, em descobertas analticas.
           (1) O que determina uma psicose (ou seja, amncia ou psicose confusional - uma psicose de subjugao, como a denominei anteriormente), em lugar de uma 
neurose, parece ser o fato de o abuso sexual ocorrer antes do fim do primeiro estgio intelectual - isto , antes de o aparelho psquico ter sido completado na sua 
primeira forma (antes dos 15 a 18 meses).  possvel que tal abuso remonte a uma poca to remota que essas experincias permaneam ocultas atrs de experincias 
mais recentes e que a elas se possa voltar de tempos em tempos. Penso que a epilepsia remonta ao mesmo perodo... Tenho de abordar de maneira diferente o tic convulsif, 
que eu costumava atribuir ao mesmo estgio. Eis como cheguei a essa outra viso. Um de meus pacientes histricos... levou sua irm mais velha a uma psicose histrica, 
que terminou num estado de completa confuso. Agora averigei qual foi o sedutor dele, um homem de grande capacidade intelectual que, no entanto, tinha tido ataques 
da mais grave dipsomania a partir dos seus cinqenta anos. Esses ataques comeavam regularmente, com diarria ou com catarro e rouquido (o sistema sexual oral!) 
... isto , com a reproduo de suas experincias passivas. Ora, at ele prprio sentir-se doente, esse homem tinha sido pervertido e, conseqentemente, sadio. A 
dipsomania surgiu atravs da intensificao - ou melhor, atravs da substituio do impulso sexual correlato por esse impulso [para a bebida]. (Provavelmente, o 
mesmo se aplica  mania de jogatina do velho F.) Ocorreram entre esse sedutor e meu paciente, sendo que a irm deste, que tinha menos de um ano de idade, presenciou 
algumas delas. Meu paciente, mais tarde, veio a ter relaes com ela, que se tornou psictica na puberdade. Disso se pode depreender como uma neurose se agrava e 
passa a uma psicose na gerao seguinte (o que as pessoas chamam de "degenerao"), simplesmente porque uma pessoa de idade mais tenra  colhida nas malhas de uma 
situao dessas. Alis, aqui est a hereditariedade desse caso [Fig. 10]:
           
           
           Fig. 10
           
           Espero poder contar-lhe muito mais coisas importantes a respeito desse caso, que projeta uma luz sobre trs formas de doena.
           (2) As perverses normalmente levam  zoofilia e tm uma caracterstica animal. So explicadas no pelo funcionamento das zonas ergenas que foram posteriormente 
abandonadas, mas sim pela atuao de sensaes ergenas, que depois perdem essa intensidade. Com relao a isto, convm recordar que o principal rgo dos sentidos 
nos animais (para fins sexuais, bem como para outros fins)  o sentido do olfato, que perdeu essa posio nos seres humanos. Na medida em que  dominante o olfato 
(ou o paladar), o cabelo, as fezes e toda a superfcie do corpo - e tambm o sangue - tm um efeito sexualmente excitante. Sem dvida est em conexo com isso o 
aumento do sentido do olfato na histeria. O fato de que os grupos de sensaes tm muito a ver com a estratificao psicolgica parece ser dedutvel a partir da 
distribuio deles nos sonhos e, sem dvida, tm uma conexo direta com o mecanismo da anestesia histrica.
           
           CARTA 56
           
           ...Alis, que diria voc se eu lhe contasse que toda aquela minha histria da histeria, histria original e novinha em folha, j era conhecida e tinha 
sido publicada repetidamente uma centena de vezes - h alguns sculos? Voc se lembra de que eu sempre disse que a teoria medieval da possesso pelo demnio, sustentada 
pelos tribunais eclesisticos, era idntica  nossa teoria de um corpo estranho e de uma diviso (splitting) da conscincia? Mas por que  que o diabo, que se apossava 
das pobres bruxas, invariavelmente as desonrava, e de forma revoltante? Por que as confisses delas sob tortura tanto se assemelham s comunicaes feitas por meus 
pacientes em tratamento psquico? Dentro em breve, precisarei pesquisar a bibliografia do assunto. Alis, as crueldades possibilitam o entendimento de alguns sintomas 
da histeria, que at agora tm permanecido obscuros. Os alfinetes que aparecem das formas mais surpreendentes, as agulhas que fazem com que as pobres criaturas tenham 
seus seios operados, e que so invisveis aos raios X, embora possam ser encontradas na histria de sua seduo...
           Mais uma vez, os inquisidores espetam agulhas para descobrir os estigmas do demnio, e, numa situao parecida, as vtimas inventam a mesma cruel e velha 
histria (ajudadas, talvez, pelos disfarces do sedutor). Assim, no s as vtimas, mas tambm os seus algozes, relembram nisso os primrdios de sua adolescncia.
           
           CARTA 57
           
           ...Ganha fora a idia de trazer  cena as bruxas, e penso que ela vai direto ao alvo. Comeam a avolumar-se os detalhes. O seu "vo" est explicado; 
o cabo de vassoura em que montam  provavelmente o grande Senhor Pnis. Suas reunies secretas, com danas e outros divertimentos, podem ser vistas, todos os dias, 
nas ruas onde h crianas brincando. Outro dia, li que o ouro que o diabo d a suas vtimas habitualmente se transforma em fezes; e, no dia seguinte, Herr E., que 
me descreve os delrios de dinheiro de sua antiga bab, de repente (por meio de um circunlquio, via Cagliostro-alquimista-Dukatenscheisser) diz que o dinheiro de 
Louise era sempre coc. Assim, nas histrias de feiticeiras, o dinheiro simplesmente est sendo novamente reduzido  substncia da qual surgiu. Se ao menos eu soubesse 
por que o smen do diabo, nas confisses das feiticeiras,  sempre descrito como "frio"! Solicitei um exemplar do Malleus Maleficarum e, agora que fiz o arremate 
final no meu Kinderlhmungen, estud-lo-ei com afinco. A histria do diabo, o vocabulrio dos palavres populares, as cantigas e hbitos de tenra infncia - tudo 
isso, atualmente, est adquirindo significao para mim. Voc poderia, sem maior problema, recomendar-me alguma boa leitura, com base em sua prodigiosa memria? 
Com relao s danas nas confisses das bruxas, lembre-se das epidemias de dana na Idade Mdia. A Louise de E. era uma bruxa danante desse tipo; muito coerentemente, 
foi no bal que ele se lembrou dela pela primeira vez: da sua angstia nos teatros.
           Paralelamente ao vo e  flutuao no ar, devemos situar as proezas acrobticas dos meninos nos ataques histricos etc.
           Em minha mente est-se formando a idia de que, nas perverses, das quais a histeria  o negativo, podemos ter diante de ns um remanescente de um culto 
sexual primevo que, no Oriente semtico (Moloch, Astarte), em certa poca, foi, e talvez ainda seja, uma religio...
           As aes pervertidas, alm disso, so sempre as mesmas - tm um significado e so executadas segundo um padro que h de ser possvel compreender.
           Portanto, venho sonhando com uma religio demonaca primeva, cujos ritos so executados secretamente, e compreendo o tratamento severo prescrito pelos 
juzes das bruxas. Os elos de ligao so abundantes.
           Uma outra contribuio para essa corrente de idias deriva da reflexo de que h uma classe de pessoas que, ainda nestes dias em que vivemos, contam histrias 
semelhantes s das bruxas e s de meus pacientes; no encontram quem lhes d crdito, mas, mesmo assim, sua crena nelas no pode ser abalada. Como voc deve ter 
adivinhado, refiro-me aos paranicos, cujas queixas de que as pessoas pem fezes em sua comida, maltratam-nos  noite da maneira mais abjeta, sexualmente etc., so 
mero contedo da memria. Como voc sabe, tenho feito uma diferenciao entre delrios da memria e delrios interpretativos [pg. [1]]. Estes ltimos esto relacionados 
com a indefinio caracterstica que cerca as pessoas que praticam as maldades, pessoas que, naturalmente, esto ocultas pela defesa.
           Um detalhe a mais. Nos pacientes histricos, reconheo o pai por trs de seus elevados padres referentes ao amor, de sua humildade para com o amante, 
ou da sua incapacidade de casar, porque seus ideais no so satisfeitos. Naturalmente, o fundamento disso  a altura a partir da qual um pai olha com superioridade 
para o filho. Compare-se a isso a combinao, existente nos paranicos, de megalomania com histrias fictcias de filiao ilegtima. Este  o outro lado da medalha.
           
           Ao mesmo tempo, estou tendo menos certeza da idia, que estive acalentando at h pouco tempo, de que a escolha da neurose  determinada pelo perodo 
em que esta se origina; antes, ela parece estar fixada na mais remota infncia. Parece, contudo, que a deciso continua a oscilar entre o perodo em que ela se origina 
e (o que prefiro atualmente) o perodo em que ocorre o recalcamento. [Cf em [1].]
           
           CARTA 59
           
           ...O aspecto que me escapou na soluo da histeria est na descoberta de uma nova fonte a partir da qual surge um novo elemento da produo inconsciente. 
O que tenho em mente so as fantasias histricas, que, habitualmente, segundo me parece, remontam a coisas ouvidas pelas crianas em tenra idade e compreendidas 
somente mais tarde. A idade em que elas captam informaes dessa ordem  realmente surpreendente - dois seis ou sete meses em diante!...
           
           CARTA 60
           
           ...A noite passada tive um sonho referente a voc. Tratava-se de uma mensagem telegrfica sobre o seu paradeiro:
                           Via                        "(Veneza)        Casa SECERNO"                                Villa                A maneira como escrevi isso 
mostra o que foi que pareceu obscuro e o que pareceu mltiplo. "Secerno" era o que estava mais claro. Meu sentimento em relao a isso era de aborrecimento por voc 
no ter ido ao lugar que eu lhe recomendara:  Casa Kirsch.
           Os motivos do sonho. - A causa desencadeante: acontecimentos do dia anterior. H. esteve aqui e falou a respeito de Nuremberg, dizendo que conhecia muito 
bem essa cidade e costumava hospedar-se no Preller. No consegui record-lo imediatamente, mas, depois, perguntei: "Fora da cidade, ento?" Essa conversa despertou-me 
a pena que tenho sentido ultimamente por no saber onde voc tem estado e no ter notcias suas. Eu queria ter voc como meu interlocutor e contar-lhe algo daquilo 
que andei experimentando e descobrindo em meu trabalho. Mas no tive coragem de enviar minhas anotaes para destino ignorado, pois teria desejado pedir-lhe que 
as guardasse para mim como material de valor. De modo que se tratava da realizao do desejo de que voc telegrafasse, dando-me seu endereo. Existe todo tipo de 
coisas por trs do enunciado do telegrama: a lembrana do prazer etimolgico que voc me proporciona, minha meno a "fora da cidade", feita a H., mas tambm coisas 
srias que logo acudiram  minha mente. "Como se voc sempre tivesse de ter algo de especial!"  o que diz meu aborrecimento. E, depois, o fato de voc no gostar 
nem um pouco da Idade Mdia. E mais, ainda, minha contnua reao a seu sonho de defesa que tentou colocar um av no lugar costumeiro do pai. Com referncia a isso, 
minha constante irritao por no saber como lhe posso dar uma pista para descobrir quem era a pessoa que chamava I. F. de "Katzel" [gatinho] quando ela era criana, 
tal como agora ela trata voc. Visto que eu prprio ainda estou em dvida a respeito das coisas referentes ao pai, minha sensibilidade se torna compreensvel. Assim, 
o sonho enfeixa todo o aborrecimento inconscientemente presente em mim em relao a voc.
           Alm disso, o enunciado significa tambm:
                   Via (ruas de Pompia, que estou estudando).        
                   Villa (a Villa Romana de Bcklin).
           
           E depois, nossas conversas sobre viagem. Secerno me soa parecido com Salerno: napolitano-siciliano. E, por trs disso, sua promessa de um encontro em 
solo italiano.
           A interpretao completa s me ocorreu depois que um feliz acaso, ocorrido esta manh, trouxe uma nova confirmao da etiologia referente ao pai. Ontem, 
comecei o tratamento de um caso novo: uma jovem senhora, que, por falta de tempo, eu teria preferido no comear a tratar. Ela teve um irmo que morreu louco; e 
o sintoma principal dela (insnia) apareceu pela primeira vez depois que ela ouviu afastar-se da porta da frente da casa a carruagem que o levaria para o hospcio. 
Desde ento, ela tem sofrido de angstia ao andar de carruagem e vinha tendo a convico de que haveria um acidente com a carruagem. Anos depois, os cavalos dispararam 
durante um passeio de carruagem, e ela aproveitou a oportunidade para saltar fora do veculo e quebrar a perna. Hoje, ela veio e relatou ter pensado um bocado no 
tratamento e ter descoberto um obstculo. - "E o que foi?" - "Eu posso me imaginar to m quanto for necessrio; mas preciso poupar as outras pessoas. O senhor deve 
me permitir que eu no cite nomes." - "Sem dvida, os nomes no so importantes. A senhora quer se referir aos seus relacionamentos com pessoas. Estes certamente 
no podem ser silenciados." - "O que eu quero dizer  que, de qualquer modo, antes eu teria sido mais fcil de tratar do que hoje. Antigamente, eu no tinha suspeitas; 
mas agora o sentido criminoso de certas coisas se tornou claro para mim, e eu no consigo decidir-me a falar sobre elas." - "Pelo contrrio, eu penso que uma mulher 
adulta se torna mais tolerante a respeito dos assuntos sexuais." - "Sim, nisso o senhor tem razo. Quando digo a mim mesma que as pessoas que fazem tais coisas so 
indubitavelmente de esprito elevado, sou forada a refletir que se trata de uma doena, uma espcie de loucura, e preciso desculp-las." - "Est bem, vamos falar 
francamente. Em minhas anlises, as pessoas culpadas so parentes prximos, um pai ou um irmo." - "No h irmo nesse caso." - "Seu pai, ento."
           E a descobriu-se que o pai, supostamente uma pessoa de mente elevada e respeitvel, em outros aspectos, levava-a regularmente para a cama, quando ela 
estava entre 8 e 12 anos, e abusava dela sexualmente, sem penetrao ("molhava-a", visitas noturnas). J naquela poca, sentia-se angustiada. Uma irm, seis anos 
mais velha, contou-lhe, alguns anos mais tarde, que tinha tido as mesmas experincias com o pai de ambas. Uma prima contou-lhe que, quando tinha quinze anos, tivera 
de rechaar os abraos do av. Naturalmente, quando eu lhe disse que coisas parecidas e piores deveriam ter acontecido em sua mais remota infncia, ela no achou 
que isso fosse inacreditvel. Em outras palavras, trata-se de um caso bastante comum de histeria, com os sintomas de sempre.
           Q. E. D.
           
           CARTA 61
           
           ...Como voc pode deduzir pelo anexo [Rascunho L], meus progressos esto-se consolidando. Em primeiro lugar, formei uma idia coerente a respeito da estrutura 
da histeria. Tudo remonta  reproduo das cenas, a algumas das quais se pode chegar diretamente, enquanto a outras, s por meio de fantasias erigidas  frente delas. 
As fantasias derivam de coisas que foram ouvidas, mas s compreendidas posteriormente, e todo o seu material, naturalmente,  verdico. So estruturas protetoras, 
sublimaes dos fatos, embelezamentos deles e, ao mesmo tempo, servem como auto-absolvio. Talvez sua origem desencadeante se deva s fantasias de masturbao. 
Um segundo elemento de compreenso interna (insight) do assunto me diz que as estruturas psquicas que, na histeria, so afetadas pelo recalcamento no so, na realidade, 
lembranas - de vez que ningum se entrega  atividade mnmica sem um motivo -, mas sim impulsos decorrentes das cenas primevas [ver em [1]]. [1] Percebo, agora, 
que todas as trs neuroses (histeria, neurose obsessiva e parania) mostram os mesmos elementos (ao mesmo tempo que mostram a mesma etiologia) - ou seja, fragmentos 
mnmicos, impulsos (derivados da lembrana) e fices protetoras, e percebo que a irrupo na conscincia, a formao de compromissos (isto , sintomas), ocorre 
nessas neuroses em pontos diferentes. Na histeria, so as lembranas, na neurose obsessiva, os impulsos pervertidos, na parania, as fices protetoras (fantasias) 
que penetram na vida normal, distorcidos pela formao de compromissos.
           Vejo aqui um grande progresso na compreenso (insight). Espero que isso lhe cause o mesmo impacto.
           
           RASCUNHO L [NOTAS I]
           A ARQUITETURA DA HISTERIA
           
           O objetivo parece ser o de chegar [retroativamente] s cenas primevas. Em alguns casos, isso  conseguido diretamente, mas, em outros, somente por um 
caminho indireto, atravs das fantasias. Pois as fantasias so fachadas psquicas construdas com a finalidade de obstruir o caminho para essas lembranas. As fantasias 
servem, ao mesmo tempo,  tendncia de aprimorar as lembranas, de sublim-las. So feitas de coisas que so ouvidas e posteriormente utilizadas; assim, combinam 
coisas que foram experimentadas e coisas que foram ouvidas, acontecimentos passados (da histria dos pais e dos ancestrais) e coisas que a prpria pessoa viu. Relacionam-se 
com coisas ouvidas, assim como os sonhos se relacionam com coisas vistas. Nos sonhos, realmente, no ouvimos nada, ns vemos.
           
           O PAPEL DESEMPENHADO PELAS EMPREGADAS
           Uma imensa carga de culpa, com autocensuras (por furto, aborto etc.), torna-se possvel [para uma mulher] atravs da identificao com essas pessoas de 
baixo padro moral, que to freqentemente so lembradas por ela como mulheres sem valor, sexualmente ligadas com o pai ou o irmo dela. E, como resultado da sublimao 
dessas empregadas nas fantasias, fazem-se as mais inverossmeis acusaes contra outras pessoas nessas fantasias. O temor da prostituio [isto , de se tornar prostituta] 
(medo de andar sozinha na rua), o medo de que haja um homem escondido debaixo da cama etc. tambm apontam na direo das empregadas. H uma trgica justia no fato 
de que a ao do chefe da famlia, ao descer ao nvel de uma empregada,  expiada pela auto degradao de sua filha.
           COGUMELOS
           No vero passado, houve uma moa que tinha medo de colher uma flor ou mesmo de arrancar um cogumelo, porque isso era contra o mandamento de Deus, que 
no queria que as sementes vivas fossem destrudas. - Isso provinha de uma lembrana dos provrbios religiosos que sua me citava, dirigidos contra as precaues 
durante o coito, porque estas significavam que se destruam sementes vivas. As "esponjas" (esponjas de Paris) eram explicitamente mencionadas entre tais precaues. 
O principal contedo da neurose dessa moa era a identificao com a me.
           
           DORES
           Estas no so a sensao real de uma fixao, mas uma repetio intencional da mesma. A criana choca-se contra uma quina, um mvel etc., e assim realiza 
um contacto ad genitalia, a fim de repetir uma cena na qual aquilo que agora  o ponto doloroso, e foi ento pressionado contra a quina, levou  fixao. [Cf. em 
[1]]
           
           MULTIPLICIDADE DE PERSONALIDADES PSQUICAS
           A existncia da identificao talvez nos permita tomar literalmente essa expresso.
           
           EMBRULHAR
           Continuao da histria do cogumelo. A moa insistia em que todos os objetos que lhe eram entregues fossem embrulhados. (Condom.)
           EDIES MLTIPLAS DAS FANTASIAS -ESTARO TAMBM RETROSPECTIVAMENTE VINCULADAS [ EXPERINCIA ORIGINAL]?
           Nos casos em que um paciente deseja estar doente e se apega  sua doena, isso acontece, geralmente, porque a doena  considerada uma arma protetora 
contra sua prpria libido - ou seja, porque ele desconfia de si mesmo. Nessa fase, o sintoma mnmico torna-se um sintoma defensivo: combinam-se as duas correntes 
atuantes. Nos estgios precedentes, o sintoma era uma conseqncia da libido, um sintoma provocativo: pode ser que, entre os estgios, as fantasias sirvam de defesa.
            possvel seguir o caminho, a poca e o material da construo das fantasias. V-se ento, que ela em muito se assemelha  construo dos sonhos. Mas 
no h regresso na forma [de representao] conferida s fantasias, somente progresso. Observe-se a relao entre sonhos, fantasias e reproduo.
           
           OUTRO SONHO DE REALIZAO DE DESEJO
           "O senhor vai dizer, segundo suponho, que este  um sonho de realizao de desejo", disse E. [em [1]]. "Sonhei que, assim que chegava em casa com uma 
mulher, eu era preso por um policial, que me mandou entrar numa carruagem. Pedi-lhe tempo, a fim de colocar meus assuntos em ordem, e assim por diante." - "Mais 
alguns detalhes." - "Isso foi de manh, depois de eu ter passado a noite com essa mulher." - "Voc ficou com medo?" - "No." - "Sabe de que era acusado?" - "Sim. 
De ter matado uma criana." - "Isso tem alguma conexo com a realidade?" - "Uma vez, fui responsvel pelo aborto de uma criana, em decorrncia de um caso amoroso. 
No gosto de pensar nisso." - "Bem, no tinha acontecido nada nessa manh, antes do sonho?" - "Sim, acordei e tive relaes sexuais." - "Mas voc tomou precaues?" 
- "Sim. Eu tirei fora." - "Ento, voc estava com medo de ter gerado um filho, e o sonho lhe mostra a realizao de seu desejo de que no acontecesse nada e de voc 
ter arrancado o filho pela raiz. Voc utilizou, como material para o seu sonho, o sentimento de angstia que surge aps uma relao desse tipo." [1]
           
           RASCUNHO M
           [NOTAS II]
           A ARQUITETURA DA HISTERIA
           
           Provavelmente,  assim: algumas das cenas so diretamente acessveis, mas outras o so apenas por intermdio das fantasias erigidas em frente a elas. 
As cenas so dispostas em ordem crescente de resistncia: as que foram recalcadas com menos energia vm  luz primeiro, porm s incompletamente, devido a sua associao 
com as que foram duramente recalcadas. O caminho seguido pelo trabalho [analtico] desce primeiro em crculos at as cenas ou suas cercanias; depois, desce de um 
sintoma at uma profundidade um pouco maior, e depois, novamente a partir de um sintoma, desce ainda mais. Como a maioria das cenas converge para uns poucos sintomas, 
nosso caminho traa crculos repetidos atravs dos pensamentos que esto por trs dos mesmos sintomas. [Ver Fig. 11.]
           
           
           Fig. 11
           
           RECALCAMENTO
           Pode-se suspeitar que o elemento essencialmente recalcado  sempre o que  feminino. Isso  confirmado pelo fato de que as mulheres, assim como os homens, 
admitem com maior facilidade as experincias com mulheres do que com homens. O que os homens recalcam essencialmente  o elemento da pederastia.
           
           FANTASIAS
           As fantasias originam-se de uma combinao inconsciente, e conforme determinadas tendncias, de coisas experimentadas e ouvidas. Essas tendncias tm 
o sentido de tornar inacessvel a lembrana da qual emergiram ou poderiam emergir os sintomas. As fantasias so construdas por um processo de amlgama e distoro 
anlogo  decomposio de um corpo qumico que est combinado com outro. Pois o primeiro tipo de distoro consiste numa falsificao da memria por um processo 
de fragmentao, no qual especialmente as relaes cronolgicas so postas de lado. (As correes cronolgicas parecem depender justamente da atividade do sistema 
da conscincia.) Um fragmento da cena visual junta-se, depois, a um fragmento da experincia auditiva e  transformado numa fantasia, enquanto o fragmento restante 
 ligado a alguma outra coisa. Desse modo, torna-se impossvel determinar a conexo original. Em conseqncia da construo de fantasias como esta (em perodos de 
excitao), os sintomas mnmicos cessam. Em vez destes, acham-se presentes fices inconscientes no sujeitas  defesa. Quando a intensidade dessa fantasia aumenta 
at um ponto em que forosamente irromperia na conscincia, ela  recalcada e cria-se um sintoma mediante uma fora que impele para trs, indo desde a fantasia at 
as lembranas que a constituram.
           Todos os sintomas de angstia (fobias) derivam, assim, de fantasias. No obstante, isso simplifica os sintomas. Talvez haja um terceiro movimento para 
a frente e um terceiro mtodo de construir sintomas, derivado da construo dos impulsos.
           
           TIPOS DE DESLOCAMENTO DE COMPROMISSO
           Deslocamento por associaes: histeria.
           Deslocamento por semelhana (conceitual): neurose obsessiva (caracterstica do lugar em que ocorre a defesa e, talvez, tambm do tempo).
           Deslocamento causal: parania.
           
           CURSO TPICO DOS ACONTECIMENTOS
           Bons motivos para suspeitar de que o despertar do recalcado no se d ao acaso, mas segue as leis do desenvolvimento. Ademais, que o recalcado atua para 
trs, a partir do que  recente, e afeta primeiro os ltimos eventos.
           
           DIFERENA ENTRE AS FANTASIAS NA HISTERIA E NA PARANIA
           As ltimas so sistematizadas, todas em harmonia umas com as outras; as primeiras so independentes entre si e contraditrias - isto , insuladas e, por 
assim dizer, geradas automaticamente (por um processo qumico). Isto e mais a eliminao da caracterstica do tempo , sem dvida, essencial para a a diferenciao 
entre a atividade do pr-consciente e do inconsciente. [Ver em [1]]
           RECALCAMENTO NO INCONSCIENTE
           No basta levar em conta o recalcamento entre o pr-consciente e o inconsciente; devemos tambm atentar para o recalcamento normal dentro do sistema do 
prprio inconsciente. Muito importante, mas ainda muito obscuro.
           Existe uma esperana muito grande de conseguirmos determinar o nmero e a espcie de fantasias, assim como conseguimos fazer com as cenas. O romance de 
ilegitimidade (cf. parania [em [1]])  regularmente encontrado e serve como meio para ilegitimar os parentes em questo. A agorafobia parece depender de um romance 
de prostituio, que, por sua vez, tambm remonta a esse romance familiar. Assim, uma mulher que no sai sozinha est afirmando a infidelidade de sua me.
           
           CARTA 64
           
           ... Aqui esto alguns fragmentos lanados  praia na ltima mar. Venho tomando nota deles somente para voc e espero que os guarde para mim. Nada acrescendo 
 guisa de desculpas ou explicaes: sei que so apenas premonies, mas sempre surgiu algo de todas as coisas desse tipo e s tive que voltar atrs no que tentei 
elaborar em torno do sistema Pcs. [Cf. em [1].] Um outro pressentimento tambm me diz, como eu j sabia - embora eu de fato no saiba absolutamente nada -, que muito 
em breve descobrirei a origem da moralidade...
           
           No faz muito tempo, sonhei que tinha sentimentos supercarinhosos para com Mathilde, s que ela se chamava Hella, e depois vi novamente "Hella" diante 
de mim, escrito em letras destacadas. Soluo: Hella  o nome de uma sobrinha americana cujo retrato nos foi enviado. Mathilde pde ser chamada Hella porque, ultimamente, 
tem chorado muito as derrotas dos gregos. Ela tem grande entusiasmo pela mitologia da antiga Hlade e, naturalmente, considera heris todos os helenos. O sonho, 
 claro, mostra a realizao do meu desejo de encontrar um pai que seja o causador da neurose e, desse modo, pr fim s dvidas que ainda persistem em mim sobre 
esse assunto.
           Numa outra ocasio, sonhei que subia uma escadaria, vestido com muito pouca roupa. Eu me movimentava, como o sonho enfatizou, com grande agilidade (meu 
corao - confiana renovada!). De repente, porm, percebi que uma mulher vinha atrs de mim, e ento aconteceu aquela experincia, to comum nos sonhos, de ficar 
pregado no mesmo lugar, de estar paralisado. A sensao concomitante no foi de angstia, mas de excitao ertica. Assim, voc v como a sensao de paralisia, 
caracterstica do sono, foi usada para a realizao de um desejo exibicionista. Pouco antes, naquela noite, eu realmente tinha subido a escadaria do nosso apartamento 
no andar trreo - sem colarinho, pelo menos - e tinha pensado que um de nossos vizinhos poderia estar na escada.
           
           RASCUNHO N
           [NOTAS III] IMPULSOS
           
           Os impulsos hostis contra os pais (desejo de que eles morram) tambm so um elemento integrante das neuroses. Vm  luz, conscientemente, como idias 
obsessivas. Na parania, o que h de pior nos delrios de perseguio (desconfiana patolgica dos governantes e monarcas) corresponde a esses impulsos. Estes so 
recalcados nas ocasies em que  atuante a compaixo pelos pais - nas pocas de doena ou morte deles. Nessas ocasies, constitui manifestao de luto uma pessoa 
acusar-se da morte deles (o que se conhece como melancolia) ou punir-se numa forma histrica (por intermdio da idia de retribuio) com os mesmos estados [de doena] 
que eles tiveram. A identificao que a ocorre, como podemos verificar, nada mais  do que um modo de pensar, e no nos exime da necessidade de procurar o motivo.
           Parece que esse desejo de morte, no filho, est voltado contra o pai e, na filha, contra a me. Uma empregada faz uma transferncia disso, desejando que 
a patroa morra e, desse modo, o patro possa casar-se com ela. (Cf. o sonho de Lisl a respeito de Martha e de mim.)
           
           RELAO ENTRE IMPULSOS E FANTASIAS
           Parece que as lembranas se bifurcam: parte delas  posta de lado e substituda por fantasias; outra parte, mais acessvel, parece conduzir diretamente 
aos impulsos. Ser possvel que, posteriormente, os impulsos tambm decorram das fantasias?
           De modo semelhante, a neurose obsessiva e a parania derivariam ex aequo [nos mesmos termos] da histeria, o que explicaria a incompatibilidade entre elas.
           
           TRANSPOSIO DA CRENA
           A crena (e a dvida)  um fenmeno que pertence inteiramente ao sistema do ego (o Cs.) e no tem contrapartida no Inc. Nas neuroses, a crena  deslocada: 
 recusada ao material recalcado, quando ele pressiona no sentido da reproduo, e - como punio, poder-se-ia dizer -  transposta para o material que executa a 
defesa. Titnia, que se recusa a amar Oberon, seu marido legtimo,  obrigada, em vez disso, a entregar seu amor a Bottom, o asno da fantasia.
           
           POESIA E FINE FRENZY
           O mecanismo da poesia [criao literria]  o mesmo das fantasias histricas. Para compor seu Werther, Goethe combinou algo que havia experimentado (seu 
amor por Lotte Kstner) e algo que tinha ouvido (o destino do jovem Jerusalm, que se suicidou). Provavelmente, Goethe estava brincando com a idia de se matar; 
encontrou nisso um ponto de contato e identificou-se com Jerusalm, de quem tomou emprestado o motivo para sua prpria histria de amor. Por meio dessa fantasia, 
protegeu-se das conseqncias de sua experincia.
           De modo que Shakespeare tinha razo ao justapor a poesia e a loucura (fine frenzy).
           
           MOTIVOS PARA A CONSTRUO DOS SINTOMAS
           Recordar nunca  um motivo, mas apenas uma maneira, um mtodo. O primeiro motivo para a construo de sintomas , cronologicamente, a libido. Portanto, 
os sintomas, como os sonhos, so a realizao de um desejo.
           Em estgios subseqentes, a defesa contra a libido conquista seu espao tambm no Inc. A realizao de desejos deve preencher os requisitos dessa defesa 
inconsciente. Isso acontece quando o sintoma  capaz de atuar como um auto-impedimento, seja por meio de punio (por um impulso mau) ou a partir da desconfiana. 
Os motivos da libido e da realizao de desejo como punio agem, nesse caso, por soma. Aqui  inequvoca a tendncia geral no sentido da ab-reao e da irrupo 
do recalcado, e a isso se somam os dois outros motivos. O que parece  que, em fases posteriores, por um lado, algumas estruturas psquicas complexas (impulsos, 
fantasias, motivos) so deslocadas das lembranas e, por outro lado, a defesa, surgindo do Pcs. (o ego), pareceria abrir caminho para dentro do inconsciente, de 
modo que a defesa tambm se torna multilocular.
           A construo de sintomas por identificao est ligada s fantasias - isto , a seu recalcamento no Inc. - numa forma anloga  da modificao do ego 
na parania [em [1]]. Como a irrupo da angstia est ligada a essas fantasias recalcadas, devemos concluir que a transformao da libido em angstia no ocorre 
por intermdio da defesa atuante entre o ego e o Inc., mas sim no Inc. como tal. Conclui-se, pois, que existe tambm uma libido Inc.
           Parece que o recalcamento dos impulsos produz no angstia, mas talvez depresso - melancolia. Desse modo, as melancolias esto relacionadas com a neurose 
obsessiva.
           
           DEFINIO DE "SANTIDADE"
           A "santidade"  algo que se baseia no fato de que os seres humanos, em benefcio da comunidade maior, sacrificaram uma parte de sua liberdade sexual e 
de sua liberdade de se entregarem s perverses. O horror ao incesto (como coisa mpia) baseia-se no fato de que, em conseqncia da comunidade da vida sexual (mesmo 
na infncia), os membros de uma famlia se mantm permanentemente unidos e se tornam incapazes de contatos com estranhos. Assim, o incesto  anti-social - a civilizao 
consiste nessa renncia progressiva.  o contrrio do "super-homem". [1]
           
           CARTA 66
           
           ...Ainda no sei o que andou acontecendo comigo. Algo proveniente das mais recnditas profundezas de minha neurose insurgiu-se contra qualquer avano 
em minha compreenso das neuroses, e voc, de algum modo, esteve envolvido nisso. Isso porque minha paralisia redacional me parece destinada a impedir nossas comunicaes. 
No estou nada seguro disso; so apenas sentimentos de uma natureza muito obscura. No lhe aconteceu algo parecido? Nos ltimos dias, pareceu-me que se vislumbra 
uma sada dessa obscuridade. Constato que, nesse nterim, realizei todo tipo de progressos em meu trabalho, e a cada momento me ocorre mais uma idia. Para isso 
concorrem, sem dvida, o tempo quente e o excesso de trabalho.
           Pois bem, vejo que a defesa contra as lembranas no impede que estas dem origem a estruturas psquicas superiores, que persistem por algum tempo e, 
depois, so elas mesmas submetidas  defesa. Esta, porm,  de um tipo especfico mais elevado - precisamente como nos sonhos, que contm in nuce [numa casca de 
noz] a psicologia das neuroses, muito genericamente. O que temos diante de ns so falsificaes da memria e fantasias - estas referentes ao passado ou ao futuro. 
Conheo mais ou menos as leis segundo as quais se agrupam essas estruturas e os motivos pelos quais so mais fortes do que as lembranas verdadeiras; assim, aprendi 
coisas novas que ajudam a caracterizar os processos do Inc. Ao lado destes, surgem impulsos pervertidos, e quando,  medida que se torna necessrio posteriormente, 
essas fantasias e impulsos so recalcados, aparecem as determinaes superiores dos sintomas, j provenientes das lembranas, e novos motivos para manter a doena. 
Estou estudando alguns casos tpicos de agrupamento dessas fantasias e alguns fatores tpicos do surgimento do recalque contra os mesmos. Esse conhecimento ainda 
no est completo. Minha tcnica est comeando a preferir um determinado mtodo como sendo o mtodo natural.
           Parece-me que a coisa mais indubitvel  a explicao dos sonhos, mas ela est cercada de uma quantidade enorme de enigmas obstinados. As questes organolgicas 
esperam de voc uma soluo: nestas, no fiz nenhum progresso.
           
           Existe um sonho interessante em que o indivduo vagueia entre pessoas estranhas, total ou parcialmente despido, e com sentimentos de vergonha e angstia. 
Muito estranhamente, as pessoas nunca reparam nisso - o que devemos atribuir  realizao de desejos. Esse material onrico, que tem sua origem no exibicionismo 
da infncia, foi erroneamente compreendido e didaticamente transformado num conhecido conto de fadas. (As roupas imaginrias do rei - "Talism".) Habitualmente, 
o ego interpreta outros sonhos da mesma maneira equivocada.
           
           CARTA 67
           
           ...As coisas esto fermentando dentro de mim, mas no conclu nada. Estou mais do que satisfeito com a psicologia: estou atormentado por graves dvidas 
sobre minha teoria das neuroses. Minha mente anda muito preguiosa; aqui neste lugar no consegui acalmar a agitao que h em minha cabea e meus sentimentos; isso 
s pode acontecer na Itlia.
           Depois de ter estado muito satisfeito aqui, estou agora passando por um perodo de mau humor. O principal paciente que me preocupa sou eu mesmo. Minha 
leve histeria (muito agravada, porm, pelo trabalho) foi resolvida em mais uma parte: mas o resto ainda est na imobilidade.  principalmente disso que depende o 
meu humor. A anlise  mais difcil do que qualquer outra coisa.  ela tambm que paralisa minha energia psquica para descrever e comunicar o que consegui at agora. 
Mas penso que deve ser feita e que  uma etapa intermediria necessria em meu trabalho.
           
           CARTA 69
           
           ...Confiar-lhe-ei de imediato o grande segredo que lentamente comecei a compreender nos ltimos meses. No acredito mais em minha neurotica [teoria das 
neuroses]. Provavelmente, isso no  compreensvel sem uma explicao; afinal, voc mesmo considerou crvel o que lhe pude dizer. De modo que comearei, historicamente, 
a partir da questo da origem de meus motivos de descrena. Os contnuos desapontamentos em minhas tentativas de fazer minha anlise chegar a uma concluso real, 
a debandada das pessoas que, durante algum tempo, eu parecia estar compreendendo com muita segurana, a ausncia dos xitos completos com que eu havia contado, a 
possibilidade de explicar os xitos parciais de outras maneiras, segundo critrios comuns - este foi o primeiro grupo [de motivos]. Depois, veio a surpresa diante 
do fato de que, em todos os casos, o pai, no excluindo o meu, [1] tinha de ser apontado como pervertido - a constatao da inesperada freqncia da histeria, na 
qual o mesmo fator determinante  invariavelmente estabelecido, embora, afinal, uma dimenso to difundida da perverso em relao s crianas no seja muito provvel. 
(A perverso teria de ser incomensuravelmente mais freqente do que a histeria, de vez que a doena s aparece quando h uma acumulao de eventos e quando sobrevm 
um fator que enfraquece a defesa.) Depois, em terceiro lugar, a descoberta comprovada de que, no inconsciente, no h indicaes da realidade, de modo que no se 
consegue distinguir entre a verdade e a fico que  catexizada com o afeto. (Assim, permanecia aberta a possibilidade de que a fantasia sexual tivesse invariavelmente 
os pais como tema.) Em quarto lugar, a reflexo de que, na psicose mais profunda, a lembrana inconsciente no vem  tona, no sendo, pois, revelado o segredo das 
experincias da infncia nem mesmo no delrio mais confuso. Se, dessa forma, verificamos que o inconsciente nunca supera a resistncia do consciente, ento tambm 
abandonamos nossa expectativa de que o inverso acontea no tratamento, a ponto de o inconsciente ser totalmente domado pelo consciente.
           Em tal medida fui influenciado por isso que estava disposto a abandonar duas coisas: a resoluo completa de uma neurose e o conhecimento seguro de sua 
etiologia na infncia. No tenho agora nenhuma idia do ponto a que cheguei, no obtive uma compreenso terica do recalcamento e de sua inter-relao de foras. 
Parece que novamente se tornou discutvel se so somente as experincias posteriores que estimulam as fantasias, que ento retornam  infncia; e, com isso, o fator 
de uma predisposio hereditria recupera uma esfera de influncia da qual eu me incumbira de exclu-lo - com a inteno de elucidar amplamente a neurose.
           
           Se eu tivesse deprimido, confuso ou exausto, as dvidas desse tipo deveriam, por certo, ser interpretadas como sinais de fraqueza. De vez que estou num 
estado oposto, devo reconhec-las como o resultado de um trabalho intelectual honesto e esforado e devo ter orgulho, depois de ter ido to a fundo, de ainda ser 
capaz de tal crtica. Ser que essa dvida simplesmente representa um episdio prenunciador de um novo conhecimento?
           Tambm  digno de nota no ter havido nenhum sentimento de vergonha, para o que, afinal, poderia haver uma justificativa. Certamente, no vou contar isso 
em Dan nem public-lo em Ascalon, na terra dos filisteus. Mas, perante voc e perante mim mesmo, tenho mais um sentimento de vitria do que de derrota - e, afinal, 
isso no est certo.
           
           CARTA 70
           
           ...[3 de outubro] Muito pouca coisa ainda est acontecendo comigo externamente; contudo, internamente, ocorre algo interessantssimo. Isso porque, nos 
ltimos quatro dias, minha auto-anlise, que considero indispensvel para esclarecer todo o problema, tem prosseguido nos sonhos e me presenteou com as mais valiosas 
inferncias e indicaes. Em alguns pontos, tenho a sensao de haver chegado ao trmino, e at agora, tambm, sempre tenho sabido onde  que o sonho da prxima 
noite vai retomar as coisas. Descrever esse fato por escrito  mais difcil do que qualquer outra coisa, e tambm a descrio seria imprecisa demais. S posso dizer 
resumidamente que der Alte [meu pai] no teve papel ativo no meu caso, a partir de mim mesmo; que o "originador primordial" [de meus problemas] foi uma mulher feia 
e velha, mas esperta, que me contou uma poro de coisas a respeito de Deus todo-poderoso e do inferno e que me deu uma opinio elevada acerca das minhas prprias 
capacidades; que, mais tarde (entre dois e dois anos e meio de idade), minha libido foi despertada para a matrem, isto , por ocasio de uma viagem com ela de Leipzig 
a Viena, durante a qual devemos ter passado a noite juntos e devo ter tido oportunidade de v-la nudam - voc tirou a concluso disto h muito tempo no tocante a 
seu prprio filho, num comentrio que me revelou; - que saudei o nascimento de meu irmo (que era um ano mais novo do que eu e morreu depois de alguns meses) com 
desejos hostis e verdadeiro cime infantil, e que sua morte deixou em mim a semente das autocensuras. Faz tambm muito tempo que conheo meu companheiro de travessuras 
entre um e dois anos de idade. Era meu sobrinho, um ano mais velho do que eu; atualmente vive em Manchester e nos visitou em Viena quando eu tinha quatorze anos. 
Parece que, algumas vezes, eu e ele nos conduzimos de maneira cruel com minha sobrinha, que era um ano mais nova. Esse sobrinho e esse irmo mais novo determinaram 
o que h de neurtico, mas tambm o que h de intenso, em todas as minhas amizades. Voc mesmo viu minha angstia diante das viagens em plena atividade. 
           Ainda no descobri nada a respeito das cenas que subjazem a toda essa histria. Se elas vierem  luz e eu conseguir resolver minha prpria histeria, serei 
grato  memria da velha senhora que me proporcionou, em idade to precoce, os meios de viver e de prosseguir vivendo. Como voc v, minha antiga afeio por ela 
est reaparecendo. No posso dar-lhe sequer uma idia da beleza intelectual do trabalho...
           4 de outubro... O sonho de hoje apresentou o que se segue, sob os mais estranhos disfarces.
           Ela era minha professora em assuntos de sexo e me repreendia por eu ser desajeitado e no ser capaz de fazer nada.  sempre assim que ocorre a impotncia 
do neurtico;  assim que o medo de ser incapaz na escola adquire seu substrato sexual.) Ao mesmo tempo, eu via o crnio de um pequeno animal e, no sonho, pensei: 
"Porco!" Na anlise, porm, associei isso com o seu desejo, h dois anos, de que eu pudesse encontrar no Lido um crnio para me esclarecer, como fez Goethe certa 
vez. Mas no o encontrei. De modo que fui um boboca. Todo o sonho estava repleto das mais mortificantes aluses a minha atual impotncia como terapeuta. Talvez seja 
disso que deriva a tendncia a acreditar que a histeria  curvel. Alm disso, ela me banhava numa gua avermelhada, na qual ela mesma se havia banhado antes. (A 
interpretao no  difcil; no encontro nada parecido com isso nas seqncias de minhas lembranas, de modo que considero uma verdadeira descoberta do passado 
distante.) E ela me fazia furtar "zehners" (moedas de dez kreuzers) e d-los a ela. H uma longa seqncia desde esses primeiros zehners de prata at a pilha de 
notas de dez florins que vi no sonho como o dinheiro de Martha para as despesas da casa. O sonho pode ser resumido como "mau tratamento". Assim como a velha senhora 
recebia dinheiro de mim pelo mau tratamento que me dispensava, tambm eu, atualmente, ganho dinheiro pelo mau tratamento que dou a meus pacientes. Um papel especial 
foi desempenhado por Frau Qu., cujo comentrio voc me relatou: eu devia no cobrar nada dela, j que  a esposa de um colega. (Naturalmente, ele fez questo de 
que eu cobrasse.)
           De tudo isso um crtico severo poderia dizer que foi retrospectivamente fantasiado e no determinado progressivamente. Os experimenta crucis [experimentos 
cruciais] teriam de contradiz-lo. A gua avermelhada j seria, parece, um desses experimentos. Onde  que todos os pacientes arranjam terrveis detalhes pervertidos 
que, muitas vezes, so to afastados de sua experincia quanto de seu conhecimento?
           
           CARTA 71
           
           ...Minha auto-anlise  realmente a coisa mais essencial que me ocupa atualmente e promete adquirir o maior valor para mim, se chegar a seu trmino. A 
meio caminho, ela subitamente cessou por trs dias, e tive a sensao de estar amarrado por dentro, coisa de que tanto se queixam os pacientes; e fiquei realmente 
inconsolvel...
            estranho que minha clnica ainda me permita uma grande quantidade de tempo livre.
           Tudo isso  muito valioso para meus propsitos, de vez que consegui encontrar alguns pontos de referncia reais para a histria. Perguntei a minha me 
se ela ainda se recordava da bab. "Naturalmente", disse ela, "uma pessoa de idade, muito esperta. Estava sempre levando voc  igreja: depois, quando voltava, voc 
costumava pregar sermes e falar-nos a respeito de Deus todo-poderoso. Durante meu resguardo, quando Anna nasceu" (ela  dois anos e meio mais nova do que eu), "descobriu-se 
que ela era ladra, e todas as moedas novas e reluzentes de kreuzers e zehners e todos os brinquedos que tinham sido dados a voc foram encontrados entre os pertences 
dela. Seu irmo Philipp [ver diante] foi buscar um policial, e ela pegou dez meses de cadeia." Ora, veja s como isso confirma as concluses de minha interpretao 
dos sonhos. Encontrei uma explicao simples para o meu possvel engano. Escrevi a voc contando que ela me induzia a furtar zehners e d-los a ela. O sonho realmente 
quis dizer que ela mesma os roubava. Pois o quadro onrico era uma lembrana de eu estar tomando o dinheiro da me de um mdico - isto , indevidamente. A interpretao 
correta : Eu = ela, e a me de um mdico equivale a minha me. To longe eu estava de saber que ela era uma ladra que fiz interpretao errada.
           Tambm andei indagando a respeito do mdico que tnhamos em Freiberg, porque um sonho mostrou uma grande dose de ressentimento contra ele. Na anlise 
da figura existente no sonho, detrs da qual ele estava oculto, pensei tambm no professor von K., que foi meu professor de histria na escola. Ele no parecia encaixar-se 
absolutamente no caso, de vez que minhas relaes com ele eram indiferentes, ou melhor, agradveis. Minha me ento me contou que o mdico de minha infncia tinha 
um olho s, e, dentre todos os meus professores de escola, tambm o Professor K. era o nico que tinha esse mesmo defeito.
           O valor comprobatrio dessas coincidncias poderia ser invalidado pela objeo de que, em alguma ocasio posterior da minha infncia, eu teria ouvido 
dizer que a bab era ladra e depois o teria esquecido, aparentemente, at que afinal isso emergiu no sonho. Eu mesmo penso que  assim. Mas tenho outra prova inatacvel 
e divertida. Eu disse a mim mesmo que, se a velha senhora desapareceu to de repente, deveria ser possvel averiguar a impresso que esse fato causou em mim. Onde, 
pois, est essa impresso? Ocorreu-me ento uma cena que, nos ltimos 29 anos, emergiu algumas vezes em minha memria consciente, sem que eu a compreendesse. No 
havia jeito de encontrar minha me: eu berrava a plenos pulmes. Meu irmo Philipp, vinte anos mais velho do que eu, mantinha aberto diante de mim um guarda-loua 
[Kasten], e ao verificar que mame no estava dentro dele, comecei a chorar ainda mais, at que, esguia e linda, ela entrou pela porta. Que pode significar isso? 
Por que estaria meu irmo abrindo o guarda-loua, se sabia que mame no estava l dentro e que aquilo no poderia me tranqilizar? E ento, subitamente, compreendi. 
Eu pedira a ele que o fizesse. Ao sentir falta de mame, temi que ela tivesse desaparecido de mim, tal como acontecera, pouco tempo antes, com a velha bab. Ora, 
devo ter ouvido dizer que a velha tinha sido trancafiada e, por conseguinte, devo ter pensado que minha me tambm o fora - ou melhor, que tivesse sido "encaixotada" 
["eingekastelt"], pois meu irmo Philipp, atualmente com 63 anos, ainda hoje gosta de falar por meio de trocadilhos. O fato de eu ter recorrido a ele, em particular, 
prova que eu sabia muito bem da sua participao no desaparecimento da bab. [1]
           Depois disso, consegui aclarar muitas coisas mais; entretanto, no cheguei ainda a nenhum ponto conclusivo. Comunicar o que est inacabado  to vago 
e trabalhoso que espero que voc me perdoe por isso e se contente com o conhecimento dos aspectos que esto estabelecidos com certeza. Se a anlise contiver aquilo 
que espero dela, eu o escreverei ordenadamente e o apresentarei a voc depois. At agora, no encontrei nada completamente novo, s complicaes,  quais, de resto, 
estou acostumado. No  nada fcil. Ser completamente honesto consigo mesmo  uma boa norma. Um nico pensamento de valor genrico revelou-se a mim. Verifiquei, 
tambm no meu caso, a paixo pela me e o cime do pai, e agora considero isso como um evento universal do incio da infncia, mesmo que no to precoce como nas 
crianas que se tornaram histricas. (Algo parecido com o que acontece com o romance da filiao na parania - heris, fundadores de religies.) Sendo assim, podemos 
entender a fora avassaladora de Oedipus Rex, apesar de todas as objees levantadas pela razo contra a sua pressuposio do destino; e podemos entender por que 
os "dramas do destino" posteriores estavam fadados a fracassar lamentavelmente. Nossos sentimentos opem-se a qualquer compulso arbitrria e individual [do destino], 
tal como  pressuposto em Die Ahnfrau [de Grillparzer] etc. Mas a lenda grega capta uma compulso que toda pessoa reconhece porque sente sua presena dentro de si 
mesma. Cada pessoa da platia foi, um dia, em germe ou na fantasia, exatamente um dipo como esse, e cada qual recua, horrorizada, diante da realizao de sonho 
aqui transposta para a realidade, com toda a carga de recalcamento que separa seu estado infantil do seu estado atual. 
           Passou-me pela cabea uma rpida idia no sentido de saber se a mesma coisa no estaria tambm no fundo do Hamlet. No estou pensando na inteno consciente 
de Shakespeare, mas acredito, antes, que algum evento real tenha instigado o poeta  sua representao, no sentido de que o inconsciente de Shakespeare compreendeu 
o inconsciente de seu heri. Como  que o histrico Hamlet consegue justificar suas palavras: "Assim a conscincia nos torna a todos covardes"? Como  que ele consegue 
explicar sua hesitao em vingar o pai assassinado atravs do seu tio - ele, o homem que, sem nenhum escrpulo, envia  morte seus cortesos e efetivamente se precipita 
ao matar Laertes? De que outro modo poderia ele justificar-se melhor do que mediante o tormento de que padece com a obscura lembrana de que ele prprio planejou 
perpetrar a mesma ao contra seu pai, por causa da paixo pela me - "a se tratar cada homem segundo seu merecimento, quem escapar do aoite?" Sua conscincia 
[moral]  seu sentimento inconsciente de culpa. E no ser seu afastamento sexual [em [1]], na conversa com Oflia, tipicamente histrico? e sua rejeio do instinto 
que visa a procriar filhos? e, por fim, que dizer de ele ter transferido a ao de seu pai para o de Oflia? E no faz ele descer sobre si, no final, de modo to 
evidente como os meus pacientes histricos, o castigo, sofrendo o mesmo destino do pai, ao ser envenenado pelo mesmo rival? [1]
           
           CARTA 72
           
           ...Uma idia a respeito da resistncia possibilitou-me situar corretamente todos aqueles casos meus que tinham enveredado por graves dificuldades, e reencaminh-los 
satisfatoriamente. A resistncia, que finalmente causa uma parada no trabalho, no  seno seu carter passado da criana, degenerado, que (em conseqncia das experincias 
que se acham conscientemente presentes nos casos ditos degenerados) se desenvolveu ou poderia ter-se desenvolvido, mas que  encoberto pelo recalque. Esse carter, 
eu o desencavo com meu trabalho, e ele se debate; e quem, no incio do tratamento, era um sujeito excelente e franco, torna-se grosseiro, mentiroso ou obstinado 
e se finge de doente - at que lhe digo isso e, desse modo, torna-se possvel superar esse carter. Assim, a resistncia tornou-se para mim uma coisa real e tangvel; 
desejaria tambm que, em lugar do conceito de recalcamento, eu j estivesse de posse daquilo que jaz oculto por trs dele.
           Essa caracterstica infantil desenvolve-se durante o perodo de "anseio intenso", depois que a criana  afastada das experincias sexuais. Ansiar ardentemente 
 o principal trao de carter da histeria, assim como a anestesia atual (ainda que apenas potencial)  o seu principal sintoma. Durante esse mesmo perodo de anseio, 
as fantasias so construdas e (invariavelmente?) a masturbao  praticada, dando lugar ao recalque, posteriormente. Quando ela no cede, no h histeria; a descarga 
da excitao sexual retira a possibilidade de haver histeria, na maioria dos casos. Para mim ficou claro que diversos movimentos obsessivos tm o significado de 
um substituto dos movimentos de masturbao abandonados...
           
           CARTA 73
           
           ...Minha anlise prossegue e continua sendo o meu interesse principal. Tudo  ainda obscuro, at mesmo os problemas; mas h um sentimento reconfortante 
de que  necessrio to-somente dar uma busca no depsito para encontrar, mais cedo ou mais tarde, aquilo de que se precisa. O mais desagradvel de tudo so os estados 
de humor, que, com freqncia, ocultam totalmente a realidade. Para algum como eu, tambm, a excitao sexual j no tem serventia. Mas ainda estou absolutamente 
satisfeito com ela. Quanto aos resultados, precisamente agora existe mais uma vez uma calmaria.
           Voc acha que a fala das crianas durante o sono tambm pode ser encarada como sonho? Se  assim, posso presente-lo com os mais recentes sonhos de realizao 
de desejos: Aninha, um ano e meio de idade. Um dia, em Aussee, ela teve de ficar sem comer porque passou mal de manh, o que foi atribudo ao fato de ter comido 
morangos. Durante a noite seguinte, ela recitou um cardpio inteiro no sono: "Molangos, molangos silvestres, omelete, pudim!" Talvez eu j lhe tenha contado isso.
           
           CARTA 75
           
           ..."Era o dia 12 de novembro de 1897. O sol estava no quadrante leste; Mercrio e Vnus estavam em conjuno -" No, os anncios de nascimento j no 
se fazem mais assim. Foi a 12 de novembro, um dia dominado por uma enxaqueca no lado esquerdo, um dia em que,  tarde, Martin sentou-se para escrever um novo poema, 
e, ao entardecer, Oli perdeu seu segundo dente, um dia em que, aps as terrveis dores de parto das ltimas semanas, dei  luz um novo conhecimento. No de todo 
novo, para dizer a verdade; esse conhecimento tinha-se mostrado repetidas vezes e se havia retrado novamente; [1] mas, dessa vez, permaneceu firme e fitou a luz 
do dia. Coisa engraada, costumo ter um pressentimento dessas coisas um bom tempo antes. Por exemplo, certa vez lhe escrevi, no vero [Carta 64, em [1], atrs], 
que eu estava por encontrar a fonte do recalcamento sexual normal (moralidade, vergonha etc.) e, depois, por longo tempo, no consegui encontr-la. Antes das frias 
[Carta 67, em [1]], contei-lhe que o paciente mais importante para mim era eu mesmo; e ento, subitamente, depois que voltei das frias, minha auto-anlise, da qual 
at ento no havia nenhum sinal, [1] ps-se em andamento. H algumas semanas [Carta 72, em [1]], veio-me o desejo de que o recalque pudesse ser substitudo pela 
coisa essencial que jazia por trs dele; e  disso que me ocupo agora.
           Muitas vezes suspeitei de que alguma coisa orgnica desempenhava um papel no recalcamento; certa vez, antes disso, disse-lhe que se tratava do abandono 
de zonas sexuais precedentes [em [1] e [2]] e acrescentei que me agradara encontrar uma idia parecida em Moll. Privatim [confidencialmente], a ningum concedo prioridade 
na idia; no meu caso, eu ligava essa idia de recalque  modificao do papel desempenhado pelas sensaes do olfato: a adoo da postura ereta, o nariz levantado 
do cho, ao mesmo tempo que uma srie de sensaes, que antes despertavam interesse e eram relacionadas  terra, tornaram-se repulsivas - por um processo que ainda 
me  desconhecido. (Ele levanta o nariz = considera-se especialmente nobre.) Ora, as zonas que no produzem mais uma liberao da sexualidade nos seres humanos normais 
e maduros certamente so as regies da boca, do nus e da garganta. Isto pode ser compreendido de duas maneiras: primeiro, a aparncia e a idia dessas zonas no 
mais produzem um efeito excitante e, segundo, as sensaes internas originrias dessas zonas no proporcionam qualquer contribuio  libido, de modo como fazem 
os rgos sexuais propriamente ditos. Nos animais, essas zonas sexuais continuam em vigor, sob ambos aspectos; quando isso persiste tambm nos seres humanos, o resultado 
 a perverso. Devemos supor que, na infncia, a liberao da sexualidade ainda no  to localizada como o  posteriormente, de modo que as zonas (e talvez tambm 
toda a superfcie do corpo) que depois so abandonadas tambm provocam algo anlogo  liberao posterior da sexualidade. A extino dessas zonas sexuais iniciais 
teria uma contrapartida na atrofia de determinados rgos internos, no decurso da evoluo. Uma liberao da sexualidade - como voc sabe, tenho em mente uma espcie 
de secreo que  propriamente sentida como o estado interno da libido - ocorre, ento, no apenas (1) mediante estmulo perifrico sobre os rgos sexuais, ou (2) 
mediante as excitaes internas que surgem desses rgos, mas tambm (3) a partir de idias - isto , a partir de traos de memria - portanto, tambm por via de 
uma ao postergada. (Voc j est familiarizado com essa linha de pensamento.) Se os genitais de uma criana foram excitados por algum, a lembrana disso, anos 
depois, produzir, por efeito retardado, uma liberao de sexualidade muito mais intensa do que na poca da excitao, porque o aparelho efetor e a quantidade de 
secreo tero aumentado nesse meio tempo. Assim, uma ao no-neurtica postergada pode ocorrer normalmente, e esta gera a compulso. (Nossas outras lembranas 
atuam habitualmente apenas porque atuaram como experincias.) A ao retardada dessa espcie ocorre tambm em conexo com as lembranas de excitaes das zonas sexuais 
abandonadas. O resultado, porm,  uma liberao no de libido, mas de desprazer, uma situao interna anloga  repugnncia no caso de um objeto.
           Dito em termos grosseiros, a lembrana atual cheira mal, assim como um objeto real cheira mal; e assim como afastamos nosso rgo sensorial (cabea e 
nariz) com repugnncia, tambm nossa pr-conscincia e nosso sentido consciente se afastam da lembrana. Isto  o recalcamento.
           O que, ento, nos proporciona o recalcamento normal? Algo que, livre, pode levar  angstia, e, psiquicamente ligado, pode produzir rejeio - ou seja, 
a base afetiva para um sem-nmero de processos intelectuais de desenvolvimento, tais como a moralidade, a vergonha etc. Assim, tudo isso surge  custa da sexualidade 
(potencial) extinta. Disso podemos inferir que, com as ondas sucessivas do desenvolvimento de uma criana, esta  sobrecarregada de respeito, vergonha, essas coisas, 
e vemos como a no-ocorrncia dessa extino das zonas sexuais pode produzir a insanidade moral como uma inibio do desenvolvimento. Essas ondas sucessivas do desenvolvimento 
provavelmente possuem um ordenamento cronolgico diferente nos sexos masculino e feminino. (A repugnncia surge mais cedo nas meninas do que nos meninos.) Contudo, 
a principal diferena entre os sexos emerge na poca da puberdade, quando as meninas so acometidas por uma repugnncia sexual no-neurtica, e os meninos, pela 
libido. Pois, nesse perodo, extingue-se nas adolescentes (total ou parcialmente) mais uma zona sexual, que persiste nos adolescentes masculinos. Estou-me referindo 
 zona genital masculina, a regio do clitris, na qual, durante a infncia, tanto nas meninas como nos meninos, mostra-se concentrada a sensibilidade sexual. Da 
a torrente de vergonha que avassala a adolescente nesse perodo, at ser despertada a nova zona, a zona vaginal, seja espontaneamente, seja por ao reflexa. Da 
tambm resultam, talvez, a anestesia nas mulheres, o papel desempenhado pela masturbao nas crianas predispostas  histeria e a interrupo, no caso de resultar 
a histeria.
           E agora vejamos as neuroses. As experincias ocorridas na infncia, quando afetam apenas os genitais, nunca produzem neurose nos homens (ou nas mulheres 
msculas), mas somente masturbao compulsiva e libido. Entretanto, de vez que, de modo geral, as experincias da infncia tambm afetam as duas outras zonas sexuais, 
fica aberta, tambm para os homens, a possibilidade de que o despertar da libido atravs de uma ao retardada enseje o surgimento do recalque e da neurose. Quando 
a lembrana reaviva uma experincia correlacionada com os genitais, o que ela produz por ao retardada  a libido. Quando [reaviva uma experincia correlacionada 
com] o nus, a boca etc., produz repugnncia interna retardada, e o resultado final, por conseguinte,  que uma carga de libido no consegue, como em geral acontece, 
passar  ao ou  traduo em termos psquicos [em [1]], mas  obrigada a deslocar-se numa direo regressiva (como acontece nos sonhos). Ao que parece, a libido 
e a repugnncia estariam associativamente vinculadas.  libido devemos o fato de que a lembrana no consegue produzir um desprazer generalizado etc., mas encontra 
um uso psquico; e  repugnncia devemos o fato de que esse uso s produz sintomas, no produz idias orientadas para um objetivo. Assim sendo, no deve ser difcil 
apreender o lado psicolgico dessa questo; o fator orgnico existe nela, quer o abandono das zonas sexuais se efetue segundo o tipo masculino ou feminino de desenvolvimento, 
quer esse abandono absolutamente no ocorra.
            provvel, portanto, que a escolha da neurose (a deciso quanto  emergncia da histeria, da neurose obsessiva, ou da parania) dependa da natureza da 
onda de desenvolvimento (ou seja, de sua localizao cronolgica) que possibilita a ocorrncia do recalcamento - isto , que transforma uma fonte de prazer interno 
em uma fonte de repugnncia interna.
           
           Foi esse o ponto a que cheguei - com todas as obscuridades a envolvidas. Decidi, pois, daqui por diante, considerar como fatores separados o que causa 
a libido e o que causa a angstia. E tambm abandonei a idia de explicar a libido como o fator masculino e o recalcamento como o fator feminino. [Cf. em [1]] De 
qualquer modo, estas so decises importantes. A obscuridade est principalmente na natureza da modificao pela qual a sensao interna de necessidade se transforma 
em sensao de repugnncia. No h por que eu chamar sua ateno para outros pontos obscuros. O valor principal da sntese est no fato de ela unir em um s o processo 
neurtico e o processo normal. Existe agora, portanto, uma necessidade premente de elucidar prontamente a angstia neurastnica comum.
           Minha auto-anlise ainda est interrompida, e compreendi qual a razo. S consigo analisar-me com o auxlio do conhecimento adquirido objetivamente (como 
um observador externo). A verdadeira auto-anlise  impossvel; no fosse assim, no haveria nenhuma doena [neurtica]. Visto que ainda encontro alguns enigmas 
em meus pacientes, eles esto fadados a retardar tambm a mim em minha auto-anlise. 
           
           CARTA 79
           
           ...Comecei a compreender que a masturbao  o grande hbito, o "vcio primrio", e que  somente como sucedneo e substituto dela que outros vcios - 
lcool, morfina, tabaco etc. - adquirem existncia. O papel desempenhado por esse vcio na histeria  imenso, e talvez a se encontre, no todo ou em parte, o meu 
grande obstculo, que ainda resiste. Naturalmente, nisto surge a dvida de saber se um vcio dessa espcie  curvel, ou se a anlise e a terapia, nesse ponto, sofreriam 
uma parada e deveriam contentar-se em transformar um caso de histeria em um caso de neurastenia.
           No que concerne  neurose obsessiva, est confirmado o fato de que a localizao em que o recalcado irrompe  a representao da palavra, e no o conceito 
vinculado  mesma. (Mais precisamente, a memria verbal.) Por isso  que as coisas mais dspares so prontamente unidas numa idia obsessiva, sob uma nica palavra 
possuidora de mais de um significado. A tendncia  irrupo utiliza-se de uma palavra que tenha essa espcie de ambigidade com seus di[versos significados] como 
se se estivessem matando diversas moscas com um s golpe. Veja, por exemplo, o caso que passo a expor. Uma moa, que estava freqentando uma escola de corte e costura 
e estava perto da concluso do seu curso, era atormentada por essa idia obsessiva: "No, voc no deve ir embora, voc ainda no terminou, voc deve fazer [machen] 
mais, precisa aprender muito mais." Por trs disso estava uma lembrana de cenas de infncia em que ela era colocada no urinol, mas queria ir embora e era submetida 
 mesma compulso: "Voc no pode ir embora, ainda no terminou, precisa fazer [machen] mais. A palavra "machen" [que significa "fazer" possibilitou juntara situao 
posterior e a situao infantil. As idias obsessivas, muitas vezes, revestem-se de uma extraordinria impreciso verbal, a fim de permitir esse emprego mltiplo. 
Se examinarmos de modo mais atento (consciente) esse exemplo, encontraremos paralelamente a frase "voc precisa aprender mais", que, depois, tornou-se a idia obsessiva 
fixa e surgiu atravs de uma interpretao equivocada desse tipo por parte do consciente.
           Isso no  inteiramente arbitrrio. A prpria palavra "machen" passou por uma transformao anloga em seu significado. Uma antiga fantasia minha, que 
eu gostaria de recomendar  sua sagacidade lingstica, ocupa-se da derivao de nossos verbos de termos originalmente copro-erticos como este.
           Mal posso enumerar para voc todas as coisas que eu (um Midas moderno) transformo em - excremento. Isso se ajusta perfeitamente  teoria do mau cheiro 
interno [em [1]]. Dinheiro, acima de tudo. Penso que a associao se faz atravs da palavra "sujo" como sinnimo de "avarento". Do mesmo modo, tudo o que se relaciona 
com nascimento, aborto e menstruao remonta a privada, atravs da palavra "Abort" ["privada, latrina"] ("Abortus") ["aborto"]. Isso est muito desconjuntado, mas 
 inteiramente anlogo ao processo pelo qual as palavras assumem um significado transferido, to logo aparecem novos conceitos que exigem designao...
           Voc viu alguma vez um jornal estrangeiro que tenha passado pela censura russa na fronteira? Palavras, oraes e frases inteiras so obliteradas, de modo 
que o que resta se torna ininteligvel. Uma censura russa desse tipo se efetua nas psicoses e produz os delrios aparentemente sem sentido.
           
           CARTA 84
          
           ...No foi uma faanha nada insignificante de sua parte ver o livro dos sonhos concludo diante de voc. Ele sofreu uma interrupo novamente, e nesse 
meio tempo o problema foi aprofundado e ampliado. Parece-me que a teoria da realizao de desejos trouxe apenas a soluo psicolgica, e no a biolgica, ou melhor, 
a metafsica. (Alis, vou perguntar-lhe com seriedade se posso usar o nome de metapsicologia para minha psicologia que vai alm da conscincia.) Biologicamente, 
parece-me que a vida onrica deriva inteiramente dos resduos do perodo pr-histrico da vida (entre um e trs anos de idade) - o mesmo perodo que  a fonte do 
inconsciente e que, sozinho, contm a etiologia de todas as psiconeuroses, o perodo caracterizado por uma amnsia anloga  amnsia histrica. Parece-me coerente 
a seguinte frmula: O que  visto no perodo pr-histrico produz sonhos; o que  ouvido nesse mesmo perodo produz fantasias; o que  experimentado sexualmente, 
ainda no mesmo perodo, produz as psiconeuroses. A repetio daquilo que foi experimentado nesse perodo , em si mesma, a realizao de um desejo; um desejo recente 
s conduz a um sonho quando consegue estar em conexo com material proveniente desse perodo pr-histrico, quando o desejo recente  um derivado pr-histrico. 
Ainda resta examinar at que ponto serei capaz de ater-me a essa teoria extremada e at que ponto poderei exp-la no livro dos sonhos.
           
           
           CARTA 97
          
           ...Comecei um caso novo, de modo que o estou abordando sem qualquer concluso antecipada. De incio, como  natural, tudo se ajusta maravilhosamente. 
Trata-se de um homem jovem, de vinte e cinco anos, que mal consegue caminhar por causa da rigidez das pernas, espasmos, tremores etc. Uma salvaguarda contra qualquer 
diagnstico incorreto  proporcionada pela angstia concomitante, que o faz manter-se agarrado s saias da me como o beb que se esconde atrs desse homem. A morte 
de seu irmo e a morte do pai, portador de uma psicose, precipitaram o incio de seu estado, que esteve presente desde a idade de quatorze anos. Sente-se envergonhado 
diante de qualquer pessoa que o veja caminhando dessa maneira e considera isso natural. Seu modelo  um tio tabtico, como qual j se identificava quando tinha treze 
anos, por causa da etiologia aceita (levar uma vida dissoluta). Alis, ele tem compleio de um verdadeiro urso. 
           Por favor, observe que a vergonha est simplesmente apensa aos sintomas e deve relacionar-se com outros fatores desencadeantes. Espontaneamente, ele disse 
que o tio no se sentia nem um pouco envergonhado de seu modo de andar. A relao entre a vergonha e seu modo de caminhar foi uma relao racional h muitos anos, 
quando ele teve gonorria, o que naturalmente era perceptvel em seu andar, e tambm at mesmo alguns anos antes, quando as erees constantes (sem objetivo) interferiam 
no seu andar. Alm disso, a causa de sua vergonha era mais profunda. Contou-me ele que, no ano passado, quando estavam morando junto ao [rio] Wien (no campo), que 
de repente comeou a subir, ele foi tomado de terrvel medo de que a gua pudesse chegar at dentro do seu quarto - ou seja, de que seu quarto fosse inundado durante 
a noite. Observe, por favor, a ambigidade da expresso: eu sabia que ele sofrera de enurese quando criana. Cinco minutos depois, contou-me espontaneamente que, 
na poca em que freqentava o curso primrio, ele ainda urinava na cama regularmente, que sua me o ameaava de contar isso aos professores e aos outros meninos. 
Ele sentira uma angstia enorme. De modo que  a que se situa sua vergonha. Toda a histria de sua adolescncia, por um lado, tem seu clmax nos sintomas da perna 
e, por outro, libera o afeto pertencente a essa fase; ambos, afeto esintomas, vinculam-se somente pela sua percepo interna. No espao entre os dois insere-se toda 
a histria perdida de sua infncia.
           Ora, uma criana que urinou regularmente na cama at os sete anos de idade (sem ser epilptica ou algo parecido) deve ter tido experincias sexuais no 
incio da infncia. Espontneas, ou por seduo? Esta  a situao que deve encerrar tambm os fatores causais mais precisos - relativos a suas pernas.
          
           CARTA 101
          
           ...Em primeiro lugar: uma pequena parte de minha auto-anlise progrediu e confirmou que as fantasias so produtos de perodos posteriores e so projetadas 
para o passado, desde o que era ento o presente at pocas mais remotas da infncia; o modo como isso ocorre tambm emergiu - mais uma vez, um vnculo verbal.
            pergunta: "O que aconteceu nos primrdios da infncia?", a resposta  "nada". Mas o embrio de um impulso sexual estava l. Seria fcil e maravilhoso 
contar-lhe como  a coisa; mas seria necessria uma meia dzia de pginas para eu escrever tudo isso por extenso, e por isso vou guard-lo para nosso encontro na 
Pscoa, com algumas outras informaes a respeito de meus primeiros anos [de vida].
           Alm disso, encontrei um outro elemento psquico que considero ter significado geral e ser uma fase preliminar dos sintomas, anterior, mesmo,  fantasia.
           (4 de janeiro.) Ontem, fiquei cansado, e hoje, no consigo continuar escrevendo de acordo com o que pretendia, porque a coisa est crescendo. H qualquer 
coisa a. Est comeando a despontar. Nos prximos dias, por certo haver algum acrscimo. Ento, quando a coisa ficar aclarada, eu lhe escreverei. Apenas lhe revelarei 
que o padro onrico  passvel da mais genrica aplicao, e que tambm compreendo por que, a despeito de todos os meus esforos, ainda no conclu o livro dos 
sonhos. Se eu esperar um pouco mais, conseguirei descrever o processo mental que ocorre nos sonhos, de tal maneira que ele tambm inclua o processo que ocorre na 
formao dos sintomas histricos. Portanto, esperemos.
          
           CARTA 102
          
           ...Algumas outras coisas de menor importncia vieram  luz - por exemplo, que as dores de cabea histricas baseiam-se numa analogia, na fantasia, que 
iguala a parte superior com a extremidade inferior do corpo (cabelo em ambos os lugares - bochechas [Backen] e ndegas [Hinterbacken (literalmente, "bochechas de 
trs")] - lbios [Lippen] e labia [Schamlippen (literalmente, "lbios da vergonha")] - boca = vagina, de forma que um ataque de enxaqueca pode ser utilizado para 
representar um defloramento forado, embora, ao mesmo tempo, toda a indisposio tambm represente uma situao de realizao de desejo. A ao determinante da sexualidade 
torna-se sempre mais clara. Em uma paciente (em que determinei exatamente a fantasia) havia constantes estados de desespero, com uma convico melanclica de que 
ela no valia nada, era incapaz de fazer qualquer coisa etc. Sempre pensei que, no incio de sua infncia, ela houvesse testemunhado um estado anlogo, uma melancolia 
verdadeira, em sua me. Isso concordava com a teoria anterior, mas dois anos no trouxeram nenhuma confirmao. E agora se verificou que, quando ela era uma adolescente 
de quatorze anos, descobriu que tinha atresia hymenalis [hmen imperfurado] e ficou desesperada, imaginando que no serviria para esposa: melancolia - isto , temor 
da impotncia. Outros estados, em que no consegue decidir-se quanto  escolha de um chapu ou um vestido, originam-se de sua luta na poca em que teve de escolher 
um marido.
           Com uma outra paciente, convenci-me de que realmente existe algo a que se pode chamar melancolia histrica e quais so suas manifestaes. Tambm verifiquei 
como a mesma lembrana aparece nas mais diferentes verses; e ainda obtive um primeiro vislumbre da melancolia que ocorre por soma. Essa paciente, alm disso,  
totalmente anestsica, como deveriamesmo ser, de conformidade com uma idia que data do perodo inicial do meu trabalho referente s neuroses [em [1]]
           Sobre uma terceira mulher obtive essa informao interessantssima. Um homem importante e rico (um diretor de banco), com cerca de sessenta anos de idade, 
veio ver-me e me entreteve descrevendo as caractersticas de uma jovem com quem tem uma liaison. Arrisquei um palpite de que ela seria provavelmente muito frgida. 
Pelo contrrio, ela tem quatro a seis orgasmos durante um s coito. Mas...logo na primeira abordagem, ela  tomada de tremores e, imediatamente depois, cai num estado 
de sono patolgico; enquanto se encontra nesse estado, fala como se estivesse em hipnose, executa sugestes ps-hipnticas e tem completa amnsia quanto a todo esse 
estado. Ele est para se casar com ela, e ela certamente ser frgida com o marido. Esse cavalheiro idoso, pela possibilidade de ser identificado como o pai imensamente 
poderoso da infncia dela, surte evidentemente o efeito de poder liberar a libido dela, ligada s fantasias. Instrutivo.
          
           CARTA 105
          
           ...Minha ltima generalizao mostrou-se vlida e parece que tende a crescer at uma dimenso imprevisvel. No s os sonhos so realizaes de desejos: 
os ataques histricos tambm o so. Isso se aplica aos sintomas histricos, mas, provavelmente, tambm a todos os eventos neurticos, pois constatei-o h muito tempo 
na insanidade delirante aguda. Realidade - realizao de desejos.  desse par de opostos que brota nossa vida mental. Penso que agora sei o que  que determina a 
diferena entre os sonhos e os sintomas, que emergem na vida desperta. Para um sonho,  suficiente que ele seja a realizao de desejo de um pensamento recalcado, 
pois os sonhos so mantidos longe da realidade. Mas um sintoma, que est inserido no meio da vida, precisa constituir algo mais, alm disso: precisa ser tambm a 
realizao de desejo do pensamento recalcador. O sintoma surge ali onde o pensamento recalcado e o pensamento recalcador conseguem juntar-se na realizao do desejo. 
Um sintoma  a realizao de desejo do pensamento recalcadorquando, por exemplo, o sintoma constitui uma punio, uma autopunio, a substituio final da autogratificao, 
da masturbao.
           Essa chave abre muitas portas. Voc sabe, por exemplo, porque X.Y. padece de vmitos histricos? Porque, na fantasia, ela est grvida, porque ela  to 
insacivel que no consegue tolerar o fato de no ter um beb tambm de seu ltimo amante em sua fantasia. Mas ela tambm tem de vomitar porque, nesse caso, passar 
a fome e ficar magra, perder sua beleza e no mais ser atraente para ningum. Assim, o sentido do sintoma  um par contraditrio de realizaes de desejos. [1]
           Voc sabe por que nosso amigo E., que voc conhece, enrubesce e comea a suar assim que v algum de uma determinada categoria de conhecidos, especialmente 
no teatro? Ele sente vergonha. Sem dvida. Mas de qu? De uma fantasia na qual ele figura como o deflorador de toda pessoa que encontra. Ele transpira porque deflora: 
trabalho muito pesado o dele. Um eco desse significado encontra expresso nele, tal como o ressentimento de algum que  derrotado, a cada vez que ele se sente envergonhado 
diante de uma mulher: "Ora, essa estpida pensa que tenho vergonha dela. Se eu a tivesse numa cama, ela iria ver como no me sinto nada constrangido com ela!" E 
a ocasio em que canalizou seus desejos para essa fantasia deixou sua marca no complexo psquico que produz o sintoma. Foi a aula de latim. O auditrio do teatro 
lembra-lhe a sala de aula; ele sempre procura ocupar o mesmo assento de costume, na fila da frente. O entr'acte  o "recreio" dos tempos de escola e o "suar" significa 
o "operam dare" [trabalhar] daqueles tempos. Ele teve uma discusso com o professor a respeito dessa expresso. Ademais, no consegue esquecer o fato de que depois, 
na universidade, foi reprovado em botnica; e prossegue nisso, agora, como "deflorador".  verdade que ele deve  sua infncia a capacidade de lavar-se em suor - 
 poca em que (tendo ele trs anos) seu irmo despejou-lhe em cima gua do banho e jogou espuma de sabo em seu rosto, quando ele estava no banho - um trauma, embora 
no trauma sexual. E por que  que em Interlaken, quando tinha quatorze anos, ele se masturbou numa atitude to especial no W.C.? Foi s para conseguir dar uma espiada 
no Jungfrau [literalmente, "a virgem"]; e, a partir de ento, nunca mais viu uma outra - pelo menos ad genitalia.Evitou isso intencionalmente,  claro; de outro 
modo, por que s teria casos amorosos com atrizes?
           
           CARTA 125
          
           ...H no muito tempo, tive o que pode ter sido um primeiro vislumbre de alguma coisa nova. Tenho diante de mim o problema da "escolha da neurose". Quando 
 que uma pessoa se torna histrica em vez de paranica? Uma primeira tentativa rudimentar, feita na poca em que eu tentava,  fora, tomar de assalto a cidadela, 
deu-me a impresso de que essa escolha dependia da idade em que ocorreram os traumas sexuais - da idade que a pessoa tinha na poca da experincia. [Cf. em [1]] 
Abandonei h muito tempo esse ponto de vista, e fiquei sem meio de solucionar a questo at h poucos dias, quando comecei a compreender um elo da teoria da sexualidade.
           A camada sexual mais inferior  o auto-erotismo, que age sem qualquer objetivo psicossexual e exige somente sensaes locais de satisfao. Depois dele 
vem o aloerotismo (homo e heteroerotismo); mas ele certamente tambm continua a existir como uma corrente separada. A histeria (e sua variante, a neurose obsessiva) 
 aloertica: sua via principal  a identificao; restabelece todas as figuras amadas da infncia que foram abandonadas (cf. minha exposio sobre os sonhos de 
exibicionismo) e dissolve o prprio ego em figuras externas. Assim, cheguei a considerar a parania como uma irrupo da corrente auto-ertica, como um retorno  
posio ento prevalente. A perverso correspondente a ela seria o que se conhece como "loucura idioptica". As relaes especiais do auto-erotismo com o "ego" original 
projetariam viva luz sobre a natureza dessa neurose. Nesse ponto, o fio se interrompe.
          
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         PROJETO PARA UMA PSICOLOGIA CIENTFICA (1950 [1895])
          
           INTRODUO DO EDITOR INGLS
           [ENTWURF EINER PSYCHOLOGIE]
          
          (a) EDIO ALEM:
          1950 Em Aus den Anfngen der Psychoanalyse [Dos Primrdios da Psicanlise], organizada por Marie Bonaparte, Anna Freud e Ernst Kris, 371-466. Londres: 
Imago Publishing Co.
          
          (a) TRADUO INGLESA:[Project for a Scientific Psychology]
          1954 Em The Origins of Psycho-Analysis, pelos mesmos organizadores, 347-445. Londres: Imago Publishing Co.; Nova Iorque: Basic Books. (Traduo de James 
Strachey.)
          
          A presente traduo inglesa, tambm de James Strachey, foi completamente revisada e editada segundo o manuscrito original. O ttulo alemo ("Esboo de 
uma Psicologia") foi escolhido pelos compiladores dos Anfnge; o ttulo ingls  escolha do tradutor. O original no tem ttulo.
          
           (1) Resumo Histrico
          Em carta escrita a Wilhelm Fliess, com data de 27 de abril de 1895 (Freud, 1950a, Carta 23), Freud se queixa de estar demasiadamente absorvido pela sua 
"Psicologia para Neurologistas": "Sinto-me literalmente devorado por ela, a ponto de ficar exausto e me ver obrigado a interromper. Nunca passei por uma preocupao 
to grande assim. E dar algum resultado? Espero que sim, mas  um trabalho difcil e lento." Um ms depois, em outra carta, datada de 25 de maio de 1895 (Carta 
24), essa "psicologia" fica mais explicada: "Ela tem-me acenado  distncia desde tempos imemoriais, mas agora que deparei com as neuroses, tornou-se muito mais 
prxima. Vivo atormentado por duas intenes: descobrir que forma tomar a teoria do funcionamento psquico se nela for introduzido um mtodo de abordagem quantitativo, 
uma espcie de economia de fora nervosa, e, em segundo lugar, extrair da psicopatologia tudo o que puder ser til  psicologia normal.  de fato impossvel conceber 
uma noo geral satisfatria dos distrbios neuropsicticos, a menos que se possa relacion-los a hipteses claras sobre os processos psquicos normais. Venho dedicando 
todos os meus minutos livres dessas ltimas semanas a esse trabalho; passo as noites, das onze at as duas horas da madrugada, a imaginar, comparar e fazer conjecturas 
desse gnero; e s desisto quando chego a uma concluso absurda ou fico to irremediavelmente exausto que perco todo o interesse pela minha atividade mdica cotidiana. 
Mas voc ainda ter que esperar muito tempo por qualquer resultado." Ele no demorou muito, porm, a se mostrar mais otimista: em 12 de junho (Carta 25) j comunicava 
que "a construo psicolgica parece em vias de obter xito, o que me daria enorme prazer.  claro que, por enquanto, nada posso afirmar com certeza. Fazer uma comunicao 
disso agora equivaleria a levar a um baile um feto feminino de seis meses." E, em 6 de agosto (Carta 26), ele anuncia que, "aps longas reflexes, creio ter chegado 
 compreenso da defesa patolgica e, ao mesmo tempo, de muitos processos psicolgicos importantes". Mas logo surgem novos obstculos. Em 16 de agosto (Carta 27), 
escreve: "Tive uma estranha experincia com a minha fyw. Pouco depois de comunicar a voc a sensacional novidade, conclamando suas felicitaes pela escalada de 
um pico secundrio, eis que esbarrei em novas dificuldades e constatei que no me restava flego suficiente para a nova tarefa. Por isso, decidi-me prontamente, 
pus de lado todo o alfabeto e me convenci de que no tenho mais o menor interesse pelo assunto." E depois, na mesma carta: "A 'Psicologia' representa, positivamente, 
uma cruz para mim. Seja como for, jogar boliche e colher cogumelos so atividades muito mais saudveis. Afinal, eu queria apenas explicar a defesa, mas, quando dei 
por mim, estava tentando explicar algo que pertence ao prprio ncleo da natureza. Tive de elaborar os problemas da qualidade, do sono, da memria - em suma, a psicologia 
inteira. Agora no quero mais ouvir falar nisso."
          Pouco depois, em 4 de setembro, segundo conta Ernest Jones (1953,418), Freud foi visitar Fliess em Berlim. As conversas com o amigo evidentemente ajudaram-no 
a aclarar as idias, pois a redao do Projeto foi iniciada logo em seguida. Literalmente em seguida, pois, segundo escreve Freud em 23 de setembro (Carta 28), "enquanto 
ainda estava no trem, comecei um breve resumo da minha fyw para submeter  sua apreciao". Resumo que, efetivamente, constitui as primeiras folhas escritas a lpis 
do Projeto, tal como o possumos hoje. Passa, ento, a descrever a marcha do trabalho iniciado durante a viagem. "J tenho um volume considervel, de meros rabiscos, 
 lgico, nos quais deposito grande esperana. Meu crebro descansado agora encara como brincadeira as dificuldades acumuladas."  na data de 8 de outubro que Freud 
envia a Fliess, em dois cadernos, o que j tinha completado (Carta 29). "Elas foram inteiramente rascunhadas depois de minha volta e lhe diro pouca coisa a ttulo 
de novidade. Conservei comigo um terceiro caderno, que trata da psicopatologia do recalcamento, porque ele s leva o assunto at certo ponto. A partir da, vi-me 
forado a reiniciar todo o trabalho em esboos e tenho estado ora orgulhoso e contente com ele, ora envergonhado e deprimido; at agora, depois de um excesso de 
tormentos mentais, digo a mim mesmo, apaticamente, que o material ainda no se coaduna e talvez nunca venha a se coadunar. O que no consigo enquadrar no  o mecanismo 
- para isso no me faltaria pacincia -, mas sim a explicao do recalcamento, embora, diga-se de passagem, tenha efetuado grandes progressos no que tange a seu 
conhecimento clnico. Uma semana depois, no dia 15 de outubro (Carta 30), o assunto  mais uma vez posto de lado por falta de soluo, mas em 20 de outubro (Carta 
32) Freud j se manifesta muito mais otimista: "Durante uma noite em que estive muito ocupado... de repente as barreiras caram por terra, os vus se desfizeram 
e me foi possvel enxergar desde os detalhes das neuroses at os determinantes da conscincia. Tudo pareceu encaixar-se e as engrenagens se ajustavam, dando a impresso 
de que o conjunto era realmente uma mquina que logo comearia a andar sozinha. Os trs sistemas de neurnios, as condies livre e ligada da quantidade, os processos 
primrio e secundrio, as tendncias principal e de compromisso do sistema nervoso, as duas regras biolgicas da ateno e da defesa, as indicaes de qualidade, 
realidade e pensamento, o estado dos grupos psicossexuais, a determinao sexual do recalcamento e, por fim, os determinantes da conscincia como funo perceptiva 
- tudo isso se coadunava e ainda se coaduna!  claro que mal posso conter minha alegria." Mas o acesso de entusiasmo teve curta durao. No dia 8 de novembro (Carta 
35) ele comunicou ter jogado todos os manuscritos da psicologia dentro de uma gaveta "onde ficaro dormindo at 1896". Sentira-se esgotado pelo trabalho, irritado, 
confuso e incapaz de dominar o assunto, e por isso preferia deix-lo de lado e se ocupar de outras questes. E em 29 de novembro (Carta 36), escreveu: "J no posso 
compreender o estado de nimo em que concebi a 'Psicologia'; nem consigo entender como fui capaz de importunar voc com isso." Mesmo assim, decorrido apenas um ms,remeteu 
a Fliess a longa carta de 1 de janeiro de 1896 (Carta 39), que consiste, em linhas gerais, na elaborada reviso de algumas das posies fundamentais adotadas no 
Projeto. Esse texto ser reproduzido, em apndice, no prprio Projeto. E desde ento o Projeto desaparece de vista, at ressurgir, cerca de cinqenta anos mais tarde, 
no meio das cartas esquecidas que Freud escreveu a Fliess. S que as idias nele contidas persistiram e, por fim, floresceram nas teorias da psicanlise.
          (2) O Texto e Sua Traduo
          Tal como indica a bibliografia atrs (em. [1]), a primeira verso publicada do texto alemo da obra, includa em Aus den Anfngen der Psychoanalyse, foi 
lanada em Londres em 1950 e a traduo inglesa apareceu quatro anos mais tarde. Houve certas dvidas quanto  preciso da verso alem publicada, tornando-se evidente 
que, antes de se proceder a uma traduo revisada, seria imprescindvel fixar um texto alemo definitivo. Isso s foi possvel graas  gentileza de Ernst Freud, 
que se encarregou de tirar fotocpias do manuscrito, colocando-as  inteira disposio do editor.
          O exame do manuscrito logo confirmou a existncia de inmeras divergncias em relao  verso publicada. O tradutor se viu, assim, na situao diversa 
da que tinha enfrentado para verter a maior parte das obras de Freud, onde o leitor que alimenta dvidas ou desconfianas a respeito da fidelidade da traduo pode 
quase sempre recorrer a um texto alemo confivel. Aqui, infelizmente, no existe tal texto publicado, s sendo possvel obt-lo mediante um fac-smile do manuscrito 
original. De modo que o tradutor arca inevitavelmente com uma responsabilidade especial e absoluta, pois o leitor fica inteiramente  merc dele, e o tratamento 
do texto tem que se adaptar a essa situao. Seu critrio deve obedecer a duas consideraes: conseguir apresentar algo que seja inteligvel, fluente e com um estilo 
ingls aceitvel, alm de reproduzir a inteno do autor da maneira mais exata possvel. Esses dois objetivos muitas vezes entram em conflito, mas, no caso de uma 
obra to difcil e importante como esta (e nas circunstncias que acabamos de mencionar), a traduo precisa optar, mais do que nunca, pela fidelidade.
          
          A letra de Freud, nesse caso especfico, no  muito difcil de ser decifrada por quem j esteja familiarizado com os caracteres gticos, e no existem 
realmente muitos pontos discutveis no texto propriamente dito. Pode-se, alis, afirmar que Freud (tal como Ben Jonson disse de Shakespeare) "nunca riscou uma linha", 
e as pginas de seus manuscritos se sucedem completamente livres de alteraes: no Projeto, em cerca de quarenta mil palavras do mais conciso raciocnio, existem 
ao todo apenas vinte e poucas correes. De modo que no  em relao s questes textuais que surgem os problemas e as dvidas - embora, como se ver, haja uma 
srie de omisses e equvocos acidentais no texto publicado -, e sim em relao  interpretao de expresses usadas por Freud e  melhor forma de apresent-las 
ao leitor.
          Comecemos pelos aspectos mais simples. Freud no foi um escritor meticuloso; ocorre, assim, um determinado nmero de deslizes bvios, corrigidos sem comentrio 
em nossa verso, exceto quando o erro  discutvel ou de especial importncia. A pontuao no  sistemtica (s vezes faltam vrgulas ou no se fecham alguns parnteses) 
e, seja como for, em geral no coincide com as normas inglesas. Isso tambm se aplica  mudana de pargrafos, que, alm do mais, nem sempre  fcil de determinar. 
Em nossa verso, portanto, no julgamos necessrio respeitar rigorosamente o original em nenhum desses aspectos. Em compensao, mantivemo-nos invariavelmente fiis 
ao mtodo extremamente pessoal e muito pouco ingls com que Freud sublinha toda palavra, orao ou frase a que atribui suma importncia. Para outro de seus expedientes 
para imprimir nfase - o de escrever uma palavra ou orao em caracteres latinos, em vez de caracteres gticos - julgamos desnecessrio acrescentar uma nota de rodap. 
Na maioria desses casos, por sinal, nosso modo de proceder coincide com o observado nos Anfnge.
          Mas o maior problema causado pelo manuscrito de Freud  o uso de abreviaturas. So dos mais variados gneros. Atingem o mximo nas primeiras quatro pginas 
e meia - o trecho escrito a lpis no trem. No que esteja redigido com menos nitidez do que o resto; pelo contrrio. Mas no s as palavras isoladas se acham abreviadas, 
como acontece com freqncia em todo o manuscrito, como tambm as prprias frases esto escritas em estilo telegrfico: faltam artigos definidos e indefinidos e 
h oraes que omitem o verbo principal. Eis, por exemplo, a traduo literal da primeira frase da obra: "Inteno de fornecer psic. natural-cientfica, i.e., representar 
processos psic. como quant. determinar estados de partculas matrias especificveis, para assim tornar compreensvel e livre de contradies." Onde o sentido no 
admite dvidas, a soluo bvia  preencher as lacunas, indicando entre colchetes unicamente as concluses menos certas quanto ao sentido. Depois dessas primeiras 
quatro pginas e meia, opera-se uma mudana radical: a partir da as abreviaturas ficam quase que inteiramente restritas a palavras isoladas.
          Aqui, porm, cumpre observar novas distines. (a) Em primeiro lugar, h, naturalmente, abreviaturas de uso universal: por exemplo, "usw" para "und so 
weiter" ("etc.") e "u" para "und" ("e"). (b) Existem tambm outras, usadas sistematicamente por Freud em seu manuscrito, tais como ao abreviar sufixos em "ung" e 
em "ungen" para "g" e "gen": "Besetzg" para "Besetzung" ("catexia"). (c) Depois vm as abreviaturas de termos especiais usados com muita freqncia na obra ou em 
determinados trechos dela. Uma bem tpica  "Cschr", que substitui "Contactschranke" ("barreira de contacto"). Essa palavra, quando aparece pela primeira vez, est 
escrita por extenso, mas depois s surge em forma abreviada. O mesmo acontece com termos freqentes como "Qualz", que substitui "Qualittszeichen" ("indicao de 
qualidade"). Em todos esses tipos de abreviatura no h, evidentemente, vantagem em aborrecer o leitor, reproduzindo-as na traduo: jamais ocorre a menor dvida 
quanto ao que Freud quer dizer com elas. (d) Agora chegamos quilo que se assemelha mais a smbolos do que a abreviaturas - os sinais alfabticos de que Freud tanto 
gostava: por exemplo, "N" para "Neuron" ("neurnio"), "W" para "Wahrnehmung" ("percepo"), "V" para "Vorstellung" ("idia"). A estes pode-se ainda acrescentar "Er", 
a abreviatura que ele tanto usou para "Erinnerung" ("memria"). Todas estas so usadas por Freud com grande freqncia, embora de vez em quando (e incoerentemente) 
escreva as palavras por extenso. J que aqui, mais uma vez, no existem dvidas quanto ao sentido, adotamos uniformemente a forma no abreviada. (e) Ainda resta, 
porm uma quinta categoria  qual isso no se aplica. As letras gregas f, y e w (phi, psi e mega) so usadas por Freud neste trabalho como sinais estenogrficos 
para noes bastante complexas, devidamente explicadas quando introduzidas; por conseguinte, ficaram inalteradas em nossa traduo.
          Eis uma teoria plausvel a respeito de w e de sua relao com W. Freud comeara com dois "sistemas" de neurnios que, por motivos relativamente bvios, 
chamou de f e y. Depois descobriu que precisava de um smbolo para um terceiro sistema de neurnios, relacionado com as percepes. Ora, por um lado, o mais apropriado 
seria outra letra grega - como as duas anteriores, tirada talvez do fim do alfabeto. Por outro lado, seria aconselhvel que fizesse certa aluso  percepo. Como 
vimos, a maiscula "W" substitui "percepo" ("Wahrnehmung") e a letra grega mega se parece muito com o "w" minsculo. Por isso ele escolheu o "w" para o sistema 
perceptual. O chiste, ou pelo menos metade dele, desaparece em ingls, mas mesmo assim julgamos mais aconselhvel manter o "w" do que adotar o "pcpt", que  o nome 
dado ao sistema em todos os volumes subseqentes da Standard Edition. A distino entre "W" e ""  praticamente inconfundvel no manuscrito de Freud; contudo, o 
defeito mais grave dos Anfnge talvez seja o de no observ-la com a devida freqncia, s vezes com resultados desastrosos para o sentido.
          O ltimo de todos esses sinais alfabticos  o Q e seu misterioso companheiro Qh. Ambos, indubitavelmente, simbolizam "quantidade". Mas qual a razo dessa 
diferena? E, acima de tudo, por que o eta grego com o esprito brando? No resta dvida de que a diferena existe, embora Freud no a indique nem a explique em 
parte alguma. A certa altura (em [1]), comeou a escrever "Qh" e depois riscou "h", e em outro trecho (em [1]) fala de "uma quantidade composta de Q e Qh". 
          Mas, na verdade, apenas uma pgina antes (em [1]), ele parece finalmente explicar a diferena. Q, ao que tudo indica,  a "quantidade externa" e Qh, a 
"quantidade psquica" - embora a redao no deixe de ter sua dose de ambigidade. Cumpre acrescentar que o prprio Freud s vezes se mostra incoerente no uso desses 
sinais e freqentemente escreve a palavra "Quantitt" por extenso ou ligeiramente abreviada.  bvio que o leitor ter que encontrar sua prpria soluo para o enigma 
- ns nos limitamos a respeitar escrupulosamente o manuscrito, escrevendo "Q", "Qh" ou "quantidade".
          De modo geral, realmente, como j ressaltamos, manteve-se a mxima fidelidade possvel ao original: onde divergimos em aspectos importantes e sempre que 
surgiram dvidas srias, o fato ficou registrado entre colchetes ou em nota de rodap.  nesse sentido que divergimos fundamentalmente dos organizadores dos Anfnge, 
que fazem todas as suas modificaes sem o menor tipo de advertncia. Em vista disso, julgamos necessrio, sempre que nossa verso diverge substancialmente do texto 
dos Anfnge, apresentar o original alemo em nota de rodap. As imprecises de menor gravidade, como, por exemplo, os freqentes equvocos entre "Q" e "Qh", ficaram 
sem comentrio; mas, ainda assim, a necessidade de corrigir os inmeros erros cometidos na verso publicada em alemo nos acarretou um excesso de notas de rodap. 
Sem dvida, muitos leitores ficaro irritados com isso, mas desse modo os que possuem edio alem podero compar-la de perto com o manuscrito original. Assim, 
as circunstncias excepcionais talvez justifiquem nosso aparente pedantismo.
          (3) A Importncia do Trabalho
          Ter valido a pena tomar medidas to complicadas com o texto do Projeto? O prprio Freud, com toda a probabilidade, diria "no". Depois de redigi-lo em 
duas ou trs semanas, deixou-o inacabado, no lhe poupando crticas na poca em que o escrevia. Mais tarde, parece t-lo esquecido ou, pelo menos, nunca mais fez 
referncia a ele. E quando, na velhice, veio a reencontr-lo, procurou destru-lo de todos os modos. Como pode, ento, ter algum valor?
          H motivos para pensar que o autor passou a ter uma viso deturpada do trabalho, e seu valor pode ser definido de duas maneiras bem diversas.
          Quem examinar os ndices biogrficos dos volumes posteriores da Standard Edition ter a surpresa de encontrar em cada um deles referncias, no raro profusas, 
s cartas a Fliess e ao Projeto. E, como corolrio, verificar, nas notas de rodap das pginas que se seguem, muitas referncias aos volumes posteriores da Standard 
Edition. Essa circunstncia  expresso da admirvel verdade de que o Projeto, apesar de ser manifestamente um documento neurolgico, contm em si o ncleo de grande 
parte das teorias psicolgicas que Freud desenvolveria mais tarde. Nesse sentido, sua descoberta no tem apenas interesse histrico; na verdade, esclarece, pela 
primeira vez, algumas hipteses fundamentais mais obscuras de Freud. O auxlio que o Projeto d  compreenso do stimo captulo terico de A Interpretao dos Sonhos 
est comentado com certa mincia na Introduo do Editor Ingls quela obra (Edio Standard Brasileira, Vol. IV, [1], IMAGO Editora, 1972). Mas, na realidade, o 
Projeto, ou melhor, seu esprito invisvel, paira sobre toda a srie de obras tcnicas de Freud at o fim.
          O fato de haver muitos elos de ligao evidentes entre o Projeto e os conceitos posteriores de Freud no deve, porm, levar-nos a esquecer as diferenas 
bsicas entre eles.
          Em primeiro lugar, logo se evidenciar que, de fato, h pouqussimas coisas nestas pginas que antecipam os procedimentos tcnicos da psicanlise. A livre 
associao de idias, a interpretao do material inconsciente e a transferncia so apenas insinuadas. S nos trechos sobre os sonhos  que h alguma antecipao 
dos desenvolvimentos clnicos posteriores. O material clnico est, de fato, em grande parte restrito  parte II, que trata da psicopatologia. As partes I e III 
se compem, em geral, de princpios tericos e a priori. Nesse sentido, manifesta-se um novo contraste. Enquanto a sexualidade tem grande proeminncia na parte clnica, 
praticamente independente (parte II), nas partes tericas (partes I e III) ela j desempenha um papel secundrio. Na verdade, na poca em que Freud redigia o Projeto, 
suas pesquisas clnicas das neuroses se concentravam principalmente na sexualidade. Convm lembrar que, no mesmo dia (1 de janeiro de 1896) em que ele enviou a 
Fliess a extensa carta revisando certos princpios tericos do Projeto (em [1], adiante), tambm lhe remeteu o "Conto de Fadas Natalino" (em [1]), que constitui 
um estudo preliminar para seu artigo sobre as neuropsicoses de defesa (1896b) e que enfocam os efeitos das experincias sexuais. Essa incmoda separao entre a 
importncia clnica e terica da sexualidade s viria a ser solucionada um ou dois anos depois pela auto-anlise de Freud, que o levou ao reconhecimento da sexualidade 
infantil e  importncia fundamental dos mpetos pulsionais inconscientes.
          Isso trs  baila outra grande diferena entre as teorias de Freud no Projeto e suas teorias posteriores. Aqui a nfase est colocada exclusivamente no 
impacto do meio sobre o organismo e na reao do organismo ao meio.  verdade que, alm dos estmulos externos, existem excitaes endgenas, mas a natureza dessas 
excitaes no  objeto de muitas consideraes. As "pulses" so apenas entidades indefinidas, que mal recebem um nome. O interesse pelas excitaes endgenas se 
restringe, em geral, s operaes "defensivas" e seus mecanismos. O mais curioso  que o que posteriormente constituiria o quase onipotente "princpio do prazer" 
seja aqui encarado unicamente como mecanismo de inibio. Efetivamente, mesmo em A Interpretao dos Sonhos, publicada quatro anos depois, ele ainda  sempre chamado 
de "princpio do desprazer". As foras internas dificilmente representam mais do que reaes secundrias s externas. O id, de fato, ainda estava por ser descoberto.
          Levando isso em conta, podemos talvez chegar a um ponto de vista mais geral sobre a evoluo das teorias de Freud. O que temos no Projeto  uma descrio 
pr-id - "defensiva" - da mente. Com o reconhecimento da sexualidade infantil e a anlise das pulses sexuais, o interesse de Freud se desviou da defesa e, durante 
cerca de vinte anos, concentrou-se extensamente no estudo do id. S quando esse estudo lhe pareceu mais ou menos esgotado foi que ele voltou, na ltima fase de sua 
obra, a considerar a defesa. J se assinalou muitas vezes que  no Projeto que se encontra uma antecipao do ego estrutural que surge em O Ego e o Id. Mas  natural 
que seja assim. Era fatal que houvesse semelhanas entre um quadro pr-id e um quadro ps-id dos processos psicolgicos.
          A reflexo sobre essas caractersticas do Projeto tende a sugerir outra possvel fonte de interesse na obra - uma fonte distante da psicanlise e que no 
pode ser adequadamente abordada aqui. O mtodo tentado por Freud h setenta anos para descrever os fenmenos mentais em termos fisiolgicos pode muito bem parecer 
assemelhar-se com certos mtodos modernos de tratar o mesmo problema. Hoje em dia, sugere-se que o sistema nervoso humano pode ser considerado, em seu modo de funcionamento, 
como parecido ou at mesmo idntico a um computador eletrnico - ambos trabalham para receber, armazenar, processar e fornecer informaes. J se assinalou, com 
bastante plausibilidade, que, nas complexidades dos eventos "neuronais" aqui descritos por Freud e nos princpios que os governam,podemos perceber mais do que uma 
ou duas aluses s hipteses da teoria da informao e da ciberntica em sua aplicao ao sistema nervoso. Para citar alguns exemplos dessa semelhana de abordagem, 
pode-se, em primeiro lugar, notar a insistncia de Freud na necessidade primordial de prover a mquina de uma "memria"; por outro lado, h o seu sistema de "barreiras 
de contacto", que permite  mquina fazer uma "escolha" adequada, com base na lembrana de acontecimentos anteriores, entre as linhas alternativas de reao ao estmulo 
externo; e, mais uma vez, h, na descrio feita por Freud do mecanismo de percepo, a introduo da noo fundamental de realimentao (feed-back) como modo de 
corrigir erros no prprio relacionamento da mquina com o meio.
          Essas e outras semelhanas, caso confirmadas, constituram sem dvida novas provas da originalidade e fertilidade das idias de Freud e, talvez, uma sedutora 
possibilidade de ver nele um precursor do behaviorismo de nossos dias. Ao mesmo tempo, existe o risco de que o entusiasmo possa causar uma distoro do uso dos termos 
por Freud e atribuir s suas observaes, s vezes obscuras, interpretaes modernas que elas no confirmam. E, afinal, no se deve esquecer de que o prprio Freud 
terminou por abandonar toda a estrutura neurolgica. No  difcil adivinhar o motivo. Pois ele descobriu que sua maquinaria neurnica no dispunha de meios para 
explicar o que, em O Ego e o Id (1923b), Edio Standard Brasileira, Vol. XIX, [1]), ele descreveu como sendo, "em ltima anlise, nosso nico facho de luz nas trevas 
da psicologia profunda" - isto , "a faculdade de estar consciente ou no". Em sua ltima obra, o pstumo Esboo de Psicanlise (1940a [1938], Edio Standard Brasileira, 
Vol. XXIII, [1], IMAGO Editora, 1975), ele declara que o ponto de partida para investigar a estrutura do aparelho psquico " proporcionado por um fato sem paralelo, 
que desafia toda explicao ou descrio - o fato da conscincia", e acrescenta numa nota de rodap: "Uma linha radical de pensamento, exemplificada pela doutrina 
americana do behaviorismo, acredita ser possvel construir uma psicologia que considera esse fato fundamental!" Seria certamente despropositado tentar atribuir uma 
considerao semelhante ao prprio Freud. O Projeto deve continuar sendo o que : uma obra inacabada, renegada por seu criador.
          O editor teve o privilgio de comentar certas partes da traduo com o professor Merton M. Gill, da State University of New York, e de adotar uma srie 
de suas preciosas sugestes. No se deve, porm, supor que ele seja de nenhum modo responsvel pelo texto ou comentrios finais.
          
           CHAVE DAS ABREVIATURAS USADAS NO PROJETO
          
          Q = Quantidade (em geral, ou da ordem de magnitude no mundo externo) - Ver em [1]
          Qh= Quantidade (da ordem de magnitude intercelular) - Ver em [1]
          f = sistema de neurnios permeveis
          y = sistema de neurnios impermeveis
          w = sistema de neurnios perceptuais
          W = percepo (Wahrnehmung)
          V = idia (Vorstellung)
          M = imagem motora
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
          
           
           
           
         [PARTE I]
         
         
           ESQUEMA GERAL
          
           Introduo
           A inteno  prover uma psicologia que seja cincia natural: isto , representar os processos psquicos como estados quantitativamente determinados de 
partculas materiais especificveis, tornando assim esses processos claros e livres de contradio. Duas so as idias principais envolvidas: [1] A que distingue 
a atividade do repouso deve ser considerada como Q, sujeita s leis gerais do movimento. (2) Os neurnios devem se encarados como as partculas materiais.
           N e Q - Hoje em dia as experincias desse tipo so freqentes.
          
           [1] (A) PRIMEIRO TEOREMA PRINCIPAL: A CONCEPO QUANTITATIVA
           
           Deriva diretamente das observaes clnicas patolgicas, especialmente no que diz respeito a idias excessivamente intensas - na histeria e nas obsesses, 
nas quais, como veremos, a caracterstica quantitativa emerge com mais clareza do que seria normal. Processos, como estmulos, substituio, converso e descarga 
que tiveram de ser ali descritos [em conexo com esses distrbios], sugeriram diretamente a concepo da excitao neuronal como uma quantidade em estado de fluxo. 
Parecia lcito tentar generalizar o que ali se comprovou. Partindo dessa considerao, pde-se estabelecer um princpio bsico da atividade neuronal em relao a 
Q, que prometia ser extremamente elucidativo, visto que parecia abranger toda a funo. Esse  o princpio de inrcia neuronal: os neurnios tendem a se livrar de 
Q. A estrutura e o desenvolvimento, bem como as funes [dos neurnios], devem ser compreendidos com base nisso.
           Em primeiro lugar, o princpio da inrcia explica a dicotomia estrutural [dos neurnios] em motores e sensoriais, como um dispositivo destinado a neutralizar 
a recepo de Q, atravs de sua descarga. O movimento reflexo torna-se compreensvel agora como uma forma estabelecida de efetuar essa descarga: a origem da ao 
fornece o motivo para o movimento reflexo. Se retrocedermos ainda mais, poderemos, em primeira instncia, vincular o sistema nervoso, como herdeiro da irritabilidade 
geral do protoplasma, com a superfcie externa irritvel [de um organismo], que  interrompida por extenses considerveis de superfcie no-irritvel. Um sistema 
nervoso primrio se vale dessa Q, assim adquirida, para descarreg-la nos mecanismos musculares atravs das vias correspondentes, e desse modo se mantm livre do 
estmulo. Essa descarga representa a funo primria do sistema nervoso. Aqui existe espao para o desenvolvimento de uma funo secundria. Pois, entre as vias 
de descarga, so preferidas e conservadas aquelas que envolvem a cessao do estmulo: fuga do estmulo. Em geral, aqui se verifica uma proporo entre a Q de excitao 
e o esforo requerido para a fuga do estmulo, de modo que o princpio da inrcia no seja abalado por isso.
           Desde o incio, porm, o princpio da inrcia  rompido por outra circunstncia.  proporo que [aumenta] a complexidade interior [do organismo], o sistema 
nervoso recebe estmulos do prprio elemento somtico - os estmulos endgenos - que tambm tm que ser descarregados. Esses estmulos se originam nas clulas do 
corpo e criam as grandes necessidades: como, respirao, sexualidade. Deles, ao contrrio do que faz com os estmulos externos, o organismo no pode esquivar-se; 
no pode empregar a Q deles para a fuga do estmulo. Eles cessam apenas mediante certas condies, que devem ser realizadas no mundo externo. (Cf., por exemplo, 
a necessidade de nutrio.) Para efetuar essa ao (que merece ser qualificada de "especfica"), requer-se um esforo que seja independente da Q endgena e, em geral, 
maior, j que o indivduo se acha sujeito a condies que podem ser descritas como as exigncias da vida. Em conseqncia, o sistema nervoso  obrigado a abandonar 
sua tendncia original  inrcia (isto , a reduzir o nvel [da Q a zero). Precisa tolerar [a manuteno de] um acmulo de Q suficiente para satisfazer as exigncias 
de uma ao especfica. Mesmo assim, a maneira como realiza isso demonstra que a mesma tendncia persiste, modificada pelo empenho de ao menos manter a Q no mais 
baixo nvel possvel e de se resguardar contra qualquer aumento da mesma - ou seja, mant-la constante. Todas as funes do sistema nervoso podem ser compreendidas 
sob o aspecto das funes primria ou secundria impostas pelas exigncias da vida.
          
           [2] (B) SEGUNDO TEOREMA PRINCIPAL: A TEORIA DO NEURNIO
          
           A idia de combinar esse teoria da Q com o conhecimento dos neurnios, estabelecido pela histologia contempornea, constitui o segundo pilar desta tese. 
A essncia dessas novas descobertas  que o sistema nervoso se compe de neurnios distintos e construdos de forma similar, que esto em contacto recproco por 
meio de uma substncia estranha, que terminam uns sobre os outros como fazem sobre pores de tecido estranho, [e] nos quais se acham estabelecidas determinadas 
vias de conduo, no sentido de que eles [os neurnios] recebem [excitaes] atravs dos processos celulares [dendritos] e [deles se descarregam] atravs de um cilindro 
axial [axnio]. Alm disso, possuem inmeras ramificaes de vrios calibres.
           Se combinarmos essa descrio dos neurnios com a concepo da teoria da Q, chegaremos  noo de um neurnio catexizado, cheio de determinada Q, ao passo 
que, em outras circunstncias, ele pode estar vazio. O princpio da inrcia [em [1]] encontra expresso na hiptese de uma corrente que parte das vias de conduo 
ou processos celulares [dendritos] em direo ao cilindro axial. Cada neurnio isolado , assim, um modelo de todo o sistema nervoso, com sua dicotomia de estrutura, 
sendo o cilindro axial o rgo de descarga. A funo secundria [do sistema nervoso], porm, que requer a acumulao da Q [em [1]], torna-se possvel ao se admitir 
que existam resistncias opostas  descarga; e a estrutura dos neurnios torna provvel a localizao de todas as resistncias nos contactos [entre os neurnios], 
que desse modo funcionariam como barreiras. A hiptese de barreiras de contacto  frutfera em vrios sentidos. [1]
          
          
          
           [3] AS BARREIRAS DO CONTACTO
          
           A primeira justificativa para essa hiptese resulta da considerao de que a via de conduo passa, a essa altura, atravs do protoplasma indiferenciado, 
e no (como se d afora isso, dentro do neurnio) atravs do protoplasma diferenciado, que provavelmente se adapta melhor  conduo. Isso faz sugerir que a capacidade 
de conduo esteja ligada  diferenciao, de modo que se pode esperar que o prprio processo de conduo criar uma diferenciao no protoplasma e, com isso, uma 
melhor capacidade condutora para a conduo subseqente.
           
           Alm disso, a teoria das barreiras de contacto pode resultar nas seguintes vantagens. Uma das principais caractersticas do tecido nervoso  a memria; 
isto , em termos muito gerais, a capacidade de ser permanentemente alterado por simples ocorrncias - caracterstica que contrasta to flagrantemente com o modo 
de ao de uma matria que permita a passagem de um movimento ondulatrio, para logo voltar a seu estado primitivo. Uma teoria psicolgica digna de considerao 
precisa fornecer uma explicao para a "memria". Ora, qualquer explicao dessa espcie se depara com a dificuldade de admitir, por um lado, que, depois de cessar 
a excitao, os neurnios fiquem permanentemente modificados em relao a seu estado anterior, ao passo que, por outro lado, no se pode negar que as novas excitaes, 
em geral, encontrem as mesmas condies de recepo que encontraram as excitaes precedentes. Desse modo, parece que os neurnios teriam que ser ao mesmo tempo, 
indiferenciadamente, influenciados e inalterados. No se pode imaginar, de improviso, um aparelho capaz de funcionamento to complicado; a soluo, portanto, consiste 
em atribuir a uma classe de neurnios a caracterstica de ser permanentemente influenciada pela excitao, ao passo que a imutabilidade - a caracterstica de estar 
livre para excitaes inditas - corresponderia a outra classe. Da surgir a atual distino entre "clulas perceptuais" e "clulas mnmicas" - distino, porm, 
que no se aplica a nenhum outro contexto, e nada pode recorrer a seu favor.
           A teoria das barreiras de contacto, se adota essa soluo, pode ser expressa nos termos que se seguem. H duas classes de neurnios: [1] os que deixam 
passar a Q como se no tivessem barreiras de contacto e que, da mesma forma, depois de cada passagem de excitao permanecem no mesmo estado anterior, e (2) aqueles 
cujas barreiras de contacto se fazem sentir, de modo que s permitem a passagem da Q com dificuldade ou parcialmente. Os dessa ltima classe podem, depois de cada 
excitao, ficar num estado diferente do anterior, fornecendo assim uma possibilidade de representar a memria.
           Assim, existem neurnios permeveis (que no oferecem resistncia e nada retm), destinados  percepo, e impermeveis (dotados de resistncia e retentivos 
de Q), que so portadores da memria e, com isso, provavelmente tambm dos processos psquicos em geral. Daqui por diante chamarei ao primeiro sistema de neurnios 
de  e, ao segundo, de .
           Seria conveniente agora esclarecer quais as suposies acerca dos neurnios  que so imprescindveis para abranger as caractersticas mais gerais da memria. 
O argumento  o seguinte. Esses neurnios ficam permanentemente alterados pela passagem de uma excitao. Se introduzirmos a teoria das barreiras de contacto: as 
barreiras de contacto deles ficam em estado permanentemente alterado. E como o conhecimento psico[lgico] demonstra a existncia de algo assim como um re-aprender 
baseado na memria, essa alterao deve consistir em tornar as barreiras de contacto mais capazes de conduo, menos impermeveis e, assim, mais semelhantes s do 
sistema . Descreveremos esse estado das barreiras de contacto como grau de facilitao [Bahnung]. Pode-se ento dizer: a memria est representada pelas facilitaes 
existentes entre os neurnios .
           Suponhamos que todas as barreiras de contacto  estejam igualmente facilitadas ou (o que vem a dar no mesmo) ofeream resistncia idntica; nesse caso, 
evidentemente, as caractersticas da memria no emergiriam. Pois, em relao  passagem da excitao, a memria  evidentemente uma das foras determinantes e orientadoras 
de sua direo, e, se a facilitao fosse idntica em todos os sentidos, no seria possvel explicar por que motivo uma via teria preferncia sobre outra. Por isso, 
pode-se dizer de maneira ainda mais correta que a memria est representada pelas diferenas nas facilitaes entre os neurnios .
           De que depende, ento a facilitao nos neurnios ? Segundo o conhecimento psico[lgico], a memria de uma experincia (isto , sua fora eficaz contnua) 
depende de um fator que se pode chamar de magnitude da impresso e da freqncia com que a mesma impresso se repete. Traduzido em teoria: a facilitao depende 
da Q que passa pelo neurnio no processo excitativo) e do nmero de vezes em que esse processo se repete. Da se v, portanto, que Q  o fator operativo e que a 
quantidade mais a facilitao que resultam de Q so ao mesmo tempo algo capaz de substituir Q.
           Somos, aqui, quase involuntariamente obrigados a recordar que a tendncia do sistema nervoso, mantida durante cada modificao,  a de evitar que ele 
fique carregado de Q ou a de reduzir a carga ao mnimo possvel. Sob a presso das exigncias da vida, o sistema nervoso se viu forado a guardar uma reserva de 
Q [em [1]]. Para esse fim, teve de aumentar o nmero de seus neurnios, que precisaram ser impermeveis. Agora evita, pelo menos em parte, ficar cheio de Q (catexia), 
recorrendo a facilitaes. Verifica-se, pois, que as facilitaes servem  funo primria. [do sistema nervoso].
           A necessidade de encontrar um lugar para a memria requer algo um pouco  parte da teoria das barreiras de contacto.  preciso que a cada neurnio  correspondam, 
em geral, diversas vias de conexo com outros neurnios - isto , de vrias barreiras de contacto. Disso depende, com efeito, a possibilidade da escolha determinada 
pela facilitao [em [1]]. Isto posto, torna-se bastante evidente que o estado de facilitao de cada barreira de contacto deve ser independente do de todas as demais 
barreiras do mesmo neurnio , do contrrio no haveria de novo nenhuma preferncia, ou seja, nenhuma motivao. Da pode-se tirar uma concluso negativa a respeito 
da natureza do estado "facilitado". Se imaginarmos um neurnio cheio de Q - isto , catexizado - s poderemos supor que essa Q [sic] esteja distribuda uniformemente 
por todas as regies do neurnio e, portanto, tambm por todas as suas barreiras de contacto. Por outro lado, no h dificuldade em imaginar que, no caso de Q em 
estado fluente, seja tomada apenas uma via particular atravs do neurnio; de modo que somente uma de suas barreiras de contacto fique sujeita  ao da Q fluente 
e depois conserve a facilitao que esta lhe proporciona. Por conseguinte, a facilitao no pode basear-se numa catexia que permanea retida, pois isso no produziria 
as diferenas de facilitao nas barreiras de contacto de um mesmo neurnio.
           Resta observar em que consiste, alm disso, a facilitao. Uma primeira idia poderia ser: na absoro da Q pelas barreiras de contacto. Ser, talvez, 
esclarecido mais tarde. [Cf. em. [1]] A Q que deixou para trs a facilitao , sem dvida, descarregada - precisamente em conseqncia da facilitao, que, com 
efeito, aumenta a permeabilidade. Alm disso, no  imprescindvel o caso em que a facilitao que persiste depois de uma passagem de Q seja maior, como deveria 
ser durante a passagem. [Ver  em [1].]  possvel que apenas subsista uma frao dela como facilitao permanente. Da mesma forma, por enquanto ainda  impossvel 
determinar se uma nica passagem de Q:3  equivalente a trs passagens de uma Q. Tudo isso ter que ser levado em considerao  luz das aplicaes posteriores da 
teoria aos fatos psquicos.
          
           [4] O PONTO DE VISTA BIOLGICO
          
           A hiptese de haver dois sistemas de neurnios,  e , o primeiro formado por elementos permeveis e o segundo por impermeveis, parece fornecer a explicao 
para uma das peculiaridades do sistema nervoso- a de reter e, ainda assim, permanecer capaz de receber [em [1]]. Toda aquisio psquica, neste caso, consistiria 
na organizao do sistema  por suspenses parcial e localmente determinadas da resistncia nas barreiras de contacto, que diferencia  de . Com o progresso dessa 
organizao, a capacidade do sistema nervoso para novas recepes chegaria, literalmente, a uma barreira.
           Contudo, quem se dedica  construo de hipteses cientficas s pode comear a levar suas teorias a srio se elas se adaptam em mais de uma direo ao 
nosso conhecimento, e se a arbitrariedade de uma constrictio ad hoc pode ser mitigada em relao a elas. Contra nossa hiptese das barreiras de contacto, poder-se-ia 
objetar que ela pressupe duas classes de neurnios, uma diferena fundamental em suas condies de funcionamento, embora, por ora, no exista outra base de diferenciao. 
Seja como for, do ponto de vista morfolgico (isto , histopatolgico), nada se conhece que corrobore a distino.
           
           Onde situar, ento, essa diviso em duas classes? Se possvel, no desenvolvimento biolgico do sistema nervoso, que, como tudo mais, no entender dos cientistas 
naturais,  algo que se formou gradativamente. Gostaramos de saber se as duas classes de neurnios podem ter tido significao biolgica diferente e, nesse caso, 
graas a que mecanismo teriam desenvolvido caractersticas to diversas como a permeabilidade e a impermeabilidade. O mais satisfatrio, naturalmente, seria que 
o prprio mecanismo que estamos procurando surgisse da funo biolgica primitiva desempenhada [pelas duas classes]; nesse caso, teramos uma s resposta para as 
duas perguntas.
           Lembremos, portanto, que desde o incio o sistema nervoso teve duas funes: a recepo do estmulo vindo de fora e a descarga de excitaes de origem 
endgena [em [1]]. A rigor, foi desta ltima obrigao que, devido s exigncias da vida, fez surgir a necessidade de um desenvolvimento biolgico posterior [em 
[1]]. Poder-se-ia supor, ento, que nossos sistemas de  e  tenham realmente sido os que assumiriam, cada qual, uma dessas obrigaes primrias. O sistema  seria 
o grupo de neurnios atingido pelos estmulos externos, enquanto o sistema  conteria os neurnios que recebem as excitaes endgenas. Em tal caso no teramos inventado 
as duas [classes],  e , e sim descoberto o que j existia. Ainda falta identific-las com algo que j conhecemos. De fato, a anatomia nos ensina que existe um sistema 
de neurnios (a massa cinzenta da medula espinhal) que  o nico a estar em contacto com o mundo externo, e um sistema superposto (a massa cinzenta do crebro) que 
no tem ligaes perifricas, mas ao qual esto relacionados o desenvolvimento do sistema nervoso e as funes psquicas. O crebro primitivo se enquadra bastante 
bem na nossa caracterizao do sistema , caso possamos admitir que o crebro tem vias de conexo diretas e independentes de  com o interior do corpo. Ora, os anatomistas 
desconhecem a origem e o significado biolgico original do crebro primitivo; segundo a nossa teoria, tratar-se-ia, em termos simples, de um gnglio simptico. Eis 
aqui a primeira possibilidade de verificar nossa teoria com o material fatual.
           Provisoriamente, consideraremos o sistema  como identificado com a massa cinzenta do crebro. Agora se compreende facilmente, partindo de nossos comentrios 
biolgicos iniciais [em [1]], que  justamente  que deve estar sujeito a um desenvolvimento posterior pela multiplicao de seus neurnios e pela acumulao de Q. 
E agora se compreende como  conveniente que  se constitua de neurnios impermeveis, pois, do contrrio, ele no poderia atender os requisitos da ao especfica 
[em [1]]. Mas como foi que  adquiriu a caracterstica de impermeabilidade? Afinal de contas,  tambm tem barreiras de contacto; se elas no desempenham funo alguma, 
por que as de  haveriam de desempenh-las? Atribuir que exista uma diferena fundamental entre a valncia das barreiras de contacto de  e as de  teria, mais uma 
vez, um lamentvel toque de arbitrariedade [cf. pg. [1]], embora fosse possvel seguir uma linha de pensamento darwiniano e apelar para o fato de que os neurnios 
impermeveis so imprescindveis e, por conseguinte, tm que subsistir.
           H outra soluo que parece mais frutfera e mais modesta. Convm recordar que as barreiras de contacto dos neurnios , no fim, tambm ficam sujeitas 
 facilitao e que  Q que as facilita [em [1]]. Quanto maior for Q na passagem das excitaes, tanto maior ser a facilitao: isso implica, porm, que tanto maior 
ser a aproximao das caractersticas nos neurnios  [em [1]]. Atribuamos, pois, as diferenas no aos neurnios, mas s quantidades com que eles tm de lidar. 
Deve-se ento supor que pelos neurnios  passam quantidades contra as quais a resistncia das barreiras de contacto  praticamente nula, ao passo que aos neurnios 
s chegam quantidades da mesma ordem de magnitude que essa resistncia. Nesse caso, um neurnio  se tornaria impermevel e um neurnio , permevel - se pudssemos 
trocar sua localizao e suas conexes; eles, porm, conservam as suas caractersticas, pois o neurnio  est ligado apenas  periferia, e o , apenas  parte inferior 
do corpo. A diferena na essncia de ambos  substituda por uma diferena na ambincia a que esto destinados.
           Agora, entretanto, teremos que examinar o nosso pressuposto de que as quantidades de estmulo que chegam aos neurnios, procedendo da periferia externa, 
so de ordem superior s que chegam da periferia interna do corpo. Existem, de fato, muitos argumentos a favor desse pressuposto.
           Em primeiro lugar, no resta dvida de que o mundo externo constitui a fonte de todas as grandes quantidades de energia, pois, segundo as descobertas 
da fsica, ele consiste em poderosas massas que esto em movimento violento e que esse movimento  transmitido pelas ditas massas. O sistema  , orientado para esse 
mundo externo, ter a misso de descarregar com a maior rapidez possvel as Qs que penetram nos neurnios, mas, de qualquer maneira, ficar exposto aos efeitos das 
Qs maiores.
           Para melhor conhecimento nosso, o sistema  est fora de contacto com o mundo externo; recebe apenas Q, por um lado, dos prprios neurnios  e, por outro, 
dos elementos celulares no interior do corpo, tratando-se agora de determinar a probabilidade de que essas quantidades de estmulo sejam de ordem de magnitude comparativamente 
baixa. primeira vista, talvez parea perturbador que devamos atribuir aos neurnios  duas fontes de estmulo to diversas como  e as clulas do interior do corpo; 
mas  justamente aqui que recebemos o apoio decisivo da recente histologia do sistema nervoso. Isso mostra que a terminao de um neurnio e a conexo entre os neurnios 
so constitudas da mesma forma e que os neurnios terminam uns nos outros do mesmo modo que os elementos somticos [cf. em [1]]; provavelmente, o carter funcional 
de ambos os processos tambm  do mesmo tipo.  provvel que as extremidades nervosas e no caso da conduo intercelular sejam manejadas quantidades semelhantes. 
Tambm se pode esperar que os estmulos endgenos pertenam a essa mesma ordem de magnitude intercelular. A propsito, eis aqui a segunda oportunidade para verificar 
nossa teoria [pg. [1]].
          
           [5] O PROBLEMA DA QUANTIDADE
          
           Nada sei a respeito da magnitude absoluta dos estmulos intercelulares; mas me aventurarei a admitir que eles sejam de uma ordem de magnitude relativamente 
pequena e idntica  das resistncias das barreiras de contacto. Se for assim, isso  facilmente compreensvel. Esse pressuposto resguardaria a identidade essencial 
entre os neurnios  e , e explicaria biolgica e mecanicamente sua diferena no que tange  permeabilidade.
           Aqui h falta de prova; mais interessante so certas perspectivas e concepes que surgem desse pressuposto. Em primeiro lugar, se tivermos formado uma 
impresso correta da magnitude das Qs no mundo externo, perguntar-nos-emos se, afinal de contas, a tendncia original do sistema nervoso de manter a Q [no nvel] 
zero [em [1] e [2]] se satisfaz com a descarga rpida - se ela j no atua durante a recepo dos estmulos. Verificamos, com efeito, que os neurnios  no terminam 
livremente na periferia [isto , sem protees], mas em estruturas celulares que recebem o estmulo exgeno em seu lugar. Esses "aparelhos nervosos terminais", [usando 
o termo] no sentido mais amplo, bem poderiam ter a finalidade de no permitir que as Qs exgenas incidissem com o mximo de intensidade sobre , mas sim a de atenu-las. 
Exerceriam, ento, a funo de telas de Q, que s deixariam passar fraes de Qs exgenas.
           Isso confirmaria o fato de que o outro tipo de terminaes nervosas, as livres, sem rgos terminais, seja muito mais comum na periferia interna do corpo. 
Ali, as telas de Q no parecem ser necessrias, provavelmente porque as Qs que tm de ser recebidas ali no precisam ser reduzidas antes ao nvel intercelular, por 
j se encontrarem nele desde o incio.
           Uma vez que  possvel calcular as Qs recebidas pelas terminaes dos neurnios , isso talvez nos fornea um meio de formar alguma idia das magnitudes 
que passam entre os neurnios , que, como sabemos, so do mesmo tipo de resistncia que as barreiras de contacto [em [1]].
           Aqui, alm disso, vislumbra-se uma tendncia que bem poderia reger a construo do sistema nervoso a partir de diversos sistemas: uma tendncia cada vez 
maior a manter a Q afastada dos neurnios. Desse modo, a estrutura do sistema nervoso serviria  finalidade de afastar a Q dos neurnios e sua funo seria a de 
descarreg-la.
          
           [6] A DOR
          
           Todos os dispositivos de natureza biolgica tm limite de eficincia e falham quando um limite  ultrapassado. Essa falha se manifesta em fenmenos quase 
patolgicos - que poderiam ser descritos como prottipos normais do patolgico. J vimos que o sistema nervoso est constitudo de tal maneira que as grandes Qs 
externas ficam afastadas de  e mais ainda de : [pelas] telas de terminao nervosa, [e pela] conexo meramente indireta entre  e o mundo externo. Existe algum fenmeno 
que possa ser interpretado como o equivalente da falha desses dispositivos? A meu ver, existe: a dor.
           Tudo o que sabemos a respeito da dor se enquadra nisso. O sistema nervoso tem a mais decidida propenso a fugir da dor. Vemos nisso uma manifestao da 
tendncia primria contra o aumento da tenso Q e inferimos que a dor consiste na irrupo de grandes Qs em . As duas tendncias ficam, nesse caso, reduzidas a uma 
s. A dor aciona tanto o sistema  como o , no h nenhum obstculo  sua conduo, e ela  o mais imperativo de todos os processos. Os neurnios  parecem, pois, 
permeveis a ela; portanto, a dor consiste na ao de Qs de ordem comparativamente elevada.
           As causas precipitadoras da dor so, por um lado, o aumento de quantidade: toda excitao sensorial, mesmo a dos rgos superiores dos sentidos, tende 
a se transformar em dor  medida que o estmulo aumenta. Isso deve ser interpretado, sem hesitao, como uma falha [do dispositivo]. Por outro lado, a dor se manifesta 
quando a quantidade externa  pequena, e, nesses casos, aparece sempre vinculada a uma interrupo da continuidade: isto , uma Q externa que atua diretamente sobre 
as terminaes dos neurnios , e no atravs dos aparelhos de terminaes nervosas, produz a dor. A dor fica assim caracterizada como uma irrupo de Qs excessivamente 
[de magnitude] ainda maior que a dos estmulos .
            fcil compreender o fato de que a dor passa por todas as vias de descarga. Com base em nossa teoria de que Q produz facilitao [em [1]], a dor sem 
dvida deixa facilitaes permanentes atrs de si em  - como se tivesse sido atingida por um raio -, facilitaes estas que possivelmente derrubam por completo a 
resistncia das barreiras de contacto e ali estabelecem uma via de comunicao como as que existem em .
           
           [7] O PROBLEMA DA QUALIDADE
          
           At aqui nada se disse sobre o fato de que toda teoria psicolgica, independentemente do que se realiza do ponto de vista da cincia natural, precisa 
satisfazer mais um requisito fundamental. Ela tem de nos explicar tudo o que j conhecemos, da maneira mais enigmtica, atravs de nossa "conscincia"; e, uma vez 
que essa conscincia nada sabe do que at agora vimos pressupondo - quantidades e neurnios -, tambm ter de nos explicar essa falta de conhecimento.
           Imediatamente passamos a compreender um postulado que nos tem orientado at aqui. Estivemos tratando os processos psquicos como algo que pode prescindir 
dessa percepo da conscincia, como algo que existe independentemente dela. Estamos preparados para constatar que alguns de nossos pressupostos no so confirmados 
pela conscincia. Se no nos deixarmos confundir por causa disso, verificaremos, a partir do postulado de que a conscincia no nos fornece conhecimentos completos 
nem fidedignos sobre os processos neuronais, que estes devem ser considerados em sua totalidade, antes de mais nada, como inconscientes, e que devem ser inferidos 
como os demais fenmenos naturais.
           Nesse caso, porm,  preciso encontrar um lugar para contedo da conscincia em nossos processos?? quantitativos. A conscincia nos d o que se convencionou 
chamar de qualidades - sensaes que so diferentes numa ampla gama de variedades e cuja diferena se discerne conforme suas relaes com o mundo externo. Nessa 
diferena existem sries, semelhanas etc., mas, na realidade, ela no contm nada de quantitativo. Pode-se perguntar como se originam as qualidades e onde. Trata-se 
de perguntas que exigem um exame extremamente atento e que aqui s pode ser abordado superficialmente.
           Onde se originam as qualidades? No no mundo externo. Pois l, segundo o parecer da nossa cincia natural,  qual tambm devemos submeter a psicologia 
aqui [no Projeto], s existem massas em movimento e nada mais. Quem sabe no se originam no sistema ? Isso estaria de acordo com o fato de as qualidades estarem 
vinculadas  percepo, mas entra em contradio com tudo o que, com justa razo, fala em favor da localizao da conscincia nos nveis mais altos do sistema nervoso. 
Quem sabe, ento, no sistema??? Contra essa hiptese, porm, h uma forte objeo. Os sistemas???e?? atuam conjuntamente na percepo; mas existe um processo psquico 
que  sem dvida efetuado exclusivamente em?? - a reproduo ou recordao -, e este , falando em termos gerais, desprovido de qualidade. De norma [normalmente], 
a recordao no produz nada que possua o carter peculiar da qualidade perceptual. Assim reunimos nimo suficiente para presumir que haja um terceiro sistema de 
neurnios - , talvez [pudssemos cham-lo] - que  excitado junto com a percepo, mas no com a reproduo, e cujos estados de excitao produzem as diversas qualidades 
- ou seja, so sensaes conscientes.
           Se nos ativermos com firmeza ao fato de que nossa conscincia fornece apenas qualidades, ao passo que a cincia reconhece apenas quantidades, emerge, 
como que por regra de trs, uma caracterizao dos neurnios . Porque, enquanto a cincia se imps a tarefa de reduzir todas as quantidades de nossas sensaes a 
quantidades externas,  esperado, para a estrutura do sistema nervoso, que ela se constitua de instrumentos destinados a converter a quantidade externa em qualidade; 
e aqui triunfaria mais uma vez a tendncia original a afastar a quantidade [em [1]]. Os dispositivos das terminaes nervosas constituiriam uma tela destinada a 
permitir que apenas algumas fraes de quantidade externa agissem sobre ?? ao passo que ?? ao mesmo tempo, efetuaria a descarga bruta da quantidade. O sistema?? 
j estava protegido contra as qualidades de ordem maior e s diria respeito s magnitudes intercelulares. Indo ainda mais longe, pode-se presumir que o sistema???seja 
movido por quantidades ainda mais reduzidas. Ao que parece, a caracterstica da qualidade (ou seja, sensao consciente) s se manifesta quando as quantidades so 
to excludas quanto possvel. No se pode elimin-las por completo, pois os neurnios???tambm devem ser concebidos como catexizados com Q e se esforando para 
conseguir a descarga. [1]
           A esta altura, porm, deparamo-nos com uma dificuldade aparentemente intrasponvel. J vimos [em [1]-[2]] que a permeabilidade depende do efeito da Q 
e que os neurnios  j so impermeveis. Com uma Q ainda mais reduzida, os neurnios  teriam que ser ainda mais impermeveis. Mas essa  uma caracterstica que no 
podemos atribuir aos veculos da conscincia. A mutabilidade de seu contedo, a transitoriedade da conscincia, a fcil combinao de qualidades simultaneamente 
percebidas - tudo isso s  compatvel com uma completa permeabilidade dos neurnios , junto com uma total restitutio in integrum [restaurao do estado anterior 
deles]. Os neurnios  se comportam como rgos de percepo e neles no encontramos nenhum lugar para a memria [em [1]]. A permeabilidade arremata a facilitao, 
que no provm da quantidade. De onde mais [pode ela provir]?
           S vejo uma sada para essa dificuldade: uma reviso de nossa hiptese fundamental sobre a passagem de Q. At o momento, s a considerei como uma transferncia 
de Q de um neurnio para outro. Mas ela deve ter mais outra caraterstica, de natureza temporal; pois a mecnica dos fsicos tambm atribuiu essa caracterstica 
temporal aos outros movimentos de massas no mundo externo. Para abreviar, designarei essa caracterstica como o perodo. Assim, presumirei que toda a resistncia 
das barreiras de contacto se aplica somente  transferncia de Q, mas que o perodo do movimento neuronal  transmitido a todas as direes sem inibio, como se 
fosse um processo de induo.
           Aqui, muito resta a ser feito no sentido do esclarecimento fsico, pois as leis gerais do movimento tambm devem ser aplicadas aqui sem contradies. 
A hiptese, porm, vai mais longe [e presume] que os neurnios???sejam incapazes de receber Q, mas que, em compensao, se apropriem do perodo de excitao, e que 
nesse estado de serem afetados por um perodo enquanto so enchidas de um mnimo de Q constitui a base fundamental da conscincia.  claro que os neurnios?? tambm 
possuem o seu perodo; mas ele  desprovido de qualidade ou, mais corretamente, montono. Os desvios desse perodo psquico que lhes  especfico chegam  conscincia 
como qualidades.
           De onde emanam essas diferenas de perodo? Tudo indica os rgos dos sentidos, cujas qualidades parecem estar representadas precisamente por perodos 
diferentes do movimento neuronal. Os rgos dos sentidos no s funcionam como telas de Q, a exemplo de todos os dispositivos de terminaes nervosas, mas tambm 
como peneiras; pois s deixam passar estmulos provenientes de certos processos de um perodo particular.  provvel que eles ento transfiram essa diferena a , 
por comunicar ao movimento neuronal perodos que diferem de algum modo anlogo (energia especfica); e so essas modificaes que passam atravs de , via , at , 
e a, onde esto quase desprovidos de quantidades, geram sensaes conscientes de qualidades. Essa transmisso da qualidade no  duradoura; no deixa rastro e no 
pode ser reproduzida. [1]
          
           [8] A CONSCINCIA
          
           S mediante essas hipteses to complicadas e pouco bvias  que pude at agora introduzir os fenmenos da conscincia na estrutura da psicologia quantitativa. 
Naturalmente, no se pode tentar explicar como  que os processos excitatrios dos neurnios  levam  conscincia.  apenas uma questo de estabelecer uma coincidncia 
entre as caractersticas da conscincia que conhecemos e os processos nos neurnios???que variam paralelamente a elas. E isso  bem possvel, um tanto detalhadamente.
           Uma observao quanto  relao dessa teoria da conscincia com as demais. Segundo uma avanada teoria mecanicista, a conscincia  um mero apndice aos 
processos fisiolgico-psquicos e sua omisso no acarretaria alterao na passagem psquica [dos acontecimentos]. De acordo com outra teoria, a conscincia  o 
lado subjetivo de todos os eventos psquicos, e  assim inseparvel do processo mental fisiolgico. A teoria aqui elaborada situa-se entre essas duas. A conscincia 
 aqui o lado subjetivo de uma parte dos processos fsicos do sistema nervoso, isto , dos processos ; e a omisso da conscincia no deixa os eventos psquicos 
inalterados, mas acarreta a falta da contribuio de .
           Se representarmos a conscincia por neurnios ?? vrias conseqncias surgiro. Esses neurnios precisam ter uma descarga, por mnima que seja, e deve 
uma maneira de encher os neurnios???com Q na pequena cota requerida.  A descarga, como todas as outras, se efetua na direo da motilidade; e aqui convm notar 
que a transformao em movimento acarreta a perda de qualquer caracterstica qualitativa, de qualquer peculiaridade do perodo. O preenchimento dos neurnios???com 
Q pode, sem dvida, provir somente de , uma vez que no queremos admitir nenhum vnculo direto entre esse terceiro sistema e . No  possvel sugerir qual ter sido 
o valor biolgico dos neurnios .
           At agora, porm, limitamo-nos a descrever o contedo da conscincia de maneira incompleta. Alm da srie de qualidades sensoriais, ela exibe outra muito 
diferente daquela - a srie de sensaes de prazer e desprazer, que agora clama por uma interpretao. J que temos um certo conhecimento de uma tendncia da vida 
psquica a evitar o desprazer, ficamos tentados a identific-la com a tendncia primria  inrcia. Nesse caso, o desprazer teria que ser encarado como coincidente 
com um aumento do nvel de Q ou com um aumento da presso quantitativa: equivaleria  sensao  quando h um aumento da Q em . O prazer corresponderia  sensao 
de descarga. Uma vez que se supe que  [acima] deve ser preenchido a partir de , decorre da a hiptese de que, quando o nvel em  aumenta, a catexia em  se eleva, 
e quando, por outro lado, esse nvel diminui, a catexia cai. O prazer e o desprazer seriam as sensaes correspondentes  prpria catexia de , ao seu prprio nvel; 
e aqui  e  funcionariam, por assim dizer, como vasos comunicantes. Desse modo tambm chegariam  conscincia os processos quantitativos em , mais uma vez como qualidades.
           A capacidade de perceber as qualidades sensoriais que se acham localizadas, por assim dizer, na zona de indiferena entre o prazer o desprazer, desaparece 
ante a [presena da] sensao de prazer e desprazer. Isso se traduziria: os neurnios  mostram uma aptido tima para receber o perodo do movimento neuronal para 
uma determinada [fora de] catexia; quando a catexia  mais intensa, eles produzem desprazer; quando mais fraca, prazer - at que, devido  falta de catexia, sua 
capacidade receptiva se extingue. A forma de movimento correspondente teria que ser construda com base em dados como esses.
           
           [9] O FUNCIONAMENTO DO APARELHO
          
           Agora j  possvel elaborar o seguinte quadro de funcionamento do aparelho constitudo por .
           As cargas de excitao do exterior penetram at as extremidades do sistema . Primeiro esbarram nos dispositivos de terminaes nervosas, que as fragmentam 
em fraes cuja ordem de magnitude  provavelmente superior  dos estmulos intercelulares (quem sabe no pertenceriam, afinal de contas,  mesma ordem?). Aqui nos 
deparamos com um primeiro limiar: abaixo de determinada quantidade no se pode constituir nenhuma frao eficaz, de modo que a capacidade efetiva dos estmulos fica, 
at certo ponto, limitada s quantidades mdias. Alm disso, a natureza dos invlucros das extremidades nervosas atua como uma peneira, de maneira que nem todo tipo 
de estmulo pode operar nos diversos pontos terminais. Os estmulos que realmente chegam aos neurnios  possuem uma quantidade e uma caracterstica qualitativa; 
no mundo externo, formam uma srie da mesma qualidade e de uma quantidade que vai desde o limiar at o limite da dor.
           Enquanto, no mundo externo, os processos exibem uma sucesso contnua em duas direes, segundo a quantidade e o perodo (qualidade), os estmulos correspondentes 
[aos processos] ficam, no que diz respeito  quantidade, em primeiro lugar reduzidos e, em segundo, limitados em virtude de uma exciso, e, no que diz respeito  
qualidade, ficam descontnuos, de modo que certos perodos nem sequer atuam como estmulos. [Fig. 12.]
           
           
           Fig. 12
           
           A caracterstica qualitativa dos estmulos se propaga ento sem empecilhos por , por meio de  para , onde produz sensao;  representada porum perodo 
particular do movimento neuronal, que certamente no  o mesmo do estmulo, mas tem uma determinada relao com ele, segundo uma frmula de reduo que desconhecemos. 
Esse perodo no persiste por muito tempo e desaparece em direo ao lado motor; e, como pode passar sem dificuldade, tampouco deixa qualquer lembrana em seu rastro.
           A quantidade do estmulo  excita a tendncia do sistema nervoso  descarga, transformando-se numa excitao motora proporcional. O aparelho da motilidade 
est diretamente ligado a . As quantidades assim traduzidas produzem um efeito que lhes  quantitativamente muito superior, penetrando nos msculos, glndulas etc. 
- atuando ali, ou seja, por uma liberao [da quantidade], ao passo que entre os neurnios s ocorre uma transferncia.
           Alm disso, nos neurnios  terminam os neurnios . Para estes ltimos  transferida uma parte da Q, mas apenas uma parte - uma frao, talvez, correspondente 
 magnitude de um estmulo intercelular. A essa altura pode-se perguntar se a Q transferida para  no aumenta em proporo  Q que passa para , de modo tal que um 
estmulo maior produza um efeito psquico mais forte. Aqui parece manifestar-se um dispositivo especial, que mais uma vez mantm a Q afastada de . Pois a via sensorial 
de conduo em  possui uma estrutura peculiar. Ela se ramifica continuamente e apresenta vias de espessura varivel que vo desembocar em numerosos pontos terminais 
- provavelmente, com o significado seguinte: um estmulo mais forte segue uma via diferente de um mais fraco. [Cf. Fig. 13.] 
           
           
           Fig. 13
           
           Por exemplo, [1] Q percorre unicamente a via I e, no ponto terminal , transmitir uma frao a . 2 (Q) no transmitir uma frao dupla em a, mas poder 
passar tambm pela via II, que  mais estreita, e abrir outro ponto terminal para  [em b]. 3 (Q) abrir a via mais estreita [III] e a transmitir tambm por .  
assim que a via nica de  fica aliviada de sua carga; a maior quantidade em  ser expressa pelo fato de ele catexizar vrios neurnios em  em vez de um s. As diferentes 
catexias dos neurnios  podem, nesse caso, ser mais ou menos iguais. Se a Q em  produzir uma catexia em , 3 (Q) se expressar por uma catexia em 1 + 2 + 3. Logo, 
uma quantidade em  se expressa por um enredo em . Por meio disso, a Q fica afastada de , ao menos dentro de certos limites. Isso lembra muito as condies impostas 
pela lei de Fechner, que poderiam ser localizadas.
           Desse modo, y  catexizado a partir de f em Qs que so normalmente pequenas. A quantidade da excitao de f se expressa em y por enredamento; sua qualidade 
se expressa topograficamente, uma vez que, segundo suas relaes anatmicas, os  diferentes rgos sensoriais s se comunicam atravs de f com determinados neurnios 
y. Mas y tambm recebe catexia do interior do corpo; e  provvel que os neurnios y devam ser divididos em dois grupos: os neurnios de pallium, que so catexizados 
a partir de f, e os neurnios nucleares, catexizados a partir das vias endgenas de conduo.
           
        [10] As Vias de Conduo de y
          
          O ncleo de  est em conexo com as vias pelas quais ascendem as quantidades endgenas de excitao. Sem excluir a possibilidade de que essas vias estejam 
em conexo com , devemos continuar sustentando nosso pressuposto inicial de que h uma via direta que parte do interior do corpo at chegar aos neurnios  [em [1]-[2]]. 
Se  assim, porm,  est exposto, sem proteo, s Qs provenientes dessa direo, e nesse fato se assenta a mola mestra do mecanismo psquico.
          O que sabemos a respeito dos estmulos endgenos se pode expressar no pressuposto de que eles so de natureza intercelular, que se produzem de forma contnua 
e que s periodicamente se transformam em estmulos psquicos. A idia de sua acumulao  inevitvel; e o carter intermitente de seu efeito psquico exige a idia 
de que, em sua via de conduo at y, eles enfrentam resistncias s superadas quando h um aumento da quantidade. As vias de conduo, portanto, so compostas de 
segmentos mltiplos, tendo uma srie de barreiras de contacto intercaladas at chegar ao ncleo de y. Acima de determinada Q, porm, elas [as excitaes endgenas] 
atuam continuamente como um estmulo, e cada aumento de Q  percebido como um aumento do estmulo y. Isso implica, ento, a existncia de um estado em que a via 
de conduo torna a recuperar sua resistncia.
          Um processo desse tipo se denomina soma. As vias de conduo y se enchem por soma at ficarem permeveis.  evidente que o que permite a soma  a pequenez 
de cada estmulo. Comprovou-se tambm que a soma ocorre nas vias de conduo f - por exemplo, no caso de conduo da dor; ali s se aplica para pequenas quantidades. 
O papel menor desempenhado pela soma no lado  fala a favor da impresso de que ali estamos lidando, de fato, com Qs relativamente grandes. As muito pequenas parecem 
ser afastadas pelo funcionamento dos aparelhos de terminaes nervosas como um limiar [em [1]], ao passo que esses [aparelhos] esto ausentes no lado y e ali s 
atuam Qs pequenas.
            muito digno de nota o fato de que a conduo dos neurnios y consiga manter uma posio entre as caractersticas da permeabilidade e da impermeabilidade, 
de vez que recuperam sua resistncia quase por completo,apesar da passagem de Q. Isso contradiz totalmente a propriedade que atribumos aos neurnios y, de ficarem 
permanentemente facilitados pela passagem de uma corrente de Q [em [1]-[2]]. Como explicar essa contradio?
          Admitindo que a restaurao da resistncia, depois da passagem de uma corrente,  uma caracterstica geral das barreiras de contacto. Se assim for, no 
haver muita dificuldade em conciliar isso com o fato de que os neurnios y so influenciados [pela passagem da quantidade] no sentido da facilitao. Precisamos 
apenas supor que a facilitao restante aps a passagem da Q consiste, no na supresso de toda e qualquer resistncia, mas em sua reduo a um mnimo remanescente 
necessrio. Durante a passagem da Q, a resistncia fica suspensa; depois ela se restabelece, mas em vrios nveis, em proporo  Q que passou por ela, de maneira 
que, na vez seguinte, uma Q menor j conseguir passar, e assim por diante. Quando se estabelece a facilitao mais completa, ainda resta uma certa resistncia, 
que  igual para todas as barreiras de contacto e que tambm requer o aumento das Qs at um determinado limiar antes de permitir sua passagem. Essa resistncia seria 
uma constante. Por conseguinte, o fato de que as Qs endgenas atuam por soma apenas significa que essas Qs so constitudas de parcelas de excitao mnimas, menores 
que a constante. A via endgena de conduo est, portanto, e apesar disso, completamente facilitada.
          Disso se conclui, porm, que as barreiras de contacto y so, em geral, mais altas do que as vias [endgenas] de conduo, de modo que nos neurnios nucleares 
possa produzir-se uma nova acumulao de Q. [Cf. em [1]-[2]] No momento em que a via de conduo  re-ajustada, nenhum limite adicional  fixado para essa soma. 
Aqui, y est  merc de Q, e  assim que surge no interior do sistema o impulso que sustenta toda a atividade psquica. [Cf. em [1]-[2]] Conhecemos essa fora como 
vontade - o derivado das pulses. [Cf. em [1], adiante.]
          
           [11] A EXPERINCIA DE SATISFAO
          
          O enchimento dos neurnios nucleares em y ter como resultado uma propenso  descarga, uma urgncia que  liberada pela via motora. A experincia demonstra 
que, aqui, a primeira via a ser seguida  a que conduz a alterao interna (expresso das emoes, gritos inervao vascular). Mas, como j explicamos no incio 
[em. [1]], nenhuma descarga pode produzir resultado aliviante, visto que o estmulo endgeno continua a ser recebido e se restabelece a tenso em y. Nesse caso, 
o estmulo s  passvel de ser abolido por meio de uma interveno que suspenda provisoriamente a descarga de Q no interior do corpo; e uma interveno dessa ordem 
requer a alterao no mundo externo (fornecimento de vveres, aproximao do objeto sexual), que, como ao especfica, s pode ser promovida de determinadas maneiras. 
O organismo humano , a princpio, incapaz de promover essa ao especfica. Ela se efetua por ajuda alheia, quando a ateno de uma pessoa experiente  voltada 
para um estado infantil por descarga atravs da via de alterao interna. Essa via de descarga adquire, assim, a importantssima funo secundria da comunicao, 
e o desamparo inicial dos seres humanos  a fonte primordial de todos os motivos morais. [Ver em. [1].]
          Quando a pessoa que ajuda executa o trabalho da ao especfica no mundo externo para o desamparado, este ltimo fica em posio, por meio de dispositivos 
reflexos, de executar imediatamente no interior de seu corpo a atividade necessria para remover o estmulo endgeno. A totalidade do evento constitui ento a experincia 
de satisfao, que tem as conseqncias mais radicais no desenvolvimento das funes do indivduo. Isso porque trs coisas ocorrem no sistema : (1) efetua-se uma 
descarga permanente e, assim, elimina-se a urgncia que causou desprazer em ; (2) produz-se no pallium a catexizao de um (ou de vrios) neurnio que corresponde 
 percepo do objeto; e (3) em outros pontos do pallium chegam as informaes sobre a descarga do movimento reflexo liberado que se segue  ao especfica. Estabelece-se 
ento uma facilitao entre as catexias e os neurnios nucleares.
          
          A informao sobre a descarga reflexa surge porque cada movimento, atravs de seus resultados subsidirios, torna-se uma oportunidade de novas excitaes 
sensoriais (provenientes da pele e dos msculos) que produzem em y uma imagem motora [cinestsica]. A facilitao, no entanto, se forma de uma maneira que nos permite 
uma compreenso mais ampla do desenvolvimento de y. At agora, aprendemos a saber que os neurnios y so influenciados por  e pelas vias de conduo endgena; mas 
os diversos neurnios y ficaram isolados uns dos outros por barreiras de contacto com fortes resistncias. Ora, existe uma lei bsica de associao por simultaneidade, 
que atua no caso da atividade y pura, de lembrana reprodutiva, e que constitui o fundamento de todos os vnculos entre os neurnios y. Ns verificamos que a conscincia 
- isto , a catexia quantitativa de um neurnio ,  - passa para outra, , caso  e  tenham estado, em algum momento, catexizadas simultaneamente a partir da f (ou 
de alguma outra parte). Desse modo, uma barreira de contacto ficou facilitada pela catexia simultnea -. Da se conclui, nos termos da nossa teoria, que uma Q passa 
mais facilmente de um neurnio para um neurnio catexizado do que para um no catexizado. Assim, a catexia do segundo neurnio atua da mesma maneira que um aumento 
de catexia no primeiro. Nesse caso, mais uma vez, a catexia se revela, no que diz respeito  passagem de Q, como equivalente da facilitao. [Cf. em [1]-[2].]
          Aqui, portanto, travamos conhecimento com um segundo fator importante para a determinao do curso que segue uma Q. Uma Q no neurnio a no s tomar a 
direo da barreira mais facilitada, como tambm, a direo que esteja catexizada a partir do lado oposto. Os dois fatores podem reforar-se mutuamente ou, em certos 
casos, antagonizar-se.
          Assim, como resultado da experincia da satisfao, h uma facilitao entre duas imagens mnmicas e os neurnios nucleares que ficam catexizados em estado 
de urgncia. Junto com a descarga de satisfao, no resta dvida de que a Q se esvai tambm das imagens mnmicas. Ora, com o reaparecimento do estado de urgncia 
ou de desejo, a catexia tambm passa para as duas lembranas, reativando-as.  provvel que a imagem mnmica do objeto ser a primeira a ser afetada pela ativao 
do desejo.
          No tenho dvida de que na primeira instncia essa ativao do desejo produz algo idntico a uma percepo - a saber, uma alucinao. Quando uma ao reflexa 
 introduzida em seguida a esta, a conseqncia inevitvel  o desapontamento. [Ver em [1].]
           
           [12] A EXPERINCIA DA DOR 
          
          Normalmente, y est exposto a Q a partir das vias endgenas de conduo, e, anormalmente, embora ainda no patologicamente, nos casos em que Qs excessivamente 
grandes rompem os dispositivos de tela em f - isto , nos casos de dor. [Ver em [1].] A dor produz em  (1) grande aumento de nvel, que  sentido como desprazer 
por  [Ver em [1]], (2) uma propenso  descarga, que pode ser modificada em determinados sentidos, e (3) uma facilitao entre esta ltima [a propenso  descarga] 
e uma imagem mnmica do objeto que provoca a dor. Alm disso, no h dvida de que a dor possui uma qualidade especial, que se faz sentir junto com o desprazer.
          Quando a imagem mnmica do objeto (hostil)  renovadamente catexizada por qualquer razo - por nova percepo, digamos -, surge um estado que no  o da 
dor, mas que, apesar disso, tem certa semelhana com ela. Esse estado inclui o desprazer e a tendncia  descarga que corresponde  experincia da dor. Como o desprazer 
significa aumento de nvel, deve-se perguntar qual a origem dessa Q. Na experincia da dor propriamente dita, era a Q externa irruptora que elevava o nvel de y. 
Na reproduo da experincia - no afeto - a nica Q adicional  a que catexiza a lembrana, sendo evidente que esta  da mesma natureza de qualquer outra percepo 
e no pode ter como resultado o aumento geral de Q.
          S nos resta, pois, pressupor que, devido  catexia das lembranas, o desprazer  liberado do interior do corpo e de novo transmitido. O mecanismo dessa 
liberao s pode ser retratado da seguinte maneira. Assim como existem neurnios motores que, quando cheios at certo ponto, conduzem Q aos msculos, descarregando-a, 
devem tambm existir neurnios "secretores" que, quando excitados, provocam no interior do corpo o surgimento de algo que atua como estmulo sobre as vias endgenas 
de conduo de y - neurnios que, dessa forma, influenciam a produo de Q endgena e, conseqentemente, no descarregam Q, mas fornecem-nas por vias indiretas. 
A esses neurnios [secretores] chamaremos de "neurnios-chave".  evidente que eles s so excitados a partir de certo nvel em y. Como resultado da experincia 
da dor, a imagem mnmica do objeto hostil adquiriu uma facilitao excelente para esses neurnios-chave, em virtude da qual [a facilitao] se libera ento desprazer 
no afeto.
          Essa hiptese intrigante, mas indispensvel,  confirmada pelo que ocorre no caso da liberao sexual. Ao mesmo tempo, somos forados a suspeitar de que 
os estmulos endgenos, em ambos os casos, consistem em produtos qumicos, cujo nmero pode ser considervel. Como a liberao do desprazer pode ser extremamente 
grande quando existe uma catexia bastante insignificante da lembrana hostil, pode-se concluir que a dor deixa atrs de si facilitaes especialmente abundantes. 
Nessa conexo,  de se presumir que a facilitao dependa inteiramente da Q alcanada; de modo que o efeito facilitador de 3 Q pode ser muito maior que o de 3 x 
Q.
           
           [13] AFETOS E ESTADOS DE DESEJO
          
           Os resduos dos dois tipos de experincias [de dor e de satisfao] que acabamos de examinar so os afetos e os estados de desejo. Estes tm em comum 
o fato de que ambos envolvem um aumento da tenso Q em y - produzido, no caso de um afeto, pela liberao sbita e, no de um desejo, por soma. Ambos os estados so 
da maior importncia para a passagem [da quantidade] em y, pois deixam atrs dele motivaes para isso, que se constituem no tipo compulsivo. O estado do desejo 
resulta numa atrao positiva para o objeto desejado, ou mais precisamente, por sua imagem mnmica; a experincia da dor leva  repulsa,  averso por manter catexizada 
a imagem mnmica da dor leva  repulsa,  averso por manter catexizada a imagem mnmica hostil. Eis aqui a atrao de desejo primria e a defesa [repdio] primria.
           A atrao de desejo pode ser facilmente explicada pelo pressuposto de que a catexia da imagem mnmica agradvel num estado de desejo supera amplamente 
em Q a catexia que ocorre quando h uma simples percepo, de modo que a facilitao particularmente boa passa do ncleo y para o neurnio correspondente do pallium.
            mais difcil explicar a defesa primria ou recalcamento - o fato de a imagem mnmica hostil ser regularmente abandonada o mais depressa possvel por 
sua catexia. Apesar disso, a explicao deve estar no fato de que as experincias primrias da dor foram eliminadas pela defesa reflexa. A apario de outro objeto, 
em lugar do hostil, foi o sinal para o fato de que a experincia da dor estava terminando, e o sistema y, pensando biologicamente, procura reproduzir o estado de 
y que assinalou a cessao da dor. Com a expresso pensando biologicamente acabamos de introduzir uma nova base de explicao, que deve ter validade independente, 
ainda que no exclua, mas, pelo contrrio, exija o recurso a princpios mecnicos (fatores quantitativos). No caso diante de ns, poderia perfeitamente ser o aumento 
de Q, invariavelmente produzido com a catexia de uma lembrana hostil, que fora o acrscimo da atividade de descarga e, com isso, tambm a drenagem da lembrana.
           
           [14] INTRODUO DO EGO
          
           Com efeito, porm, com a hiptese da "atrao de desejo" e da propenso ao recalcamento, j abordamos um estado de y que ainda no foi discutido. Pois 
esses dois processos indicam que em y se formou uma organizao cuja presena interfere nas passagens [de quantidade] que, na primeira vez, ocorreram de determinada 
maneira [isto , acompanhadas de satisfao ou dor]. Essa organizao se chama "ego". Pode ser facilmente descrito se considerarmos que a recepo sistematicamente 
repetida de Q endgena em certos neurnios (do ncleo) e o conseqente efeito facilitador produzem um grupo de neurnios que  constantemente catexizado [em [1] 
e [2]-[3]] e que, desse modo, corresponde ao veculo da reserva requerido pela funo secundria [em [1]]. O ego deve, portanto, ser definido como a totalidade das 
catexias y existentes em determinado momento, nas quais cumpre diferenciar um componente permanente e outro mutvel [em [1], adiante].  fcil ver que as facilitaes 
entre os neurnios y fazem parte dos domnios do ego, j que representam possibilidades, se o ego for alterado, de determinar a sua extenso nos momentos seguintes.
           Embora esse ego deva esforar-se por se livrar de suas catexias pelo mtodo da satisfao, isso no pode acontecer de nenhuma outra maneira seno por 
ele influenciar a repetio das experincias de dor e dos afetos, e pelo mtodo seguinte, que  geralmente descrito como inibio.
           Uma Q que irrompe em um neurnio a partir de um ponto qualquer continuar em direo  barreira de contacto que estiver mais facilitada, estabelecendo 
uma corrente nessa direo. Explicando com mais preciso: a corrente de Q se dividir na direo das diversas barreiras de contacto na proporo inversa de suas 
resistncias; e, em tal caso, quando uma frao se choca contra uma barreira de contacto cuja resistncia  inferior a ela [barreira de contacto], no passar praticamente 
nada por esse ponto. Essa relao pode facilmente conduzir-se para cada Q no neurnio, pois podero surgir fraes que sejam superiores tambm ao limiar de outras 
barreiras de contacto. Assim, o curso adotado depender das Q e da relao das facilitaes. J conhecemos, porm, o terceiro fator poderoso [Ver em [1]-[2]]. Quando 
um neurnio adjacente  simultaneamente catexizado, isso atua como uma facilitao temporria da barreira de contacto existente entre os dois, modificando o curso 
[da corrente], que, de outro modo, teria tomado a direo de uma barreira de contacto facilitada. Assim, pois, uma catexia colateral atua como uma inibio do curso 
da Q. Imaginemos o ego como uma rede de neurnios catexizados e bem facilitados entre si, da seguinte maneira: [ver Fig. 14]. 
           
           
           Fig. 14
           
           Suponhamos que uma Q penetrasse no neurnio a vindo do exterior (), ento, se no fosse influenciada, ela passaria para o neurnio b; mas ela  to influenciada 
pela catexia colateral - que libera apenas uma frao para b, e talvez nem sequer chegue de todo a b. Logo, se o ego existe, ele deve inibir os processos psquicos 
primrios.
           Uma inibio desse tipo representa, porm, uma vantagem decisiva para y. Suponhamos que a seja uma imagem mnmica hostil e b, um neurnio-chave para o 
desprazer [Ver em [1]]. Ento, se   despertado, o desprazer primariamente ser liberado, o que talvez fosse intil e que o , de qualquer modo, [quando ele  liberado] 
em sua totalidade. Com a ao inibitria de , a liberao de desprazer ficar muito reduzida e o sistema nervoso ser poupado, sem qualquer outro dano, do desenvolvimento 
e da descarga de Q. Agora se torna fcil imaginar como o ego, com o auxlio de um mecanismo que atrai sua ateno para a nova catexia iminente da imagem mnmica 
hostil, pode conseguir inibir a passagem [da quantidade] de uma imagem mnmica para a liberao do desprazer por meio de uma copiosa catexia colateral que pode ser 
reforada de acordo com as necessidades. E, realmente, se admitirmos que a liberao inicial de desprazer  captada da Q pelo prprio ego, teremos nessa mesma [liberao] 
a fonte do dispndio que a catexia colateral inibidora exige do ego. Nesse caso, quanto mais intenso for o desprazer, mais forte ser a defesa primria.
        
        [15] OS PROCESSOS PRIMRIO E SECUNDRIO EM Y.
          
          A concluso do que at aqui se desenvolveu  que o ego em y, que consideramos no que tange s suas tendncias, como a totalidade do sistema nervoso, pode, 
quando os processos no so influenciados em y, cair num estado de inermidade e sofrer dano em duas situaes. 
          Quer dizer, isto pode ocorrer em primeiro lugar quando ele, encontrando-se em estado de desejo, catexiza de novo a lembrana de um objeto e ento pe em 
ao o processo de descarga; nesse caso, deixa de ocorrer a satisfao, porque o objeto no  real, mas est presente apenas como idia imaginria. Para comear, 
 incapaz de estabelecer essa distino, j que s pode funcionar como base da seqncia de estados anlogos entre neurnios. Assim, necessita de um critrio proveniente 
de outra parte para distinguir entre percepo e idia.
          Por outro lado, y precisa de uma indicao que atraia sua ateno para a recatexizao de uma imagem mnmica hostil e que lhe permita evitar, por meio 
de catexias colaterais, a conseqente liberao de desprazer. Se y conseguir efetuar essa inibio a tempo, a liberao de desprazer e ao mesmo tempo as defesas 
sero mnimas; caso contrrio, ocorrer um desprazer imenso e uma defesa primria excessiva.
          Ambas, a catexia de desejo e a liberao de desprazer, quando a lembrana em questo  de novo catexizada, podem ser biologicamente nocivas.  o que acontece 
na catexia de desejo sempre que ela ultrapassa determinada quantidade e, desse modo, age como um estmulo  descarga; e  o que acontece tambm na liberao de desprazer, 
pelo menos quando a catexia da imagem mnmica hostil emana (por associao) do prprio y, e no do mundo externo. Aqui, mais uma vez, trata-se, portanto, de encontrar 
uma indicao para distinguir entre percepo e lembrana (idia).
          
          Provavelmente, so neurnios w que fornecem essa indicao: a indicao da realidade. No caso de cada percepo externa, produz-se em w [Ver em [1]] uma 
excitao qualitativa que, na primeira situao, porm, no tem nenhuma importncia para y. Deve-se acrescentar que a excitao de w conduz a uma descarga de w e 
que desta, como de qualquer descarga [em [1]], chega a informao a y. Desse modo, a informao da descarga proveniente de w constitui a indicao da qualidade ou 
da realidade para y.
          Quando o objeto desejado  abundantemente catexizado, a ponto de ser ativado de maneira alucinatria, tambm se produz a mesma indicao de descarga ou 
de realidade que no caso da percepo externa. Nessa situao o critrio falha. Mas quando a catexia do desejo ocorre sujeita a uma inibio, como pode acontecer 
quando existe um ego catexizado, pode ser imaginada uma instncia quantitativa em que a catexia de desejo, no sendo suficientemente intensa, no produza nenhuma 
indicao de qualidade, ao passo que a percepo externa seria capaz de produzi-la. Nessa instncia, portanto, o critrio manteria seu valor. Porque a diferena 
consiste em que a indicao de qualidade, quando proveniente do exterior, aparece sempre, seja qual for a intensidade da catexia, ao passo que, quando proveniente 
de y, ela s se manifesta em presena de intensidades elevadas. , por conseguinte, a inibio pelo ego que possibilita um critrio de diferenciao entre a percepo 
e a lembrana. A experincia biolgica ensinar, ento, a no iniciar a descarga antes da chegada da indicao da realidade e, tendo essa finalidade em vista, a 
no levar a catexia das lembranas desejadas alm de certa quantidade.
          Por outro lado, a excitao dos neurnios w tambm pode servir para proteger o sistema y no segundo dos casos mencionados: isto , atraindo a ateno de 
y para o fato da presena ou ausncia de uma percepo. Com essa finalidade, deve-se presumir que os neurnios w esto originalmente vinculados de forma anatmica 
com as vias de conduo procedentes dos diversos rgos sensoriais e que [os neurnios w] reorientam sua descarga para os aparelhos motores pertencentes a esses 
mesmos rgos sensoriais. Em tal caso, a informao desta ltima descarga (a informao da ateno reflexa) atuar para y como um sinal biolgico de que ele deve 
enviar uma quantidade de catexias nessas mesmas direes.
          
          Resumindo, pois: quando h inibio por um ego catexizado, as indicaes de descarga w tornam-se, em termos muito gerais, indicaes da realidade, que 
y aprende biologicamente a aproveitar. Quando o ego, no momento em que surge essa indicao da realidade, se encontra em estado de tenso e desejo, ela permite que 
se siga uma descarga no sentido da ao especfica [Ver em [1]]. Quando a indicao da realidade coincide com um aumento do desprazer, y produzir ento, por meio 
de uma catexia colateral de considervel grandeza, uma defesa de magnitude normal situada no lugar indicado. Se no ocorrer nenhuma dessas duas circunstncias, a 
catexia poder prosseguir sem nenhum impedimento, de acordo com as condies em que se encontrem as facilitaes. A catexia de desejo, levada ao ponto de alucinao, 
[e] a completa produo do desprazer, que envolve o dispndio total da defesa, so por ns designadas como processos psquicos primrios; em contrapartida, os processos 
que s se tornam possveis mediante uma boa catexia do ego, e que representam verses atenuadas dos referidos processos primrios, so descritos como processos psquicos 
secundrios. Ver-se- que a precondio necessria destes ltimos  a utilizao correta das indicaes da realidade, que s se torna possvel quando existe inibio 
por parte do ego.
          
           [16] COGNIO E PENSAMENTO REPRODUTIVO
          
           Formulamos a hiptese de que, durante o processo de desejar, a inibio por parte do ego produz uma catexia moderada do objeto desejado, que permite reconhec-lo 
como no-real; e agora podemos prosseguir com a anlise desse processo. Vrias possibilidades podem ocorrer. No primeiro caso: simultaneamente  catexia de desejo 
da imagem mnmica, acha-se presente a percepo dela. Se assim , as duas catexias coincidem - o que no pode ser biologicamente aproveitado -, mas, alm disso, 
a indicao da realidade provm de ?? aps o que, como mostra a experincia, a descarga  eficaz [Ver em [1]]. Esse  um caso fcil de abordar. No segundo caso: 
a catexia de desejo est presente e, ao lado dela, uma percepo que no corresponde a ela inteiramente, mas apenas em parte.  chegado o momento de lembrar que 
as catexias perceptivas nunca so catexias de neurnios isolados, mas sempre de complexos. At agora desconsideramos essa caracterstica; chegou o momento de lev-la 
em conta. Suponhamos que, em termos bastante gerais, a catexia de desejo se relaciona com o neurnio a + o neurnio b, e a catexia perceptiva, com os neurnios a 
+ c. Visto que este ser o caso mais comum, mais comum que o da identidade, ele merece uma considerao mais precisa. Tambm aqui a experincia biolgica ensina 
[Ver em [1]] que no  seguro iniciar a descarga se as indicaes da realidade no confirmarem a totalidade do complexo, mas s uma parte dele. Agora, porm, encontra-se 
um modo de aperfeioar a semelhana, convertendo-a em identidade. Comparando o complexo perceptual com outros complexos congneres, pode-se decomp-lo em dois componentes: 
o peimri, que geralmente se mantm constante,  o neurnio a, e o segundo, habitualmente varivel,  o neurnio b. A linguagem aplicar mais tarde o termo juzo 
a essa anlise e descobrir a semelhana que de fato existe [por um lado] entre o ncleo do ego e o componente perceptual constante e [por outro] entre as catexias 
cambiantes no pallium [em [1] e [2]] e a componente inconstante: esta [a linguagem] chamar o neurnio a de a coisa, e o neurnio b, de sua atividade ou atributo 
- em suma, de seu predicado. [Cf. em [1]-[2], [3] e [4]].
           Assim, julgar  um processo  que s se torna possvel graas  inibio pelo ego e que  evocado pela dessemelhana entre a catexia de desejo de uma lembrana 
e a catexia perceptual que lhe seja semelhante. Da se deduz que a coincidncia entre essas duas catexias se converte num sinal biolgico para pr fim  atividade 
do pensamento e permitir que se inicie a descarga. Quando as duas catexias no coincidem, surge o mpeto para a atividade do pensamento, que voltar a ser interrompida 
pela coincidncia entre ambas.
           
           O processo pode ser mais bem analisado. Se o neurnio a coincide [nas duas catexias], mas o neurnio c  percebido em lugar do neurnio b, a atividade 
do ego segue as conexes desse neurnio c e, mediante uma corrente de Q ao longo dessas conexes, faz surgir novas catexias at que se encontre acesso para o neurnio 
b desaparecido. Via de regra, aparece a imagem de um movimento [uma imagem motora], que  intercalada entre os neurnios c e b; e quando essa imagem  ativada de 
novo pela realizao efetiva de um movimento, ficam estabelecidas a percepo do neurnio b e, ao mesmo tempo, a identidade visada. Suponhamos, por exemplo, que 
uma imagem mnmica desejada [pela criana] seja a do seio materno com o mamilo, vistos de frente, e que a primeira percepo obtida seja uma viso lateral do mesmo 
objeto, sem o mamilo. Na memria da criana h uma experincia, casualmente adquirida no ato de mamar, segundo a qual a imagem frontal se converte em lateral mediante 
determinado movimento da cabea. A imagem lateral agora percebida conduz [ imagem do] movimento da cabea; um teste experimental mostra que o equivalente desse 
movimento deve ser executado para se obter a percepo da imagem frontal.
           Por enquanto, ainda no h muito julgamento nisso; mas trata-se de um exemplo da possibilidade de chegar, pela reproduo das catexias, a uma ao que 
j  uma das ramificaes acidentais da ao especfica.
           No resta dvida de que o elemento subjacente a essa migrao ao longo dos neurnios facilitados  a Q proveniente do ego catexizado, e de que essa migrao 
no  regida pela facilitao, e sim por um objetivo. Que objetivo  esse e como pode ser alcanado?
           O objetivo  voltar ao neurnio b desaparecido e liberar a sensao de identidade - isto , o momento em que s  catexizado o neurnio b e em que a catexia 
migratria desemboca no neurnio b. [Cf. em [1] e [2].] Ele  alcanado mediante um deslocamento experimental de Q ao longo de cada via possvel, e  claro que, 
para tal propsito,  necessrio um dispndio ora maior, ora menor, de catexia colateral, conforme se possa aproveitar as facilitaes presentes ou se uma precisa 
trabalhar contra elas. A luta entre as facilitaes estabelecidas e as catexias mutveis caracteriza o processo secundrio do pensamento reprodutivo, em contraste 
com a seqncia primria de associaes.
           O que dirige o curso dessa migrao? O fato de que a idia desejante da memria [isto , do neurnio b] se mantm catexizada durante o tempo em que a 
cadeia associativa  percorrida a partir do neurnio c. Como j sabemos [em [1]], graas a essa catexizao do neurnio b, todas as suas conexes possveis ficam, 
por sua vez, mais facilitadas e acessveis.
           No curso dessa migrao pode acontecer que a Q esbarre numa lembrana relacionada com uma experincia de dor, provocando assim uma liberao de desprazer. 
Visto ser esse um sinal seguro de que o neurnio b no pode ser atingido por essa via, a corrente se desvia imediatamente da catexia em questo. Apesar disso, as 
vias do desprazer conservam o seu grande valor como orientadoras da corrente de reproduo.
          
           [17] MEMRIA E JUZO
          
           O pensamento reprodutivo tem, pois, um objetivo prtico e um fim biologicamente estabelecido - a saber, conduzir de volta para a catexia do neurnio desaparecido 
uma Q que est migrando da percepo suprflua [indesejada]. Com isso, obtm-se a identidade e o direito  descarga, se, em adio, a indicao da realidade provier 
do neurnio b. Mas o processo tambm pode tornar-se independente deste ltimo objetivo e lutar unicamente pela identidade. Se  assim, temos diante de ns um ato 
puro de pensamento, embora este possa em qualquer caso, mais tarde, ser colocado em prtica. Aqui, ademais, o ego catexizado se comporta de maneira exatamente igual.
           Chegamos agora a uma terceira possibilidade que pode surgir no estado de desejo:  quando h uma catexia de desejo e emerge uma percepo que no coincide, 
de modo algum, com a imagem mnmica desejada (mnem. +). Surge ento um interesse de conhecer essa imagem perceptiva, de maneira que talvez se consiga encontrar, 
afinal, uma via entre ela e a mnem. + .  de se supor que, com essa finalidade em vista, a imagem perceptiva seja novamente hipercatexizada a partir do ego, como 
aconteceu no caso anterior com apenas uma parte componente dela, o neurnio c. Se a imagem perceptiva no for absolutamente nova, ela agora recordar e reviver 
uma imagem perceptiva mnmica com a qual coincida pelo menos em parte. O processo de pensamento prvio  agora repetido, em conexo com essa imagem mnmica, embora, 
at certo ponto, sem o objetivo que foi anteriormente proporcionando pela idia de desejo catexizada [Cf. em [1]].
           Na medida em que coincidem, as catexias no do oportunidade  atividade de pensamento. Por outro lado, as partes discrepantes "despertam interesse" e 
podem dar lugar  atividade do pensamento de duas maneiras. Ou a corrente se dirigir para as lembranas despertadas e por em ao uma atividade mnmica sem objetivo, 
que assim ser dirigida pelas diferenas, e no pelas semelhanas, ou [a corrente] permanecer nos componentes [da percepo] recm-surgidos e em tal caso exibe 
uma atividade judicativa igualmente sem objetivo. [1]
           Suponhamos que o objeto que compe a percepo se parea com o sujeito - um outro ser humano. Nesse caso, o interesse terico [que lhe  dedicado] tambm 
se explica pelo fato de que um objeto semelhante foi, ao mesmo tempo, o primeiro objeto hostil, alm de sua nica fora auxiliar. Por esse motivo,  em relao a 
seus semelhantes que o ser humano aprende a conhecer. Os complexos perceptivos emanados desse ser semelhante sero ento, em parte novos e incomparveis - como, 
por exemplo, seus traos, na esfera visual; mas outras percepes visuais - as do movimento das mos, por exemplo - coincidiro no sujeito com a lembrana de impresses 
visuais muito semelhantes, emanadas de seu prprio corpo, [lembranas] que esto associadas a lembranas de movimentos experimentados por ele mesmo. Outras percepes 
do objeto - se, por exemplo, ele der um grito - tambm despertaro a lembrana do prprio grito [do sujeito] e, ao mesmo tempo, de suas prprias experincias de 
dor. Desse modo, o complexo do ser humano semelhante se divide em dois componentes, dos quais um produz uma impresso por sua estrutura constante e permanece unido 
como uma coisa, enquanto o outro pode ser compreendido por meio da atividade de memria - isto , pode ser rastreado at as informaes sobre o prprio corpo [do 
sujeito]. Essa dissecao de um complexo perceptivo  descrita como o conhecimento dele; envolve um juzo e chega a seu trmino uma vez atingido este ltimo objetivo. 
Como se ver, o juzo no  uma funo primria, mas pressupe a catexia das pores [da percepo] dspares [no comparveis] a partir do ego; no primeiro caso, 
[o juzo] no tem nenhuma finalidade prtica e, ao que parece, durante o processo judicativo, a catexia das pores dspares  descarregada, pois isso explicaria 
por que as atividades, os "predicados" [em [1]] so separados do complexo do sujeito por uma via relativamente frouxa. [1]
           A partir daqui seria possvel penetrar a fundo na anlise do ato judicativo; mas isso nos desviaria de nosso tema. Contentemo-nos, pois, em deixar bem 
estabelecido que  o interesse primitivo em estabelecer a situao de satisfao que leva, num caso,  considerao reprodutiva e, no outro, ao juzo, como um mtodo 
para ir da situao perceptiva dada na realidade  situao que  desejada. Para tanto, o requisito indispensvel continua sendo o de que os processos?? no sigam 
seu curso sem serem inibidos, e sim em conjunto com um ego ativo. Com isso ficaria demonstrado o sentido eminentemente prtico de toda atividade de pensamento.
           
           [18] PENSAMENTO E REALIDADE
          
          Assim, o objetivo e o fim de todos os processos de pensamento  o estabelecimento de um estado de identidade, a transmisso de uma catexia Q [sic], emanada 
do exterior, a um neurnio catexizado a partir do ego. O pensamento cognitivo ou judicativo procura uma identidade com uma catexia corporal, ao passo que o pensamento 
reprodutivo procura uma identidade com uma catexia psquica do prprio sujeito (com uma experincia do prprio sujeito). O pensamento judicativo opera antes do reprodutivo, 
fornecendo-lhe facilitaes j prontas para a migrao associativa posterior. Quando uma vez concludo o ato de pensamento, a indicao da realidade chega  percepo, 
obtm-se ento um juzo de realidade, uma crena, atingindo-se com isso o objetivo de toda essa atividade.
          No que se refere ao juzo, cumpre ainda observar que sua base , evidentemente, a presena de experincias corporais, sensaes e imagens motoras de si 
prprio. Enquanto faltarem esses elementos, a poro varivel [Cf. em [1]] do complexo perceptivo permanece no compreendida - isto , poder ser reproduzida, mas 
no apontar direo para novas vias de pensamento. Assim, por exemplo, e isso se tornar importante mais adiante [na Parte II], nenhuma experincia sexual produz 
qualquer efeito enquanto o sujeito ignora toda e qualquer sensao sexual - quer dizer, em geral, antes do incio da puberdade.
          O juzo primrio parece pressupor um grau de influncia menor por parte do ego catexizado do que os atos reprodutivos de pensamento. Neste [no juzo primrio], 
trata-se de persistir numa associao que se deve a uma coincidncia parcial [entre as catexias de desejo e perceptiva] - uma associao  qual no se aplica modificao 
alguma. E, efetivamente, tambm existem caso sem que o processo associativo do juzo  levado a cabo com [um montante] integral [de] quantidade. A percepo corresponderia 
a um objeto-ncleo + uma imagem motora. Enquanto algum est percebendo a percepo, ele copia o prprio movimento - isto , inerva-se to intensamente a prpria 
imagem motora despertada para coincidir [com a percepo] que o movimento vem a ser efetuado. Da se pode falar em percepes que tm valor imitativo. Ou ento a 
percepo desperta a imagem mnmica de uma sensao de dor do prprio sujeito, de modo que sente o desprazer correspondente e se repete o movimento defensivo adequado. 
Eis a o valor de simpatia de uma percepo.
          No resta dvida de que esses dois casos nos apresentam o processo primrio atuando no juzo, e podemos presumir que todo juzo secundrio tenha surgido 
pela atenuao desses processos puramente associativos. Assim, o juzo, que mais tarde se converter num meio de cognio de um objeto que talvez tenha importncia 
prtica,  originalmente um processo de associao entre catexias que chegam ao exterior e catexias oriundas do prprio corpo - uma identificao de informaes 
ou catexias procedentes de f e de dentro. Talvez no esteja errado supor que ele [o juzo] representa, ao mesmo tempo, um mtodo pelo qual as Qs procedentes de f 
podem ser transmitidas e descarregadas. O que chamamos coisas so resduos que fogem de serem julgados.
          O exemplo do julgamento nos fornece, pela primeira vez, indcio da diferena em suas caractersticas quantitativas que  preciso descobrir entre o pensamento 
e o processo primrio.  lcito supor que, durante o pensar, saia de y uma tnue corrente de inervao motora - mas, naturalmente, s se durante esse processo tiver 
sido inervado um neurnio motor ou um neurnio-chave [Ver em [1]]. Apesar disso, seria errneo considerar essa descarga como o prprio processo de pensamento, do 
qual ela no passa de um efeito acessrio e inintencional. O processo de pensamento consiste na catexia dos neurnios y, acompanhada por uma mudana, promovida pela 
catexia colateral do ego, naquilo que  imposto pelas facilitaes. Do ponto de vista mecnico,  compreensvel que, nesse caso, apenas uma parte da Q possa acompanhar 
as facilitaes e que a magnitude dessa parte seja constantemente regulada pelas catexias. Mas  tambm evidente que, ao mesmo tempo, economiza-se com isso Q suficiente 
para fazer com que a reproduo como um todo seja proveitosa. Do contrrio, toda a Q necessria para a descarga final seria gasta durante a sua passagem pelos pontos 
de sada motora. Assim, o processo secundrio  uma repetio da passagem original [da quantidade] em , num nvel mais baixo e com quantidades menores.
          Aqui se poderia objetar: "Com Qs ainda menores do que as que normalmente correm pelos neurnios? Como  possvel franquear a Qs to pequenas as vias que, 
afinal, s so transitveis por [Qs] maiores do que as que W recebe habitualmente?'' A nica resposta cabvel  que isso deve ser uma conseqncia mecnica das catexias 
colaterais. Devemos concluir que as condies so tais que, quando h uma catexia colateral, pequenas Qs fluem por facilitaes que comumente s seriam percorrveis 
por [Qs] grandes. A catexia colateral liga, por assim dizer, uma cota de Q que corre pelo neurnio.
          Existe uma outra condio que o pensamento necessita satisfazer. No deve realizar modificao essencial nas facilitaes criadas pelos processos primrios; 
caso contrrio, efetivamente falsearia os traos da realidade. Quanto a essa condio, basta observar que a facilitao provavelmente  o resultado de uma nica 
[passagem de] grande quantidade e que a catexia, por mais poderosa no momento, no deixa no entanto atrs de si qualquer efeito permanente comparvel. As pequenas 
Qs que passam durante o pensamento no podem em geral prevalecer contra as facilitaes.
          No resta dvida, porm, de que o processo de pensamento deixa efetivamente atrs de si traos duradouros, uma vez que um segundo pensamento, um re-pensar, 
exige to menor dispndio [de energia] que o primeiro. Portanto, a fim de que a realidade no seja falseada, faz-se necessria a existncia de traos especiais, 
signos dos processos de pensamento, que constituam uma memria - [de] - pensamento, que ainda no  possvel delinear. Mais adiante, veremos de que maneira os traos 
dos processos - [de] - pensamento se diferenciam dos da realidade.
           
           [19] PROCESSOS PRIMRIOS - O SONO E OS SONHOS
          
          Surge agora o problema quanto a quais so os meios quantitativos que mantm o processo primrio y. No caso de uma experincia de dor, trata-se evidentemente 
da Q que irrompe do exterior; no caso de um afeto,  a Q endgena liberada por facilitao. No caso do processo secundrio do pensamento reprodutivo,  bvio que 
uma Q maior ou menor pode ser transferida do ego para o neurnio c [em [1]] e esta [Q] pode ser descrita como interesse do pensamento, sendo proporcional ao interesse 
afetivo, onde este houver surgido. A questo  apenas saber se existem processos y de ndole primria para os quais seja suficiente a Q fornecida por f, ou se a 
catexia f de uma percepo  automaticamente suplementada por uma contribuio y (ateno), sendo somente esta que possibilita um processo y. [Ver em [1], adiante.] 
Essa questo ter que permanecer em aberto, embora talvez se possa determinar se ela  especialmente aplicvel a [alguns] fatos psicolgicos.
          Um fato importante  que os processos de y, tais como os que foram biologicamente suprimidos no curso do desenvolvimento de y, se apresentam diariamente 
a ns durante o sono. Um segundo fato de igual importncia  que os mecanismos patolgicos revelados nas psiconeuroses pela anlise mais cuidadosa guardam uma grande 
semelhana com os processos onricos. Dessa comparao, que desenvolveremos mais adiante [em [1]], tiram-se as mais importantes concluses. [1]
          Antes, porm,  preciso introduzir o fato do sono em nossa teoria. A precondio essencial do sono  facilmente reconhecida na criana. As crianas dormem 
enquanto no so atormentadas por nenhuma necessidade [fsica] ou estmulo externo (pela fome ou pela sensao de frio causada pela urina). Elas adormecem depois 
de serem satisfeitas (no seio). Os adultos tambm adormecem com facilidade post coenam et coitum [depois da refeio e da cpula]. Por conseguinte, a precondio 
do sono  uma queda da carga endgena no ncleo de y, que torna suprflua a funo secundria. No sono, o indivduo se encontra no estado ideal de inrcia, livre 
de sua reserva de Q [Ver em [1]].
          
          Nos adultos, essa reserva se encontra acumulada no "ego" [em [1]]; podemos supor que  a descarga do ego que determina e caracteriza o sono. E aqui, como 
se percebe de imediato, temos a precondio dos processos psquicos primrios.
          No  certo que, nos adultos, o ego fique completamente livre de sua carga durante o sono. De qualquer forma, ele retira um enorme nmero de catexias, 
que, no entanto, ao despertar, so restabelecidas imediatamente e sem esforo. Isso no contradiz nenhuma de nossas pressuposies; mas chama ateno para o fato 
de que devemos presumir que, entre os neurnios adequadamente ligados, existem correntes que afetam o nvel total [da catexia], tal como ocorre nos vasos comunicantes, 
embora o nvel atingido em cada neurnio em particular precise apenas ser proporcional, e no necessariamente uniforme. [Cf. em [1].]
          As peculiaridades do sono revelam uma srie de coisas de que talvez no fosse possvel suspeitar.
          O sono se caracteriza por uma paralisia motora (paralisia da vontade). A vontade  a descarga da Q total de y [em [1]]. No sono, o tnus espinhal fica 
parcialmente relaxado;  provvel que a descarga motora de f se manifeste no tnus; outras inervaes persistem [durante o sono], junto com as fontes de sua excitao.
           sumamente interessante que o estado do sono comece e seja provocado pela ocluso dos rgos sensoriais que podem ser obstrudos. Durante o sono no se 
produzem percepes, e nada perturba mais o sono do que a apario de impresses sensoriais, do que a catexizao de y a partir de f. Isso parece indicar que, durante 
a viglia, uma catexia constante, embora deslocvel (ateno), dirige-se aos neurnios do pallium, que recebem percepes de f [em [1]], sendo, pois, bem possvel 
que os processos primrios de y sejam levados a cabo com o auxlio dessa contribuio de y [Cf. em [1]]. Resta saber se os prprios neurnios do pallium ou os neurnios 
nucleares adjacentes j se encontram pr-catexizados. Quando  retira essas catexias do pallium, as percepes incidem sobre os neurnios no-catexizados, sendo pequenas 
e talvez at incapazes de dar uma indicao de qualidade a partir de W [em. [1]]. Como j presumimos, ao se esvaziarem os neurnios , cessa tambm a inervao de 
uma descarga que aumenta a ateno. A explicao do enigma do hipnotismo tambm teria que ser abordada a partir desse ponto. A aparente inexcitabilidade dos rgos 
sensoriais [durante a hipnose] deve basear-se nessa retirada da catexia da ateno.
          Assim, por meio de um mecanismo automtico que  correlato do mecanismo de ateno,  exclui as impresses de  enquanto est catexizado.
          O mais estranho, porm,  que durante o sono ocorrem processos  - os sonhos, que tm muitas caractersticas que no so compreendidas.
          
           [20] A ANLISE DOS SONHOS
          
          Os sonhos apresentam todos os graus de transio at a viglia e a uma mistura com os processos  normais; no entanto,  fcil discernir o que constitui 
a natureza onrica propriamente dita.
          (1) Os sonhos so desprovidos de descarga motora e, em geral, de elementos motores. Nos sonhos, ficamos paralisados [Ver em [1]].
          A explicao mais fcil dessa caracterstica  a falta de pr-catexia espinhal graas  cessao da descarga de . Quando os neurnios no esto catexizados 
[em [1]], a excitao motora no pode transpor as barreiras .  Em outros estados onricos, o movimento no  excludo. Esta no  a caracterstica mais essencial 
dos sonhos.
          (2) Nos sonhos, as conexes so parcialmente absurdas, parcialmente imbecis, ou at mesmo sem sentido ou estranhamente loucas.
          
          Esta ltima caracterstica se explica pelo fato de que, nos sonhos, predomina a compulso a associar, que sem dvida tambm domina primordialmente a vida 
psquica em geral. Ao que parece, duas catexias coexistentes precisam pr-se em mtua conexo. Colhi alguns exemplos cmicos do predomnio dessa compulso na vida 
de viglia. (Por exemplo, alguns homens das provncias que se encontravam no Parlamento francs durante um atentado [a bomba] chegaram  concluso de que, cada vez 
que um deputado proferia um bom discurso, era aplaudido ... a tiros.)
          As outras duas caractersticas, que na realidade so idnticas, demonstram que uma parte das experincias psquicas [do sonhador] fica esquecida. Com efeito, 
todas as experincias biolgicas que comumente inibem o processo primrio so esquecidas, o que se deve  falta de catexia do ego. A insensatez e a ilogicidade dos 
sonhos devem, provavelmente, ser atribudas a essa mesma caracterstica. Ao que parece, as catexias  que no foram retiradas estabilizam-se, em parte, em direo 
s facilitaes mais prximas e, em parte, em direo s catexias vizinhas. Se a descarga do ego fosse completa, o sono teria que ser forosamente livre dos sonhos.
          (3) As idias onricas so de carter alucinatrio; despertam a conscincia e recebem crdito.
          Essa  a caracterstica mais importante do sono. Manifesta-se de pronto quando h momentos alternantes de sono [e viglia]. A pessoa fecha os olhos e alucina; 
torna a abri-los e pensa com palavras. Existem vrias explicaes para o carter alucinatrio das catexias onricas. Em primeiro lugar, pode-se supor que a corrente 
de f para a mobilidade [durante a vida desperta] impediria uma catexia retroativa dos neurnios  a partir de ,1 e que, quando essa corrente cessa, f  retroativamente 
catexizado, satisfazendo-se assim a precondio necessria para [a produo de] qualidade. O nico argumento contrrio  o de que os neurnios f, pelo fato de no 
estarem catexizados, deveriam estar protegidos contra a catexia proveniente de y, tal como ocorre com a motilidade.  tpico do sono que inverta toda a situao 
nesse caso, que suspenda a descarga motora vinda de y e que torne possvel a descarga retroativa at f. Seria tentador atribuir aqui o papel determinante  grande 
corrente de descarga que, na vida desperta, vai de  at a motilidade. Em segundo lugar, poderamos invocar a natureza do processo primrio e ressaltar que a lembrana 
primria de uma percepo  sempre uma alucinao e que somente a inibio por parte do ego nos ensinou a jamais catexizar uma imagem perceptiva de maneira tal que 
possa transferir [Q] retroativamente at f. [Ver em [1] e [1].] Para tornar essa hiptese mais aceitvel, poder-se-ia acrescentar nesta conexo que, em todo caso, 
a conduo de f-  mais fcil que a de y-; de modo que uma catexia y de um neurnio, mesmo quando ultrapassa em muito a catexia perceptiva do mesmo neurnio, ainda 
assim no precisa ser retroativamente conduzida. Essa explicao  tambm apoiada pela circunstncia de que, nos sonhos, a vivacidade de alucinao  diretamente 
proporcional  importncia - isto ,  catexia quantitativa - da idia em questo. Isso indica que  Q que determina a alucinao. Quando uma percepo chega de 
na vida desperta, a catexia de  (interesse) a torna sem dvida mais ntida, mas no vvida; no altera sua caracterstica quantitativa.
          (4) O objetivo e o sentido dos sonhos (dos normais, pelo menos) podem ser estabelecidos com certeza. Eles [os sonhos] so realizaes de desejos - isto 
, processos primrios que acompanham as experincias de satisfao [em [1]];e s no so reconhecidos como tal porque a liberao de prazer (a reproduo de traos 
das descargas de prazer [em [1]] neles  escassa, pois, em geral, eles seguem seu curso sem afeto (sem liberao motora).  muito fcil, porm, demonstrar que esta 
 sua verdadeira natureza.  justamente por essa razo que me sinto inclinado a deduzir que a catexia de desejo primria tambm foi de carter alucinatrio [em [1]].
          (5)  digno de nota como a lembrana dos sonhos  fraca e o pouco dano que eles causam, comparados com outros processos primrios. Mas isso se explica 
facilmente pelo fato de que os sonhos, na maior parte, seguem as velhas facilitaes e por isso no provocam nenhuma mudana [nelas]; de que as experincias de  
se mantm afastadas deles e de que [os sonhos], devido  paralisia da motilidade, no deixam atrs de si nenhum vestgio de descarga.
          (6) Alm disso,  interessante que, nos sonhos, a conscincia fornece a qualidade com a mesma facilidade que na vida desperta. Isso demonstra que a conscincia 
no est presa ao ego, podendo agregar-se a qualquer processo y. Isso nos adverte, tambm, contra uma possvel identificao dos processos primrios com os processos 
inconscientes. Eis aqui dois conselhos para futuro!
          Se, quando a lembrana de um sonho  preservada, indagarmos sobre o seu contedo, verificaremos que o significado dos sonhos como realizaes de desejo 
se acha encoberto por uma srie de processos : todos os quais so reencontrados nas neuroses, de cuja natureza patolgica so caractersticos [Cf. em [1]].
           
           [21] A CONSCINCIA DO SONHO
           
           A conscincia das idias onricas , acima de tudo, descontnua. O que se torna consciente no  uma sucesso integral de associaes, mas apenas alguns 
de seus pontos de parada isolados. Entre os quais existem vnculos intermedirios inconscientes que podemos facilmente descobrir quando estamos acordados. Se investigarmos 
a causa dessas lacunas, eis o que descobriremos. Suponhamos que A [Fig. 15] seja uma idia onrica que se tornou consciente e que conduz a B. Em vez de B, porm, 
aparece C na conscincia simplesmente porque [ele] se encontra no caminho entre B e uma catexia D, simultaneamente presente. Desse modo, um desvio  produzido por 
uma catexia simultnea de outra espcie, que, a propsito, tambm no  consciente. Por esse motivo, ento, C tomou o lugar de B, muito embora B se enquadre na conexo 
de pensamento, na realizao do desejo.
           
           
           Fig. 15
           
           Por exemplo, [num de meus prprios sonhos,] R. d uma injeo de propileno em A. Depois, com toda a nitidez, vejo diante de mim trimetilamina, alucinada 
como uma frmula. Explicao: o pensamento simultaneamente presente [D]  a natureza sexual da doena de A. Entre esse pensamento e o propileno [A] existe uma associao 
com uma conversa a respeito da qumica sexual [B] que tive com W? Fl[iess], durante a qual ele me chamou especialmente a ateno para a trimetilamina. Isso agora 
se torna consciente [C] devido  presso de ambos os lados.
            muito estranho que no se tornem conscientes tambm o vnculo intermedirio (qumica sexual) [B] e a idia diversiva (a natureza sexual da doena), 
coisa que precisa ser explicada. Poder-se-ia supor que as catexias de B ou de D no so, por si ss, suficientemente intensas para fazer o percurso at uma alucinao 
regressiva, ao passo que C, catexizada de ambos os lados, poderia obter esse resultado. No exemplo escolhido, porm, D (a natureza sexual [da doena]) era certamente 
to intenso quanto A (a injeo de propileno), e o derivado dessas duas, a frmula qumica [C], era extremamente vvido. O enigma dos vnculos intermedirios inconscientes 
se aplica tambm ao pensamento desperto, no qual eventos semelhantes so uma ocorrncia cotidiana. Mas o que persiste como caracterstica dos sonhos  a facilidade 
com que a Q de desloca [neles] e, com isso, a substituio de B por um C que lhe  quantitativamente superior.
           Algo parecido ocorre, geralmente, com a realizao dos desejos no sonho. O que acontece, por exemplo, no  que o desejo se torne consciente e sua realizao 
seja, ento, alucinada, mas apenas est ultima: o vnculo intermedirio fica por inferir. No resta a menor dvida de que ele foi percorrido, sem que tivesse oportunidade 
de se desenvolver qualitativamente.  evidente, porm, que a catexia da idia de desejo nunca poder ser mais forte que o motivo que impele para ela. Desse modo, 
a passagem psquica [da excitao] no sonho se efetua de acordo com Q; mas no  Q que decide o que se tornar consciente.
           
           Dos processos onricos talvez possamos inferir tambm que a conscincia se manifesta durante a passagem de uma Q - quer dizer, que no  despertada por 
uma catexia constante. Deve-se ainda suspeitar de que uma corrente intensa de Q no  favorvel  gerao da conscincia, uma vez que ela [a conscincia] se vincula 
ao resultado do movimento - a uma persistncia relativamente tranqila, por assim dizer, da catexia. Por causa dessas precondies mutuamente contraditrias, torna-se 
difcil discernir o que realmente determina a conscincia. Alm disso, devemos levar em considerao as circunstncias em que a conscincia se manifesta no processo 
secundrio.
           A peculiaridade da conscincia onrica, que acabamos de indicar, talvez se explique pelo fato de que o fluxo retroativo de uma corrente de Q at   incompatvel 
com uma corrente enrgica at as vias de associao . Os processos da conscincia de  parecem estar subordinados a outras condies.
           25 set 95
           
           APNDICE A: O USO DO CONCEITO DE REGRESSO, DE FREUD
          
           O conceito de regresso, prenunciado nas duas ltimas sees da Parte I do Projeto, iria desempenhar um papel cada vez mais importante nas teorias de 
Freud.
           Numa nota de rodap acrescentada em 1914 ao Captulo VII (B) de A Interpretao dos Sonhos (Edio Standard Brasileira, Vol. V, [1], IMAGO Editora, 1972), 
o prprio Freud atribuiu a descoberta do conceito de regresso a Albertus Magnus, filsofo escolstico do sculo XIII, e ao Leviathan de Hobbes (1651). Mas parece 
t-lo deduzido ainda mais diretamente da contribuio terica de Breuer aos Estudos sobre a Histeria (ibid., Vol. III, [1], IMAGO Editora, 1974), publicado apenas 
alguns meses antes de ele mesmo ter escrito a presente obra. Breuer ali descreveu o movimento retrogressivo da excitao proveniente de uma idia ou imagem mnmica 
desde a percepo (ou alucinao) quase exatamente da mesma maneira aqui descrita por Freud. Ambos usaram a mesma palavra, "rcklufig", aqui traduzida como "retrogressiva".
           A palavra alem "Regression" apareceu pela primeira vez, ao que nos conste (num contexto semelhante), cerca de dezoito meses mais tarde, num rascunho 
enviado a Fliess no dia 2 de maio de 1897 (Rascunho L, [1]). Mas sua primeira publicao foi em A Interpretao dos Sonhos (1900a), no trecho subseqentemente vinculado 
 nota de rodap citada no incio deste Apndice.
           Com o correr do tempo, o termo passou a ser usado nos sentidos mais variados, a certa altura classificado por Freud como "topogrfico", "temporal" e "formal".
           A regresso "topogrfica"  a que Breuer introduziu; foi empregada no Projeto e forma o tema principal do Captulo VII (B) de A Interpretao dos Sonhos 
(1900a). Deve seu nome ao quadro diagramtico da mente que aparece naquele Captulo (Edio Standard Brasileira, Vol. V, [1], IMAGO Editora, 1972), que registra 
a trajetria dos processos psquicos entre a extremidade perceptiva e a extremidade motora do aparelho psquico. Na regresso topogrfica, a excitao  concebida 
como um retrocesso que se move no sentido da extremidade perceptiva. Desse modo, o termo constitui, essencialmente, a descrio de um fenmeno psicolgico.
           A regresso "temporal" tem relaes mais estreitas com o material clnico. Surge pela primeira vez, mas sem qualquer referncia explcita  "regresso", 
no caso clnico de "Dora", escrito em 1901, embora s publicado quatro anos depois (1905e). Ali ela aparece relacionada com um exame das perverses (Edio Standard 
Brasileira, Vol. VII, [1]-[2], IMAGO Editora, 1972). O que se sugere  que, quando algum incidente fortuito na vida posterior inibe o desenvolvimento normal da sexualidade, 
a conseqncia pode ser o ressurgimento da sexualidade infantil "indiferenciada". Freud apresentou ento, pela primeira vez, uma de suas analogias favoritas: "Uma 
corrente de gua que encontra obstculos no leito do rio fica represada e reverte para velhos canais que antes pareciam fadados a secar". A mesma hiptese, ilustrada 
pela mesma analogia, aparece mais de uma vez nos Trs Ensaios (ibid., Vol. VII, [1]), mas novamente sem mencionar, na primeira edio dessa obra, o termo "regresso", 
embora ele ocorra em vrios trechos acrescentados s edies posteriores (por exemplo, ibid., [1], acrescentado em 1915). Essa espcie de regresso j fora identificada 
nos Trs Ensaios como desempenhando um papel no s nas perverses como tambm nas neuroses (ibid., [1]), at na escolha normal de objeto na puberdade (ibid., [1]).
           A princpio, no se percebeu nitidamente que existiam de fato dois tipos de mecanismos diferentes nessa regresso "temporal". Tanto se poderia tratar 
simplesmente de um retorno a um objeto libidinal anterior, como de um retorno da prpria libido a modos de funcionamento anteriores. Esses dois tipos j se encontram, 
de fato, implcitos no exame das perverses nos Trs Ensaios, onde fica patente que pode haver um retorno tanto a um objetivo sexual anterior como a um objeto sexual 
anterior. (Essa distino fica bem clara na Conferncia XXII das Conferncias Introdutrias (1916-17), Edio Standard Brasileira, Vol. XVI, [1].) Assim como o primeiro 
desses tipos de regresso temporal  particularmente caracterstico da histeria, o segundo est especialmente associado  neurose obsessiva. J se haviam fornecido 
exemplos dessa relao no caso clnico do "Homem dos Ratos" (1909d), ibic., X, [1]-[1]. Mas s se chegou  plena compreenso de sua importncia com o advento da 
hiptese dos pontos de fixao e das organizaes pr-genitais no desenvolvimento da libido. A foi possvel compreender o efeito da frustrao como causa da regresso 
da libido para algum ponto de fixao anterior. Isso se tornou especialmente claro em dois artigos: "Tipos de Desencadeamento da Neurose" (1912c), ibid., Vol. XII, 
ver em [1], e "A Predisposio  Neurose Obsessiva" (1913i), ibid., Vol. XII, ver em [1]-[2]. Mas j se suspeitava de que um processo semelhante tambm deveria estar 
em ao nos distrbios mais graves, na esquizofrenia e na parania, hiptese cuja prova seria encontrada no estudo da autobiografia de Schreber (1911c), ibid., ver 
em [1].
           Se aceitarmos a ltima definio de Freud para a "defesa" (em Inibio, Sintoma e Angstia, 1926d, ibid., XX, [1]-[2]), como uma "designao geral para 
todas as tcnicas a que o ego recorre nos conflitos que podem levar a uma neurose", talvez possamos considerar todos esses exemplos de regresso "temporal" como 
mecanismos de defesa. Isso, porm, dificilmente pode ser dito, salvo em sentido muito indireto, sobre outra manifestao clnica da regresso - a transferncia - 
que foi examinada por Freud em seu artigo tcnico "A Dinmica da Transferncia" (1912b), ibid., XII, ver em [1]-[2]. Essa forma especial de regresso temporal foi 
alvo de alguns outros comentrios interessantes em A Histria do Movimento Psicanaltico (1914d), Edio Standard Brasileira, Vol. XIV, [1]-[2], IMAGO Editora, 1974.
           A terceira espcie de regresso de Freud - a regresso "formal" - descrita por ele como ocorrendo "onde os mtodos primitivos de expresso e representao 
tomam o lugar dos mtodos habituais" (A Interpretao dos Sonhos, Edio Standard Brasileira, Vol. V, [1], IMAGO Editora, 1972) - foi por ele examinada sobretudo 
nas Conferncias X, XI e XII das Conferncias Introdutrias em relao com os sonhos, o simbolismo e a lingstica.
           As prprias classificaes de Freud dessas vrias espcies de regresso no foram uniformes. Na primeira delas, nas Cinco Lies (1910a), Edio Standard 
Brasileira, Vol. XI, [1], IMAGO Editora, 1970, ele descreveu a regresso "temporal" e a "formal". No pargrafo includo em 1914 em A Interpretao dos Sonhos, ibid., 
Vol. V, [1], ele acrescentou a regresso "topogrfica". Em seu artigo metapsicolgico sobre os sonhos (1917d), escrito em 1915, falou (ibid., Vol. XIV, [1]-[2]) 
de dois tipos de regresso "temporal", "um afetando o desenvolvimento do ego e outro, o da libido"; e em (ibid., em [1]), referiu-se a uma regresso"topogrfica", 
diferenciando-a da "j mencionada regresso temporal ou evolutiva". Por fim, na Conferncia XIII das Conferncias Introdutrias (1916-1917), Edio Standard Brasileira, 
Vol. XV, em [1], diferenciou uma regresso "formal" de uma "material".
           Ao considerar essas pequenas variaes de terminologia, convm lembrar o comentrio final de Freud no pargrafo acrescentado em 1914  Interpretao dos 
Sonhos (Edio Standard Brasileira, Vol. V, em [1], IMAGO Editora, 1972), que j citamos mais de uma vez: "Todas essas trs espcies de regresso; porm, so no 
fundo uma s e ocorrem, em geral, simultaneamente; pois a que  mais antiga no tempo  a mais primitiva na forma, e na topografia psquica situa-se mais prxima 
da extremidade perceptual".
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
         
         
         
         
         PARTE II
         
         
           PSICOPATOLOGIA
          
           A primeira parte desse projeto continha, mais ou menos a priori, tudo o que se poderia deduzir das hipteses bsicas, modelado e corrigido segundo vrias 
experincias concretas. Esta segunda parte procura inferir na anlise dos processos patolgicos alguns determinantes adicionais do sistema fundamentado nas hipteses 
bsicas; uma terceira parte tentar estruturar, a partir das duas anteriores, as caractersticas do transcurso normal dos eventos psquicos.
           A. Psicopatologia da Histeria
          
           [1] A COMPULSO HISTRICA
          
           Comearei pelo estudo dos fenmenos que ocorrem na histeria, sem que lhe sejam forosamente peculiares. - O que antes de mais nada chama a ateno de 
qualquer observador da histeria  o fato de que os pacientes histricos esto sujeitos a uma compulso exercida por idias excessivamente intensas. Assim, por exemplo, 
uma idia pode surgir na conscincia com freqncia particular, sem que a passagem [dos eventos] a justifique; ou a ativao dessa idia ser acompanhada de conseqncias 
psquicas que so inteligveis. A emergncia da idia excessivamente intensa acarreta conseqncias que, por um lado, no podem ser suprimidas e, por outro, no 
podem ser compreendidas - descarga de afeto, inervaes motoras, impedimentos. A pessoa no fica, de modo algum, alheia ao carter surpreendente da situao.
           As idias excessivamente intensas tambm ocorrem normalmente. Elas conferem individualidade ao ego. No nos surpreendem quando conhecemos seu desenvolvimento 
gentico (educao, experincias) e seus motivos. Estamos acostumados a considerar essas idias excessivamente intensas como produto de motivos imperiosos e justificveis. 
As idias histricas excessivamente intensas, ao contrrio, surpreendem por sua extravagncia; so idias que no teriam conseqncias em outras pessoas e cuja importncia 
no conseguimos entender. Parecem-nos intrusas, usurpadoras e, conseqentemente, ridculas.
           A compulso histrica , portanto, (1) ininteligvel, (2) incapaz de resolver-se pela atividade do pensamento, (3) incongruente em sua estrutura.
           Existe uma compulso neurtica simples que pode ser contrastada com a de tipo histrica. Assim, por exemplo, um homem pode ter corrido o risco de cair 
de uma carruagem e, desde ento, ser-lhe impossvel viajar dessa maneira. Essa compulso  (1) inteligvel, pois se conhece sua origem e (3) congruente, pois a associao 
com o perigo justifica a relao entre o viajar de carruagem e o medo. No entanto, no  tambm passvel de ser solucionada pela atividade do pensamento. Esta ltima 
caracterstica no pode ser considerada como inteiramente patolgica: tambm as nossas idias normais excessivamente intensas so, muitas vezes, impossveis de solucionar. 
Negar-se-ia  compulso histrica qualquer carter patolgico, se a experincia nos nos demonstrasse que, nas pessoas saudveis, tal compulso s persiste por um 
breve espao de tempo depois de sua ocorrncia, desintegrando-se gradativamente. A persistncia da compulso , pois, patolgica e indica uma neurose simples.
           Nossa anlise mostra agora que a compulso histrica se resolve imediatamente,  explicada (tornada inteligvel). Essas caractersticas so, assim,em 
essncia uma. Aprendemos na anlise, tambm, como opera o processo do aparecimento da absurdidade e da incongruidade. O resultado da anlise, expressa em termos 
gerais, apresenta-se como se segue:
           Antes da anlise, A  uma idia excessivamente intensa que irrompe na conscincia com demasiada freqncia, provocando a cada vez o pranto. A pessoa no 
sabe por que chora diante de A; acha absurdo, mas no consegue evitar.
           Depois da anlise, descobriu-se que existe uma idia B que, com toda a razo,  motivo de pranto, e que com toda a razo se repete freqentemente enquanto 
a pessoa no pratica contra ela uma determinada ao psquica bastante complicada. O efeito de B no  absurdo;  inteligvel para a pessoa e pode at ser combatido 
por ela.
           B mantm uma relao particular com A.
           Pois houve uma ocorrncia que consistiu de B + A. A foi uma circunstncia incidental; B foi apropriado para produzir um efeito duradouro. A reproduo 
desse evento na memria tomou agora uma forma de tipo tal que  como se A tomasse o lugar de B. B tornou-se um substituto, um smbolo de B. Da a incongruidade: 
A  acompanhado de conseqncias que no parecem adequadas, que no se enquadram nele.
           A formao de smbolos tambm ocorre normalmente. Um soldado  capaz de se sacrificar por um farrapo multicor preso a um mastro, por que isso se transformou 
para ele no smbolo de sua ptria, e ningum considera isso neurtico.
           Mas o smbolo histrico porta-se de outra maneira. O cavaleiro que se bate pela luva de sua dama sabe, em primeiro lugar, que a luva deve toda a sua importncia 
 dama; e, em segundo lugar, sua venerao pela luva no o impede, de modo algum, de pensar na dama e de servi-la de outras formas. O histrico, que chora por causa 
de A, no percebe que isso se deve  associao A-B, sendo que B no desempenha o menor papel em sua vida psquica. Neste caso, a coisa foi completamente substituda 
pelo smbolo.
           Essa confirmao est certa no sentido mais estrito. Ns [podemos] convencer[-nos] de que, sempre que  evocada, do exterior ou por associao, alguma 
coisa que de fato deveria catexizar B, em seu lugar aparece A na conscincia. A rigor, pode-se deduzir a natureza de B a partir das causas provocadoras que - de 
maneira marcante - suscitam o aparecimento de A.
           Em suma: A  compulsiva e B est recalcada (ao menos da conscincia).
           A anlise levou a esta surpreendente concluso: para cada compulso existe um recalque correspondente e, para cada intruso excessiva na conscincia, 
existe uma amnsia correspondente.
           A expresso "excessivamente intensa" aponta para caractersticas quantitativas.  plausvel supor que o recalcamento tenha o sentido quantitativo de ser 
despojado de Q, e que a soma dos dois [da compulso e do recalcamento] seja igual ao normal. Sendo assim, s a distribuio se modificou. Algo foi acrescentado a 
A, que foi subtrado de B. O processo patolgico  um processo de deslocamento, tal como vimos a conhecer nos sonhos - ou seja, um processo primrio.
          
           [2] A GNESE DA COMPULSO HISTRICA
          
          Surgem agora vrias perguntas importantes. Em que condies ocorrem semelhante formao simblica patolgica [e] (por outro lado) semelhante recalcamento? 
Qual a fora ativa que intervm? Em que estado se encontram os neurnios da idia excessivamente intensa e os da idia recalcada?
          Nada se poderia depreender disso e nada mais se poderia construir, se a experincia clnica no nos ensinasse dois fatos. Primeiro, que o recalcamento 
 invariavelmente aplicado a idias que despertam no ego um afeto penoso (de desprazer) e segundo, a idia[s] provenientes da vida sexual.
          J se pode suspeitar que  esse afeto desprazeroso que aciona o recalcamento. De fato, j presumimos a existncia de uma defesa primria que consiste na 
inverso da corrente de pensamento assim que ele se depara com um neurnio cuja catexizao libera desprazer. [Cf. em [1] e [2]-[3].] A justificao dessa [hiptese] 
surgiu de duas experincias: (1) que a catexia desse neurnio certamente no era a que estava sendo procurada quando o processo de pensamento visava, originalmente, 
estabelecer uma situao de satisfao de y; (2) que, quando uma experincia de dor  terminada por um reflexo, a percepo hostil  substituda por outra [em [1]].
          Podemos, porm, convencer-nos de modo mais direto quanto ao papel desempenhado pelo afeto defensivo. Se investigarmos o estado da [idia] recalcada B, 
comprovaremos que  fcil encontr-la e lev-la  conscincia. Isso constitui uma surpresa, pois seria perfeitamente possvel supor que B estivesse realmente esquecida, 
que no houvesse restado em y nenhum trao mnmico de B. Mas no, B  uma imagem mnmica como outra qualquer; no se extingue. Mas se, como de costume, B for um 
complexo de catexias, surgir ento uma resistncia, extraordinariamente forte e difcil de vencer, contra a atividade de pensamento com B. Podemos imediatamente 
reconhecer nessa resistncia a B a medida de compulso exercida por A e concluir que a fora que recalcou B no passado pode ser aqui vista em ao mais uma vez. 
Ao mesmo tempo, aprendemos algo mais. At agora sabia-se apenas que B no podia se tornar consciente; ignorava-se tudo a respeito da relao de B com a catexia de 
pensamento. Agora aprendemos que a resistncia  dirigida contra qualquer pensamento que tenha qualquer relao com B, mesmo que esta [B] j se tenha tornado parcialmente 
consciente. Assim, em vez de excluda da conscincia, pode-se dizer excluda do processo de pensamento.
          Existe, portanto, um processo defensivo oriundo do ego catexizado que resulta no recalcamento histrico e, concomitantemente, na compulso histrica. Nesse 
sentido, o processo parece diferenciar-se dos processos y primrios.
          
           [3] A DEFESA PATOLGICA
          
           No obstante, ainda estamos longe de uma soluo. Como se sabe, o resultado do recalcamento histrico se distingue profundamente do da defesa normal, 
que se conhece com exatido.  um dado de observao geral que evitamos pensar em coisas que despertam unicamente desprazer, e o fazemos desviando o pensamento para 
outras coisas. Se conseguirmos, porm, consoantemente, fazer com que a [idia] B incompatvel surja raramente em nossa conscincia, por t-la mantido to isolada 
quanto possvel, ainda assim jamais conseguiremos esquecer B a ponto de nenhuma percepo nova reavivar sua lembrana. Ora, tampouco na histeria  possvel evitar 
semelhante reativao; a nica diferena consiste no fato de que ento, em vez de B, A sempre se torna consciente - isto , catexizada. , portanto, a formao simblica 
desse tipo estvel que constitui a funo que ultrapassa a defesa normal.
           A explicao mais bvia para essa funo aumentada seria a de atribu-la  maior intensidade do afeto defensivo. A experincia demonstra, porm, que as 
lembranas mais penosas, que deveriam necessariamente despertar o maior desprazer (a lembrana do remorso pelas ms aes), no podem ser recalcadas e substitudas 
por smbolos. A existncia de uma segunda precondio da defesa patolgica [Cf. em [1]] - a sexualidade - tambm sugere que a explicao deve ser buscada em outra 
parte.  impossvel supor que os afetos sexuais penosos superem tanto em intensidade a todos os demais afetos desprazerosos. Deve haver alguma outra caracterstica 
das idias sexuais capaz de explicar como  que s elas ficam sujeitas ao recalcamento.
           Cumpre acrescentar aqui ainda outra observao.  evidente que o recalcamento histrico ocorre mediante o auxlio da formao de smbolos, do deslocamento 
para outros neurnios. Poder-se-ia supor, ento, que o enigma reside apenas no mecanismo desse deslocamento e que no h nada a explicar sobre o prprio recalcamento. 
No entanto, quando chegarmos  anlise da neurose obsessiva, por exemplo, veremos que nela existe um recalcamento sem formao de smbolos e, de fato, que o recalque 
e a substituio esto separados cronologicamente. Por conseguinte, o processo de recalcamento continua sendo o cerne do enigma.
          
           [4] A PROTON PSEUDOS [PRIMEIRA MENTIRA] HISTRICA
          
           Vimos que a compulso histrica se origina de um tipo peculiar de movimento da Q (formao simblica), que  provavelmente um processo primrio, uma vez 
que pode ser facilmente demonstrado nos sonhos; [e vimos] que a fora ativadora desse processo  a defesa por parte do ego, a qual, no entanto, desempenha aqui mais 
do que a sua funo normal [em [1]]. Precisamos de uma explicao para o fato de que um processo-do-ego possa acarretar conseqncias que estamos acostumados a encontrar 
somente nos processos primrios. Devemos esperar aqui a interveno de determinantes psquicos muito especiais. Sabemos da observao clnica que tudo isso ocorre 
apenas na esfera sexual; de modo que talvez tenhamos que explicar o determinante psquico especial a partir das caractersticas naturais da sexualidade.
           Ora, acontece que existe na esfera sexual uma constelao psquica toda especial que bem poderia ser til paras nossos fins. Vou ilustr-la (j o conhecemos 
empiricamente) com um exemplo.
           Emma acha-se dominada, atualmente, pela compulso de no poder entrar nas lojas sozinha. Como motivo para isso, [apresentou] uma lembrana da poca em 
que tinha doze anos (pouco depois da puberdade). Ela entrou numa loja para comprar algo, viu dois vendedores (de um dos quais ainda se lembra) rindo juntos, e saiu 
correndo, tomada de uma espcie de afeto de susto. Em relao a isso, terminou recordando que os dois estavam rindo das roupas dela e que um deles a havia agradado 
sexualmente.
           Tanto a relao desses fragmentos [entre si] como o efeito da experincia so ininteligveis. Se ela se sentiu mal porque suas roupas eram alvo de riso, 
isso ter sido remediado h muito tempo, desde que passou a se vestir como uma moa [crescida]. Alm disso, entrar sozinha ou acompanhada numa loja nada tem a ver 
com as roupas que ela usa. Que ela no precisa simplesmente de proteo  algo que fica comprovado pelo fato de que, como acontece nos casos de agorafobia, at a 
companhia de uma criana pequena  suficiente para dar-lhe segurana. Existe ainda o fato, totalmente incongruente, de um dos vendedores t-la agradado; para isso 
tambm no faria diferena estar acompanhada ou no. Por conseguinte, as lembranas despertadas no explicam nem a compulso nem a determinao do sintoma.
           As novas investigaes revelaram uma segunda lembrana, que ela nega ter tido em mente na ocasio da Cena I. Tambm no h nada que a comprove. Aos oito 
anos de idade, ela esteve numa confeitaria em duas ocasies para comprar doces, e na primeira o proprietrio agarrou-lhe as partes genitais por cima da roupa. Apesar 
da primeira experincia, ela voltou l uma segunda vez; depois, parou de ir. Agora, recrimina-se por ter ido a segunda vez, como se com isso tivesse querido provocar 
a investida. De fato, seu estado de "conscincia pesada e opressiva" remonta a essa experincia.
           Agora compreendemos a Cena I (vendedores), combinando-a com a Cena II (proprietrio da confeitaria). Basta estabelecer um vnculo associativo entre ambas. 
Ela prpria indicou que ele  fornecido pelo riso: o riso dos vendedores a fez lembrar-se do sorriso com que o proprietrio da confeitaria acompanhou sua investida.A 
marcha dos acontecimentos pode ser reconstituda. Na loja, os dois vendedores estavam rindo; esse riso evocou (inconscientemente) a lembrana do proprietrio. De 
fato, a segunda situao tinha ainda outra semelhana [com a primeira]: ela mais uma vez estava sozinha na loja. Juntamente com o dono da confeitaria, lembrou-se 
de que ele a agarrara por cima da roupa; de que desde ento ela alcanara a puberdade. A lembrana despertou o que ela certamente no era capaz na ocasio, uma liberao 
sexual, que se transformou em angstia. Devido a essa angstia, ela temeu que os vendedores da loja pudessem repetir o atentado e saiu correndo.
           No resta dvida de que esto aqui misturadas duas espcies de processos?? e de que a lembrana da Cena II (proprietrio da confeitaria) ocorreu num estado 
muito diferente do da primeira. O que se passou pode ser representado da seguinte maneira [Fig. 16].
           
           
           Fig. 16
           
            No desenho as idias em escuro correspondem s percepes que foram lembradas. O fato de que liberao sexual tambm penetrou na conscincia ficacomprovado 
pela idia, de outro modo incompreensvel, da atrao que ela sentiu pelo vendedor que ria. O resultado - no permanecer sozinha na loja, devido ao risco de atentado 
-  construdo de maneira perfeitamente racional, levando em conta todos os elementos do processo associativo. No entanto, nada do processo (representado embaixo) 
penetrou na conscincia, a no ser o elemento "roupas"; e o pensamento conscientemente operante estabeleceu duas conexes falsas no material  sua disposio (vendedores, 
riso, roupas, sensao sexual): primeiro, que riam dela por causa da roupa e, segundo, que ela havia ficado sexualmente excitada por um dos vendedores.
           Todo o complexo ([crculos] no escurecidos) estava representado na conscincia de "roupas", evidentemente a mais inocente. Aqui houve um recalcamento 
acompanhado pela formao de smbolos. O fato de o efeito - o sintoma - ser ento construdo de modo perfeitamente racional [ver acima], sem que o smbolo desempenhasse 
qualquer papel nele, , na realidade, uma peculiaridade desse caso.
           Poder-se-ia dizer que  muito comum uma associao passar por uma srie de vnculos intermedirios inconscientes antes de chegar a um que seja consciente, 
como acontece aqui. Nesse caso, o elemento que penetra na conscincia , provavelmente, o que desperta interesse especial. No nosso exemplo, porm, o que chama ateno 
 justamente que o elemento que penetra na conscincia no  o que desperta interesse (o atentado), mas outro, na qualidade de smbolo (as roupas). Se nos perguntarmos 
qual seria a causa desse processo patolgico interpolado, s poderemos indicar uma - a liberao sexual, da qual tambm h provas na conscincia. Isso est vinculado 
 lembrana do atentado; mas  altamente digno de nota o fato de ela [a liberao sexual] no se vinculou ao atentado quando esse foi cometido. Temos aqui um caso 
em que uma lembrana desperta um afeto que no pde suscitar quando ocorreu como experincia, porque, nesse entretempo, as mudanas [trazidas] pela puberdade tornaram 
possvel uma compreenso diferente do que era lembrado.
           Ora, esse caso  tpico do recalcamento na histeria. Constatamos invariavelmente que se recalcam lembranas que s se tornaram traumticas por ao retardada. 
A causa desse estado de coisas  o retardamento da puberdade em comparao com o resto do desenvolvimento do indivduo.
           
        [5] DETERMINANTES DA PRWTON YEVDOV UST [ERCIN]
          
           Embora, em geral, no se d na vida psquica a situao de uma lembrana despertar um afeto que no existiu por ocasio da experincia, tal , no entanto, 
uma ocorrncia muito comum no caso das idias sexuais, precisamente porque o retardamento da puberdade constitui uma caracterstica geral da organizao. Cada indivduo 
adolescente porta traos de memria que s podem ser compreendidos com a manifestao de suas prprias sensaes sexuais; todo adolescente, portanto, traz dentro 
de si o germe da histeria.  evidente que ter de haver tambm outros fatores concomitantes, j que essa tendncia universal fica limitada ao pequeno nmero de pessoas 
que realmente se tornam histricas. Ora, a anlise indica que o que h de perturbador num trauma sexual , sem dvida, a liberao do afeto; e a experincia nos 
ensina que os histricos so pessoas das quais se sabe que, em parte, tornaram-se prematuramente excitveis em sua sexualidade devido  estimulao mecnica e emocional 
(masturbao), e das quais, em parte, podemos supor que uma liberao sexual prematura est presente na sua disposio inata. Mas o incio prematuro da liberao 
sexual ou a insatisfao prematura da liberao sexual evidentemente se equivalem, de modo que essa condio fica reduzida a um fator quantitativo.
           Em que consiste, porm, o significado dessa prematuridade da liberao sexual? Aqui, todo o peso recai sobre a prematuridade, pois no se pode afirmar 
que a liberao sexual em geral origine o recalcamento; isso converteria o recalque, mais uma vez, num processo de freqncia normal.
           
           [6] PERTURBAO DO PENSAMENTO PELO AFETO
          
           No podemos refutar [o fato] de que a perturbao do processo psquico normal teria dois determinantes: (1) que a liberao sexual estaria ligada a uma 
lembrana, e no a uma experincia, (2) que a liberao sexual ocorreria prematuramente. Essas duas ocorrncias produziriam uma perturbao que ultrapassa o normal, 
mas que tambm est potencialmente presente no normal.
           A experincia cotidiana ensina que a gerao de afeto inibe de vrias maneiras o curso normal do pensamento. Em primeiro lugar, isso se d no sentido 
de serem esquecidas muitas vias de pensamento que seriam normalmente levadas em conta - isto ,  semelhana do que ocorre nos sonhos [Ver em [1]]. Assim, por exemplo, 
ocorreu-me, durante a agitao causada por uma grande angstia, esquecer de fazer uso do telefone que acabara de ser instalado em minha casa. A via recm-estabelecida 
sucumbia ao estado afetivo: a facilitao - ou seja, o que estava estabelecido desde longa data - levou a melhor. Esse esquecimento envolve o desaparecimento da 
[capacidade de] seleo, da eficincia e da lgica no decurso [do pensamento], tal como acontece nos sonhos. Em segundo lugar, [o afeto inibe o pensamento] no sentido 
de que, sem que haja nenhum esquecimento, adotam-se vias que so geralmente evitadas: sobretudo, vias que conduzem  descarga, [tais como] aes [efetuadas] sob 
a influncia do afeto. Em suma, pois, o processo afetivo se aproxima do processo primrio no inibido.
           Disso se devem extrair vrias inferncias. Primeiro, que na liberao afetiva se intensifica a prpria idia liberadora; segundo, que a funo principal 
do ego catexizado consiste em evitar novos processos afetivos e em reduzir as antigas facilitaes afetivas. Essa posio s pode ser descrita da seguinte maneira. 
Originalmente, uma catexia perceptual, em sua qualidade de herdeira de uma experincia dolorosa, gerou desprazer; ela [a catexia] foi intensificada pela Q liberada, 
prosseguindo ento at a descarga por vias de passagem que j se encontravam parcialmente pr-facilitadas. Uma vez formado o ego catexizado, a "ateno" para as 
novas catexias perceptuais desenvolveu-se da forma que conhecemos [em. [1] e [2]] e ela [a ateno] seguiu, com as catexias colaterais, o curso [da quantidade] proveniente 
da percepo. Desse modo, a liberao de desprazer ficou quantitativamente restrita e seu incio serviu, precisamente, de sinal para o ego pr em ao a defesa normal 
[em [1]]; assim se evitou o desenvolvimento muito fcil de novas experincias de dor, com todas as suas facilitaes. Todavia, quanto mais intensa  a liberao 
de desprazer, tanto mais penosa  a tarefa para o ego, que, com suas catexias colaterais, afinal s consegue contrabalanar as Qs at determinado limite, estando 
portanto fadado a permitir a ocorrncia de uma passagem primria [de quantidade].
           Alm disso, quanto maior  a quantidade que se esfora por passar, tanto mais difcil  para o ego a atividade de pensamento, que, segundo tudo indica, 
consiste no deslocamento experimental de pequenas Qs, [em [1] e [2]]. A "reflexo"  uma atividade do ego que exige tempo e que se torna impossvel quando existem 
grandes Qs no nvel do afeto. Eis por que h uma precipitao quando existe afeto, assim como uma seleo de vias semelhantes  que se adota no processo primrio.
           
           Por conseguinte, cabe ao ego no permitir nenhuma liberao de afeto, pois este, ao mesmo tempo, permite um processo primrio. Seu melhor instrumento 
para esse fim  o mecanismo da ateno. Se uma catexia liberadora de desprazer conseguisse escapar  ateno, o ego chegaria tarde demais para neutraliz-la. Ora, 
isso  justamente o que acontece no caso da proton pseudos [primeira mentira] histrica. A ateno est [normalmente] concentrada nas percepes, onde geralmente 
se originam as liberaes de desprazer. Aqui, [porm, o que aparece] no  uma percepo, mas uma lembrana, que inesperadamente libera desprazer, e o ego s descobre 
isso tarde demais. Ele permitiu que houvesse um processo primrio porque no esperava que tal acontecesse.
           Existem, tambm, outras ocasies em que as lembranas liberam desprazer, o que , sem dvida, perfeitamente normal no caso das lembranas mais recentes. 
Quando o trauma (a experincia da dor) ocorre - os primeiros [traumas] escapam totalmente o ego - num momento em que j existe um ego, produz-se de incio uma liberao 
de desprazer, mas o ego tambm atua simultaneamente, criando catexias colaterais. Quando a catexia se repete, e o desprazer tambm se repete, mas as facilitaes-do-ego 
igualmente j se acham presentes: a experincia demonstra que a liberao [de desprazer] diminui de intensidade na segunda vez, at que, depois de vrias repeties, 
ela se reduz  intensidade de um sinal aceitvel para ao ego. [Cf. em [1], atrs.] Assim, pois, o essencial  que, por ocasio da primeira liberao de desprazer, 
no ocorra como experincia afetiva primria pstuma; essa [condio]  precisamente o que ocorre quando a lembrana  a primeira a motivar a liberao de desprazer, 
como no caso da proton pseudos histrica.
           Com isso, parece confirmada a importncia de um dos determinantes que apresentamos [em [1]] e que foi fornecido pela experincia clnica: o retardamento 
da puberdade possibilita os processos primrios pstumos.
           
           
           
           
           
           
           
           















PARTE III
TENTATIVA DE REPRESENTAR OS PROCESSOS  NORMAIS
           
           
         5 out. 95.
         
         [1]
         Deve ser possvel explicar em termos mecnicos [em [1]] o que denominei processos secundrios, atravs do efeito produzido por uma massa de neurnios (o 
ego) constantemente catexizados sobre outros com catexias variveis. Comearei por uma tentativa de representao psicolgica dos processos dessa espcie.
         Se de um lado tenho o ego e, de outro, as percepes - isto , catexias em  provenientes de  (do mundo externo) -, ento terei de encontrar um mecanismo 
que induza o ego a seguir as percepes e a influir sobre elas. Encontro-o [esse mecanismo] no fato de que, segundo meus pressupostos, toda percepo invariavelmente 
excita , dando assim origem a indicaes de qualidade. Ou, para ser mais exato, excita a conscincia (a conscincia de uma qualidade) em , e a descarga da excitao 
de  fornecer, [como] toda descarga, informaes a , o que constitui de fato a indicao de qualidade. Por conseguinte, proponho a sugesto de que seriam essas indicaes 
de qualidade as que interessam a  na percepo. [Cf. em [1].]
         Tal seria o mecanismo da ateno psquica. Acho difcil dar uma explicao mecnica (automtica) para a sua origem. Por esse motivo, creioque ela  biologicamente 
determinada - isto , que se conservou no curso da evoluo psquica, pois qualquer outro comportamento de y ficou excludo por ser gerador de desprazer. O efeito 
da ateno psquica  a catexia dos mesmos neurnios que so os portadores da catexia perceptual. Esse estado tem um prottipo na experincia de satisfao [em [1]], 
que  to importante para todo o curso de desenvolvimento, e em suas repeties: estados de anseio que evoluem para estados de desejo e estados de expectativa. J 
demonstrei [Parte I, Sees 16-8] que esses estados contm a justificativa biolgica de todo o pensamento. A situao psquica neles  a seguinte. O anseio implica 
um estado de tenso no ego e, em conseqncia disso, a representao do objeto amado (a idia de desejo)  catexizada. A experincia biolgica nos ensina que essa 
idia no deve ser to intensamente catexizada a ponto de se confundir com uma percepo, e que sua descarga deve ser adiada at que da idia partam indicaes de 
qualidade que comprovem que a idia agora  real, que  uma catexia perceptiva. Quando surge uma percepo idntica ou semelhante  idia, ela encontra seus neurnios 
pr-catexizados pelo desejo - quer dizer, todos ou parte deles j catexizados - na medida em que ambas coincidam. A diferena entre a idia e a percepo recm-chegada 
d origem, ento, ao processo de pensamento, que chegar a seu fim quando se tiver encontrado uma via pela qual as catexias perceptuais suprfluas [isto , indesejadas] 
se houverem convertido em catexias ideativas. Com isso se ter obtido a identidade. [Cf. em [1]]
         A ateno consiste, pois, em estabelecer o estado psquico de expectativa, inclusive para aquelas percepes que no coincidem, em parte, com as catexias 
de desejo. Acontece, simplesmente, que se tornou importante mandar catexias ao encontro de todas as percepes, uma vez entre elas podem estar as desejadas. A ateno 
 biologicamente justificada; basta apenas orientar o ego quanto a qual catexia expectante ele deve estabelecer, e  para esse fim que servem as indicaes de qualidade.
         
         Talvez seja possvel examinar com maior exatido o processo de adoo de uma atitude psquica. Suponhamos que, de incio, o ego no esteja previamente preparado; 
e surja uma catexia perceptual, seguida por sua indicao de qualidade. A ntima facilitao entre os dois elementos de informao intensificar a catexia perceptual 
e produzir ento a catexia dos neurnios perceptuais com ateno. A prxima percepo do mesmo objeto conduzir (de acordo com a segunda lei de associao) a uma 
catexia mais plena da mesma percepo, e apenas esta ser a percepo que  psiquicamente utilizvel.
         (J esta primeira parte da descrio fornece uma tese de suma importncia. A catexia perceptual, quando ocorre pela primeira vez, tem pouca intensidade, 
com escassa Q; na segunda vez, quando existe uma pr-catexia y, ela  quantitativamente maior. Ora, em princpio, o juzo sobre as caractersticas quantitativas 
do objeto no  modificado pela ateno. Conseqentemente, a Q externa dos objetos no pode ser expressa em y pela Q psquica. A Q psquica significa algo bem diferente, 
que no est representando na realidade, e, efetivamente, a Q externa est expressa em por algo diferente - pela complexidade das catexias [em [1]]. Mas  por esse 
meio que a Q externa se mantm afastada de y.)
         A prxima descrio  ainda mais satisfatria. Como resultado da experincia biolgica, a ateno y est constantemente voltada para as indicaes de qualidade. 
Essas ocorrem, pois, em neurnios pr-catexizados e com quantidade suficientemente grande. As informaes da qualidade, assim intensificadas, intensificam por sua 
vez, graas  sua facilitao, as catexias perceptivas; e o ego aprende a fazer com que suas catexias de ateno sigam o curso desse movimento associativo ao passarem 
da indicao de qualidade para a percepo. Com isso ele [o ego]  levado a catexizar precisamente as percepes corretas ou a seu meio. Com efeito, se admitirmos 
que  a mesma Q procedente do ego que percorre a facilitao entre a indicao de qualidade e a percepo, teremos realmente encontrado uma explicao mecnica (automtica) 
para a catexia da ateno [em [1]]. Desse modo, a ateno abandona as indicaes de qualidade para dirigir-se aos neurnios perceptivos, agora hipercatexizados [em 
[1]].
         Suponhamos que, por um motivo qualquer, o mecanismo da ateno falhe; nesse caso, no se produzir a catexia y dos neurnios perceptivos, ea Q que os atingiu 
se transmitir (de maneira puramente associativa) na direo das melhores facilitaes, na medida em que o permitam as relaes entre as resistncias e a quantidade 
da catexia perceptiva. [Cf. em [1].] Provavelmente, essa passagem [de quantidade] no tardaria a chegar a seu fim, j que Q se divide e logo se reduz, em algum neurnio 
mais prximo, a um nvel demasiadamente baixo para seguir adiante. A passagem da quantidade perceptiva, em certas circunstncias, subseqentemente pode excitar a 
ateno, ou de novo, no pode. Nesse caso ele termina no absorvido na catexia de algum neurnio vizinho, de cujo destino nada sabemos. Tal  a passagem da percepo 
sem ateno, como deve acontecer inmeras vezes por dia. Como demonstrar a anlise do processo da ateno, a passagem no pode ir muito longe, de onde se deduz 
que a quantidade perceptiva  pequena.
         Em compensao, se um [neurnio] perceptivo recebeu sua catexia da ateno, pode acontecer uma srie de coisas, entre as quais se devem ressaltar duas situaes 
- a do pensamento comum e a do pensamento meramente observador. Este ltimo caso parece o mais simples; corresponde mais ou menos ao estado do investigador que fez 
uma percepo e pergunta a si mesmo: o que significa isso? aonde leva? Ento procede da seguinte forma. (Para maior simplicidade, porm, agora terei que substituir 
a catexia da percepo complexa pela de um nico neurnio.) O neurnio perceptivo est hipercatexizado; a quantidade composta de Q e Q flui na direo das melhores 
facilitaes e, de acordo com a resistncia e a quantidade, transpor algumas barreiras e catexizar novos neurnios associados; outras barreiras sero superadas, 
porque a frao [de quantidade] que incide sobre eles  inferior ao limiar. Seguramente, agora sero catexizados neurnios mais numerosos e mais remotos do que no 
caso de um mero processo associativo destitudo de ateno. Tambm aqui, a corrente acabar desembocando em determinadas catexiastermi nais ou numa s. O resultado 
da ateno ser que, em vez de percepo, aparecero uma ou vrias catexias mnmicas (ligadas por associao ao neurnio inicial).
         Para maior simplicidade, suponhamos que se trate de uma nica imagem mnmica. Se esta pudesse ser novamente catexizada (com ateno) a partir de y, o jogo 
se repetiria: a Q tornaria a fluir mais uma vez e catexizaria (despertaria) uma nova imagem mnmica, recorrendo para isso  via de melhor facilitao. Ora, o propsito 
do pensamento observador , evidentemente, o de se familiarizar ao mximo com as vias que partem da percepo; pois, desse modo, ele poder realmente esgotar o conhecimento 
do objeto perceptivo. Note-se que a forma de pensamento aqui descrita leva  cognio. Por esse motivo, precisa-se, mais uma vez, no s de uma catexia y para as 
imagens mnmicas j alcanadas, como tambm de um mecanismo que leve essa catexia aos lugares certos. De que outra maneira os neurnios y do ego poderiam saber para 
onde a catexia deve ser dirigida? Um mecanismo de ateno como o que acabamos de descrever mais acima, porm, torna a pressupor indicaes de qualidade. Ser que 
elas surgem durante a passagem associativa [de quantidade]? Segundo os nossos pressupostos, normalmente, no como regra. Mas podem ser obtidas por meio de um novo 
dispositivo que passaremos a descrever. Em geral, as indicaes de qualidade emanam apenas da percepo; portanto, trata-se de obter uma percepo da passagem de 
Q. Se  passagem de Q estivesse vinculada uma descarga (alm da [mera] circulao), ela [a descarga] forneceria, como qualquer movimento, uma informao sobre o 
movimento [em [1]]. Afinal de contas, as prprias indicaes de qualidades so apenas informaes da descarga [em [1]] (talvez mais adiante [possamos saber] de que 
tipo). Agora, pode acontecer que, durante a passagem de Q tambm fique catexizado um neurnio motor, que ento descarregar Q, fornecendo uma indicao de qualidade. 
O problema, porm,  receber descargas desse gnero de todas as catexias. Nem todas so motoras, de modo que devero, para esse fim, ser colocadas numa facilitao 
segura com os neurnios motores.
         Essa finalidade  preenchida pelas associaes da fala, que consistem na vinculao de neurnios y com neurnios utilizados nasrepresentaes sonoras, que, 
por sua vez, se encontram intimamente associadas com as imagens verbais motoras. Essas associaes tm sobre as demais a vantagem de possuir outras duas caractersticas: 
so limitadas (escassas em nmero) e exclusivas. Em todo caso, a excitao passa da imagem-sonora para a imagem-verbal e desta para a descarga. Por conseguinte, 
quando as imagens mnmicas so de tal natureza que uma corrente parcial pode partir delas para imagens-sonoras e para as imagens-verbais, a catexia das imagens mnmicas 
 acompanhada por informaes de descarga, o que constitui uma indicao de qualidade e tambm, conseqentemente, indicao de que a lembrana  consciente. Ora, 
quando o ego pr-catexiza essas imagens-verbais, como antes pr-catexizou as imagens da descarga de  [Ver em [1]], com isso ter criado para si mesmo o mecanismo 
que lhe permite dirigir a catexia de y para as lembranas que emergem durante a passagem da Q. Eis aqui o pensamento consciente, observador. [1]
         Alm de possibilitar o conhecimento, as associaes da fala efetuam ainda outra coisa de suma importncia. As facilitaes entre os neurnios y constituem, 
como sabemos, a memria, ou seja, a representao de todas as influncias que y vivenciou a partir do mundo externo. Agora observamos que o prprio ego tambm catexiza 
os neurnios y e aciona passagems [de quantidade] que certamente devem deixar traos na forma de facilitaes. Mas y no dispe de nenhum meio para discernir entre 
esses resultados dos processos de pensamento e os resultados dos processos perceptivos. Talvez seja possvel conhecer e reproduzir os processos perceptivos pela 
sua associao com as descargas de ; mas das facilitaes estabelecidas pelo pensamento resta apenas o seu efeito, e no uma lembrana. Uma mesma facilitao de 
pensamento pode ter sido gerada por um nico processo intenso ou por dez processos de menor fora. As indicaes de descarga verbal so, porm, as que vm agora 
compensar essa lacuna; pois equiparam os processos de pensamento com os processos perceptivos, conferindo-lhe realidade e possibilitando a sua lembrana. [Cf. em 
[1], mas tambm em [1], adiante.]
         Tambm merece ser considerado o desenvolvimento biolgico dessa [espcie de] associao extremamente importante. A inervao da fala , a princpio, uma 
via de descarga para y, que atua como vlvula de segurana, servindo para regular as oscilaes de Q;  uma parte da via que conduz  mudana interna, que representa 
a nica descarga enquanto no se redescobre a ao especfica. [Para tudo isso, cf. em [1]-[2].] Essa via adquire uma funo secundria ao atrair a ateno da pessoa 
que auxilia (geralmente o prprio objeto de desejo) para o estado de anseio e aflio da criana; e, desde ento, passa a servir ao propsito da comunicao, ficando 
assim includa na ao especfica. No incio da funo judicativa, quando as percepes despertam interesse devido a sua possvel conexo com o objeto desejado, 
e seus complexos (como j foi demonstrado [em [1] e [2]] so decompostos num componente no assimilvel (a coisa) e num componente conhecido do ego atravs de sua 
prpria experincia (atributos, atividade) - o que chamamos de compreenso -, dois vnculos emergem [nesse ponto] em relao com o enunciado da fala. Em primeiro 
lugar, existem objetos - percepes - que nos fazem gritar, porque provocam dor;  imensamente importante que essa associao de um som (que tambm desperta imagens 
motoras da prpria pessoa) com uma [imagem] perceptiva, que em si j  complexa, ressalta o carter hostil daquele objeto e serve para dirigir a ateno para a [imagem] 
perceptiva. Numa situao em que a dor impede o recebimento de boas indicaes da qualidade do objeto, a informao sobre o grito do prprio sujeito serve para caracterizar 
as lembranas que provocam desprazer e para convert-las em objetos da ateno: est criadaa primeira categoria de lembranas conscientes. Pouco falta agora para 
inventar a fala. Existem outros objetos que emitem constantemente certos sons - isto , em cujo complexo perceptivo o som desempenha um papel. Em virtude da tendncia 
 imitao, que surge durante o processo judicativo [ver [1]],  possvel encontrar informaes de movimento que correspondam a essa imagem sonora. Tambm essa espcie 
de lembranas pode agora tornar-se consciente. S falta associar os sons intencionais com as percepes; feito isso, as lembranas de quando se observam indicaes 
de descarga sonora tornam-se conscientes se como as percepes e podem ser catexizadas a partir de y.
         Assim, verificamos ser caracterstico do processo de pensamento cognitivo que, durante sua ocorrncia, a ateno seja desde o incio dirigida para as indicaes 
de descarga de pensamento, para as indicaes da fala. Efetivamente, como se sabe, o chamado pensamento consciente se efetua com o acompanhamento de um leve dispndio 
motor.
         O processo de seguir a passagem de Q atravs de uma associao pode, pois, ser continuado indefinidamente, em geral at chegar a elementos associativos 
terminais "completamente conhecidos". A determinao dessa via e de seus pontos terminais abarca, ento, a "cognio" do que talvez seja uma nova percepo.
         Gostaramos, porm, de ter alguma informao quantitativa sobre esse processo de pensamento cognitivo. Aqui, efetivamente, a percepo est hipercatexizada, 
em comparao com o processo associativo simples. O prprio processo consiste num deslocamento de Q regulado pela associao com as indicaes de qualidade; em cada 
ponto de parada, a catexia y se renova e, finalmente, h uma descarga a partir dos neurnios motores da via da fala. Agora caber perguntar se esse processo significa 
uma perda considervel de Q para o ego ou se o dispndio de pensamento  relativamente pequeno. A resposta a essa pergunta nos  sugerida pelo fato de que a corrente 
de inervaes da fala durante o pensamento  evidentemente mnima. Ns no falamos realmente, nem tampouco nos movemos realmente, quando imaginamos uma imagem motora 
em movimento. Mas a diferena entre a idia e o movimento  apenas quantitativa, como nos ensinaram as experincias de leitura do pensamento. Quando pensamos com 
intensidade, no h dvida de que chegamos a falar em voz alta. Mas, como  possvel promover descargas to pequenas, se, afinal de contas, as Qs pequenas no conseguem 
fluir e as grandes se estabilizam en masse atravs dos neurnios motores? [1]
         
          provvel que as quantidades afetadas pelo deslocamento no processo de pensamento tambm no sejam grandes. Em primeiro lugar, o gasto de grandes Qs significa 
uma perda para o ego, que deve ser limitada na medida do possvel, pois as Qs esto destinadas  exigente ao especfica [Cf. [1] e [2]]. Em segundo lugar, uma 
Q grande percorreria simultaneamente vrias vias associativas e no deixaria tempo para a catexizao do pensamento, alm de causar grande dispndio. No resta dvida, 
pois, de que a corrente de Q durante o processo de pensamento deve ser pequena. Apesar disso, segundo nossa hiptese, a percepo e a memria durante o processo 
de pensamento devem estar mais intensamente hipercatexizadas do que durante a percepo simples. Ademais, existem, naturalmente, diferentes graus de intensidade 
da ateno que s podemos interpretar como diferentes aumentos das Qs catexizantes. Nesse caso, o processo da vigilncia observadora [das associaes] seria precisamente 
tanto mais difcil quanto mais intensa fosse a ateno - o que seria to impraticvel que nem sequer podemos admiti-lo.
         Temos aqui dois requisitos aparentemente contraditrios: catexia forte e deslocamento fraco. Se quisermos concili-los, chegaremos  hiptese do que , 
por assim dizer, um estado ligado do neurnio, que, embora na presena de uma catexia elevada, permite apenas uma corrente pequena. Essa hiptese se torna mais plausvel 
ao considerarmos que a corrente de um neurnio  obviamente influenciada pelas catexias que o rodeiam. Ora, o prprio ego  uma massa de neurnios dessa espcie, 
que se agarram a suas catexias - isto , que esto em estado ligado, e isso, com toda a certeza, s pode suceder como resultado de seus efeitos mtuos. Podemos, 
portanto, imaginar que um [neurnio] perceptivo, catexizado com ateno, seja, por assim dizer, [absorvido] temporariamente pelo ego e fique ento sujeito  mesma 
ligao de sua Q, tal como todos os neurnios do ego. Se for mais intensamente catexizado, a quantidade de corrente pode em conseqncia ser diminuda, e no necessariamente 
aumentada. Talvez possamos supor que, graas a essa ligao, precisamente a Q externa permanea livre para fluir, enquanto a catexia da ateno permanece ligada; 
relao essa que no precisa, naturalmente, ser invarivel.
         Assim, os processos de pensamento seriam mecanicamente caracterizados por esse estado de ligao, que combina uma catexia elevada com uma corrente pequena. 
 possvel conceber outros processos em que a corrente seja proporcional  catexia - os processos com descarga desinibida.
         Espero que a hiptese de um estado ligado dessa espcie demonstre ser mecanicamente sustentvel. Gostaria de ilustrar um pouco as conseqncias psicolgicas 
dessa hiptese. A princpio, a hiptese parece exposta a uma contradio interna. Se o estado [de ligao] consiste em que, na presena de uma catexia dessa espcie, 
s restem pequenas Qs para efetuar os deslocamentos, como pode ele [esse estado de ligao] atrair novos neurnios - isto , fazer com que grandes Qs cheguem at 
eles? E, reduzindo as mesmas dificuldades a termos mais simples, como pode um ego assim constitudo ser capaz de se desenvolver de todo?
         Assim, vemo-nos inesperadamente diante do mais obscuro problema: a origem do "ego" - ou seja, de um complexo de neurnios que se mantm presos a suas catexias, 
um complexo, por conseguinte, que permanece por breves perodos em nvel constante [Ver em [1]]. O exame gentico ser muito elucidativo. O ego consiste, originariamente, 
de neurnios nucleares, que recebem Q endgena pelas vias de conduo [em [1]] e a descarregam ao longo do curso da alterao interna [em [1]]. A experincia da 
satisfao produz uma associao entre esse ncleo e uma imagem perceptiva (a imagem de desejo) e a informao de um movimento ([informao da] poro reflexa da 
ao especfica) [em [1]]. A educao e o desenvolvimento desse ego primitivo se efetuam num estado repetitivo de desejo, ou seja, em estados de expectativa [em 
[1]]. Ele [o ego] primeiro aprende que no deve catexizar as imagens motoras, de modo que resulte a descarga, enquanto no se cumprirem determinadas condies advindas 
da percepo. Aprende, ademais, que no deve catexizar a idia desejante acima de certa medida, caso contrrio estaria enganando a si mesmo de maneira alucinatria 
[em [1]]. Se, porm, respeita essas duas restries e orienta sua ateno para as novas percepes, apresenta uma perspectiva de obter a satisfao que procura. 
 evidente, portanto, que as barreiras que impedem o ego decatexizar a imagem desejante e a imagem motora acima de certa medida so a causa de uma acumulao de 
Q no ego e o impelem, talvez, a transferir a sua Q, dentro de certos limites, para os neurnios que se encontram a seu alcance.
         Os neurnios nucleares hipercatexizados incidem, em ltima instncia, sobre as vias de conduo provenientes do interior [do corpo] que se tornaram permeveis 
em virtude de sua contnua relao com Q [em [1]]; e, sendo uma continuao dessas [vias de conduo], [os neurnios nucleares] tambm devem ficar repletos de Q. 
A Q que neles exista escoar por uma distncia proporcional s resistncias que se oponham a seu curso, at que as resistncias seguintes sejam maiores do que a 
frao de Q disponvel para a corrente. A partir da, a totalidade da massa catexizada est em equilbrio, mantida, de um lado, pelas duas barreiras contra a motilidade 
e o desejo, de outro, pelas resistncias dos neurnios mais distantes e, na direo interna, pela presso constante das vias de conduo. No interior dessa estrutura 
do ego, a catexia no ser, de modo algum, igual em todos os pontos; precisa apenas ser proporcionalmente igual - isto , em relao s facilitaes. [Cf. em [1].]
         Quando o nvel de catexia aumenta no ncleo do ego, a amplitude deste ltimo pode expandir seu mbito; quando [o nvel] diminui, o ego se constrange concentricamente. 
Em um nvel determinado e em determinada amplitude do ego, no h nada a impedir a possibilidade de deslocamento [da catexia] dentro da rea catexizada.
         Resta apenas averiguar a origem das duas barreiras que garantem o nvel constante do ego e, sobretudo, a da barreira contra as imagens motoras, que impede 
a descarga. Aqui nos deparamos com um ponto decisivo para a nossa concepo de toda a organizao. A nica coisa que se pode dizer  que quando ainda no existia 
essa barreira e quando, junto com desejo, ocorria tambm a descarga motora, o prazer esperado nunca aparecia e a liberao contnua de estmulos endgenos terminava 
por causar desprazer. S essa ameaa de desprazer, que ficou vinculada  descarga prematura, pode representar a barreira em questo. No curso posterior do desenvolvimento, 
a facilitao assumiu uma parte dessa tarefa. Mas ainda persiste o fato de que a Q no ego no catexiza as imagens motoras imediatamente, porque a conseqncia seria 
uma liberao de desprazer.
         Tudo o que chamo de aquisio biolgica do sistema nervoso , na minha opinio, representado por uma ameaa de desprazer dessa espcie, cujo efeito consiste 
no fato de no serem catexizados os neurnios que levam  liberao do desprazer. Isso constitui a defesa primria [em [1]], conseqncia compreensvel da tendncia 
bsica do sistema nervoso [em [1]]. O desprazer permanece como o nico meio de educao. Confesso, porm, que no sei explicar como a defesa primria, a no-catexizao 
devido a uma ameaa de desprazer, pode ser representada mecanicamente.
         Daqui por diante me arriscarei a deixar sem resposta a questo de descobrir uma mecnica para tais regras biolgicas; ficarei contente se conseguir permanecer 
fiel a uma descrio claramente comprovvel do curso do desenvolvimento. Uma segunda regra biolgica, abstrada do processo de expectativa [Ver em [1]], deve indubitavelmente 
ser a de que a ateno precisa ser dirigida para indicaes de qualidade, porque estas pertencem a percepes que podem levar  satisfao, e de que a pessoa ento 
se deixe guiar pela indicao de qualidade at a percepo recm-surgida. Em suma, o mecanismo da ateno deve sua origem, com certeza, a uma regra biolgica dessa 
natureza; ele [esse mecanismo] regular o deslocamento das catexias do ego.
         Agora se poderia objetar que tal mecanismo, atuando com o auxlio das indicaes de qualidade,  rudimentar. O ego poderia ter aprendido biologicamente 
a catexizar por si s a esfera perceptiva nos estados de expectativa, em vez de apenas esperar que as indicaes de qualidade o induzam a essa catexizao. H, porm, 
dois pontos a ressaltar em justificativa do mecanismo da ateno. (1) O setor das indicaes de descarga proveniente de   evidentemente menor e compreende menos 
neurnios do que o setor das percepes - quer dizer, de todo o pallium de  que se relacione com os rgos sensoriais [Cf. em [1]]; o ego, portanto, poupa um gasto 
extraordinariamente grande ao manter catexizadas as indicaes de descarga em lugar das percepes. E (2) as indicaes de descarga ou as indicaes da realidade, 
destinadas a servir precisamente  distino entre as catexias de percepes reais e as catexias de desejo. Vemos, pois, que sempre consiste na catexizao que o 
ego faz dos neurnios em que j apareceu uma catexia.
         Para o ego, portanto, a regra biolgica da ateno  a seguinte: Quando aparece uma indicao da realidade, a ento a catexia perceptiva que existe simultaneamente 
deve ser hipercatexizada.
         Essa  a segunda regra biolgica. A primeira foi a da defesa primria.
         
         [2]
         Do ponto a que chegamos at aqui, podemos tambm deduzir algumas sugestes gerais para a explicao mecnica [dos processos psquicos] - como, por exemplo, 
a primeira que mencionamos, no sentido de que a quantidade externa no pode ser representada por Q, isto , pela quantidade psquica [em [1]]. Pela descrio do 
ego e de suas oscilaes [em [1]], conclui-se que tampouco o nvel [de sua catexia] tem relao com o mundo externo, ou seja, que sua reduo ou elevao gerais 
no modificam (normalmente) a imagem do mundo. Uma vez que essa imagem do mundo externo se baseia em facilitaes, isso significa que as oscilaes gerais do nvel 
no alteram essas facilitaes. J mencionamos tambm um segundo princpio: a saber, o de que as quantidades pequenas podem ser deslocadas com mais facilidade quando 
o nvel [de catexia] est alto do que quando est baixo [Ver em [1]]. Eis a alguns pontos que devem ser levados em considerao ao se buscarem as caractersticas 
do movimento neuronal, que ainda nos  amplamente desconhecido. [1]
         Voltemos agora  descrio do processo de pensamento observador ou cognitivo [em [1]], que  distinto do processo de expectativa pelo fato de que [a princpio] 
as percepes no incidem sobre as catexias de desejo. Nesse caso, so as primeiras indicaes da realidade que dirigem a ateno do ego para a regio perceptiva 
que ter de ser catexizada. A passagem da associao de Q que [as percepes] trazem consigo ocorre por neurnios pr-catexizados, e a Q, que est em deslocamento, 
pode tornar de novo a fluir a cada vez. Durante essa passagem [da associao] geram-se as indicaes de qualidade [da fala], em conseqncia das quais a passagem 
da associao se torna consciente e passvel de ser reproduzida.
         Aqui se poderia questionar, mais uma vez, a utilidade das indicaes de qualidade, [argumentando que] a nica coisa que elas fazem  induzir o ego a enviar 
uma catexia para o ponto em que ela surge na passagem [da associao]. Elas [as indicaes de qualidade] no fornecem, porm, essa Q catexizante - no mximo, apenas 
contribuem para tanto. Mas, sendoassim, o prprio ego pode, sem essa ajuda, fazer com que a sua catexia percorra a passagem da Q.
         No resta dvida de que assim , mas nem por isso a considerao das indicaes de qualidade se torna redundante. Pois cabe frisar que a regra biolgica 
da ateno enunciada acima  abstrada da percepo [Ver em [1]] e que, a princpio, s se aplica s indicaes de qualidade. Tambm as indicaes de descarga por 
meio da fala so, de certo modo, indicaes da realidade - mas da realidade do pensamento, e no da realidade externa, e de modo algum se pde impor para essas indicaes 
da realidade do pensamento uma regra biolgica como a que estamos considerando, j que sua violao no acarretaria nenhuma ameaa constante de desprazer. O desprazer 
produzido ao se negligenciar a cognio no  to flagrante como o que advm de ignorar o mundo externo, embora, no fundo, eles sejam o mesmo. Assim, existe realmente 
tambm um processo de pensamento observador em que as indicaes de qualidade nunca so evocadas, ou o so apenas esporadicamente, e que se torna possvel pelo fato 
de que o ego segue a passagem [da associao] automaticamente com suas catexias. Esse processo de pensamento , alis, sem dvida o mais freqente, sem ser anormal; 
 o nosso pensamento do tipo comum, inconsciente, com intruses ocasionais na conscincia - o que  conhecido pelo nome de pensamento consciente com vnculos intermedirios 
inconscientes, que podem, porm, ser conscientizados. [Cf. em [1].]
         
         Apesar disso, o valor das indicaes de qualidade para o pensamento  indiscutvel. Em primeiro lugar, efetivamente, as indicaes de qualidade despertadas 
intensificam as catexias na passagem [da associao] e asseguram a ateno automtica que - embora no saibamos como - est evidentemente vinculada  emergncia 
das catexias. Ademais (o que parece ser mais importante), a ateno dirigida para as indicaes de qualidade assegura a imparcialidade da passagem [da associao]. 
Pois  muito difcil para o ego colocar-se na situao de mera "investigao". O ego quase sempre tem catexias intencionais ou de desejo, cuja presena durante a 
investigao, como veremos [em [1]], influencia a passagem da associao, produzindo assim um falso conhecimento das percepes. Ora, no existe melhor proteo 
contra essa falsificao do pensamento do que a de uma Q normalmente deslocvel que seja dirigida para o [? pelo] ego at uma regio incapaz de manifestar um desvio 
semelhante na passagem [da associao]. S existe um expediente dessa espcie - se, a saber, a ateno se dirige para as indicaes de qualidade, que no se equivalem 
a idias intencionais, cuja catexia, pelo contrrio, acentua ainda mais a passagem da associao, ao fazer novas contribuies para a quantidade da catexia.
         Portanto, o pensamento que  acompanhado pela catexia das indicaes de realidade do pensamento ou das indicaes da fala representa a forma mais elevada 
e segura do processo de pensamento cognitivo.
         Em vista da indubitvel utilidade do aparecimento de indicaes de pensamento, podemos presumir a existncia de dispositivos destinados a assegur-la. Com 
efeito, as indicaes de pensamento no so geradas espontaneamente, sem a participao de , como indicaes da realidade. Aqui a observao demonstra que esses 
dispositivos no se aplicam a todos os processos de pensamento da mesma forma que ao pensamento investigativo. A condio necessria para despertar de todo as indicaes 
de pensamento , naturalmente, que elas sejam catexizadas pela ateno; essas indicaes surgem, nesse caso, em virtude da lei segundo a qual a conduo  favorecida 
entre dois neurnios ligados e simultaneamente catexizados [em [1]]. No entanto, a atrao produzida pela pr-catexia das indicaesde pensamento s tem at certo 
ponto fora suficiente para lutar contra outras influncias. Assim, por exemplo, cada outra catexia perto da passagem [da associao] (catexias intencionais, catexias 
afetivas) competiro com ela, tornando inconsciente a passagem [da associao]. Um efeito semelhante (como confirma a experincia) ser produzido quando as Qs em 
trnsito so de magnitude considervel, pois elas aumentam a corrente, acelerando com isso toda a passagem [de associao]. A afirmao comum de que "a coisa se 
passou to depressa que nem deu tempo de perceber"  indubitavelmente certa. E  universalmente sabido que os afetos podem interferir no surgimento das indicaes 
de pensamento.
         Com isso chegamos a uma nova tese sobre a representao mecnica dos processos psquicos: a saber, de que a passagem [da associao], que no  alterada 
pelo nvel [da catexia] pode ser influenciada pela prpria magnitude da Q fluente. De modo geral, uma Q grande segue, na rede de facilitaes, vias diferentes das 
tomadas por uma [Q] pequena. Acho que no ser difcil ilustrar essa circunstncia:
         Para cada barreira h um valor-limiar abaixo do qual nenhuma Q ser levada em conta - muito menos, portanto, uma frao dela. Uma Q to mnima assim ainda 
se dividir [em [1]] por outras duas vias para cuja facilitao Q seja suficiente. Se a Q aumentar nesse momento, a primeira via ser levada em conta, facilitando 
a passagem das fraes correspondentes; e, ento, talvez as catexias do lado oposto ao que  agora uma barreira transponvel tambm consigam se fazer sentir. Ainda 
existe outro fator capaz de adquirir importncia. Talvez possamos presumir que nem todas as vias de um neurnio so igualmente receptivas a Q, e podemos descrever 
essa diferena como a largura da via. A largura da via  em si mesma independente da resistncia, que pode, efetivamente, ser alterada pelas Qs em curso, enquanto 
a largura da via permanece constante. Se supusermos que, ao aumentar a Q, abre-se uma via capaz de fazer valer sua largura, perceberemos a possibilidade de que a 
passagem de Q seja fundamentalmente alterada por um aumento da Q em fluxo. A experincia cotidiana parece corroborar expressamente essa concluso.
         Assim, o aparecimento das indicaes de pensamento parece estar subordinado  passagem de pequenas Qs. Com isso no pretendo afirmar que qualquer outro 
tipo de passagem [de Q] deva ficar inconsciente, pois oaparecimento das indicaes da fala no  o nico mtodo para despertar a conscincia.
         Como podemos, ento, dar uma idia clara do tipo de pensamento que se torna intermitentemente consciente, com sbitas intruses na conscincia [em [1]]. 
Afinal de contas, nosso pensamento erradio [no-intencional] comum, embora acompanhado de pr-catexia e de ateno automtica, no d maior importncia s indicaes 
de pensamento. No ficou biologicamente demonstrado que elas sejam imprescindveis para o processo. Apesar disso, costumam manifestar-se (1) quando a passagem regular 
[de quantidade] chega a um trmino ou depara com um obstculo, e (2) quando [a passagem] suscita uma idia que, em virtude de outros motivos, evoca indicaes de 
qualidade - isto , a conscincia. A essa altura j se pode interromper a nossa exposio.
         
         [3]
         Existem, evidentemente, outras formas do processo de pensamento que no visam ao fim desinteressado da cognio, mas a outro, de utilidade prtica. O estado 
de expectativa, que foi o ponto de partida de todo o pensamento [Ver em [1]],  um exemplo desse segundo tipo de pensamento. Nele se retm firmemente uma catexia 
de desejo, enquanto uma segunda catexia, perceptual, se manifesta e  acompanhada pela ateno. Nesse caso, porm, a inteno no consiste em descobrir aonde conduzir 
em geral [essa catexia perceptual], e sim em averiguar por que vias ela conduzir  ativao da catexia de desejo que ficou, nesse meio tempo, firmemente retida. 
Esse tipo de pensamento - biologicamente, o primeiro - pode ser facilmente representado segundo nossas premissas.
         Digamos que V + seja a representao de desejo que se mantm especialmente catexizada, e W, a percepo que ter de ser seguida. O resultado, ento, da 
catexia W com ateno consistir, antes de mais nada, em que a Q [quantidade pertencente ao sistema de neurnios  (em [1])] flua na direo do neurnio a, o mais 
facilitado; a partir dali ela prosseguir, mais uma vez, em direo  melhor facilitao, e assim por diante. Essa tendncia, porm, ser interrompida pela presena 
de catexias colaterais. Supondo que, se de a partirem trs vias para b, c e d (na ordem respectiva de [qualidade de] facilitao) e se d estiver situado na proximidade 
da catexia de desejo + V, o resultado bem pode ser que a Q, apesar das facilitaes, no flua para c e b, mas sim para d e, dele, para + V; revelando-se assim que 
a via procurada  W-a -d-+V. Vemos aqui em ao o princpio, que j reconhecemos h muito tempo [em [1]], de que a catexia pode desviar a facilitao e assim agir 
contra ela e que, conseqentemente, uma catexia colateral modifica a passagem da Q. J que as catexias so modificveis, fica a critrio do ego alterar a passagem 
[da associao] a partir de W na direo de qualquer catexia intencional.
         Por "catexia intencional" deve-se entender aqui no uma catexia uniforme, como a que afeta todo um setor no caso da ateno, mas uma catexia que se destaque, 
que sobressaia ao nvel do ego. Provavelmente devamos supor que, nesse tipo de pensamento com catexias intencionais, a Q tambm flui simultaneamente a partir de 
+ V, de modo que a passagem [da associao] a partir de W pode ser influenciada no s por + V, como tambm por seus outros pontos de parada. Nessa situao, porm, 
a via que parte de + V...  conhecida e fixa, mas a via que parte de W... a... precisa ser descoberta. J que, na realidade, nosso ego sempre alimenta catexias intencionais 
- amide muitas delas ao mesmo tempo - podemos agora compreender a dificuldade do pensamento puramente cognitivo e tambm a possibilidade, no caso do pensamento 
prtico, de serem alcanadas as mais variadas vias, em momentos diversos, mediante circunstncias diferentes, por vrias pessoas.
         No caso do pensamento prtico tambm chegamos a uma apreciao das dificuldades do pensamento, que, sem dvida, j conhecemos por experincia prpria. Voltemos 
ao nosso exemplo anterior, no qual a corrente de Q fluiria, segundo as facilitaes, at b e c, enquanto d estaria marcado por uma ligao estreita com a catexia 
intencional ou com uma idia derivada dela.  possvel, ento, que a influncia da facilitao a favor de b...c seja to grande que supere amplamente a atrao por 
d...+V. Apesar disso, a fim de que a passagem [da associao] se dirigisse at +V, seria necessrio que a catexia de + V e de suas idias derivadas fosse tambm 
ainda mais intensificada, talvez, para que a ateno voltada para W [a percepo] se modificasse no sentido de alcanar um maior ou menor grau de ligao e um nvel 
de corrente mais favorvel  via d...+ V. Um dispndio dessa natureza, requerido para superar as facilitaes boas, com o objetivo de atrair a Q para vias menos 
facilitadas, porm mais prximas da catexia intencional, corresponde  dificuldade do pensamento.
         O papel desempenhado pelas indicaes de qualidade do pensamento prtico pouco difere do desempenhado por elas no pensamento cognitivo. As indicaes de 
qualidade asseguram e fixam a passagem [da associao], mas no so absolutamente indispensveis para ela. Se substituirmos os neurnios e as idias, respectivamente, 
por complexos de neurnios e de idias, estaremos diante de uma complicao do pensamento prtico que no ser possvel descrever e perceberemos que, a essa altura, 
seria desejvel [poder] esclarecer as coisas prontamente. [Cf. em [1], adiante.] Durante essa [passagem de associao], porm, as indicaes de qualidade, na maioria, 
no so completamente despertadas, e  precisamente a gerao delas que serve para retardar e complicar a passagem [da associao]. Depois que a passagem de determinada 
percepo para certas catexias intencionais especficas  repetidamente seguida e se encontra estereotipada por facilitaes mnmicas, em geral no h mais motivo 
para que sejam despertadas as indicaes de qualidade.
         O objetivo do pensamento prtico  a identidade [Cf.em [1]], o desembocar da catexia Q, deslocada na catexia de desejo, que, nesse meio tempo, ficou firmemente 
retida. Devemos encarar de um ngulo puramente biolgico o fato de que, com isso, cessa toda a necessidade de pensar e se possibilita, em vez dela, a inverso total 
das imagens motoras que foram tocadas durante a passagem [da quantidade], imagens que, em tais circunstncias, representam um elemento auxiliar justificvel da ao 
especfica [em [1]]. Uma vez que, durante a passagem [da associao], a catexia dessas imagens motoras s se deu por ligao, e uma vez que o processo de pensamento 
partiu de uma imagem perceptual unicamente seguida na qualidade de imagem mnmica, todo o processo de pensamento pode tornar-se independente tanto do processo de 
expectativa como da realidade, progredindo at a identidade sem sofrer a menor modificao. Assim, ele [o processo de pensamento] parte de uma simples idia e, mesmo 
depois de completado, no leva  ao; mas ter produzido um conhecimento prtico, que poder ser utilizado numa oportunidade real posterior. Com efeito,  conveniente 
preparar o processo de pensamento prtico antecipadamente para enfrentar as condies da realidade, e no ter que improvis-lo quando ele se faz necessrio.
         Agora  chegado o momento de fazer uma ressalva a uma hiptese anteriormente formulada [em [1]], a de que a lembrana dos processos de pensamento s  possvel 
graas s indicaes de qualidade, j que de outro modo no se poderiam diferenciar seus vestgios dos que so deixados pelas facilitaes perceptivas. Ainda continua 
vlida a afirmao de que uma lembrana real no  propriamente modificvel por nenhuma quantidade de pensamento a ela dedicada. Por outro lado,  inegvel que pensar 
sobre um tema deixa traos extraordinariamente importantes para qualquer repensar posterior a respeito dele [cf. em [1] a [1]]; e  muito duvidoso que esse resultado 
provenha exclusivamente de um pensamento acompanhado por indicaes de qualidade e conscincia. Devem existir, portanto, facilitaes de pensamento, mas sem que 
se obliterem as vias de associao originais. Mas, como s pode haver facilitaes de uma espcie, poder-se-ia pensar que essas duas concluses so incompatveis. 
No entanto, deve ser possvel encontrar um modo de concili-las e explic-las no fato de que todas as facilitaes de pensamento apenas se originaram depois de alcanado 
um alto nvel [de catexia] e que, provavelmente, tambm s entram em ao na presena de um nvel alto, ao passo que as facilitaes associativas, originadas durante 
as passagens [de quantidade] totais ou primrias, tornam a aparecer quando se estabelecerem condies para uma passagem livre [dequantidade]. Por conseguinte, no 
se pode negar algum possvel efeito das facilitaes de pensamento sobre as facilitaes associativas.
         Assim, chegamos  seguinte caracterizao suplementar do movimento neuronal desconhecido:
         A memria consiste em facilitaes [Ver em [1]]. As facilitaes no so modificadas por um aumento do nvel [da catexia]; mas existem facilitaes que 
s vigoram em determinado nvel. A direo tomada pela passagem [de quantidade] no  alterada, a princpio, pela mudana de nvel, embora sem dvida o seja pela 
quantidade da corrente [em [1]] e pelas catexias colaterais [em [1]]. Quando o nvel  alto, as Qs pequenas so as que se deslocam com mais facilidade [em [1]].
         Ao lado do pensamento cognitivo e do pensamento prtico, devemos distinguir o pensamento reprodutivo, pensamento rememorativo, que em parte coincide com 
o prtico, sem abrang-lo por completo.
         Esse rememorar  a condio prvia de qualquer exame efetuado pelo pensamento crtico: ele acompanha um dado processo de pensamento em sentido reversivo, 
retrocedendo, possivelmente, at uma percepo - mais uma vez, em contraste com o pensamento prtico, sem objetivo determinado - e, ao assim proceder, recorre em 
grande escala s indicaes de qualidade. Nesse curso recessivo, o processo depara com vnculos intermedirios at ento inconscientes, que no deixaram atrs de 
si nenhuma indicao de qualidade, mas cujas indicaes de qualidade aparecem posteriormente. Isso implica que a prpria passagem do pensamento, sem nenhuma indicao 
de qualidade, deixa vestgios. De fato, alguns casos do a impresso de que certos trechos da via s podem ser conjeturados, porque seus pontos inicial e terminal 
so dados por indicaes de qualidade.
         De qualquer forma, a reprodutibilidade dos processos de pensamento ultrapassa amplamente as indicaes de qualidade; eles podem tornar-se conscientes a 
posteriori, embora o resultado de uma passagem de pensamento talvez deixe rastros com maior freqncia do que as suas etapas intermedirias. [1]
         Durante uma passagem de pensamento, seja ele cognitivo, crtico ou prtico, podem ocorrer acontecimentos de toda sorte, que merecem umadescrio. O pensamento 
pode levar ao desprazer ou  contradio. Examinemos o caso em que o pensamento prtico, acompanhado de catexias intencionais, leva  liberao de desprazer. [Cf. 
atrs, ver em [1]]
         A experincia mais corriqueira mostra que esse acontecimento resulta num obstculo ao processo de pensamento. Como  possvel, ento, que sequer ocorra? 
Quando uma lembrana, ao ser catexizada, causa desprazer, isso em geral se deve ao fato de que, no momento em que ocorreu a percepo correspondente, esta causou 
desprazer - isto , fez parte de uma experincia de dor [em [1]]. A experincia demonstra tambm que as percepes dessa espcie atraem um alto grau de ateno, 
mas que no suscitam tanto suas prprias indicaes de qualidade quanto as da reao que [as percepes] desencadeiam: esto associadas com suas prprias manifestaes 
de afeto e de defesa [em [1]]. Se seguirmos as vicissitudes dessas percepes depois [de elas se terem transformado] em imagens mnmicas, constataremos que suas 
primeiras repeties continuam a despertar afeto e tambm desprazer, at que, com o correr do tempo, percam essa capacidade. Simultaneamente, elas passam por outra 
mudana. A princpio, conservam o carter das qualidades sensoriais; quando no so mais capazes de afeto, perdem tambm essas [qualidades sensoriais] e se assemelham 
progressivamente a outras imagens mnmicas. Quando uma passagem de pensamento esbarra nesse tipo de imagem mnmica ainda indomada, geram-se as indicaes de qualidade 
correspondentes - muitas vezes de carter sensorial - com uma sensao de desprazer e uma tendncia  descarga cuja combinao caracteriza determinado afeto, interrompendo-se 
assim a passagem do pensamento.
         Que acontece, ento, com as lembranas capazes de afeto at serem dominadas? No se pode supor que o "tempo", a repetio enfraqueam sua capacidade de 
afeto, j que, normalmente, esse fator [a repetio] at contribui para intensificar a associao.  evidente que algo deve acontecer no [curso do] "tempo", durante 
as repeties, que provoque essa subjugao [das lembranas]; e esse algo s pode consistir em que alguma relao como ego ou com as catexias do ego adquire poder 
sobre as lembranas. Se isso  mais demorado nesses casos do que de hbito, pode-se encontrar uma regio especial - na origem dessas lembranas capazes de gerar 
afeto. Sendo traos de experincias de dor, elas foram catexizadas (de acordo com nossa hiptese sobre a dor [em [1]]) com uma Q excessivamente intensa para a liberao 
de desprazer e afeto. Por conseguinte, devero receber do ego uma ligao especialmente considervel e reiterada para contrabalanar essa facilitao para o desprazer.
         O fato de que a lembrana exibe caracterstica alucinatria durante tanto tempo tambm requer explicao, que  importante para nosso conceito da alucinao. 
Aqui  plausvel supor que essa capacidade para a alucinao, alm da capacidade para o afeto, sejam indicaes de que a catexia do ego ainda no exerceu nenhuma 
influncia sobre a lembrana e de que nesta predominam as linhas primrias de descarga e o processo total ou primrio.
         Somos obrigados a ver no [estado de] alucinao um refluxo de Q para  e tambm para  [em [1]]; assim, um neurnio ligado no admite semelhante refluxo. 
Pode-se ainda perguntar se no ser a quantidade excessivamente grande da catexia da lembrana que possibilita esse refluxo. Aqui, porm, convm lembrar que essa 
Q considervel s est presente na primeira vez, na prpria experincia da dor. Ao se produzirem as repeties, estamos lidando apenas com uma catexia de fora comum, 
que apesar disso provoca alucinao e desprazer - s podemos supor que graas a uma facilitao extraordinariamente intensa. Da se conclui que uma quantidade  de 
magnitude comum  sem dvida suficiente para produzir o refluxo e excitar a descarga, com o que adquire maior importncia o efeito inibidor da ligao promovida 
pelo ego.
         Ao final, portanto, torna-se possvel catexizar a lembrana da dor de tal maneira que ela no possa exibir nenhum refluxo e s possa liberar um desprazer 
mnimo. Estar, ento, domada - e por uma facilitao de pensamento suficientemente forte para exercer um efeito permanente e voltar a produzir uma ao inibidora 
a cada repetio posterior dessa lembrana. A via que conduz  liberao de desprazer aumentar gradativamente suaresistncia, graas  falta de uso, pois as facilitaes 
esto sujeitas a uma decadncia gradativa (esquecimento). Somente depois disso  que [a] lembrana ser to domada como outra qualquer.
         Parece, no entanto, que esse processo de sujeio da lembrana deixa um efeito permanente na passagem do pensamento. J que antes ela [a passagem de pensamento] 
era perturbada a cada vez que se ativava a memria e se suscitava o desprazer, h uma tendncia ainda hoje a inibir o curso do pensamento assim que a lembrana subjugada 
gere seu rastro de desprazer. Essa tendncia  muito conveniente para o pensamento prtico, pois um vnculo intermedirio que leve ao desprazer no pode, de modo 
algum, achar-se na via procurada at a identidade com a catexia de desejo [em [1]]. Assim, surge uma defesa de pensamento primria, que, no pensamento prtico, interpreta 
a liberao de desprazer como um sinal [em [1]] para abandonar uma determinada via - isto , para dirigir a catexia da ateno para outro lugar. Aqui, mais uma vez, 
 o desprazer que dirige a corrente de WW, tal como ocorre na primeira regra biolgica [em [1]]. Deve-se perguntar por que essa defesa de pensamento no se dirigiu 
contra a lembrana quando ainda era capaz de gerar afeto. Cabe presumir, porm, que quela altura uma objeo foi levantada pela segunda regra biolgica, que postula 
a necessidade de ateno sempre que h uma indicao da realidade [Cf. em [1]], e a memria domada ainda era capaz de impor indicaes de qualidade reais. Como vemos, 
as duas regras se harmonizam para atender a uma finalidade prtica.
          interessante notar como o pensamento prtico se deixa guiar pela regra biolgica da defesa. No [pensamento] terico (cognitivo e verificador), essa regra 
j no  observada. Isso  compreensvel, pois, no pensamentointencional, trata-se de encontrar alguma via ou outra, e, por conseguinte, as que esto ligadas ao 
desprazer podem ser excludas, ao passo que, no [pensamento] terico, cada via deve ser reconhecida.
         
         [4]
         Surge aqui nova pergunta de como pode ocorrer um erro no curso do pensamento. Qual  o erro?
         Teremos agora que examinar ainda mais minuciosamente o processo de pensamento. O pensamento prtico, origem de todos os processos de pensamento, continua 
sendo, tambm, o objetivo final deles. Todas as demais formas derivaram dele.  evidentemente vantajoso que a distribuio do pensamento, que se efetua no pensamento 
prtico, possa ocorrer de antemo, sem que seja preciso esperar pelo estado de expectativa [em [1]]: porque (1) isso poupa tempo, que poder ser aproveitado para 
a elaborao da ao especfica [em [1]] e (2) o estado de expectativa est longe de ser particularmente favorvel  passagem do pensamento. O valor da presteza 
no curto intervalo que separa a percepo da ao se evidencia ao considerarmos a rapidez da mudana das percepes. Se o processo de pensamento persistir por tempo 
demasiadamente longo, seu produto se tornar intil nesse nterim.  por essa razo que "pensamos com antecipao".
         O incio dos processos de pensamento derivados [do pensamento prtico]  a formao de juzos. O ego que chegou devido a algo que descobre em sua prpria 
organizao - graas  mencionada [em [1] e [2]] coincidncia parcial entre as catexias perceptuais e as informaes provenientes do prprio corpo. Em conseqncia, 
os complexos perceptuais se dividem em uma parte constante e incompreendida - a coisa - e outra varivel, compreensvel - os atributos ou movimentos da coisa. Como 
o complexo-coisa continua reaparecendo em combinao com uma srie de complexos-atributo, e estes, por sua vez, em combinao com uma srie de complexos-coisa, surge 
a possibilidade de se elaborarem vias de pensamento que liguem esses dois tipos de complexos ao estado de desejo da coisa, [e de faz-lo] de uma maneira que seja, 
por assim dizer, genericamente vlida e independente da percepo que  real num dado momento. A atividade de pensamento realizada com juzos, e no com complexos 
perceptuaisdesordenados, significa, portanto, uma economia considervel. Devemos deixar de lado a questo de saber se a unidade psicolgica assim obtida tambm  
representada na passagem do pensamento por uma unidade neuronal e por uma unidade que no seja a de representao da palavra.
         O erro j pode ser introduzido durante a criao de um juzo, pois o complexo-coisa e o complexo-movimento nunca so totalmente idnticos, e entre seus 
elementos divergentes pode haver alguns cuja desconsiderao prejudique o resultado na realidade. Esse defeito do pensamento tem origem no empenho - que efetivamente 
estamos imitando aqui - em substituir o complexo por um nico neurnio, empenho este que  exigido justamente pela imensa complexidade [do material]. [Cf. em [1].] 
Esses so os erros de juzo ou falhas nas premissas.
         Outra fonte de erro pode consistir no fato de as percepes da realidade no serem completamente percebidas por se encontrarem fora do campo dos sentidos. 
Esses so os erros por ignorncia, que nenhum ser humano  capaz de evitar. Quando esse determinante no se aplica, a pr-catexia psquica pode estar defeituosa 
(pelo fato de o ego ter-se desviado das percepes), da resultando percepes imprecisas e passagens de pensamento incompletas. Esses so os erros devidos  insuficincia 
de ateno.
         Se agora tomarmos, como material dos processos de pensamento, complexos j julgados e ordenados, em vez de complexos no sofisticados, surgir a oportunidade 
de abreviar o prprio processo de pensamento prtico. Com efeito, se se demonstrou que o caminho que liga a percepo  identidade com a catexia de desejo passa 
por uma imagem motora M, ser biologicamente garantido que, uma vez alcanada a identidade, essa M ficar completamente inervada. A simultaneidade da percepo com 
M cria uma intensa facilitao entre ambas, e uma imagem perceptual imediatamente subseqente evocar M, sem necessidade de nenhuma passagem associativa. Ao fazer 
essa afirmao, estamos pressupondo, naturalmente, que seja possvel estabelecer a qualquer momento um vnculo entre duas catexias. O que foi originariamente uma 
conexo de pensamento arduamente estabelecida se transforma, depois, graas a uma catexia simultnea total, em poderosa facilitao. A nica pergunta que se pode 
formular a esse respeito  se sempre  efetuada pela via descoberta originariamente, ou se pode seguiruma outra, de conexo mais direta. Esta ltima alternativa 
parece mais provvel e mais conveniente, pois evita a necessidade de fixar vias de pensamento que, na verdade, devem ficar livres para outras conexes dos mais diversos 
tipos. Quando a via de pensamento [originria] no  percorrida, tampouco se deve esperar alguma facilitao nela, e o resultado ser mais bem fixado por meio de 
uma conexo mais direta. A propsito, permanece em aberto a questo de qual seria o ponto de origem dessa nova via. O problema ficaria simplificado se as duas catexias, 
a da percepo e a de M, tivessem associao comum com uma terceira.
         O trecho da passagem do pensamento que vai da percepo at a identidade atravs de uma M tambm pode ser ressaltado, e levar a um resultado semelhante 
se, mais tarde, a ateno fixar a M e a colocar em associao com a percepo, que tambm ter sido fixada mais uma vez. Essa facilitao do pensamento tambm se 
restabelecer quando houver uma ocorrncia real.
         Nessa [espcie de] atividade de pensamento a possibilidade de erros no  bvia  primeira vista. Mas no resta dvida de que se pode enveredar por uma 
via de pensamento inadequada e enfatizar um movimento antieconmico, uma vez que, afinal de contas, no pensamento prtico a escolha depende exclusivamente de experincias 
reproduzveis.
         Com o crescente nmero de lembranas surgem constantemente novas vias de deslocamento. Por esse motivo considera-se vantajoso seguir as diferente percepes 
at o fim, para descobrir, entre todas as vias, as mais favorveis, e isso  tarefa do pensamento cognitivo, que, indubitavelmente, aparece como uma preparao para 
[o pensamento] prtico, embora na realidade s se tenha desenvolvido tardiamente deste ltimo. Os resultados dessa [tarefa] so, portanto, teis para mais de uma 
espcie de catexia de desejo.
         Os erros do pensamento cognitivo so auto-evidentes. Constituem-se da parcialidade, quando no se evitam as catexias intencionais, e da incompletude, quando 
no se percorrem todas as vias possveis. Est claro queconstitui uma enorme vantagem aqui que as indicaes de qualidade sejam evocadas simultaneamente. Quando 
esses processos de pensamento [as indicaes de qualidade] so selecionados e introduzidos no estado de expectativa, a passagem da associao, do primeiro ao ltimo 
vnculo, pode dar-se pelas indicaes de qualidade, em vez de atravessar toda a srie de pensamentos, e nem sequer se torna necessrio que a srie de qualidades 
coincida completamente com a srie de pensamentos.
         O desprazer no desempenha nenhum papel no pensamento terico, e  tambm possvel com respeito s lembranas subjugadas.
         Ainda temos de considerar outro tipo de pensamento: o crtico ou examinador. Essa forma de pensamento  motivada quando, apesar de ter obedecido a todas 
as regras, o processo de expectativa, seguido pela ao especfica, no causa satisfao, e sim desprazer. O pensamento crtico, procedendo vagarosamente, sem nenhum 
objetivo prtico, e recorrendo a todas as indicaes de qualidade, procura repetir toda a passagem de Q a fim de detectar alguma falha no pensamento ou algum defeito 
psicolgico. [O pensamento crtico]  um pensamento cognitivo que atua sobre um objeto particular - a saber, uma srie de pensamentos. J vimos em que podem consistir 
estes ltimos [? defeitos psicolgicos]; mas em que consistem as falhas lgicas?
         Em poucas palavras, na no-observncia das regras biolgicas que regem a passagem de pensamento. Essas regras determinam para onde deve dirigir-se a cada 
vez a catexia da ateno e quando o processo de pensamento deve parar. Elas so protegidas pelas ameaas de desprazer, derivam da experincia e podem ser diretamente 
transpostas para as regras da lgica - o que ter de ser minuciosamente comprovado. Por conseguinte, o desprazer intelectual da contradio, diante do qual se detm 
a passagem do pensamento verificador, no  outra coisa seno o [desprazer] acumulado para proteger as regras biolgicas, agora ativado por um processo de pensamento 
incorreto.
         A existncia dessas regras biolgicas pode ser comprovada precisamente pela sensao de desprazer diante dos erros lgicos.
         S podemos retratar a ao, de novo, como a catexia plena das imagens motoras que foram destacadas durante o processo de pensamento [em [1]], em adio, 
talvez, das que fizeram parte do componente volitivo da ao especfica (caso tenha havido um estado de expectativa). Aqui se renuncia ao estado de ligao e as 
catexias de ateno so retiradas. O que sem dvida acontece em relao ao primeiro [a renncia ao estado de ligao]  que o nvel do ego cai irresistivelmente 
ante a primeira passagem [da Q] proveniente dos neurnios motores. No se pode, naturalmente, esperar que o ego seja completamente descarregado em conseqncia de 
atos isolados, pois isso s poder acontecer nos atos de satisfao do tipo mais amplo.  instrutivo observar que a ao no ocorre por uma inverso da via percorrida 
pelas imagens motoras, e sim ao longo de vias motoras especiais; e, por esse motivo, o efeito do movimento no  necessariamente o desejado, caso houvesse uma inverso 
da mesma via. Por isso  que, no decurso da ao, uma nova comparao deve ser feita entre a informao que chega sobre os movimentos e os [movimentos] pr-catexizados, 
e  preciso que haja uma excitao das inervaes corretivas at se alcanar a identidade. Aqui nos encontramos diante da mesma situao que j ocorreu no caso das 
percepes, embora com menor multiplicidade, maior rapidez e uma descarga contnua e plena, que no existia [no caso das percepes]. Mas a analogia entre o pensamento 
prtico e a ao eficiente  digna de nota. Isso nos demostra que as imagens motoras so sensoriais. No entanto, o fato peculiar de serem adotadas novas vias no 
caso da ao, em lugar de haver uma inverso muito mais simples, parece mostrar que a direo tomada pela conduo dos elementos neuronais est firmemente fixada, 
e talvez, a rigor, que o movimento neuronal pode ter caractersticas diferentes nos dois casos.
         As imagens motoras so percepes e, como tal, decerto possuem qualidade e despertam a conscincia. No se pode tambm discutir que, por vezes, elas atraem 
considervel ateno para si mesmas. Suas qualidades, porm, no so muito marcantes nem provavelmente to multiformes quanto as do mundo externo; no esto associadas 
com representaes de palavra; pelo contrrio, elas prprias servem, em parte, s finalidades dessa associao. No entanto, no procedem de rgos sensoriais altamente 
organizados; sua qualidade  sem dvida montona [em [1]-[2]].
           
           
           
         
         APNDICE B: TRECHO DA CARTA 39, ESCRITA POR FREUD A FLIESS EM 1 DE JANEIRO DE 1896
          
          
          ...Seus comentrios sobre a enxaqueca me deram uma idia cuja conseqncia seria a reviso completa de todas as minhas teorias sobre fyw, o que de momento 
no posso arriscar-me a fazer. Mas vou ver se consigo esbo-la.
          Meu ponto de partida so os dois tipos de terminaes nervosas. As livres [em [1]] s recebem quantidade, que conduzem por soma [em [1]] at y; mas no 
tm poder de evocar sensaes - isto , de afetar w. Nesse sentido, o movimento neuronal conserva suas caractersticas qualitativas [em [1]] genunas e montonas. 
Essas so as vias de toda a quantidade que preenche y, e tambm,  claro, as vias da energia sexual. As vias de conduo nervosa que comeam nos rgos terminais 
no conduzem quantidade, mas sim a caracterstica qualitativa que lhes  peculiar; nada acrescentam  soma [de quantidade] nos neurnios y, colocando-os apenas em 
estado e de excitao. Os neurnios w so os neurnios y que s tm capacidade muito reduzida de catexia quantitativa. A condio necessria para que se produza 
a conscincia  a coincidncia dessas quantidades mnimas com a qualidade que lhes  fielmente transferida do rgo terminal. Agora [em meu novo esquema], intercalo 
esses neurnios w entre os neurnios f e os neurnios y, de modo que f transfira sua qualidade para w, e ento w no transfere qualidade nem quantidade a y, mas 
meramente o excita - isto , indica as vias a serem tomadas pela energia  livre. (No sei se voc vai poder entender essa confuso. Existem, por assim dizer, trs 
formas pelas quais os neurnios se afetam mutuamente: (1) transferindo quantidade entre si, (2) transferindo qualidade entre si e (3) exercendo, segundo determinadas 
regras, um efeito excitante recproco.)
          Segundo essa viso, os processos perceptuais abrangeriam eo ipso [por sua prpria natureza] a conscincia e s produziriam seus efeitos psquicos depois 
de se tornarem conscientes. Os processos y, em compensao, seriam inconscientes em si e s subseqentemente adquiririam uma conscincia secundria, artificial, 
ao se vincularem aos processos de descarga e de percepo (associao da fala) [em [1]]. Uma descarga de w, que tive de postular na exposio anterior desse tema 
[em [1]] j no  mais necessria; a alucinao, cuja explicao sempre criou dificuldades, j no  mais um movimento retroativo da excitao at  [em [1]], mas 
s at w. Agora fica muito mais fcil compreender a regra da defesa, que no se aplica s percepes, mas apenas aos processos y. O fato de a conscincia secundria 
ficar para trs [ver atrs] possibilita uma descrio simples dos processos neurticos. Tambm me livrei do incmodo problema de determinar quanto da intensidade 
f (dos estmulos sensoriais)  transferida para os neurnios y. A resposta : em forma direta, absolutamente nada. A Q em y depende exclusivamente da medida em que 
a ateno livre de y  dirigida pelos neurnios w.
          Essa nova hiptese tambm se ajusta melhor ao fato de que os estmulos sensoriais objetivos so to nfimos que, de acordo com o princpio da constncia, 
 difcil derivar dessa fonte a fora de vontade. Em compensao, [na nova teoria] a sensao no traz nenhum Q para y; a fonte da energia de y so as vias de conduo 
orgnicas [endgenas].
          O conflito entre a conduo orgnica puramente quantitativa e os processos excitados em y pela sensao consciente me permite explicar tambm a liberao 
de desprazer, da qual necessito para o recalcamento nas neuroses sexuais.
          No que se refere ao seu lado da questo, essa nova colocao abre a possibilidade de que ocorram estados de estimulao em rgos que no produzem sensaes 
espontneas (embora devam ser, indubitavelmente, sensveis  presso), mas que por ao reflexa (isto , pela influncia do equilbrio) podem instigar distrbios 
a partir de outros centros nervosos. Com efeito, a idia de que existe uma ligao mtua entre os neurnios ou entre os centros nervosos sugere tambm que os sintomas 
motores da descarga so de vrios tipos.  provvel, tambm, que os atos voluntrios sejam determinados por uma transferncia de Q, uma vez que descarregam a tenso 
psquica. Alm disso, existem descargas de prazer, espasmos etc. que no explico pela transferncia de Q para o centro motor, mais sim pela liberao dela nesse 
centro, em decorrncia de uma possvel diminuio da Q de ligao no centro sensorial pareado com ele. Isso nos ofereceria a to almejada distino entre os movimentos 
"voluntrios e espsticos", e ao mesmo tempo permitiria explicar todo um grupo de efeitos somticos secundrios - na histeria, por exemplo.
          Quanto aos processos puramente quantitativos de transferncia para y, existe uma possibilidade de eles atrarem a conscincia para si mesmos - mas s se 
essas condues de Q atenderem s condies necessrias para produzir dor. Dessas condies, a essencial talvez seja a suspenso da soma e um afluxo contnuo [de 
Q] at y durante algum tempo. Certos neurnios w tornam-se hipercatexizados, produzem um sentimento de desprazer e levam tambm a ateno a se fixar nesse ponto 
particular. Assim se teria de conceber a "modificao nevrlgica" como um afluxo de Q emanada de determinado rgo e aumentada acima de certo limite, at deixar 
anulada a soma, levando  hipercatexizao dos neurnios w e  fixao da energia y livre. Como v, chegamos  enxaqueca; a precondio necessria seria a existncia 
de regies nasais no estado de estimulao que voc comprovou a olho nu. O excesso de Q se distribuiria por diversas vias subcorticais antes de chegar a y. Uma vez 
feito isso, o fluxo de Q, agora contnuo, fora seu acesso a y e, de acordo com a regra da ateno [em [1]], a energia y livre aflui para a sede da erupo.
          Agora cabe perguntar qual  a fonte dos estados de estimulao nos rgos nasais. A idia que logo se oferece  a de que o rgo qualitativo dos estmulos 
olfativos seria a membrana de Schneider, enquanto o rgo quantitativo (diferente daquele) seriam os corpora cavernosa. As substncias olfativas, como voc mesmo 
cr e as flores nos ensinam, so produtos de degradao do metabolismo sexual; funcionariam como estmulos sobre os dois rgos citados. Durante a menstuao e em 
outros processos sexuais, o organismo produz uma Q aumentada dessas substncias - desses estmulos, portanto. Teramos que estabelecer se elas atuam sobre os rgos 
nasais atravs do ar expiratrio ou por intermdio dos vasos sangneos; provavelmente por via sangnea, j que antes dos ataques de enxaqueca no se tem nenhuma 
sensao olfativa subjetiva. Por conseguinte, o nariz receberia, por assim dizer, informaes sobre os estmulos olfativos internos por intermdio dos corpora cavernosa, 
tal como recebe os estmulos externos atravs da membrana de Schneider: seramos vtimas do prprio corpo. Essas duas formas de se produzir a enxaqueca - espontaneamente 
ou por odores e emanaes txicas humanas [em [1]], seriam portanto equivalentes, e seus respectivos efeitos poderiam ser provocados a qualquer momento por soma.
          Desse modo, a tumefao dos rgos nasais de quantidade seria uma espcie de adaptao do rgo sensorial, resultante do incremento do estmulo interno, 
 semelhana do que ocorre, na adaptao dos rgos sensoriais verdadeiros (qualitativos), no arregalar dos olhos e concentr-los em algum foco de ateno, no aguar 
dos ouvidos, e assim por diante.
          Talvez no seja muito difcil transpor para essa concepo as outras fontes de enxaqueca e estados semelhantes, embora eu ainda no saiba como se poderia 
fazer isso. Em todo caso,  mais importante verificar a idia em relao ao nosso tema principal.
          Dessa maneira, numerosas idias mdicas antigas e obscuras adquirem vida e valor.
           
           APNDICE C: A NATUREZA DA Q
          
          No h mistrio em torno da primeira das duas "idias principais" com que Freud inicia o Projeto (cf. em [1]) - o neurnio e a Q. A segunda, porm, exige 
certo exame, principalmente quando tudo leva a crer que foi a precursora de um conceito que iria desempenhar um papel fundamental na psicanlise. Aqui no nos interessa 
decifrar o enigma especial, mencionado atrs, na Introduo do Editor, da diferena entre Q e Q. Vamos nos ocupar agora  da Q (como o prprio Freud declara explicitamente 
no fim do primeiro pargrafo do Projeto) - uma Q que possui alguma conexo especial com o sistema nervoso.
          Como foi, portanto, que Freud imaginou essa Q no outono de 1895?
           parte a circunstncia bvia de que ele tencionava apresent-la como uma coisa concreta - "sujeita s leis gerais do movimento" (em [1]) -, logo se percebe 
que ela surge em duas formas distintas. A primeira consistiria na Q em fluxo, passando atravs de um neurnio ou indo de um neurnio a outro. Isso vem descrito de 
vrios modos: por exemplo, "a excitao neuronal em estado fluente" (em [1]), "uma Q fluente" (em [1]), "corrente" (em [1]), ou "passagem de excitao" (em [1]). 
A segunda, que  mais esttica,  demonstrada por "um neurnio catexizado, cheio de" Q (em [1]). 
          A importncia dessa distino entre os dois estados da Q s se faz sentir gradativamente no Projeto, ficando-se quase tentado a supor que o prprio Freud 
s se deu conta dela quando escrevia a obra. O primeiro indcio dessa importncia est relacionado com a anlise do mecanismo para apontar a diferena entre alucinaes 
e percepes, e o papel desempenhado nesse mecanismo pela ao inibidora procedente do ego (Sees 14 e 15 da Parte I). Os pormenores dessa ao inibidora (a interferncia 
de uma "catexia colateral", dirigida por uma catexia da ateno vinda do ego) so fornecidos em [1]-[2], e seu efeito consiste em modificar o estado da Q em fluxo 
para um estado de Q esttica num neurnio. Essa distino  depois (em [1]-[2]) relacionada com a distino entre o processo primrio (no-inibido) e o secundrio 
(inibido). Outra forma ainda de descrev-la surge pouco mais adiante (em [1]), com a noo de que a catexia colateral interveniente exerce um efeito "de ligao" 
sobre a Q. Mas  s na Parte III do Projeto(em [1]) que ficam expostas todas as implicaes da diferena entre um estado ligado e um estado mvel da Q. A necessidade 
da hiptese de haver dois estados de Q aparece, quela altura, relacionada  anlise do mecanismo do pensamento de Freud, que requer um estado no neurnio "que, 
embora na presena de uma catexia elevada, permite apenas uma corrente pequena" (em [1]).
          Assim, a Q pareceria mensurvel de dois modos: pela altura do nvel da catexia dentro de um neurnio e pelo ndice de fluxo entre as catexias. Isso foi 
ocasionalmente interpretado como prova de que Freud realmente acreditava que a Q fosse simplesmente eletricidade e que as duas maneiras de medi-la corresponderiam 
 amperagem e  voltagem.  bem verdade que, cerca de um ano e meio antes da redao do Projeto, em seu primeiro artigo sobre as neuropsicoses de defesa (1894a), 
ele j tinha feito uma vaga comparao entre algo que seria precursor da Q e "uma carga eltrica espalhada pela superfcie de um corpo" (ver em [1]).  tambm verdade 
que Breuer, em sua contribuio terica para os Estudos sobre a Histeria (1895d) (publicados apenas alguns meses antes de ser escrito o Projeto), dedicou um pouco 
de espao a uma analogia eltrica com as "excitaes" nas "vias condutoras do crebro" (ver em [1]-[2]). Apesar disso, no h nenhuma palavra no Projeto que sugira 
que houvesse qualquer idia desse tipo na mente de Freud. Ao contrrio, ele no cansa de salientar que desconhecemos a natureza do "movimento neuronal". (Ver, por 
exemplo, em [1], [2] e [3].)
           foroso reconhecer que existem certas partes obscuras na descrio fornecida no Projeto para a natureza do estado "ligado" e seu mecanismo. Uma das mais 
intrigantes diz respeito ao processo de "juzo" e ao papel nele desempenhado por uma catexia procedente do ego. Essa influncia est descrita das maneiras mais variadas 
- como "catexia colateral", ou "pr-catexia", ou "hipercatexia" - e se encontra intrinsecamente implicada naidia de uma catexia da ateno. A princpio (ver em 
[1], por exemplo), parece que a ateno  apenas um meio de dirigir as catexias colaterais para o lugar onde so necessrias. Mas em outros trechos (ver em [1], 
por exemplo), tem-se a impresso de que a hipercatexia da ateno constitui, em si mesma, a fora que produz o estado "ligado".
          Efetivamente, todo o problema da relao da ateno com a Q requer um exame meticuloso. (A "energia livre de ", como Freud parece denomin-la na carta 
enviada a Fliess em 1 de janeiro de 1896, Apndice B) A ateno  mencionada discretamente na Seo 14 da Parte I (em [1]), mas logo comea a mostrar sua importncia 
(na Seo 19 da Parte I e na Seo 6 da Parte II), at se tornar, na Parte III, um elemento quase predominante. Apesar disso, nos escritos posteriores de Freud, 
a "ateno", depois de ser citada esporadicamente,  quase relegada ao esquecimento. Alguns vestgios annimos, porm, persistem at o fim, em dois sentidos bastante 
diferentes que, em ltima anlise, remontam ao Projeto. O primeiro e mais bvio se relaciona com o "teste de realidade", cuja histria foi integralmente documentada 
na Nota do Editor Ingls  discusso metapsicolgica dos sonhos (1917d), Edio Standard Brasileira, Vol. XIV, em [1]-[2], IMAGO Editora, 1974. O outro, menos evidente, 
mas talvez mais importante, diz respeito justamente ao papel desempenhado pela ateno ou por alguma instncia semelhante na determinao da diferena entre a Q 
em seu estado ligado e seu estado livre, e, alm disso, entre os processos primrio e secundrio. Essa funo da ateno  discutida numa nota de rodap do Editor 
Ingls a "O Inconsciente" (1915e), Edio Standard Brasileira, Vol. XIV, em [1], IMAGO Editora, 1974. E h uma aluso indireta nas derradeiras obras de Freud, Moiss 
e o Monotesmo (1939a), Edio Standard Brasileira, Vol. XXIII, em [1], IMAGO Editora, 1975, e o Esboo de Psicanlise (1940a) [1938], ibid., em [1].
          Sejam quais forem os pormenores exatos do mecanismo responsvel pela transformao da Q livre em Q ligada,  evidente que Freud atribua a maior importncia 
 distino propriamente dita. "Em minha opinio", escreveu ele em "O Inconsciente", "essa distino representa a compreenso mais profunda a que chegamos at agora 
quanto  natureza da energia nervosa" (ibid., Vol. XIV, em [1]).
          Essa citao talvez tambm nos anime a esperar que os escritos posteriores de Freud esclaream nosso problema imediato da natureza da Q. A Q propriamente 
dita, com esse nome, jamais reaparece, embora no haja dificuldade em reconhec-la sob vrias cognominaes, a maioria das quais j usadas no Projeto. Uma delas, 
sobretudo, a "energia psquica", exige ateno, pois enfatiza o que parece constituir uma mudana vital sofrida pelo conceito. Q no  mais "uma coisa concreta", 
tornou-se uma coisa psquica. No h nenhuma referncia a "energia psquica" no Projeto ("Energia y", mencionada na Carta 39, cf. em [1] etc., significa apenas "energia 
procedente do sistema neuronal y".) Mas j passa ao uso comum em A Interpretao dos Sonhos. Apesar disso, a mudana no implica um abandono completo de uma base 
fsica. Muito embora Freud declare (Edio Standard Brasileira, Vol. V, [1], IMAGO Editora, 1972), que "permanecer no campo psicolgico", um exame minucioso revela 
traos da antiga formao neurolgica. Mesmo no famoso trecho do livro sobre o chiste (1905c, Edio Standard Brasileira, Vol. VIII, [1]), onde ele parece dar as 
costas aos neurnios e fibras nervosas, na realidade deixa a porta totalmente aberta para uma explicao fisiolgica. Com efeito, na frase do artigo sobre "O Inconsciente" 
(1915e) citada acima, Freud fala em "energia nervosa", e no em "energia psquica". Por outro lado, na edio alem de suas obras completas publicada em 1925, ele 
modificou duas palavras na ltima frase dos Estudos sobre a Histeria (1895d), de "sistema nervoso" para "vida mental" (Edio Standard Brasileira, Vol. II, [1], 
IMAGO Editora, 1974). Mas, por maior ou menor que tenha sido essa revoluo, no resta dvida de que muitas caractersticas fundamentais da Q sobreviveram em forma 
transfigurada, at o fim, nos escritos de Freud: prova disso so as inmeras referncias nas notas de rodap destas pginas.
          Um problema particularmente interessante surge na relao da Q com as pulses. Estas quase nunca so citadas pelo nome no Projeto.  evidente, porm, que 
so as sucessoras da "Q endgena" ou das "excitaes endgenas". Um pouco da histria da evoluo dos pontos de vista de Freud em relao s pulses  dado na Nota 
do Editor Ingls a "As Pulses ("OsInstintos") e Suas Vicissitudes", Edio Standard Brasileira, Vol. XIV, [1] e seguintes, IMAGO Editora, 1974, e, sobretudo, da 
histria das vrias classificaes que fez delas, primeiro em pulses libidinais e do ego e, depois, em pulses libidinais e destrutivas. Um aspecto que no foi 
mencionado aqui e que apresenta um interesse todo especial no presente contexto  a sugesto, duas vezes lanada por Freud, da possibilidade de uma "energia psquica 
indiferente", que poderia assumir qualquer das duas formas de pulso: cf. o artigo sobre o narcisismo (1914c), Edio Standard Brasileira, Vol. XIV, [1], IMAGO Editora, 
1974, e Edio Standard Brasileira, Vol. XIX, [1]. Essa "energia psquica indiferente" se parece muito com um retorno  Q.
          Essas incertezas subseqentes a respeito das pulses (entidades que, tal como a Q, se encontram "na fronteira entre o mental e o fsico") e de sua classificao 
nos lembram que Freud sempre se mostrou muito coerente ao salientar nossa ignorncia quanto  natureza bsica da Q ou de seja l qual for o nome que se lhe d. Isso, 
como j vimos (em [1])  repetido com insistncia no prprio Projeto. Mas a questo volta uma infinidade de vezes nas obras posteriores: para citar apenas algumas, 
em A Interpretao dos Sonhos (1900a), Edio Standard Brasileira, Vol. V, [1], IMAGO Editora, 1972, no artigo sobre "O Inconsciente" (1915e), ibid., Vol. XIV, [1], 
e em Moiss e o Monotesmo (1939a), ibid., Vol. XXIII, [1]. Essa concluso est expressa com a maior clareza possvel em Alm do Princpio do Prazer (1920g), Edio 
Standard Brasileira, Vol. XVIII, [1]: "A indefinio de todas as nossas discusses sobre o que descrevemos como metapsicologia se deve, naturalmente, ao fato de 
nada sabermos da natureza do processo excitatrio que ocorre nos elementos dos sistemas psquicos, e a no nos sentirmos autorizados a formular qualquer hiptese 
sobre o assunto. Estamos, conseqentemente, trabalhando o tempo todo com um grande fator desconhecido, que somos obrigados a transportar para cada frmula nova". 
Tudo indica, portanto, que a nossa investigao tem que terminar aqui e que no h outro remdio seno seguir Freud, deixando insluvel o problema da Q.
          Mas, embora a natureza fundamental da Q fosse ignorada por Freud, alguns de seus traos essenciais sempre foram pressupostos e reiterados por ele at o 
fim de sua vida. Se nos voltarmos para uma das primeiras referncias a ela, citada em [1], no primeiro artigo sobre as neuropsicoses de defesa (1894a), Edio Standard 
Brasileira, Vol. III, [1], encontraremos essa entidade desconhecida descrita como algo "que possui todas as caractersticas de uma quantidade (embora no tenhamos 
meios de medi-la) capaz de aumento, diminuio, deslocamento e descarga". No resta a menor dvida de que a misteriosa Q recebeu seu nome pela prpria razo de possuir 
essas caractersticas.
          Desde o incio, as consideraes quantitativas sempre tiveram que ser levadas em conta em vrios pontos das teorias de Freud. Por exemplo, em "A Etiologia 
da Histeria" (1896c) l-se que "na etiologia das neuroses, as precondies quantitativas so to importantes quanto as qualitativas: h valores liminares que tm 
de ser transpostos antes que a enfermidade possa tornar-se manifesta" (Edio Standard Brasileira, Vol. III, [1]). Mais importante, porm,  o fato de que a quantidade 
est implcita em toda a teoria do conflito como causa no s das neuroses, mas tambm de toda uma srie de estados mentais. H uma poro de trechos em que esse 
fato se torna explcito: por exemplo, em "Tipos de Desencadeamento da Neurose" (1912c), Edio Standard Brasileira, Vol. XII, [1]; na Conferncia XXIII das Conferncias 
Introdutrias (1916-17), idem, Vol. XVI, [1]-[2]; em "Alguns Mecanismos Neurticos" (1922b), idem, Vol. XVIII,  [1], e em "Anlise Terminvel e Interminvel" (1937c), 
Edio Standard Brasileira, Vol. XXIII, [1], IMAGO Editora, 1975. Neste ltimo caso, a importncia dos fatores quantitativos est relacionada com a situao teraputica; 
mas isso tambm j ocorrera quarenta anos antes, na contribuio de Freud aos Estudos sobre a Histeria (1895d), Edio Standard Brasileira, Vol. II, pg. [1], IMAGO 
Editora, 1974. Em seu grande artigo sobre "O Inconsciente" (1915e), Freud usou o termo "econmico" como equivalente de "quantitativo", ibid., Vol. XIV, pg. [1], 
IMAGO Editora, 1974, e a partir da passou a usar as duas palavras como sinnimos. Estaremos certos, portanto, em considerar a nossa enigmtica Q, seja qual for 
a sua natureza ltima, como a precursora de um dos trs fatores fundamentais de metapsicologia. 
          
           
          
          
          



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  Publicaes pr-Psicanalticas e esboos inditos -  Sigmund Freud
